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Capítulo 1

Author: Clouveri D.
last update publish date: 2026-09-09 09:03:09

ZURI

Semanas antes

Quando minha chefe colocou uma pasta preta sobre a mesa e anunciou o valor do contrato que acabávamos de conseguir, Elliot engasgou com o café.

— Desculpa. — Ele limpou a boca com as costas da mão e se inclinou para conferir o número outra vez. — Eu achei que você tivesse dito dois milhões.

Margaret ergueu os olhos por cima dos óculos.

— Eu disse dois milhões.

Elliot virou lentamente o rosto para mim.

— Zuri, por esse dinheiro, eu digitalizo até a lista de compras do tataravô deles.

Mordi a parte interna da bochecha para não rir. Não funcionou muito bem. Margaret percebeu, como percebia tudo o que acontecia dentro da Hawthorne Heritage & Archives, e me lançou o mesmo olhar de reprovação que costumava reservar para pessoas que entravam em nossa área de conservação carregando café.

— Terminou, Mercer?

— Provavelmente não, mas posso fazer uma pausa.

— Faça.

Elliot recostou-se na cadeira com um sorriso inocente demais para alguém que trabalhava ali havia quase cinco anos. Conhecê-lo por quatro deles tinha me ensinado que aquele sorriso geralmente significava que alguma idiotice ainda estava a caminho, mas Margaret decidiu não correr o risco de esperar por ela.

Abriu a pasta.

— A família Ashford nos procurou há pouco mais de dois meses. As negociações terminaram ontem à noite. Eles possuem uma coleção particular acumulada ao longo de mais de trezentos anos e querem que todo o material seja preservado, organizado, catalogado e convertido em um acervo digital privado.

Meu humor mudou no mesmo instante.

— Todo o material de mais de trezentos anos? — Passei os olhos novamente pela estimativa, tentando dimensionar o que aquilo significava em horas de trabalho. 

Mesmo que parte do acervo estivesse organizada, seriam meses apenas para avaliar, catalogar e digitalizar tudo. Se esperavam identificação, pesquisa de procedência e contextualização histórica de milhares de peças, o projeto poderia facilmente se estender por anos.

— Todo. — Margaret recostou-se na cadeira, observando minha reação com um discreto sorriso.

— Isso não é um projeto. É praticamente um relacionamento de longo prazo.

Elliot inclinou-se para ver melhor uma das páginas.

— Finalmente um compromisso que não assusta você.

Virei o rosto devagar para ele.

— Você quer mesmo começar esse projeto me irritando?

— Tecnicamente, ainda não começamos.

— Mercer — Margaret advertiu.

Ele ergueu as mãos em rendição, mas o sorriso permaneceu.

Margaret deslizou algumas folhas em nossa direção. A estimativa preliminar ocupava páginas: fotografias, negativos, correspondências, diários, escrituras, livros contábeis, documentos pessoais, recortes de jornais, mapas, registros administrativos e caixas cujo conteúdo nem sequer havia sido identificado. Passei os olhos pelos números e senti aquela excitação familiar surgir no peito.

Era o tipo de projeto pelo qual pessoas da minha área esperavam anos.

A Hawthorne fazia muito mais do que escanear documentos antigos. Quando uma família, empresa ou instituição possuía um acervo histórico importante, éramos contratados para preservá-lo e organizar sua história. Antes de qualquer coisa ser digitalizada, precisávamos descobrir o que tínhamos em mãos: de quando era, a quem pertencera, em que estado estava e como cada fotografia, carta ou documento se encaixava no restante da coleção.

Era aí que eu entrava.

Como conservadora especializada em fotografias históricas, meu trabalho era cuidar para que aquelas peças não fossem destruídas pelo tempo e, sempre que possível, descobrir a história por trás delas. Uma fotografia antiga podia chegar às minhas mãos sem nome, data ou qualquer explicação, e cabia a mim procurar pistas. O papel em que fora revelada, as roupas das pessoas, uma construção ao fundo, um carimbo ou até algumas palavras escritas no verso podiam me ajudar a descobrir quando e onde a imagem havia sido feita — e, com sorte, quem eram as pessoas nela.

Depois começava a pesquisa de verdade.

Certidões. Jornais. Inventários. Registros de propriedade. Correspondências. Arquivos públicos. Tudo o que pudesse confirmar — ou contradizer — a história atribuída àquela peça.

Digitalizar uma fotografia não preservava sua história. Sem data, identificação, procedência ou contexto, você apenas transformava um mistério de papel em um mistério de alta resolução.

— Quero você na documentação e na pesquisa histórica — Margaret continuou, voltando-se para mim. — Principalmente fotografias. Há milhares delas, e a família quer o máximo possível de identificação e contextualização antes que o arquivo seja disponibilizado no sistema.

— Milhares?

— A estimativa inicial é de pouco mais de oito mil imagens.

Elliot soltou um assobio baixo.

— Retiro o que disse sobre a lista de compras.

Ignorei-o e continuei examinando o relatório.

— Qual é o estado de conservação?

— Variável. Algumas peças foram acondicionadas corretamente. Outras passaram décadas em caixas comuns, armários, sótãos e depósitos. Eles tiveram funcionários responsáveis pelo arquivo em diferentes períodos, mas nunca houve um projeto unificado. Existem inventários antigos, embora ninguém garanta que sejam confiáveis.

Aquilo era ao mesmo tempo uma péssima notícia e música para os meus ouvidos. Um arquivo perfeitamente organizado precisava de manutenção. Um arquivo daquele tamanho, atravessando três séculos, reorganizado várias vezes e cheio de lacunas, precisava de investigação.

— E eu? — Elliot perguntou. — Além de impedir que ela desapareça dentro de uma caixa de fotografias e seja encontrada mumificada daqui a cem anos.

— Estrutura arquivística, digitalização, metadados e implantação do banco de dados.

— Então o trabalho importante.

— Você pode acreditar nisso se fizer você se sentir melhor, palhacito — respondi.

Elliot levou a mão ao peito, me lançando um olhar ofendido, os olhos verdes contrastando com o cabelo loiro que insistia em cair sobre a testa , mas o sorriso que surgiu em seguida era familiar. Trabalhar com ele era fácil daquela forma. Nós nos conhecíamos o bastante para dividir silêncio durante horas sem desconforto e, ao mesmo tempo, discutir por quinze minutos sobre quem tinha roubado o último marcador de pH do laboratório.

Margaret virou outra página.

— Existe uma condição importante. O material que recebemos aqui representa apenas uma amostra. A maior parte da coleção permanece na propriedade dos Ashford, em Vesper Hollow.

O nome me fez erguer os olhos.

— Onde?

— Vesper Hollow. Noroeste do país. Cidade pequena, cercada por uma extensa área florestal. A família está estabelecida na região desde o início do século XVIII .

— Claro que está — Elliot murmurou. — Com um sobrenome desses, eu ficaria decepcionado se eles morassem em um condomínio chamado Sunny Hills.

Dessa vez, Margaret simplesmente desistiu de repreendê-lo.

Eu puxei o relatório para mais perto e encontrei uma fotografia da cidade anexada à proposta. Prédios antigos acompanhavam uma rua larga que desaparecia ao longe entre montanhas cobertas por uma floresta tão densa que parecia engolir as construções nas extremidades. Havia alguma coisa bonita no lugar, embora isolada e fria demais para o meu gosto.

— Nunca ouvi falar de Vesper Hollow — admiti.

— Não me surpreende. É uma cidade pequena. — Margaret indicou o sobrenome no relatório. — Dos Ashford, por outro lado, você provavelmente já ouviu falar sem perceber. A família tem participação em várias empresas, mantém fundações, financia projetos e faz doações generosas para universidades. É o tipo de sobrenome que aparece em prédios, bibliotecas e placas de agradecimento.

— Então é dinheiro antigo.

— Muito antigo. E acompanhado de bastante influência.

Olhei novamente para o valor do contrato.

Dois milhões.

— Eles são extremamente reservados, mas levam o legado familiar a sério. Pelo menos foi o que disseram durante as negociações. Querem centralizar tudo, preservar os originais e criar um arquivo digital que possa continuar sendo ampliado pelas próximas gerações. — Margaret fez uma pequena pausa antes de acrescentar: — E existe outra questão. O contrato inclui o termo de confidencialidade mais rigoroso que já assinamos com um cliente.

Elliot arqueou as sobrancelhas e soltou um assobio baixo, se inclinando sobre a mesa para dar outra olhada no contrato.

— Considerando alguns dos clientes que já tivemos, isso é bem impressionante.

— Nenhuma informação pode sair da equipe autorizada. Nada de cópias pessoais, armazenamento externo ou acesso ao material fora dos ambientes aprovados. O arquivo digital também ficará em uma estrutura separada dos nossos sistemas comuns, com criptografia e acesso restrito. Eles exigiram protocolos de segurança muito acima do que normalmente usamos.

— Dois milhões e medo de alguém encontrar as fotos constrangedoras do tataravô — Elliot comentou. — Estou começando a gostar dessa família.

Margaret não sorriu.

— Estou falando sério, Mercer. Qualquer violação de confidencialidade pode encerrar o contrato imediatamente e gerar consequências jurídicas consideráveis, além de valores bilionários.

O sorriso dele diminuiu.

Olhei outra vez para a pasta diante de mim. Fazia sentido até. 

Pessoas muito ricas construíam prédios, criavam fundações, colocavam o sobrenome em bibliotecas e, aparentemente, pagavam dois milhões de dólares para garantir que seus bisnetos pudessem pesquisar o que seus trisavos escreveram no século XIX.

Eu não julgava… Na verdade, se tinham dinheiro para preservar adequadamente aquele volume de história em vez de deixá-lo apodrecer em algum porão, já gostava um pouco mais deles.

— Quando começamos?

Margaret sorriu.

— Vocês já começaram.

— ✦ —— ✦ —— ✦ —— ✦ —— ✦ —— ✦ —

As onze caixas chegaram à nossa sala de triagem naquela mesma tarde.

Elliot apareceu quinze minutos depois com dois cafés nas mãos e colocou um deles ao lado do meu computador antes de ocupar sua estação de trabalho. Nem perguntou o que eu queria. Peguei o copo, ainda quente, e dei um gole.

— Leite semidesnatado zero lactose?

— Duas doses de espresso, leite semidesnatado zero lactose e sem açúcar — confirmou, ligando o computador como se não houvesse nada de estranho em saber meu pedido inteiro de cor.

Estreitei os olhos para ele.

— Isso é perturbador.

Elliot soltou uma risada e começou a tirar o casaco.

— Você pede a mesma coisa há quatro anos. perturbador é você não enjoar nunca.

— O fato de você saber há quanto tempo e que nunca enjoo é justamente a parte perturbadora.

— Ingratidão é uma característica muito feia, Calloway. — Ele pendurou o casaco no encosto da cadeira e apontou para o meu café. — Da próxima vez, deixo você enfrentar três séculos de documentos sem cafeína.

Abracei o copo com as duas mãos.

— Retiro o que disse. Sua obsessão pelos meus hábitos é muito bem-vinda.

— Sabia que acabaria reconhecendo meu valor em algum momento.

Ele já estava sorrindo quando se afastou para preparar a estação de digitalização, e voltei minha atenção para a primeira caixa.

Passamos as horas seguintes fazendo o levantamento preliminar. Antes de organizar qualquer coisa, precisávamos fotografar e registrar como cada caixa havia chegado e onde cada item estava. Até uma pilha aparentemente aleatória podia ter uma lógica, e mudar tudo de lugar antes de documentá-la significava correr o risco de perder informações importantes.

Encontrei cartas da década de 1940, registros de propriedades, fotografias de família e até um envelope com negativos tão deteriorados que precisei separá-lo para avaliação. Aos poucos, os Ashford deixaram de ser apenas o sobrenome de um contrato milionário. Casamentos, mortes, viagens e rostos que se repetiam através das gerações começaram a contar a história de uma família.

Foi na oitava caixa que encontrei a fotografia.

Ela estava dentro de um envelope de papel já amarelado, entre imagens que pareciam pertencer às primeiras décadas do século XX. Retirei-a com cuidado, segurando-a pelas bordas com as mãos protegidas, e a primeira coisa que chamou minha atenção foi seu estado de conservação.

A segunda foi o homem.

Havia outras quatro pessoas na imagem, mas meus olhos foram diretamente para ele com uma rapidez que me incomodou. Alto, ombros largos sob um paletó escuro, cabelos quase negros penteados para trás e uma expressão séria demais para alguém que devia ter pouco mais de vinte anos. Não sorria. Na verdade, ninguém sorria, o que não era particularmente incomum em fotografias daquele período, mas havia algo diferente na maneira como ele encarava a câmera.

Intenso.

Essa foi a palavra que me ocorreu.

Como se, mesmo preso em um pedaço de papel havia mais de um século, aquele homem não gostasse de ser observado.

— Encontrou alguma coisa?

A voz de Elliot me fez piscar.

— Talvez.

Aproximei a luminária e examinei a imagem com mais atenção. O suporte, o acabamento, o desgaste das bordas e as características do processo eram compatíveis com a datação aproximada do conjunto. Havia um estúdio identificado discretamente na parte inferior, e fiz uma anotação para pesquisá-lo depois.

Então senti cheiro de chuva.

Foi tão repentino que levantei a cabeça.

O ar-condicionado soprava baixo sobre nós. Elliot estava a alguns metros, trabalhando diante de um monitor. Do outro lado da janela, o céu permanecia claro e sem nenhum indício de que choveria.

Franzi a testa.

— O quê? — ele perguntou, percebendo meu movimento.

— Você sentiu isso?

— Isso o quê?

Esperei mais alguns segundos. O cheiro já tinha desaparecido.

— Nada.

Provavelmente vinha de algum dos materiais. Arquivos antigos acumulavam odores de todos os lugares pelos quais haviam passado, embora chuva não fosse exatamente a descrição que eu esperaria encontrar numa ficha técnica.

Voltei à fotografia e o homem continuava me encarando.

— Bonito — Elliot comentou atrás de mim.

Assustei-me e virei o rosto. Ele havia se aproximado sem que eu percebesse e agora observava a fotografia por cima do meu ombro.

— Você não tinha trabalho? — perguntei, virando o rosto para encará-lo.

— Tenho. Estou supervisionando o seu. — Elliot apoiou uma das mãos na mesa e tornou a olhar para a fotografia, claramente satisfeito com a própria desculpa.

— Volte para o seu computador. 

— Só estou dizendo que entendo o interesse. — Um sorriso divertido surgiu no canto de sua boca enquanto seus olhos verdes passavam da fotografia para mim.

— Eu estava analisando a fotografia.

— Claro. — Ele sustentou meu olhar por um instante, com uma expressão que dizia exatamente o contrário.

Dei-lhe uma cotovelada leve sem tirar os olhos da imagem, e Elliot riu antes de finalmente se afastar.

Virei a fotografia com cuidado e identifiquei que havia uma anotação no verso.

A tinta estava desbotada, mas a caligrafia ainda era perfeitamente legível. Cinco nomes haviam sido registrados, aparentemente na mesma ordem em que as pessoas estavam posicionadas. Comparei um por um até chegar ao homem.

Darian Ashford.

Por algum motivo, li o nome duas vezes. Então encontrei, logo abaixo, outra anotação feita com tinta diferente.

1891–1919.

Fiz a conta automaticamente e percebi que Darian Ashford tinha apenas vinte e oito anos quando morreu. 

Era jovem demais.

— Elliot.

— Hm?

— Coloca na lista de pesquisa o nome Darian Ashford. Nascimento em 1891, morte em 1919. Quero confirmar a identificação antes de registrar.

— Ashford da família Ashford?

— Aparentemente.

Ouvi seus dedos se moverem sobre o teclado enquanto voltei à frente da fotografia.

Darian Ashford.

Havia algo desconfortavelmente familiar naquele nome, embora eu tivesse certeza de nunca tê-lo ouvido antes daquela manhã. Talvez Margaret o tivesse mencionado em algum momento da reunião e eu não tivesse prestado atenção. Talvez estivesse em uma das páginas do relatório.

Ou talvez fosse apenas cansaço.

Registrei o número provisório da peça, as dimensões, o estado de conservação e todas as informações disponíveis. Quando terminei, deveria tê-la colocado com as outras imagens já processadas.

Mas hesitei… Olhei mais uma vez para aquele rosto. Para os olhos escuros voltados diretamente para a câmera. Para a linha firme da boca. Para uma pequena irregularidade no nariz que quebrava a perfeição das feições de um jeito estranhamente atraente.

Ridículo. O homem estava morto havia mais de cem anos. 

Com esse pensamento, acondicionei a fotografia e já ia alcançar o próximo item quando ouvi Elliot me chamar.

— Zuri. — Havia alguma coisa diferente em sua voz, séria o bastante para me fazer erguer a cabeça imediatamente.

Ele continuava diante do computador, mas a expressão divertida de poucos minutos antes havia desaparecido. Estava inclinado na direção da tela, com uma das mãos imóvel sobre o mouse e o cenho franzido, como se tentasse decidir o que fazer com a informação que acabara de encontrar.

— O que foi? — perguntei, deixando o material sobre a mesa.

— Encontrei seu Darian Ashford. — Elliot lançou um olhar rápido em minha direção antes de voltar para o monitor.

— Meu Darian Ashford? — repeti, arqueando uma sobrancelha.

— O morto.

Revirei os olhos enquanto me levantava.

— A expressão “seu Darian” e a palavra “morto” não deveriam estar na mesma frase.

— Então você vai gostar ainda menos do que eu encontrei. — Dessa vez, não havia provocação em seu tom.

Parei por um instante. Elliot podia transformar quase qualquer coisa em piada, por isso a ausência de um sorriso me deixou mais alerta do que suas palavras. Atravessei a sala e me inclinei ao lado dele para enxergar o monitor.

Um registro digitalizado de jornal ocupava a tela, datado de novembro de 1919. A qualidade da imagem era ruim, e algumas partes do texto tinham se perdido com o tempo, mas o nome Darian Ashford ainda aparecia com clareza. Li o trecho com atenção e confirmei o que a anotação no verso da fotografia já indicava: Darian realmente havia morrido naquele ano.

— Ótimo — murmurei, analisando as poucas informações disponíveis. — Isso reforça a identificação da fotografia. Ainda precisamos cruzar com outras fontes, mas já temos o suficiente para continuar a pesquisa.

— Não é isso. — Elliot movimentou o mouse e fechou o registro do jornal.

Virei o rosto para ele, estranhando novamente sua expressão.

— Então o que foi?

— Eu pesquisei o nome sem restringir a data. — Ele abriu outra janela e permaneceu alguns segundos olhando para a tela antes de continuar. — Achei que encontraria outros registros antigos, talvez algum documento da família. Em vez disso, encontrei isto.

Ele virou o monitor um pouco mais na minha direção e na tela havia uma página institucional contemporânea relacionada à Fundação Ashford. Um texto ocupava a lateral, mas não consegui ler uma única palavra.

Porque havia uma fotografia ao lado.

Meu primeiro pensamento foi que alguém tivesse digitalizado a fotografia que eu acabara de encontrar, mas bastou olhar melhor para perceber que aquilo não fazia sentido. 

A imagem na tela era colorida e recente. O homem usava um terno moderno, os cabelos escuros estavam mais naturais do que na fotografia antiga e havia mais vida em sua expressão, mas o rosto era inconfundível. O mesmo nariz, a mesma boca, o mesmo maxilar. Até os olhos pareciam encarar a câmera com a mesma intensidade.

Aproximei-me da tela, tentando encontrar alguma explicação óbvia que meu cérebro ainda não tivesse alcançado.

— Isso é alguma brincadeira? — perguntei, olhando para Elliot. — Você pediu para o ChatGPT fazer isso? 

— Dessa vez, não. Nem abri o ChatGPT hoje. — Ele ergueu uma das mãos, sério demais para que a resposta não se tornasse engraçada. — Posso provar pelo histórico, se quiser. 

— Pode ser uma fotografia restaurada, uma recriação para algum projeto da fundação... — comecei, mas as palavras perderam força quando finalmente prestei atenção ao texto ao lado da imagem.

Darian Ashford, presidente da Fundação Ashford.

A página havia sido atualizada apenas três meses antes.

Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, tentando conciliar aquela informação com a fotografia que acabara de catalogar. Então voltei à minha mesa, retirei a imagem antiga do acondicionamento e a levei até o computador. Elliot afastou a cadeira para me dar espaço, e posicionei a fotografia ao lado do monitor.

Não era incomum encontrar semelhanças impressionantes entre parentes. Depois de anos trabalhando com acervos familiares, eu já tinha visto filhos que pareciam versões mais jovens dos pais e traços que atravessavam várias gerações… Mas aquilo ia muito além de uma semelhança familiar. A pequena irregularidade no nariz era idêntica, assim como a discreta assimetria da boca e até a diferença quase imperceptível entre as sobrancelhas.

Era praticamente a mesma pessoa, com roupas e corte de cabelo do tempo atual.

— Deve ser um descendente — Elliot sugeriu, inclinando-se para comparar as duas imagens. Pela falta de convicção em sua voz, nem ele parecia acreditar muito na própria explicação.

— Com o mesmo nome e o mesmo rosto — observei.

— Famílias antigas repetem nomes.

— Eu sei. — Aproximei a fotografia da tela, procurando alguma diferença que tornasse a situação menos absurda. — Mas não repetem rostos desse jeito.

Elliot não respondeu.

Voltei a ler a inscrição no verso da fotografia: Darian Ashford. 1891–1919. Depois encarei o homem na tela, vivo mais de um século depois, carregando exatamente o mesmo nome e um rosto que poderia ter pertencido à mesma pessoa.

Um desconforto difícil de explicar se instalou em meu peito. Eu ainda não sabia o que aquilo significava, e uma fotografia estranha estava longe de ser suficiente para sustentar qualquer conclusão. Podia haver uma explicação perfeitamente razoável escondida em algum lugar daqueles trezentos anos de documentos.

Meu trabalho era encontrá-la.

Pela primeira vez desde que as onze caixas haviam chegado, porém, tive a impressão de que o Arquivo Ashford guardava muito mais do que a história de uma família.

E, dali a poucos dias, eu estaria em Vesper Hollow tentando descobrir exatamente o quê.

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