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Capítulo 5

last update publish date: 2026-09-28 20:12:59

Natalie

—É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.

— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.

Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.

— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.

Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.

Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando

as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.

Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia entrado em uma boate antes e não fazia ideia do que as pessoas faziam ali.

Caminhei até um balcão, onde uma mulher separava algumas garrafas, e esperei até que ela levantasse os olhos para mim.

— Oi. Você poderia me ajudar? Estou procurando uma pessoa — perguntei, um pouco sem jeito.

— Quem? — perguntou ela, sem parar o que estava fazendo.

— Elisa. Ela trabalha aqui.

— Elisa? — ela repetiu, franzindo levemente a testa. Antes que eu pudesse responder outra garota apareceu ao meu lado no balcão.

— Você está procurando a Elisa? — perguntou a garota, e eu assenti. — É que aqui ela usa outro nome. — Ela deu de ombros, como se aquilo fosse completamente normal.

— Outro nome? — repeti, surpresa.

— As meninas aqui costumam usar nomes diferentes — ela explicou. — Elisa é a Lola.

Demorei um pouco para entender aquilo. Elisa já tinha me contado que trabalhava em uma boate, mas não falou sobre usar outro nome.

— Vem comigo. Ela está lá atrás. — Ela sorriu de leve e fez um gesto para que eu a acompanhasse.

— Obrigada.

A segui por um corredor estreito, passando por algumas portas. Em uma delas, um grande espelho oval ocupava quase toda a parede; em outra, havia roupas penduradas do lado de fora. Tudo parecia distante demais da vida que eu conhecia.

— Eu sou Mia — ela se apresentou, me olhando por cima do ombro.

— Natalie.

— Prazer, Natalie. Você é amiga da Elisa?

— Sou. Somos amigas há muitos anos.

— Então ela vai ficar feliz em te ver — Mia parou diante de uma porta e bateu duas vezes antes de abri-la. — Lola? Tem uma visita para você.

Ouvi uma voz do outro lado, mas não consegui entender o que ela disse. Mia abriu a porta por completo e fez um gesto para que eu entrasse. Dei alguns passos para dentro do cômodo e finalmente a vi.

— Natalie? — Elisa arregalou os olhos ao me ver, levantando-se depressa para vir até mim.

Assim que ela me abraçou, senti as lágrimas voltarem aos meus olhos. Apertei os braços ao redor dela e fechei os olhos, aliviada.

— O que aconteceu? — perguntou, afastando-se um pouco para me olhar. — Você está machucada.

— Depois eu te conto — respondi, olhando rapidamente para Mia, que ainda estava perto da porta. — Eu só precisava encontrar você.

— Você conseguiu vir sozinha? — perguntou, ainda preocupada.

— Sim. Um senhor me deu uma carona até aqui.

— Você já comeu alguma coisa? — ela insistiu observando meu rosto.

Balancei a cabeça.

— Não desde que saí de casa. — confessei, sentindo o estômago apertar só de pensar em comida.

— Então vem. Tem água e algumas coisas para comer ali. Você pode ficar aqui até eu terminar.

— Não precisa, eu posso esperar aqui. — respondi, forçando um  sorriso sem graça.

— Vem. — Ela segurou meu braço com cuidado e me conduziu até um pequeno sofá no canto da parede. — Fica comigo até o fim do meu turno. Depois a gente vai para minha casa.

Sentei-me ao lado dela, e Elisa segurou minha mão.

— Fico feliz que você tenha vindo. — disse, apertando meus dedos de leve. — Quando falou que estava pensando em vir, eu não sabia se realmente conseguiria.

Baixei os olhos para nossas mãos.

— Eu estava com tanto medo de não conseguir chegar até você.

Elisa passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto.

— O importante é que você está aqui agora. O resto a gente resolve.

Apoiei a cabeça em seu ombro e respirei fundo.

— E agora, como vai ser daqui para frente? — perguntei, erguendo a cabeça depois de alguns instantes.

— Amanhã, no meu apartamento, quando você já tiver descansado, a gente conversa sobre isso.

Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, Mia apareceu na porta.

— Lola, está na hora.

— Já estou indo — Elisa avisou, levantando-se e ajeitando a roupa antes de olhar para mim. — Fica aqui. Assim que eu acabar, a gente vai para minha casa.

— Está bem — sorri, observando-a sair e deixar a porta entreaberta.

Eu ainda não sabia se tinha tomado a decisão certa ao deixar tudo para trás.

Mas já não havia como voltar.

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