LOGINNatalie
—É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada. — Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona. Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça. — Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro. Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta. Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas. Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia entrado em uma boate antes e não fazia ideia do que as pessoas faziam ali. Caminhei até um balcão, onde uma mulher separava algumas garrafas, e esperei até que ela levantasse os olhos para mim. — Oi. Você poderia me ajudar? Estou procurando uma pessoa — perguntei, um pouco sem jeito. — Quem? — perguntou ela, sem parar o que estava fazendo. — Elisa. Ela trabalha aqui. — Elisa? — ela repetiu, franzindo levemente a testa. Antes que eu pudesse responder outra garota apareceu ao meu lado no balcão. — Você está procurando a Elisa? — perguntou a garota, e eu assenti. — É que aqui ela usa outro nome. — Ela deu de ombros, como se aquilo fosse completamente normal. — Outro nome? — repeti, surpresa. — As meninas aqui costumam usar nomes diferentes — ela explicou. — Elisa é a Lola. Demorei um pouco para entender aquilo. Elisa já tinha me contado que trabalhava em uma boate, mas não falou sobre usar outro nome. — Vem comigo. Ela está lá atrás. — Ela sorriu de leve e fez um gesto para que eu a acompanhasse. — Obrigada. A segui por um corredor estreito, passando por algumas portas. Em uma delas, um grande espelho oval ocupava quase toda a parede; em outra, havia roupas penduradas do lado de fora. Tudo parecia distante demais da vida que eu conhecia. — Eu sou Mia — ela se apresentou, me olhando por cima do ombro. — Natalie. — Prazer, Natalie. Você é amiga da Elisa? — Sou. Somos amigas há muitos anos. — Então ela vai ficar feliz em te ver — Mia parou diante de uma porta e bateu duas vezes antes de abri-la. — Lola? Tem uma visita para você. Ouvi uma voz do outro lado, mas não consegui entender o que ela disse. Mia abriu a porta por completo e fez um gesto para que eu entrasse. Dei alguns passos para dentro do cômodo e finalmente a vi. — Natalie? — Elisa arregalou os olhos ao me ver, levantando-se depressa para vir até mim. Assim que ela me abraçou, senti as lágrimas voltarem aos meus olhos. Apertei os braços ao redor dela e fechei os olhos, aliviada. — O que aconteceu? — perguntou, afastando-se um pouco para me olhar. — Você está machucada. — Depois eu te conto — respondi, olhando rapidamente para Mia, que ainda estava perto da porta. — Eu só precisava encontrar você. — Você conseguiu vir sozinha? — perguntou, ainda preocupada. — Sim. Um senhor me deu uma carona até aqui. — Você já comeu alguma coisa? — ela insistiu observando meu rosto. Balancei a cabeça. — Não desde que saí de casa. — confessei, sentindo o estômago apertar só de pensar em comida. — Então vem. Tem água e algumas coisas para comer ali. Você pode ficar aqui até eu terminar. — Não precisa, eu posso esperar aqui. — respondi, forçando um sorriso sem graça. — Vem. — Ela segurou meu braço com cuidado e me conduziu até um pequeno sofá no canto da parede. — Fica comigo até o fim do meu turno. Depois a gente vai para minha casa. Sentei-me ao lado dela, e Elisa segurou minha mão. — Fico feliz que você tenha vindo. — disse, apertando meus dedos de leve. — Quando falou que estava pensando em vir, eu não sabia se realmente conseguiria. Baixei os olhos para nossas mãos. — Eu estava com tanto medo de não conseguir chegar até você. Elisa passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto. — O importante é que você está aqui agora. O resto a gente resolve. Apoiei a cabeça em seu ombro e respirei fundo. — E agora, como vai ser daqui para frente? — perguntei, erguendo a cabeça depois de alguns instantes. — Amanhã, no meu apartamento, quando você já tiver descansado, a gente conversa sobre isso. Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, Mia apareceu na porta. — Lola, está na hora. — Já estou indo — Elisa avisou, levantando-se e ajeitando a roupa antes de olhar para mim. — Fica aqui. Assim que eu acabar, a gente vai para minha casa. — Está bem — sorri, observando-a sair e deixar a porta entreaberta. Eu ainda não sabia se tinha tomado a decisão certa ao deixar tudo para trás. Mas já não havia como voltar.NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz
Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut
Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel
Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia
NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca
Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr







