Share

Capítulo 6

last update publish date: 2026-09-28 20:16:53

Natalie

De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia.

Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas.

— Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro.

— Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado.

— Estou falando sério. Você precisa descansar.

— Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento.

Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento.

Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando.

— Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janela.

— Boa noite policial — respondeu Elisa.

— Pode me mostrar sua carteira de motorista e os documentos do veículo, por favor?

Elisa pegou os documentos dentro da bolsa e os entregou pela janela. Ele os conferiu rapidamente sob a luz da lanterna antes de voltar a atenção para ela.

— Vocês estão vindo de onde?

— Da Velaris — respondeu Elisa, indicando a direção com um movimento de cabeça. — Eu trabalho lá.

— A senhora ingeriu alguma bebida alcoólica esta noite? — perguntou, devolvendo os documentos.

— Trabalhei em uma boate a noite inteira. Se o cheiro contar como bebida, estou perdida. — Elisa soltou uma risadinha e deu de ombros.

Um leve movimento no canto da boca dele denunciou que achou graça, mas logo sua expressão voltou a ficar séria.

— Vou precisar realizar um teste — explicou o policial, retirando um bafômetro do bolso do uniforme. — Pode sair do carro, por favor?

Elisa revirou os olhos de leve antes de abrir a porta e descer.

O policial acompanhou os movimentos dela por um instante, mas logo voltou os olhos para mim. Seu olhar permaneceu sobre o meu rosto por tempo suficiente para me deixar desconfortável.

Desviei os olhos para o colo, fingindo prestar atenção nas minhas mãos, mas ainda sentia o peso daquele olhar sobre mim.

Elisa soprou no aparelho quando ele pediu. O policial aguardou alguns segundos para conferir o resultado e, enquanto isso, voltou a olhar para dentro do carro.

— Você está bem? — ele perguntou, com a voz grave e pausada.

— Estou — respondi num fio de voz, sustentando o olhar dele por um segundo.

Ele continuou me encarando, como se não estivesse completamente convencido, antes de checar o visor do aparelho.

— Tudo certo. Podem seguir.

— Obrigada — disse ela, entrando no carro e fechando a porta.

Ele apenas assentiu com a cabeça e deu um passo para trás, sumindo na escuridão do acostamento enquanto nos afastávamos. Soltei o ar devagar, percebendo só então que estava prendendo a respiração.

— Você estava com uma cara de quem ia desmaiar — comentou Elisa, segurando o riso ao engatar a marcha.

— Eu achei que ele tivesse parado o carro por minha causa.

— Por sua causa? Natalie, ele nem sabe quem você é.

— Ele ficou olhando para mim.

— Talvez porque você estivesse parecendo que tinha acabado de fugir de um crime — ela brincou, mas o sorriso dela desapareceu aos poucos ao olhar para o meu rosto, sendo substituído por uma expressão preocupada. — O que aconteceu, Natalie? Eu sei que as coisas em casa nunca foram boas, mas você não teria fugido desse jeito sem que alguma coisa séria tivesse acontecido.

— Elisa...

— Você não precisa me contar tudo agora — ela disse, baixando a voz. — Mas, por favor, não finge que está tudo bem comigo.

Olhei pela janela, vendo as luzes da cidade passarem depressa. Elisa era minha melhor amiga, mas falar sobre aquilo em voz alta tornava tudo real demais.

— Foi o Marcus — falei por fim, quase num sussurro. — Ele tentou me agarrar à força, começou a me encurralar e eu... eu me defendi.

Elisa não me interrompeu, mantendo os olhos firmes na estrada.

— Minha mãe, como sempre, ficou do lado dele — prossegui, sentindo a garganta apertar. — Depois de me bater, ela me trancou no quarto. Como se eu fosse a culpada.

— Natalie...

— Eu fiquei lá pensando no que fazer — interrompi, limpando depressa uma lágrima que escapou. — Marcus ia contar à polícia, ele ia dizer que eu o ataquei sem motivo.

Elisa permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse tentando absorver tudo o que eu acabara de contar. Então estendeu uma das mãos e segurou a minha.

— Você fez certo em ir embora — disse ela, com firmeza. — E não importa o que sua mãe ou aquele desgraçado do Marcus digam, você não tem culpa de nada.

Ela voltou a mão para o volante e reduziu a velocidade ao entrar em uma rua mais residencial.

— Você pode ficar comigo o tempo que precisar — disse ela, estacionando em frente a um pequeno prédio de dois andares. — E amanhã a gente pensa no que fazer. Hoje você só precisa descansar.

— Obrigada, Lis.

— Não precisa agradecer — ela anunciou, desligando o motor. — Chegamos.

Peguei minha mochila no banco de trás e a acompanhei até a entrada. Subimos as escadas em silêncio e, assim que ela abriu a porta do apartamento, entrei e deixei minhas coisas num canto, sem saber direito o que fazer. Elisa deixou a bolsa sobre o sofá e olhou para a minha perna.

— Vou te mostrar o banheiro e, enquanto você toma um banho, procuro alguma coisa para passar no seu tornozelo.

— Obrigada, Lis. Eu realmente preciso de um banho — respondi, tentando forçar um sorriso.

Peguei meu celular de dentro do bolso, mas a tela continuava apagada; a bateria tinha acabado por completo.

Fiquei me perguntando se minha mãe já havia percebido minha fuga, se tinha tentado ligar ou se estava apenas preocupada com o que Marcus faria quando descobrisse que eu sumi.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 8

    NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 7

    Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 6

    Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 5

    Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 4

    NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca

  • Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo   Capítulo 3

    Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status