LOGINNatalie
O barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção. Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar. Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim. Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som. Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as casas dos vizinhos, onde eu fazia faxina quando Marcus permitia. Peguei meu celular para ligar para Elisa, mas só havia uma barra de sinal e a bateria estava acabando. Preferi esperar até encontrar um lugar com sinal melhor para tentar a ligação, em vez de arriscar ficar sem bateria de vez. Pensei que, depois de sair de casa, as coisas ficariam mais fáceis. Mas, pelo visto, estava enganada. O ruído do motor de um carro se aproximando me fez levantar a mão por impulso, mas a abaixei antes que ele passasse por mim. Depois do que aconteceu, não me sentia segura para entrar no carro de um desconhecido. O veículo passou por mim sem parar e desapareceu mais adiante. O sol estava alto, o calor havia secado minha garganta, e minhas pernas já começavam a pesar. Droga... eu deveria ter trazido uma garrafa de água. Depois de alguns minutos que pareceram horas, parei à sombra de uma árvore e tirei a mochila dos ombros para descansar um pouco. Foi quando ouvi outro carro se aproximar. Dessa vez, o motorista diminuiu a velocidade ao passar por mim. Dei um passo para trás, sem saber se deveria pedir ajuda. Alguns metros à frente, ele parou, e a janela do motorista começou a baixar. Fiquei imóvel, observando o homem ao volante. — Você está bem? — perguntou ele, olhando na minha direção. Assenti, embora soubesse que meu estado físico deixava claro que não era verdade. — Precisa de uma carona? Olhei para o carro e depois para a estrada vazia atrás de mim. Pensei em recusar, mas meu tornozelo latejava e já começava a inchar. — Eu preciso ir para a cidade. — Estou indo para lá. — Apontou para o banco de trás. — Posso te deixar no centro. Não vou negar que ainda estava com medo de entrar no carro de um desconhecido, mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu podia aceitar a ajuda. Talvez fosse apenas minha intuição, mas decidi confiar nela. Além disso, não podia continuar andando por ali por muito tempo. Quanto mais demorasse, maiores seriam as chances de perceberem que eu havia fugido e virem atrás de mim. — Você pode me deixar em algum lugar onde tenha sinal? — Claro. — Ele assentiu. Abri a porta e entrei, mantendo a mochila junto ao corpo. Assim que me sentei, fiquei em silêncio, acompanhando a estrada pela janela. Eu precisava acreditar que aquela era a escolha certa. Ele não perguntou o motivo de eu estar sozinha naquela estrada. Apenas dirigiu, e aquilo me deixou um pouco mais tranquila. Depois de alguns minutos, ele me olhou pelo retrovisor interno. — Você se machucou? — Eu caí. — Desviei o olhar para os roxos que começavam a aparecer, torcendo para que ele não fizesse mais perguntas. Para minha sorte, ele não insistiu. Apenas diminuiu a velocidade ao passar pelos trechos esburacados. Encostei a cabeça no banco e só então percebi o quanto eu estava cansada. Meu corpo inteiro doía. Pouco depois, a cidade apareceu à frente, e meu coração apertou. Eu não sabia como seria quando chegasse, mas tinha certeza de que não queria voltar para aquela casa. — É aqui que você vai ficar? — ele perguntou. — Você consegue me deixar em algum lugar com movimento? — perguntei. — Perto de alguma lanchonete ou outro lugar assim. — Não tem o endereço de algum amigo ou parente? — perguntou, sem tirar os olhos da estrada. Foi então que me dei conta de que eu só sabia onde Elisa trabalhava, mas nunca tinha perguntado onde ela morava. Aquilo me fez sentir uma pontada de culpa. Como eu podia conhecer tão pouco da vida da minha própria melhor amiga? — Sei o nome do lugar onde minha amiga trabalha. — Mexi os dedos no colo, sem jeito. — Então me passa. Eu te deixo lá. Tentei lembrar o nome do lugar, que parecia ter sumido da minha memória por um instante. — Velaris — falei, quando o nome finalmente veio à cabeça.NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz
Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut
Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel
Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia
NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca
Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr







