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Capítulo 3 - O batismo e o Adonis

Author: Garcia R.
last update publish date: 2026-03-20 23:03:32

Segunda-feira de manhã, acordei com o coração batendo na garganta. Era meu primeiro dia. Escovei meus cabelos longos, que quase tocam a cintura. Como não tenho dinheiro para cabeleireiro, quem quebra o galho é a Julia que adora brincar de cabelereira e ela ama o tom natural, um loiro cobre que, segundo ela, destaca meus grandes olhos azuis. Passamos horas tentando um penteado profissional na casa dela, mas desisti e fiz um coque despojado, deixando algumas mechas emoldurando o rosto. O resultado ficou bom.

Mesmo com a demora, cheguei ao Centro com mais de uma hora de antecedência. Fui andando devagar pela Rio Branco. As sombras, é claro, apareceram rápido, e caminhei observando se queriam me dar alguma mensagem. Lembrei-me de uma ruela onde vira uma pequena lanchonete e, enquanto mexia na bolsa procurando moedas para um café — andando, como sempre, sem atenção —, dei de cara com um muro humano.

Eu sou grande, tenho 1,70 m, mas aquele homem beirava os dois metros. O choque foi tão forte que pensei que fosse cair, mas ele me segurou firme pelos ombros. Com uma voz gentil e um sotaque forte que eu não soube identificar, ele olhou dentro dos meus olhos:

— Você está bem?

Eu devia estar vermelha até as orelhas. Pedi mil desculpas, explicando que não olhava para onde ia. Ele deu um sorriso bem-humorado e simpático, analisando-me. O que um homem daqueles fazia num "beco bizarro" no Centro e não na capa de uma revista? Ele era lindo. A pele clara, levemente azeitonada, e cabelos quase da cor dos meus, porém de um loiro mais escuro, com nuances ruivas e mechas rebeldes. Um Adônis.

Hipnotizada, pedi desculpas novamente e segui meu caminho, tentando recuperar o fôlego antes de subir para o escritório.

Ao entrar no 21º andar, o silêncio era quebrado apenas pelo som frenético de teclados e o murmúrio de homens ao telefone. O ambiente exalava testosterona e café queimado. Assim que pisei no carpete cinza, senti dezenas de olhos cravando em mim. O senhor Christophe não exagerou: eu estava cercada de raposas velhas. Eram cerca de doze homens vestindo camisas sociais levemente encardidas no colarinho. Ignorei os olhares e sentei-me no meu canto, perto do rack de servidores. O computador era uma relíquia, mas em menos de trinta minutos eu já havia estabilizado o sistema e organizado minha lista de leads.

Durante a semana, me dediquei muito. A princípio, todos me olhavam com desconfiança, mas quando viram que eu não abaixava a cabeça

— Após uma vida de humilhações, você aprende a enfrentar os dominadores —, o clima mudou.

Na quarta-feira, fechei minha primeira linha de crédito. Não era uma fortuna, mas era o meu primeiro dinheiro conquistado com meu próprio esforço.

Liguei para Julia de um telefone fixo, já que meu celular velho estava sem crédito; ela ficou exultante. Marcamos de comemorar na sexta-feira; como eu teria recebido minha comissão, poderia comprar o vinho para o nosso final de semana.

Os pais dela haviam partido em viagem: seu pai, dentista, fora convidado para um simpósio no Rio Grande do Sul e, como eles se conheceram lá na juventude, iriam para esticar a estadia em uma segunda lua de mel.

Na sexta-feira, voltando para casa animada após ter recebido minha comissão, eu procurava meu exemplar de Júlio Verne na bolsa quando esbarrei o ombro em algo maciço.

Meu ombro doeu. Levantei os olhos, massageando o local, e dei de cara com o Adônis novamente. Ele tinha um ar divertido, como se achasse que eu fazia de propósito.

— Você realmente precisa olhar por onde anda — ele disse, com aquele sotaque charmoso. — Vai acabar sofrendo um acidente.

Ri, colocando uma mecha rebelde atrás da orelha.

— É o que minha melhor amiga diz.

— Você mora onde? — ele perguntou, observando-me com curiosidade. Arqueei a sobrancelha:

— Por que quer saber?

Ele franziu a testa. — Por nada. Apenas curiosidade. Você não parece ser carioca. Quer beber alguma coisa? Parece estar precisando de um drink.

— Eu nem te conheço!

— Bom, eu me chamo Killian Black. E, considerando que já esbarrou em mim duas vezes, isso nos dá certa intimidade, não acha? E você, como se chama?

Senti minhas orelhas queimarem.

— Victoria Kavanaugh.

Ele pediu que eu repetisse o nome, analisando-me desta vez com intensidade.

— Tem certeza de que nasceu aqui? De onde você é mesmo?

— Nascida e criada na Zona Norte do Rio. E você? Ele desconversou:

— Vem, vamos tomar algo e conversar. Afinal, hoje é sexta-feira, dia de happy hour. Não é assim que vocês dizem por aqui?

Fiquei desconfiada, mas lembrei do conselho de Julia sobre ser mais ousada e aceitei. Ele me guiou por uma ruela enquanto o céu escurecia. As sombras dançavam, mas, dessa vez, estavam perto demais de Killian, quase como uma áurea. Estranhei; elas nunca se aproximavam tanto de alguém desta forma. Ele percebeu meu olhar, colocou-me atrás de si de forma protetora e olhou ao redor.

— O que houve? Viu alguma coisa? — perguntou.

Confusa com a reação das minhas próprias visões. Apenas neguei com a cabeça e continuamos a caminhar. Achei engraçada sua reação de proteção.

No fim da ruela, entramos no Irish’s Club. Por fora o lugar parecia pequeno, mas por dentro, o lugar era enorme, cheio de fumaça de charutos, risadas e um blues ao fundo que criava uma atmosfera boêmia e marginal.

Killian me guiou até um sofá reservado ao fundo.

Notei que as pessoas o observavam: alguns com respeito, outros com um medo indisfarçável. Vi gente se escondendo ao vê-lo entrar.

Ele estava impecável: terno de corte perfeito e ombros largos que impunham presença.

Uma garçonete alta, vestida de forma provocativa e com um decote que mostrava bem as curvas dos seus seios, veio até nós e falou com ele em uma língua desconhecida. Para mim, ela dirigiu apenas um olhar de nojo.

Killian respondeu de forma dura e direta na mesma língua sem olhar para ela, e ela se retirou, ruborizada.

— Então, Victoria...

— Pode me chamar de Vick — interrompi.

Ele testou o apelido, "Vick", e o som causou uma quentura no meu corpo.

— Você tem namorado, noivo... marido? Quase me engasguei. Ele deu dois tapinhas teatrais nas minhas costas.

— Não ouvi a resposta.

— Não, por quê? — respondi com sinceridade.

— Uma mulher tão bonita e misteriosa... achei improvável não ter alguém para adorá-la.

Engasguei-me de novo.

Para disfarçar, perguntei sobre a língua que ele falava. — É o irlandês, o Gaeilge. Na Irlanda, falamos várias línguas, principalmente o inglês, mas prefiro voltar às origens.

Você está no primeiro e único pub irlandês do Rio.

Fiquei maravilhada com a decoração em madeira, verde-escuro e vermelho bordeaux. Eu me sentia um patinho feio entre cisnes, mas a presença de Killian me dava uma segurança estranha.

Sem perceber, cheguei à terceira taça de vinho. Comecei a sentir os efeitos e fiquei apavorada. Que horas eram? Quando chequei o relógio acima do bar, entrei em pânico: 21h25. O último trem era às 22h!

— Preciso ir agora, ou vou perder o trem!

Levantei-me num salto. As três taças em jejum fizeram minha cabeça girar. Saí do pub cambaleando e me apoiei no muro externo, respirando com dificuldade.

Killian veio logo atrás, aproximando-se com cautela, as mãos estendidas como se eu fosse um animal encurralado. Eu estava à beira do colapso; não eram apenas as sombras que me cercavam agora, era o cheiro de Killian e o mistério de quem ele realmente era.

Killian se aproximou e me disse: — Não se preocupe, te levarei para casa. Me dê o endereço de onde você quer que eu te leve. Você não está em condições de ir embora sozinha.

Em outro momento ficaria desconfiada, mas eu senti confiança em suas palavras e dei o endereço da casa da Julia, que me esperava. O caminho foi rápido. Killian me olhava de canto de olho e então me perguntou: — Você vai para a casa da sua amiga pois não confia em mim para conhecer o seu endereço?

E eu o respondi: — Não é isso. É que eu prometi que dormiria lá esta noite para comemorarmos juntas meu primeiro pequeno sucesso.

Ele deu um sorriso e continuamos o caminho em silêncio. Ao chegarmos, Julia estava no portão de casa, pois havia enviado uma mensagem de texto para ela pedindo que me esperasse. Quando cheguei, ela ficou de boca aberta ao ver Killian abrindo a porta do carro para mim. Ele se apresentou a Julia, que continuava a encará-lo com a boca aberta.

Ele se afastou, me deu um beijo nos dedos da minha mão e disse: — Até mais, Vick.

Entrou no carro e foi embora. Julia me olhava de forma engraçada e interrogativa. — O que foi isso?

Entramos e contei tudo a ela. Rimos, mas não quis beber mais, pois ainda estava um pouco bêbada. No dia seguinte, acordei cedo e fui para casa me trocar e voltar ao armazém. Quando entrei na cozinha, ouvi meu pai e Maisa discutindo sobre o pagamento de uma dívida dele. Com certeza uma nova dívida de jogo. Como sempre, não dei atenção e fui ao meu quarto me trocar.

Quando estava terminando de dar um laço no meu tênis velho, dois brutamontes de Maisa invadiram meu quarto e me seguraram pelos braços. Eu me debatia e gritava pelo meu pai.

Quando eles saíram comigo do quarto, dei de cara com ele e Maisa me olhando; meu pai já estava visivelmente alcoolizado e Maisa me olhava com um olhar de prazer em ver meu desespero. Ela se aproximou com uma seringa e senti uma picada no meu pescoço. Meu corpo foi ficando mole e, ao mesmo tempo, pesado.

Senti o brutamontes me colocar no ombro como um saco e me levar para o armazém — sabia que era lá, pois o cheiro era inconfundível. Não conseguia ver nada com clareza, apenas borrões. Senti quando o brutamontes me colocou no chão. De um lado, meu pai e Maisa; do outro, um outro homem, um agiota muito conhecido na região: Tadeu.

Eu queria gritar, eu queria correr, mas meu corpo não obedecia. Ouvi quando Tadeu disse: — Tem certeza de que ela é virgem? Para apagar sua enorme dívida, Roberto, espero que ninguém nunca a tenha tocado antes. Se não, eu volto aqui e acabo com você!

Meu pai confirmou: — Claro que é virgem!

Na minha cabeça, eu não estava acreditando. Meu pai me daria a um agiota para cobrir uma dívida de jogo! Quando Tadeu se aproximava com um olhar faminto que me deu nojo, eu fui apagando aos poucos. E então tudo aconteceu muito rápido: antes de apagar totalmente, vi os dois capangas de Maisa e de Tadeu caírem simultaneamente...

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