INICIAR SESIÓNJulian Bernoulli Liguei para o telefone de Gregório em São Paulo. Eram quase sete da noite lá. O telefone tocou quatro vezes até que a voz do meu irmão atendeu do outro lado, rouca de surpresa. — Julian? Meu Deus, cara, finalmente! Onde você esteve? A Isa... — Gregório... por favor — interrompi-o, a minha voz quebrando por completo, o choro contido há meses, finalmente rasgando o meu peito de forma incontrolável. — Por favor, Gregório... vai até o apartamento da Isa agora. Vai lá, cara, pelo amor de Deus... — Julian? O que aconteceu? Você está chorando? — Gregório perguntou, o tom de voz mudando no mesmo instante para uma preocupação alarmada. — A Nadine... ela armou uma cena no meu escritório no segundo em que a Isa me ligou por FaceTime — consegui explicar, as lágrimas escorrendo quentes pelo meu rosto, manchando o colarinho da minha camisa. — A Isa viu essa mulher de roupão aqui dentro, ouviu ela me chamar de amor... e desligou na minha cara. Ela não atende mais as minhas liga
Julian Bernoulli O sangue fugiu do meu rosto no mesmo milésimo de segundo. A sensação foi a de ter levado um tiro no peito à queima-roupa. — Cala a boca, Nadine! — berrei, a voz rasgando a minha garganta enquanto eu empurrava a mulher para longe da mesa com uma força desgovernada, fazendo a bandeja de prata voar longe e a garrafa de uísque se estilhaçar no chão em um estalo ensurdecedor de vidro e álcool. Mas já era tarde demais. O estrago absoluto e irreversível fora feito. Voltei os olhos desesperados para a tela do telefone. O rosto de Isabella na tela passou de uma tristeza contida para uma palidez mortal. Vi o momento exato em que os olhos escuros dela se arregalaram em puro choque, captando a imagem da mulher de roupão de seda ao meu lado, ouvindo a palavra "amor" sair da boca dela com tanta naturalidade, vendo o cenário de intimidade doméstica que Nadine conseguira simular perfeitamente para a câmera. Vi o estilhaçar da confiança no olhar de Isabella. Vi a dor mais profun
Julian Bernoulli A cabeça estalava como se houvesse uma prensa hidráulica apertando minhas têmporas a cada segundo. O relógio de parede do meu escritório em Zurique marcava 23h15. Em São Paulo, eram 18h15. Eu estava sentado atrás da mesa de madeira maciça, com a gravata afrouxada, o colarinho aberto e os olhos queimando diante da tela do notebook, que exibia uma planilha interminável de relatórios financeiros da holding e uma pilha de documentos jurídicos enviados pelos meus advogados. Eu estava completamente sobrecarregado. Exausto no limite da minha capacidade física e mental. Já se faziam dois meses que eu vivia em um estado de alerta permanente, sufocado dentro da minha própria casa. Ter trazido Nadine para morar sob o meu teto fora uma jogada tática necessária para evitar chantagens financeiras e garantir a vigilância do processo, mas a convivência forçada transformara a minha propriedade em um verdadeiro campo de minas. Ela usava a gestação como um escudo constante — inventav
AutoraO aroma de lavanda do sabonete líquido importado preenchia o banho de imersão, mas Nadine não conseguia relaxar. Ela encarava o teto trabalhado em gesso da suíte de hóspedes da imensa propriedade dos Bernoulli em Zurique. Para qualquer pessoa de fora, aquela casa parecia um palácio de inverno; para ela, tornara-se uma gaiola de ouro perfeitamente vigiada.Três meses atrás, a vida de Nadine era uma sucessão de escolhas erradas, contas atrasadas e a iminência de um despejo no seu modesto apartamento no centro da cidade. Ela sempre gostara da boa vida, das festas exclusivas e da companhia de homens influentes que orbitavam a elite financeira suíça. E, entre todos eles, Julian Bernoulli era o troféu definitivo: um executivo brilhante, dono de uma holding milionária, mas com uma postura reservada e solteira que fascinava e desafiava qualquer mulher.Quando Julian a procurou naquela noite turbulenta, visivelmente abalado após um embate com a mãe e afogado em doses exageradas de uísqu
Isabella Marcel A pergunta caiu sobre mim como um golpe direto no centro da minha dor.Maya parou de falar no mesmo instante, olhando para mim com empatia genuína, pousando a mão sobre a minha por cima da mesa.Respirei fundo, sentindo o ar queimar no peito. Eu vinha guardando aquela angústia no silêncio do meu apartamento há semanas, fingindo para o mundo e para mim mesma que estava tudo sob controle, que eu era uma mulher madura demais para me deixar abalar por desencontros de fuso horário. Mas a pergunta de Bia rasgou a minha armadura por completo.— Eu... eu não sei, Bia — confessei, a voz saindo rouca e trêmula, enquanto lutava contra as lágrimas que finalmente ameaçavam transbordar. — Eu praticamente não converso mais com ele.— Como assim, Isa? — Maya perguntou, franzindo a testa. — Ele não estava resolvendo a questão do teste de DNA e daquela mulher na Suíça?Comecei a desabafar, soltando cada pedaço da verdade que pesava sobre a minha alma nas últimas oito semanas. Estava fr
Isabella Marcel O cheiro característico de álcool, reagentes e o som suave e ritmado das centrífugas no laboratório tornaram-se o meu único refúgio seguro nas últimas oito semanas.Após a minha saída definitiva do laboratório de Paul, o convite para integrar o centro de pesquisas no hospital de Arthur Strauss veio como uma tábua de salvação para a minha sanidade. A infraestrutura era impecável, a autonomia que eu tinha era inédita e o ambiente de trabalho era pautado pelo mais absoluto respeito profissional. Ali, ao lado de Gregório, estávamos avançando em uma pesquisa significativa sobre doenças autoimunes, investigando mecanismos de modulação da resposta imunológica para reverter a autoagressão celular — um projeto audacioso que tinha o potencial de revolucionar a medicina e me colocar exatamente nos palcos internacionais que eu sempre sonhei em ocupar.Profissionalmente, eu estava nas nuvens. Cada protocolo validado, cada hipótese confirmada nos ensaios e a parceria fluida com Gre







