INICIAR SESIÓNOs passos de Lara sobre o mármore negro da cobertura pareciam anunciar sua própria rendição. Cada clique dos saltos ecoava como um veredito. O contrato que acabara de assinar ainda queimava em sua bolsa, mas eram as palavras de Enzo que realmente a marcavam na pele: “Você não vai mais carregar o peso dessa família sozinha.”
Ninguém nunca havia dito isso a ela sem querer algo em troca. E Enzo Ravelli, ela sabia, queria tudo.
O elevador privativo a deixou diretamente no quadragésimo segundo andar. Quando as portas se abriram, o ar mudou. Luxo frio, impessoal e absurdamente masculino. Vidros do chão ao teto, mármore negro, um perfume amadeirado e caro pairando como uma assinatura invisível. Lara sentiu-se uma intrusa. Uma mancha num quadro que não fora feito para ela.
Enzo estava de costas, junto à parede de vidro, observando São Paulo sangrar em tons de laranja e vermelho. Mesmo imóvel, ele dominava o ambiente inteiro.
— Entre — ordenou, sem se virar. — E feche a porta.
O clique da porta soou no ambiente e Lara parou no centro da sala, coluna rígida, dedos brancos ao redor da alça da bolsa. Enzo virou-se devagar. O mesmo olhar de antes, aquele que não pedia permissão, que media, que marcava território. Seus olhos desceram por ela com uma lentidão deliberada, quase indecente, demorando-se no tailleur gasto, no descosturado da saia, nos ombros tensos que carregavam anos de exaustão.
Ele não disse nada por quase um minuto. Apenas observou. Como se já a estivesse saboreando.
— Sente-se.
Lara obedeceu, sentando na beirada do sofá de couro. Enzo tirou o paletó com um movimento fluido, a camisa branca colando nos ombros largos e no peito definido. Serviu dois copos de água, colocou um diante dela e sentou-se na poltrona à frente, invasivamente perto.
— Agora — disse ele, voz grave e baixa —, quero toda a verdade. Sem filtros. Sem vergonha.
As palavras saíram dela como sangue de uma ferida antiga. O pai morto. Os nove milhões em dívidas com os Ortega. A mãe manipuladora. O irmão que a ameaçava de vendê-la como se fosse mercadoria. Enquanto falava, Lara sentia a humilhação queimar sua garganta.
Enzo escutava em silêncio absoluto. Mas seus olhos... seus olhos escureciam a cada palavra.
Quando ela terminou, ele inclinou o corpo para frente, antebraços apoiados nas coxas, invadindo ainda mais seu espaço.
— Errado — rosnou baixinho. — Você não tem mais família, Lara. Agora você tem a mim.
O celular vibrou. “Mãe” brilhava na tela.
— Atenda — ordenou ele. — Viva-voz.
A performance de Helena foi impecável: voz fraca, gemidos de dor, culpa destilada, a ameaça velada dos Ortega. Quando a ligação terminou, o silêncio que ficou era pior do que qualquer grito.
Enzo não se alterou. Levantou-se, preencheu um cheque de dois milhões e quinhentos mil reais e o deslizou sobre a mesa como se fosse trocado.
— Isso resolve o imediato. O resto eu destruo pessoalmente nos próximos dias. Mas tem condições.
Lara ergueu os olhos, alarmada.
Enzo agachou-se diante dela. Segurou seu queixo com firmeza, o polegar acariciando o maxilar num contraste perigoso entre ternura e domínio absoluto.
— Você se muda hoje. Agora. Não vai voltar para aquela casa enquanto aqueles parasitas respirarem. Eles não vão mais te tocar. Nem com palavras, nem com culpa, nem com ameaças de merda. Entendeu?
Seu polegar deslizou até o lábio inferior dela, pressionando levemente.
— Eu cuido do que é meu. E você, Lara... você já é minha desde o momento em que entrei naquela sala de entrevista.
Horas depois, quando o elevador privativo se abriu novamente na cobertura, a mão de Enzo repousava firme na base de suas costas — um toque quente, inescapável, possessivo. Ele a guiou até um quarto amplo no final do corredor.
— Amanhã queimamos esse tailleur — murmurou ele antes de fechar a porta, deixando-a sozinha.
Lara soltou o ar preso nos pulmões. Caminhou até a cama king size e congelou.
Um envelope branco repousava perfeitamente sobre o travesseiro. A caligrafia era inconfundível. Com as mãos trêmulas, ela o abriu.
As palavras de Helena eram veneno puro:
Você sempre foi uma idiota ingênua. Acha que um homem como Enzo Ravelli te quer por bondade? Ele só quer te foder até se cansar. Já fechamos um acordo melhor com os Ortega. Se não estiver em casa amanhã cedo, eles virão te buscar à força. Nem seu bilionário vai conseguir te proteger quando decidirem cobrar a dívida com sangue.
Não me decepcione novamente.
Com amor, Mamãe.
A carta escorregou de seus dedos.
Lara sentiu o mundo inclinar. Suas pernas cederam e ela deslizou pela parede até cair sentada no chão frio, abraçando os joelhos. O peito doía. A dúvida doía mais.
Talvez ela não tivesse sido salva.
Talvez tivesse acabado de entregar sua vida nas mãos de um monstro ainda mais perigoso.
Do lado de fora da porta, três batidas firmes soaram.
— Lara.
A voz de Enzo estava mais baixa que o normal. Quase suave. Mas havia algo por baixo — algo afiado, violento, prestes a romper.
Ela não respondeu, imediatamente a maçaneta girou e Enzo entrou, seus olhos varreram o quarto, encontraram a carta no chão, depois pousaram nela, encolhida contra a parede, olhos vermelhos, respiração curta. Ele leu a carta em segundos. Seu rosto não se alterou. Mas o ar da sala pareceu gelar dez graus.
Ele amassou o papel lentamente na mão, como se estivesse esmagando a garganta de alguém. Quando falou, sua voz saiu calma. Perigosa. Definitiva.
— Eles acabaram de cometer o último erro da vida deles.
Enzo caminhou até ela, agachou-se e, sem pedir permissão, segurou seu rosto com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo. Seus olhos negros queimavam com algo selvagem, quase insano.
— Amanhã de manhã sua mãe e seu irmão vão descobrir que não existe mais acordo com os Ortega. Porque eu acabei de comprar a dívida deles... junto com a cabeça dos dois.
Ele encostou a testa na dela, a voz descendo para um sussurro rouco:
— E você, minha Lara... vai assistir de camarote enquanto eu destruo cada pessoa que ousou te machucar. Depois disso, não vai restar mais nenhuma dúvida de quem você pertence.
Enzo roçou os lábios de leve na testa dela, um gesto quase carinhoso que contrastava terrivelmente com as palavras seguintes:
— Bem-vinda ao inferno, princesa.
O seu antigo demônio acabou de acordar o pior de todos.
Capítulo 22— Cabelos brancos? Você está pensando longe demais.— Eu estou pensando em para sempre. E para sempre inclui cabelos brancos.Ela se aninhou nele, sentindo-se em paz.— Eu quero tudo isso também. E mais.— O quê?— Quero que a gente continue se desejando como no primeiro dia. Quero que a gente nunca se torne um casal acomodado. Quero que a paixão permaneça, mesmo quando o conforto chegar.Alexander sorriu.— Isso eu posso prometer. Porque eu nunca vou me cansar de te desejar. Nunca.Ele a puxou para o colo, e ela se encaixou perfeitamente, como se tivesse sido feita para aquele lugar.— E sobre o quarto de bebê? — perguntou Helena, a voz suave.— O que tem?— Eu tenho pensado... talvez não seja uma má ideia começar a tentar em breve.Alexander ficou imóvel, os olhos arregalados.— Você está falando sério?— Estou. Não quero apressar nada. Mas também não quero esperar demais. Eu te amo e quero construir uma família com você.O sorriso dele foi tão largo que iluminou todo o
Capítulo 21— Eu quero ter filhos com você, Alexander. Um ou dois. Talvez três. Mas não agora. Quero primeiro construir nossa vida juntos, viajar, dançar na sala, fazer amor sem hora marcada. Depois a gente pensa em fraldas e mamadeiras.— Combinado. O quarto de bebê fica pronto para quando a gente decidir.— Isso é um contrato?— É uma promessa.Ela sorriu.— Então é melhor escrever. Você sabe que eu levo contratos a sério.Alexander riu, rolando sobre ela.— Amanhã. Agora eu quero te mostrar outra coisa que essa cama pode fazer.— Outra coisa?— Tem um controle que ajusta a inclinação. E eu quero te foder de um jeito que a gente nunca tentou.Helena mordeu o lábio, os olhos brilhando.— Surpreende-me.Ele surpreendeu.E quando a noite caiu completamente, os dois estavam exaustos, satisfeitos e profundamente apaixonados.A vida era boa.A vida era deles.***Semanas depois, Helena estava no escritório da agência, assinando documentos, quando o celular vibrou novamente.Mensagem de Al
Capítulo 20As paredes eram de um tom suave de amarelo-claro, com delicados desenhos de nuvens pintados à mão. Um berço de madeira branca ocupava o centro do cômodo, coberto por um móvel de estrelas douradas. Havia uma poltrona de amamentação ao lado da janela, um trocador elegante, prateleiras com livros infantis e uma luminária em formato de lua que emitia um brilho suave.Helena ficou paralisada.— O que... o que é isso?Alexander estava ao lado dela, os olhos fixos em seu rosto.— É um quarto de bebê.— Eu vejo que é um quarto de bebê. Mas... por quê?Ele respirou fundo.— Porque eu quero ter uma família com você, Helena. Não agora, se você não quiser. Não amanhã. Mas um dia. Eu quero construir algo que vá além de nós dois. Algo que deixe marcas no mundo. E eu quero fazer isso com você.As lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Helena.— Eu... eu não sei o que dizer.— Diz que não estou louco.Ela riu, soluçando.— Você é o homem mais surpreendente que eu já conheci.— Isso é
Capítulo 19Na tarde seguinte, Helena estava no escritório da agência, revisando os últimos detalhes da campanha vencedora, quando o celular vibrou.Ela reconheceu o som antes mesmo de olhar para a tela. Era o toque personalizado que ela havia configurado apenas para Alexander — uma versão suave de uma música que dançaram juntos naquela noite no apartamento dela, meses atrás.O coração de Helena deu um salto.Ela abriu a mensagem."Tenho uma surpresa esperando por você."Apenas isso. Nada mais.Helena sorriu, mordeu o lábio, sentindo o frio na barriga que só ele conseguia provocar. Por mais que o relacionamento deles tivesse amadurecido, Alexander ainda tinha o dom de fazê-la sentir-se como uma adolescente apaixonada diante do primeiro amor.Ela pegou a bolsa, avisou a secretária que sairia mais cedo e caminhou até o elevador.— Pode encerrar as reuniões de hoje — disse ela a Marina, que a observava com um sorriso cúmplice. — Algo urgente surgiu.— Claro, chefe. Divirta-se.Helena riu
Capítulo 18Depois da sobremesa, ele pediu um vinho do Porto e ficou em silêncio por um instante, como se escolhesse as palavras.— Tem uma coisa que eu quero te dar — disse ele, a voz baixa.— O quê?Alexander tirou uma pequena caixa do bolso do paletó. Era de veludo azul-marinho, simples e elegante.Helena sentiu o coração parar.— Alexander...— Calma. Não é um pedido de casamento tradicional. — Ele abriu a caixa. Dentro havia um anel de ouro branco com uma safira rodeada por pequenos diamantes. — É um símbolo. Do compromisso que construímos.Ela ficou imóvel, os olhos fixos no anel.— É lindo.— É metade do que você merece.Helena ergueu o rosto, os olhos brilhando.— Por que agora?— Porque eu passei a vida inteira acreditando que contratos serviam para controlar. Mas com você aprendi que existe outro tipo de contrato. Um que não amarra. Não limita. Um que escolhe, todos os dias, ficar.A lágrima escorreu silenciosa.— Nosso primeiro contrato foi um erro — disse ele, sorrindo.He
Capítulo 17O sol da manhã entrou pela janela da cobertura, desenhando padrões dourados sobre os lençóis pretos. Helena acordou devagar, o corpo ainda pesado de prazer e exaustão, a mente flutuando entre o sono e a vigília.Por um instante, ela se perguntou se tudo não passara de um sonho.Então sentiu o braço de Alexander ao redor da sua cintura, a respiração quente no seu pescoço, o cheiro inconfundível de pele masculina misturado ao perfume de cedro. Ele dormia profundamente, o rosto relaxado, os lábios entreabertos, o cabelo preto espalhado no travesseiro.Helena sorriu.Era real. Ele era real.Ela ficou imóvel por longos minutos, apenas observando-o dormir. Havia algo sagrado naquele momento: a ausência de máscaras, a vulnerabilidade exposta, a confiança absoluta de quem se permite descansar ao lado de alguém.Ela amava aquele homem. Amava o CEO implacável e o homem assustado por trás da armadura. Amava as contradições, as cicatrizes, os silêncios. Amava até o medo que ele carreg







