FAZER LOGINPassaram alguns dias desde o encontro no hospital, e Hana já tinha praticamente voltado à rotina.
Trabalho na floricultura de manhã. Outro trabalho no fim do dia. Vida corrida, simples, sem espaço para distrações. Ela estava justamente na lanchonete onde fazia um turno extra quando viu a porta abrir. Fernanda Lockwood entrou com a mesma postura calma de antes, olhando ao redor até encontrar alguém que reconhecesse. Quando os olhos dela pararam em Hana, um sorriso imediato surgiu no rosto. Hana percebeu na hora. Secou as mãos no avental e foi até a mesa. — Senhora Fernanda! — Oi, querida… como é bom te rever. Hana sorriu, surpresa. — A senhora por aqui? — Vim comer algo simples — ela respondeu, olhando ao redor com leve curiosidade. — Você trabalha aqui? — É… esse é um dos trabalhos. Fernanda arqueou levemente a sobrancelha. — Um dos trabalhos? — É. Eu também trabalho numa outra empresa. — Ah… sim — Fernanda assentiu, como se estivesse absorvendo a informação com mais atenção do que deixava transparecer. Hana ficou ali por um segundo, ainda em serviço, mas percebendo que aquela visita não era casual. — Querida — Fernanda começou, com um tom mais direto. Hana já sentiu uma leve tensão. — A senhora quer mais alguma coisa? — Não é isso… — ela sorriu de leve. — Você tem vontade de casar? Hana congelou por um segundo. — Oi? Fernanda deu uma pequena risada, como se estivesse tentando suavizar. — Tá, deixa eu explicar melhor. Lembra que eu te falei do meu filho da última vez? — Aham… — E eu disse que ele não tem vontade de casar… Hana assentiu lentamente, sem entender onde aquilo estava indo. — Sim… Fernanda apoiou as mãos na mesa. — Eu falei dele pra você. E falei com ele sobre você. Hana piscou, surpresa. — E…? — Ele se interessou. Silêncio. Hana olhou para ela como se estivesse tentando confirmar se tinha entendido corretamente. — Senhora… a senhora está falando de um casamento? — É, querida. Um casamento. Hana deu um passo pequeno para trás, como reflexo. — Isso é muito estranho… Fernanda não negou. — Eu sei. — Eu nem conheço o seu filho direito… — Você vai conhecer. Hana respirou fundo, tentando manter a calma enquanto olhava ao redor da lanchonete, lembrando que estava no meio do trabalho. — E como isso funcionaria exatamente? Fernanda manteve o tom firme, mas não agressivo. — Você vai ter uma vida confortável. Vai conhecer ele. E se depois de um tempo você não quiser continuar… vocês se separam. Hana franziu o cenho. — Se separa? — Depois de um ano de casamento — Fernanda completou. — A única coisa que eu te peço é isso. Um ano. Hana ficou em silêncio por alguns segundos. Aquilo parecia absurdo demais para ser real. — Senhora Fernanda… isso não é… normal. — Eu sei — ela respondeu, sem desviar o olhar. Esse “eu sei” deixou tudo ainda mais estranho. Hana respirou fundo. — Eu vou pensar. Fernanda assentiu, como se já considerasse aquilo um avanço. — Tudo bem. Hana já deu um passo para se afastar. — Mas o seu filho também quer isso? — Eu vou falar com ele — Fernanda respondeu com segurança. — Mas ele quer sim. Hana hesitou por mais um segundo. — Tá… tudo bem. Agora eu preciso voltar a atender, tá? Fernanda apenas sorriu. — Claro, querida. E Hana voltou para o trabalho com o coração mais pesado do que quando tinha chegado. Sem saber ainda se aquilo era uma proposta… ou o começo de um problema. O escritório de Xavier era amplo, silencioso e organizado demais, como tudo na vida dele. Ele estava sentado atrás da mesa, concentrado em papéis e telas abertas no computador, quando a porta se abriu sem cerimônia. Ele nem levantou a cabeça de imediato. — Oi, mãe. Só depois de alguns segundos ele ergueu o olhar. — Senhora por aqui? Fernanda entrou com calma, como se já soubesse que aquela conversa não seria simples. — Filho… eu encontrei a Hana hoje. A caneta dele parou no meio da assinatura. — Onde? — Numa lanchonete. Eu parei pra lanchar e ela estava lá. Xavier apoiou o corpo na cadeira, observando a mãe com mais atenção agora. — Ela estava lá… fazendo o quê? — Trabalhando. Ele franziu o cenho. — Trabalhando? — Sim. Um dos trabalhos dela. Aquilo já foi o suficiente para ele ficar em silêncio por alguns segundos. — E? Fernanda respirou fundo, como quem já tinha decidido não voltar atrás. — Eu fiz uma proposta pra ela. A expressão dele endureceu na hora. — Que proposta? — De casamento. Silêncio. O ar pareceu pesar dentro da sala. Xavier soltou uma risada curta, sem humor. — Você fez o quê? Fernanda não recuou. — Pedi a ela um ano de casamento com você. Ele passou a mão pelo rosto, já claramente irritado. — Claro que ela aceitou, né? — Não. Isso fez ele parar. Fernanda continuou, mais calma do que ele esperava. — Eu insisti. Muito. E ela disse que vai pensar. Xavier se levantou da cadeira devagar, como se precisasse controlar a própria reação. — Um ano de casamento… — ele repetiu, incrédulo. — Mãe, você está ouvindo o que está dizendo? — Estou. — E ainda acha isso normal? Fernanda deu um pequeno suspiro. — Eu acho que ela é uma mulher boa. Ele riu de novo, agora mais frio. — Isso não responde nada. Ela deu um passo à frente, encarando o filho com firmeza. — Ela não te conhece, Xavier. E mesmo assim não foi rude. Não te desrespeitou. Ela só… ficou confusa. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, andando até a janela. — Você está tentando me empurrar um casamento como se fosse uma negociação. — Talvez eu esteja, sim — Fernanda respondeu, sem fugir da verdade. — Talvez eu esteja desesperada vendo você sozinho dentro dessa vida que você construiu. Ele virou o rosto de volta para ela. — Eu não estou sozinho. — Está — ela disse simplesmente. Aquilo acertou mais do que ele demonstrou. Xavier voltou para a mesa, apoiando as mãos nela com força leve demais para parecer controle. — Um ano de casamento com uma desconhecida. Fernanda não desviou o olhar. — Ela não é uma desconhecida depois de um tempo. Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. — Mãe… a senhora está maluca. Ela soltou um riso baixo, triste até. — Talvez eu esteja mesmo, filho. E então, mais baixo, quase num pedido: — Mas por favor… casa com ela. Me dá esse um ano.Xavier caminhou até Hana com passos firmes, mas sem pressa.Quando chegou perto, o movimento da rua parecia ter diminuído ao redor deles.Ele a observou por um segundo.— Está tudo resolvido.Hana respirou fundo, como se finalmente conseguisse soltar o ar preso desde que viu o carro.— Obrigada…Ela falou baixo, sincera.— De verdade.Xavier apenas assentiu levemente.— Volte ao trabalho.Hana ajeitou o avental, ainda tentando normalizar o coração acelerado.— Sim, senhor… quer dizer, Xavier.Ela deu um pequeno sorriso nervoso, virou-se e voltou para dentro da lanchonete.Como se o mundo tivesse voltado ao normal.Mas não tinha.Xavier ficou parado por mais alguns segundos olhando a porta por onde ela entrou.Depois virou-se lentamente, entrou no próprio carro e foi embora.Sem dizer mais nada.Só que, pela primeira vez desde o início de tudo…o silêncio dele não era vazio.Era decisão.A porta da casa bateu com força quando Hana entrou.— Mãe?A voz dela saiu alta, urgente.Por algun
O carro de Xavier parou poucos minutos depois em frente à casa de shows onde Hana trabalhava.Era cedo, o movimento ainda não tinha começado, mas já havia funcionários entrando e saindo para preparar tudo para a noite.Ele desceu sozinho.Sem pressa.Sem alterar a expressão.Ao entrar, o gerente o reconheceu imediatamente e ficou visivelmente tenso.— Senhor Lockwood… boa tarde.Xavier apenas assentiu.— Preciso falar com você.O gerente engoliu seco.— Claro, por aqui.Eles foram até uma sala pequena nos fundos.Xavier fechou a porta atrás de si.Silêncio.Ele não sentou.— Quero informações sobre um cliente frequente daqui.O gerente ficou ainda mais nervoso.— Claro… quem?Xavier falou o nome.— Marcos Vilela.A expressão do gerente mudou na hora.— Ah… ele.Xavier percebeu.— Você o conhece.— Sim… ele vem sempre em dias de movimento maior.Xavier cruzou os braços.— E o comportamento dele?O gerente hesitou.— Ele… é insistente. Mas nunca chegou a causar um problema grande aqui d
Hana desceu as escadas devagar, ainda ajustando a mochila nas costas.O cabelo estava preso de forma simples, sem grandes cuidados além do básico. Ela parecia pronta para mais um dia comum — como se nada tivesse mudado na noite anterior.Mas a casa não era mais a mesma… e nem a vida dela.Quando entrou na sala, encontrou Fernanda e Xavier já acordados.Fernanda foi a primeira a sorrir.— Bom dia, Hana.— Bom dia, senhora… — ela respondeu automaticamente, depois corrigiu com um leve constrangimento — bom dia, Fernanda.Fernanda soltou uma risadinha.— Melhorando.Xavier observou em silêncio, encostado no sofá.— Bom dia.— Bom dia, senhor — ela respondeu, depois fez uma pausa rápida — digo… Xavier.Ele apenas assentiu.— Você acorda cedo.— Sim — ela respondeu enquanto ajeitava a alça da mochila — eu preciso sair mais cedo hoje.Fernanda franziu o cenho.— Não vai tomar café da manhã?Hana balançou a cabeça.— Não precisa, eu como alguma coisa por lá.Xavier interrompeu com firmeza cal
Depois da assinatura e das últimas formalidades, o clima dentro do cartório começou a se desfazer lentamente.Os funcionários recolhiam os papéis, o juiz já se despedia e o ambiente voltava ao normal, como se nada tão importante tivesse acabado de acontecer ali.Mas para Hana… tudo parecia diferente.Ela ainda olhava discretamente para a aliança em seu dedo.Um gesto simples, quase automático, como se estivesse tentando se convencer de que aquilo era real.Xavier observava em silêncio.Fernanda foi a primeira a quebrar o momento.— Bom… agora vocês precisam descansar um pouco.Sorriu, olhando para os dois.— Ou pelo menos fingir que vão.Hana soltou um riso baixo, sem graça.— Eu ainda tenho um pouco de dificuldade com essa parte.Xavier respondeu com calma:— Eu não costumo fingir.Fernanda arqueou a sobrancelha.— Eu percebi.O advogado fechou a pasta.— Senhor Xavier, os documentos finais serão enviados para o registro ainda hoje.— Certo.Ele então olhou para Hana.— Seu contrato
Hana chegou em casa pouco depois do meio-dia.Assim que entrou, encontrou a mãe esperando por ela na sala.Cláudia abriu um sorriso emocionado.— Chegou, minha filha.— Cheguei, mãe.As duas seguiram para o quarto.O vestido já estava pendurado, cuidadosamente esticado para não amassar.Cláudia olhou para ele por alguns segundos.— Vamos começar?Hana sorriu.— Vamos.Ela tomou um banho demorado.Quando saiu, vestiu uma roupa leve enquanto a mãe separava tudo o que seria usado.Pouco depois, Hana colocou o vestido.Era simples, elegante e valorizava sua beleza sem exageros.Cláudia ficou alguns segundos sem conseguir dizer uma palavra.Os olhos se encheram de lágrimas.— Você está...Ela respirou fundo.— Linda.Hana sorriu, emocionada.— Obrigada, mãe.Cláudia aproximou-se.Com todo o carinho do mundo, penteou os longos cabelos pretos da filha.Prendeu apenas uma pequena parte com a delicada presilha que Fernanda havia enviado.Depois ajeitou o vestido mais uma vez.— Pronto.Hana ol
Mais tarde, já depois das oito da noite, Hana chegou em casa.O corpo parecia pedir descanso a cada passo.Ela entrou em silêncio, colocou a mochila sobre a cadeira e levou a grande caixa branca para o quarto.Fechou a porta com cuidado.Sentou-se na cama e abriu a caixa novamente.Passou a mão sobre o vestido branco, admirando o tecido delicado.Ao lado estavam a sandália, os acessórios para o cabelo e a nécessaire que Fernanda havia preparado.Um leve sorriso apareceu em seu rosto.Poucos segundos depois, ouviu uma batida suave na porta.— Posso entrar?— Claro, mãezinha.Cláudia entrou devagar.Ao ver a caixa aberta sobre a cama, sorriu com os olhos marejados.— Que caixa é essa?Hana olhou para o vestido.— É o vestido que vou usar amanhã para casar.A mãe aproximou-se lentamente.Pegou o vestido com todo o cuidado do mundo.Seus dedos acariciaram o tecido por alguns instantes.Ela sorriu, mas logo os olhos se encheram de lágrimas.— Pelo menos... eu vou poder arrumar a minha filh







