FAZER LOGINXavier ficou alguns segundos em silêncio.
O tipo de silêncio que não era dúvida… era resistência. Ele andou até a janela, olhando a cidade lá fora como se aquilo fosse mais simples do que a conversa atrás dele. Mas não era. — Você quer que eu me case com uma mulher que eu nunca vi… por um ano… porque você decidiu isso? — a voz dele saiu baixa, controlada demais. Fernanda não respondeu de imediato. Ela apenas observou o filho. — Não foi “decidido do nada”, Xavier. Ele virou o rosto devagar. — Ah, não? Ela deu mais um passo à frente. — Eu vi alguém hoje que… não pede nada de ninguém. Não tenta ganhar nada de ninguém. Só ajuda. Xavier soltou uma risada curta. — Isso não é motivo pra casamento. — Não — ela concordou. — Mas é motivo pra eu querer que você conheça ela. Ele passou a mão pelo cabelo, já claramente perdendo a paciência. — Você está misturando coisas. Uma mulher te ajudou e você resolveu transformar isso em um contrato de casamento. Fernanda manteve a voz firme. — Eu resolvi te dar uma chance. Ele olhou diretamente para ela. — Uma chance do quê? — De viver alguma coisa fora desse mundo que você construiu sozinho. Aquilo deixou o ar mais pesado. Xavier ficou imóvel por um instante. Depois, deu alguns passos até a mesa, apoiando as mãos nela de novo, agora mais contido. — E se eu disser não? Fernanda não hesitou. — Eu vou continuar pedindo. Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se segurando. — Isso é loucura. — Pode ser. Silêncio. Xavier respirou fundo, olhando para o teto por um momento, como se estivesse tentando encontrar lógica onde não tinha. — E essa mulher… Hana… ela sabe quem eu sou? — Não. — E mesmo assim você quer me colocar dentro da vida dela. Fernanda assentiu. — Sim. Ele soltou o ar devagar pelo nariz, irritado, mas agora com algo diferente por baixo disso… curiosidade, mesmo que ele não admitisse. — Você realmente acredita que isso vai funcionar. — Eu acredito que vocês dois podem se surpreender. Ele riu sem humor. — Eu não me surpreendo. Fernanda olhou firme. — Então talvez esteja na hora. Xavier ficou em silêncio novamente. Longo. Pesado. E quando falou, a voz já não vinha só de irritação… vinha de decisão controlada. — Se isso for acontecer… não vai ser do jeito que você quer. Fernanda franziu o cenho. — O que isso quer dizer? Ele pegou o celular sobre a mesa, girando entre os dedos. — Quer um ano de casamento? Ela assentiu. — Então vai ser um contrato real. Ele a encarou. — Sem fantasia. Sem romantização. Sem expectativas. Fernanda não recuou. — Se ela aceitar, eu aceito. Xavier ficou alguns segundos olhando para o vazio, como se já estivesse calculando tudo na cabeça. Depois, falou baixo: — Eu quero ver essa mulher. Fernanda respirou fundo, como se finalmente tivesse ouvido o primeiro passo. — Eu vou marcar. O carro parou em frente à mansão Lockwood como se marcasse uma linha invisível entre dois mundos. Hana ficou alguns segundos olhando pela janela antes de descer. O lugar era grande demais. Imponente demais. Tudo parecia pensado para impressionar — e, ao mesmo tempo, intimidar. Fernanda caminhou ao lado dela, tranquila, como se aquilo fosse apenas mais uma etapa normal do dia. Mas Hana não estava tranquila. O coração batia mais rápido. Ela alisou levemente o vestido preto que Fernanda tinha escolhido com ela — elegante, simples, mas perfeitamente ajustado. O cabelo recém-feito caía liso e longo até quase o quadril, brilhando sob a luz. As unhas feitas, a maquiagem leve, tudo parecia outro mundo comparado à rotina dela. E, ainda assim… ela se sentia deslocada. Quando entraram na casa, o silêncio parecia ainda maior. Foi então que ele apareceu. Xavier Lockwood. Alto. Imponente. Presença forte demais para o espaço ao redor. Camisa social parcialmente aberta, revelando parte das tatuagens no peito. Os braços marcados pelo desenho que subia pela pele. O olhar dourado, fixo, direto. Hana parou no mesmo instante. E, por um segundo, o mundo pareceu ficar silencioso demais. Ele também parou. Os dois ficaram se encarando como se estivessem tentando entender se aquilo era real. Fernanda, ao lado, apenas observava com um leve sorriso satisfeito — como se já soubesse que esse momento aconteceria exatamente assim. Hana foi a primeira a reagir. Respirou fundo e deu um passo à frente. — Você é… Xavier Lockwood? Ele piscou uma vez, voltando à realidade. — E você é Hana Monteiro. Ela assentiu, um pouco nervosa. — Muito prazer. Estendeu a mão com leve hesitação. Ele apertou com firmeza, mas sem pressa. — Senhor Xavier Lockwood — ela completou automaticamente, por educação. Ele soltou a mão dela depois de um segundo a mais do que o necessário. — Minha mãe falou que você salvou ela. Hana baixou levemente o olhar. — Não foi nada, senhor. Eu só fiz o que qualquer pessoa faria. Fernanda soltou uma pequena risada. — Não foi bem assim, querida. Você sabe disso. — Está tudo bem, senhora — Hana respondeu rapidamente, educada. Xavier observou a troca em silêncio por um instante. Depois, cruzou levemente os braços. — Ela ficou bastante… entusiasmada com você. Hana olhou para ele, sem entender bem onde aquilo ia dar. — Tanto que te fez uma proposta. O ar mudou de novo. Hana respirou fundo. — Eu… pensei muito sobre isso — ela disse, com honestidade. Xavier ficou imóvel, analisando cada palavra. Ela continuou: — Mas eu quero deixar algumas coisas claras. Ele não interrompeu. — Eu não quero exposição. Não quero aparecer em redes sociais. Não quero ser colocada em sociedade nenhuma. Fernanda apenas ouviu em silêncio, sem interferir. Hana manteve o olhar firme agora, mesmo nervosa. — E eu não quero dinheiro, nem nada disso. Ela apontou de leve para si mesma, como se estivesse lembrando a própria realidade. — Eu trabalho. Em várias funções. E vou continuar trabalhando. Xavier observava sem piscar. Hana respirou fundo de novo. — Eu pensei muito no que sua mãe falou… sobre casamento. Silêncio. — E… tudo bem. Se você quiser, eu caso. Por um segundo, ninguém falou nada. Nem Fernanda. Nem Xavier. Ele estreitou levemente os olhos. — E por que você aceitaria casar com um estranho? Hana não desviou o olhar. A voz dela saiu mais baixa agora, mas firme. — Porque hoje eu passei por muita coisa, senhor. Pausa curta. — Muita coisa. Ela engoliu seco. — E hoje eu só quero paz. O silêncio que veio depois foi diferente. Mais pesado. Mais verdadeiro. Hana manteve o olhar nele, sem recuar. — Então… se o senhor realmente quiser isso, eu estou aqui. Uma pausa. — Se não quiser… tudo bem também. E naquele instante, pela primeira vez, Xavier não respondeu imediatamente.Xavier caminhou até Hana com passos firmes, mas sem pressa.Quando chegou perto, o movimento da rua parecia ter diminuído ao redor deles.Ele a observou por um segundo.— Está tudo resolvido.Hana respirou fundo, como se finalmente conseguisse soltar o ar preso desde que viu o carro.— Obrigada…Ela falou baixo, sincera.— De verdade.Xavier apenas assentiu levemente.— Volte ao trabalho.Hana ajeitou o avental, ainda tentando normalizar o coração acelerado.— Sim, senhor… quer dizer, Xavier.Ela deu um pequeno sorriso nervoso, virou-se e voltou para dentro da lanchonete.Como se o mundo tivesse voltado ao normal.Mas não tinha.Xavier ficou parado por mais alguns segundos olhando a porta por onde ela entrou.Depois virou-se lentamente, entrou no próprio carro e foi embora.Sem dizer mais nada.Só que, pela primeira vez desde o início de tudo…o silêncio dele não era vazio.Era decisão.A porta da casa bateu com força quando Hana entrou.— Mãe?A voz dela saiu alta, urgente.Por algun
O carro de Xavier parou poucos minutos depois em frente à casa de shows onde Hana trabalhava.Era cedo, o movimento ainda não tinha começado, mas já havia funcionários entrando e saindo para preparar tudo para a noite.Ele desceu sozinho.Sem pressa.Sem alterar a expressão.Ao entrar, o gerente o reconheceu imediatamente e ficou visivelmente tenso.— Senhor Lockwood… boa tarde.Xavier apenas assentiu.— Preciso falar com você.O gerente engoliu seco.— Claro, por aqui.Eles foram até uma sala pequena nos fundos.Xavier fechou a porta atrás de si.Silêncio.Ele não sentou.— Quero informações sobre um cliente frequente daqui.O gerente ficou ainda mais nervoso.— Claro… quem?Xavier falou o nome.— Marcos Vilela.A expressão do gerente mudou na hora.— Ah… ele.Xavier percebeu.— Você o conhece.— Sim… ele vem sempre em dias de movimento maior.Xavier cruzou os braços.— E o comportamento dele?O gerente hesitou.— Ele… é insistente. Mas nunca chegou a causar um problema grande aqui d
Hana desceu as escadas devagar, ainda ajustando a mochila nas costas.O cabelo estava preso de forma simples, sem grandes cuidados além do básico. Ela parecia pronta para mais um dia comum — como se nada tivesse mudado na noite anterior.Mas a casa não era mais a mesma… e nem a vida dela.Quando entrou na sala, encontrou Fernanda e Xavier já acordados.Fernanda foi a primeira a sorrir.— Bom dia, Hana.— Bom dia, senhora… — ela respondeu automaticamente, depois corrigiu com um leve constrangimento — bom dia, Fernanda.Fernanda soltou uma risadinha.— Melhorando.Xavier observou em silêncio, encostado no sofá.— Bom dia.— Bom dia, senhor — ela respondeu, depois fez uma pausa rápida — digo… Xavier.Ele apenas assentiu.— Você acorda cedo.— Sim — ela respondeu enquanto ajeitava a alça da mochila — eu preciso sair mais cedo hoje.Fernanda franziu o cenho.— Não vai tomar café da manhã?Hana balançou a cabeça.— Não precisa, eu como alguma coisa por lá.Xavier interrompeu com firmeza cal
Depois da assinatura e das últimas formalidades, o clima dentro do cartório começou a se desfazer lentamente.Os funcionários recolhiam os papéis, o juiz já se despedia e o ambiente voltava ao normal, como se nada tão importante tivesse acabado de acontecer ali.Mas para Hana… tudo parecia diferente.Ela ainda olhava discretamente para a aliança em seu dedo.Um gesto simples, quase automático, como se estivesse tentando se convencer de que aquilo era real.Xavier observava em silêncio.Fernanda foi a primeira a quebrar o momento.— Bom… agora vocês precisam descansar um pouco.Sorriu, olhando para os dois.— Ou pelo menos fingir que vão.Hana soltou um riso baixo, sem graça.— Eu ainda tenho um pouco de dificuldade com essa parte.Xavier respondeu com calma:— Eu não costumo fingir.Fernanda arqueou a sobrancelha.— Eu percebi.O advogado fechou a pasta.— Senhor Xavier, os documentos finais serão enviados para o registro ainda hoje.— Certo.Ele então olhou para Hana.— Seu contrato
Hana chegou em casa pouco depois do meio-dia.Assim que entrou, encontrou a mãe esperando por ela na sala.Cláudia abriu um sorriso emocionado.— Chegou, minha filha.— Cheguei, mãe.As duas seguiram para o quarto.O vestido já estava pendurado, cuidadosamente esticado para não amassar.Cláudia olhou para ele por alguns segundos.— Vamos começar?Hana sorriu.— Vamos.Ela tomou um banho demorado.Quando saiu, vestiu uma roupa leve enquanto a mãe separava tudo o que seria usado.Pouco depois, Hana colocou o vestido.Era simples, elegante e valorizava sua beleza sem exageros.Cláudia ficou alguns segundos sem conseguir dizer uma palavra.Os olhos se encheram de lágrimas.— Você está...Ela respirou fundo.— Linda.Hana sorriu, emocionada.— Obrigada, mãe.Cláudia aproximou-se.Com todo o carinho do mundo, penteou os longos cabelos pretos da filha.Prendeu apenas uma pequena parte com a delicada presilha que Fernanda havia enviado.Depois ajeitou o vestido mais uma vez.— Pronto.Hana ol
Mais tarde, já depois das oito da noite, Hana chegou em casa.O corpo parecia pedir descanso a cada passo.Ela entrou em silêncio, colocou a mochila sobre a cadeira e levou a grande caixa branca para o quarto.Fechou a porta com cuidado.Sentou-se na cama e abriu a caixa novamente.Passou a mão sobre o vestido branco, admirando o tecido delicado.Ao lado estavam a sandália, os acessórios para o cabelo e a nécessaire que Fernanda havia preparado.Um leve sorriso apareceu em seu rosto.Poucos segundos depois, ouviu uma batida suave na porta.— Posso entrar?— Claro, mãezinha.Cláudia entrou devagar.Ao ver a caixa aberta sobre a cama, sorriu com os olhos marejados.— Que caixa é essa?Hana olhou para o vestido.— É o vestido que vou usar amanhã para casar.A mãe aproximou-se lentamente.Pegou o vestido com todo o cuidado do mundo.Seus dedos acariciaram o tecido por alguns instantes.Ela sorriu, mas logo os olhos se encheram de lágrimas.— Pelo menos... eu vou poder arrumar a minha filh







