INICIAR SESIÓNO silêncio tomou conta da sala.
Xavier continuou olhando para Hana, tentando entender a serenidade com que ela tinha falado. Ela não parecia encantada pela mansão. Não parecia impressionada com o sobrenome Lockwood. Muito menos interessada no dinheiro. Ela apenas parecia... cansada. Ele puxou a cadeira à sua frente. — Senta. Hana olhou rapidamente para Fernanda, que apenas fez um gesto discreto com a cabeça. Ela se sentou. Xavier também. Por alguns segundos, ele apenas a observou. — Minha mãe disse que você trabalha em dois lugares. — Sim, senhor. — Quais? — Numa floricultura durante o dia e numa lanchonete à noite. — E ainda consegue sorrir desse jeito? Ela deu um sorriso tímido. — A gente aprende. Ele apoiou os cotovelos sobre os joelhos. — Você tem família? — Não mais. A resposta foi tão curta que ele percebeu que havia uma história ali. Mas não insistiu. — E por que disse que hoje passou por muita coisa? Hana respirou fundo. — São problemas meus. — Entendo. Ela sorriu de leve. — Prefiro não trazer isso para cá. Xavier assentiu. — Justo. Fernanda observava a conversa em silêncio, surpresa por ver o filho falando com tanta calma. Ele normalmente encerraria aquela conversa em menos de cinco minutos. Mas não estava fazendo isso. Depois de alguns instantes, Xavier voltou a falar. — Se esse casamento acontecer... Hana ergueu os olhos. — Vai ser um casamento por contrato. Ela assentiu. — Eu imaginei. — Um ano. — Certo. — Cada um terá seu quarto. — Tudo bem. — Você continua trabalhando, se isso realmente é importante para você. Ela sorriu pela primeira vez de forma mais espontânea. — Obrigada. — Mas haverá regras. — Quais? — Respeito acima de tudo. Nada de entrevistas, nada de exposição da minha vida, nada de usar meu nome para conseguir vantagens. Hana respondeu sem pensar duas vezes: — Eu também tenho uma regra. Ele arqueou uma sobrancelha. — Qual? — Não tente controlar quem eu sou. Aquilo fez Xavier encará-la por alguns segundos. Ninguém jamais tinha falado com ele daquela maneira. Sem medo. Sem arrogância. Apenas com sinceridade. Ela continuou: — Eu não quero mudar o senhor... e também não quero que tente me mudar. Xavier permaneceu em silêncio. Depois, um pequeno sorriso quase imperceptível apareceu no canto de sua boca. Fernanda arregalou os olhos. Fazia muito tempo que não via o filho esboçar qualquer sorriso durante uma conversa. Ele estendeu a mão novamente. — Então... acho que temos um acordo. Hana olhou para a mão dele. Respirou fundo. E apertou sua mão. — Temos um acordo. Fernanda levou as mãos à boca, emocionada. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela tentou disfarçar, mas era impossível. Depois de tantos anos vendo o filho rejeitar qualquer possibilidade de relacionamento, ela finalmente tinha conseguido fazê-lo dar um passo que jamais imaginou que ele daria. O jantar seguiu em um clima surpreendentemente tranquilo. Fernanda observava os dois conversarem com discrição. Xavier fazia perguntas objetivas. Hana respondia com a mesma sinceridade de sempre. Depois de alguns minutos, ele pousou os talheres sobre o prato. — Então... daqui a dois dias nos casamos. Hana apenas assentiu. — Tudo bem. — Você pode me entregar um documento seu? Vou pedir para o jurídico providenciar toda a documentação. Ela abriu a bolsa, retirou a identidade e entregou a ele. Xavier conferiu rapidamente. — Você tem vinte e cinco anos. — Sim, senhor. Ele fechou o documento. — Eu tenho quarenta. — Tudo bem. A resposta foi tão natural que ele ergueu os olhos para ela. Nem surpresa. Nem julgamento. Apenas um "tudo bem". — Você gostaria de alguma coisa específica no casamento? — perguntou. Hana balançou a cabeça. — Não, senhor. Só preciso que me informe o horário. — O horário? — Sim. Assim eu aviso ao meu patrão. Vou ao casamento e depois volto para o trabalho. Dobro o plantão. Xavier franziu a testa. — Você dobra muito plantão? — Às vezes, senhor. — E esse plantão vai até que horas? — Depende do dia. Ele apoiou os braços na mesa. — Porque nós podemos ter um casamento por contrato... mas eu não vou gostar de saber que a minha esposa está virando madrugada na rua. Hana sorriu de leve. — Senhor... eu tenho um trabalho duas vezes por semana que é justamente de madrugada. Fernanda arregalou os olhos. — Como assim? — Trabalho numa casa de shows. Antes que qualquer um dissesse alguma coisa, Hana completou rapidamente: — Show de pagode, tá? Antes que o senhor pense que eu trabalho como stripper. Xavier permaneceu sério. — Eu não falei nada. Ela sorriu sem graça. — Eu sei... só quis deixar claro. — O que você faz lá? — Sou garçonete. Ela tomou um gole de água antes de continuar. — Saio de lá por volta das seis da manhã. Vou para casa, tomo banho, troco de roupa e sigo para a lanchonete, onde a senhora Fernanda me encontrou. Trabalho lá até o fim da tarde. Depois vou para outro emprego e fico até umas dez da noite. Xavier a encarava em silêncio. — E nos dias da casa de shows? — Viro a noite. Fernanda levou a mão à boca. — Minha filha... A voz dela saiu cheia de preocupação. — Você trabalha tudo isso? Por quê? Hana respondeu com simplicidade. — Eu ajudo minha mãe. Ela precisa. Depois voltou o olhar para Xavier. — E, como o senhor disse... eu não quero o seu dinheiro. Ele permaneceu ouvindo. — O senhor falou que não quer que eu use seu sobrenome para conseguir vantagens. Ela assentiu. — Fique tranquilo. Eu não preciso disso. Respirou fundo antes de continuar. — A vida inteira eu trabalhei. Durante muito tempo eu virava quatro noites por semana. Fernanda já demonstrava preocupação antes mesmo do restante da frase. — Até que meu corpo não aguentou mais. Hana manteve a voz calma. — Desenvolvi anemia. Fiquei desnutrida. Dormia cerca de duas horas por dia nessas semanas. O silêncio caiu sobre a mesa. — Fiquei muito doente. Ela deu um pequeno sorriso. — Então reduzi para duas noites por semana. Nos outros dias trabalho até umas oito, às vezes dez da noite. Muito raramente fico até seis da manhã. Olhou novamente para Xavier. — Então pode ficar tranquilo. Eu realmente não preciso do seu sobrenome. Ele cruzou os braços. — Como não? Hana respondeu imediatamente. — Podemos casar com separação total de bens. Fernanda olhou surpresa para ela. — Assim o senhor nunca vai pensar que eu me aproximei para herdar alguma coisa. Ela fez uma pequena pausa. — E também não preciso usar o sobrenome Lockwood. Xavier permaneceu em silêncio. — Posso continuar sendo Hana da Silva Monteiro. Ela sorriu discretamente. — Sinceramente... eu nem sei o tamanho do império da família de vocês. Fernanda abaixou os olhos. — Foi a senhora quem me contou um pouco... mas eu nunca pesquisei. Nunca tive curiosidade por dinheiro ou por fama. Os olhos dourados de Xavier continuavam fixos nela. Então ele perguntou: — Se é assim... por que aceitou casar comigo? Hana demorou alguns segundos para responder. — Como eu disse... eu passei por alguns problemas pessoais. Ela respirou fundo. — E andar usando uma aliança de casamento... vai facilitar um pouco a minha vida. Xavier percebeu que havia algo escondido naquela resposta, mas ela claramente não queria contar. — Só isso? — Só isso. Ela deu um pequeno sorriso. — E nem precisa comprar uma aliança cara. Fernanda a olhou, surpresa. — Como o casamento é um contrato... e ninguém vai saber quem eu sou... Ela voltou a olhar para Xavier. — Pode comprar a mais simples que encontrar. Sorriu de maneira humilde. — Pode até ser uma bijuteria. — Eu me contento. Levantou discretamente a mão esquerda, como se imaginasse a aliança ali. — Eu só preciso de uma aliança no meu dedo. Xavier permaneceu em silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, ele conhecia alguém que parecia fazer questão de abrir mão de tudo o que o sobrenome Lockwood podia oferecer. E isso, para ele, era mais difícil de compreender do que qualquer contrato de casamento.Xavier caminhou até Hana com passos firmes, mas sem pressa.Quando chegou perto, o movimento da rua parecia ter diminuído ao redor deles.Ele a observou por um segundo.— Está tudo resolvido.Hana respirou fundo, como se finalmente conseguisse soltar o ar preso desde que viu o carro.— Obrigada…Ela falou baixo, sincera.— De verdade.Xavier apenas assentiu levemente.— Volte ao trabalho.Hana ajeitou o avental, ainda tentando normalizar o coração acelerado.— Sim, senhor… quer dizer, Xavier.Ela deu um pequeno sorriso nervoso, virou-se e voltou para dentro da lanchonete.Como se o mundo tivesse voltado ao normal.Mas não tinha.Xavier ficou parado por mais alguns segundos olhando a porta por onde ela entrou.Depois virou-se lentamente, entrou no próprio carro e foi embora.Sem dizer mais nada.Só que, pela primeira vez desde o início de tudo…o silêncio dele não era vazio.Era decisão.A porta da casa bateu com força quando Hana entrou.— Mãe?A voz dela saiu alta, urgente.Por algun
O carro de Xavier parou poucos minutos depois em frente à casa de shows onde Hana trabalhava.Era cedo, o movimento ainda não tinha começado, mas já havia funcionários entrando e saindo para preparar tudo para a noite.Ele desceu sozinho.Sem pressa.Sem alterar a expressão.Ao entrar, o gerente o reconheceu imediatamente e ficou visivelmente tenso.— Senhor Lockwood… boa tarde.Xavier apenas assentiu.— Preciso falar com você.O gerente engoliu seco.— Claro, por aqui.Eles foram até uma sala pequena nos fundos.Xavier fechou a porta atrás de si.Silêncio.Ele não sentou.— Quero informações sobre um cliente frequente daqui.O gerente ficou ainda mais nervoso.— Claro… quem?Xavier falou o nome.— Marcos Vilela.A expressão do gerente mudou na hora.— Ah… ele.Xavier percebeu.— Você o conhece.— Sim… ele vem sempre em dias de movimento maior.Xavier cruzou os braços.— E o comportamento dele?O gerente hesitou.— Ele… é insistente. Mas nunca chegou a causar um problema grande aqui d
Hana desceu as escadas devagar, ainda ajustando a mochila nas costas.O cabelo estava preso de forma simples, sem grandes cuidados além do básico. Ela parecia pronta para mais um dia comum — como se nada tivesse mudado na noite anterior.Mas a casa não era mais a mesma… e nem a vida dela.Quando entrou na sala, encontrou Fernanda e Xavier já acordados.Fernanda foi a primeira a sorrir.— Bom dia, Hana.— Bom dia, senhora… — ela respondeu automaticamente, depois corrigiu com um leve constrangimento — bom dia, Fernanda.Fernanda soltou uma risadinha.— Melhorando.Xavier observou em silêncio, encostado no sofá.— Bom dia.— Bom dia, senhor — ela respondeu, depois fez uma pausa rápida — digo… Xavier.Ele apenas assentiu.— Você acorda cedo.— Sim — ela respondeu enquanto ajeitava a alça da mochila — eu preciso sair mais cedo hoje.Fernanda franziu o cenho.— Não vai tomar café da manhã?Hana balançou a cabeça.— Não precisa, eu como alguma coisa por lá.Xavier interrompeu com firmeza cal
Depois da assinatura e das últimas formalidades, o clima dentro do cartório começou a se desfazer lentamente.Os funcionários recolhiam os papéis, o juiz já se despedia e o ambiente voltava ao normal, como se nada tão importante tivesse acabado de acontecer ali.Mas para Hana… tudo parecia diferente.Ela ainda olhava discretamente para a aliança em seu dedo.Um gesto simples, quase automático, como se estivesse tentando se convencer de que aquilo era real.Xavier observava em silêncio.Fernanda foi a primeira a quebrar o momento.— Bom… agora vocês precisam descansar um pouco.Sorriu, olhando para os dois.— Ou pelo menos fingir que vão.Hana soltou um riso baixo, sem graça.— Eu ainda tenho um pouco de dificuldade com essa parte.Xavier respondeu com calma:— Eu não costumo fingir.Fernanda arqueou a sobrancelha.— Eu percebi.O advogado fechou a pasta.— Senhor Xavier, os documentos finais serão enviados para o registro ainda hoje.— Certo.Ele então olhou para Hana.— Seu contrato
Hana chegou em casa pouco depois do meio-dia.Assim que entrou, encontrou a mãe esperando por ela na sala.Cláudia abriu um sorriso emocionado.— Chegou, minha filha.— Cheguei, mãe.As duas seguiram para o quarto.O vestido já estava pendurado, cuidadosamente esticado para não amassar.Cláudia olhou para ele por alguns segundos.— Vamos começar?Hana sorriu.— Vamos.Ela tomou um banho demorado.Quando saiu, vestiu uma roupa leve enquanto a mãe separava tudo o que seria usado.Pouco depois, Hana colocou o vestido.Era simples, elegante e valorizava sua beleza sem exageros.Cláudia ficou alguns segundos sem conseguir dizer uma palavra.Os olhos se encheram de lágrimas.— Você está...Ela respirou fundo.— Linda.Hana sorriu, emocionada.— Obrigada, mãe.Cláudia aproximou-se.Com todo o carinho do mundo, penteou os longos cabelos pretos da filha.Prendeu apenas uma pequena parte com a delicada presilha que Fernanda havia enviado.Depois ajeitou o vestido mais uma vez.— Pronto.Hana ol
Mais tarde, já depois das oito da noite, Hana chegou em casa.O corpo parecia pedir descanso a cada passo.Ela entrou em silêncio, colocou a mochila sobre a cadeira e levou a grande caixa branca para o quarto.Fechou a porta com cuidado.Sentou-se na cama e abriu a caixa novamente.Passou a mão sobre o vestido branco, admirando o tecido delicado.Ao lado estavam a sandália, os acessórios para o cabelo e a nécessaire que Fernanda havia preparado.Um leve sorriso apareceu em seu rosto.Poucos segundos depois, ouviu uma batida suave na porta.— Posso entrar?— Claro, mãezinha.Cláudia entrou devagar.Ao ver a caixa aberta sobre a cama, sorriu com os olhos marejados.— Que caixa é essa?Hana olhou para o vestido.— É o vestido que vou usar amanhã para casar.A mãe aproximou-se lentamente.Pegou o vestido com todo o cuidado do mundo.Seus dedos acariciaram o tecido por alguns instantes.Ela sorriu, mas logo os olhos se encheram de lágrimas.— Pelo menos... eu vou poder arrumar a minha filh







