INICIAR SESIÓNHoras Depois
JacarezinhoRony Senegal××××××××××××××××××××××××××××××××××××××"Sou o tipo de cara que falo com todos, ando com poucos e confio somente em Deus."××××××××××××××××××××××××××××××××××××××Fala ae meu povo! Vou me apresentar rapidão pra vocês ter um pouco da ciência de que tipo de cara eu sou. Me chamo Rony Duarte Senegal, tenho trinta e dois anos e já tô nessa "vida" do corre desde que tinha onze anos de idade. Comecei como aviãozinho e pouco a pouco fui subindo na moral, na suavidade e principalmente sem precisar passar por cima de ninguém pra conseguir o que tenho hoje.Sou cria do Jacarezinho e essa comunidade é minha vida sacô!? Perdi minha coroa ainda moleque por volta dos meus dezessete anos, ela tinha câncer de mama e a parada quando foi descoberta tava avançada pra c@cete. Nem sequer deu tempo de correr e fazer uma cirurgia ou lutar por algum recurso. Sou filho único, meu coroa nem sei quem era tá ligado!? Minha coroa morreu levando esse segredo pro túmulo junto com ela. Te falo que em certo momento eu até tentei correr atrás de informes sobre o veiote, mas larguei essa porr@ de mão. Pensei comigo mesmo: Esse filho da put@ abandonou minha coroa de barriga e deu as costas pra nós porque não queria saber de ninguém.Porque agora tenho que correr atrás dele? Se esse filho da put@ nem quis saber se eu vinguei ou se morri. Ele que se fod@ pra lá e eu vivo minha vida na moral como meu Deus permitir.Já fiz muita merd@ nessa vida... muita mesmo... Mas, tenho muita fé no meu Deus e sei que se tô de pé até hoje é porque minha hora ainda não chegou e na moral, Ele ainda deve ter algo melhor do que tudo isso que eu chamo de "vida", mas, que na real eu tô ligado que não passa de ilusão. Quando nós tá arregado é cheio de colete a nossa volta, mas quando nós tá na merd@ ou cai nós percebe que amigo de verdade so é colete a prova de bala.Já puxei cinco anos no sistema quando fui pego pelos carniceiro do BOPE no tempo que eles fizeram a limpa no morro e vou te dizer foi o mesmo que passar cem anos no inferno. Lá nós é tratado como bicho, visto como animal e chutado como cães sarnentos.Dormir? Só se for um em cima do outro ou de pé grudado nas grades como macacos. Comer? Hum... Jogam uma lavagem lá pra nós que eles chamam de comida e que os caras dos recursos humanos falam que é vida de rei. Nem uma quentinha no alumínio eles dão. Sabe porque? Porque eles tão com a antena ligada em tudo e já sabem que pra nós do corre até um pedaço de lixo virá arma lá dentro tá ligado!?Familia? Isso lá dentro não existe, vi muitos parceiro que a mulher pagava o maior p@u pra ele, mas assim que caiu no sistema, o amor acabou e o meu bem nunca existiu... tudo mudou e meu bem passou a ser teus bens pra lá e meus bens pra cá... Na moral, a verdade é uma só...Se quer sobreviver e aumentar teus dias naquela jaula tem que ter grana... Lá dentro a grana é o que faz tua situação melhorar um pouco... faz ter direito a visita íntima com quantas putas quiser, é claro que quanto mais mulher mais caro fica. Com grana liberam celular, um Wi-Fi, TV, frigobar e todas essas porr@s que aqui fora serve só pra nós sobreviver, lá dentro vira luxo meu parceiro.Conheço Badaue desde que era moleque, crescemos juntos e aprendemos tudo no crime um do lado do outro. Não somos irmão de sangue, mas somos brother de alma sacô? Por ele eu não tinha ficado um dia naquele inferno, mas eu quis sair de boa e tive paciência até o advogado conseguir diminuir a minha pena que era de vinte anos. Com um jeitinho bem carinhoso eles convenceram o juiz a me liberar e hoje tô aqui de boa de volta a vida loka.Porque não adianta mermão,, depois que nós conhecesse esse lance do corre essa porra se torna um vício do caralho... dinheiro fácil, regalia, vida boa, mulher de primeira na nossa cola e tudo de melhor que o dinheiro pode comprar. Mas, também tem o medo de morrer, de cair numa tocaia, ser fuzilado, esquartejado ou cair no sistema que acompanha nós desde sempre.Enfim... O certo é que dou a minha vida pela do Badaue se for preciso, mas também quando ele faz merda e tenta fo.der tudo como agora chamo ele na chincha e o encaro sem medo. Sou conhecedor das lei e dos mandamento do tráfico, mas também sou um sujeito que corre pelo certo, caminha na transparência e luta pra cima do que acredita.Badaue diz que sou um put@ de um sentimental do c@ralho que fica todo emocionado com o morro, os morador e que não pode ver uma criança que se derrete todo. Diz também que nem pareço ser bandido ou traficante, quem olha pra minha cara nem acredita que já fiz muito sangue jorrar, muito neguinho se mijar e c@gar todinho implorando por misericórdia pra não morrer.Talvez ele tenha razão e eu esteja no lugar errado, no movimento errado... Mas, o que posso fazer se preciso sobreviver e esse foi o único meio rápido e fácil de ter grana pra tentar ajudar minha coroa na doença, pra pôr comida na mesa e nós não morrer de fome?Sei que minha coroa não era a favor da minha entrada nesse mundo, ela chegou a dizer várias vezes e se ajoelhar na minha frente implorando pra eu sair do tráfico. Mas, não dava mais... eu já tava enfiado até as tampa no corre, sabia de cabo a r@bo como tudo funcionava na boca, tava ganhando dinheiro a rodo que nem água... ouvir ela sempre implorar chorando pra eu sair me deixava m@l pra c@ralho. Nunca gostei de ver nenhuma mulher sofrendo, muito menos minha coroa, a que me colocou no mundo e fez de um tudo até quando tinha saúde pra me oferecer o de melhor.Entrei nessa vida por safadeza, porque eu tinha pressa de conseguir as coisas e não por falta de quem me ensinasse o certo. Mesmo ela tendo pouco estudo sempre foi uma mulher digna, trabalhadora e de muita fé. O pouco do lado bom que tenho dentro de mim e da consideração com as outras pessoas aprendi com ela tá ligado!?Até hoje lembro das últimas palavras dela deitada naquela cama, toda magrinha, careca e usando um lenço do Mengão na cabeça... enquanto segurava minha mão com lágrimas nos olhos antes do aparelho apitar e ela fechar os olhos de vez dessa Terra.— Tenho certeza que algum dia você vai sair dessa vida meu filho e vai ser um homem de bem... vai ter uma família, filhos, uma boa esposa que te ama de verdade e que será tua companheira até o fim.Essas foram suas últimas palavras e logo em seguida o m@ldito aparelho cardíaco apitou e ela se foi. Eu ainda segurava sua mão e a abraçava como se ela pudesse voltar. Mas, não... minha coroa tinha ido embora de vez... mas, antes de ir ainda me abençoou com essas palavras que carrego comigo até hoje.Sei que isso é difícil de acontecer, porque onde que uma mulher boa, de bons sentimentos vai querer se meter e tentar modificar um traficante que carrega tantas mortes nas costas? Só mesmo na cabeça da minha coroa, que Deus a tenha num bom lugar.Enfim... voltando a parada que rolou à horas atrás com a maluquinha da Flor... Ô menina linda viu... mas, doidinha... doidinha..."Penso nela sorrindo e balançando a cabeça."Ela saiu daqui como uma louca e nem deu tempo pra nada. Mandei nossos fiel fazer a ronda pelos lugares mais frequentados aqui da Zona Norte do Rio de Janeiro e nada de encontrar ela. Não dá pra entender como essa menina conseguiu escapar tão rápido desse jeito, a maluquinha parece até filha do The Flash de tão ligeira que é pra correr. Se fosse homem até dava pra entrar nos corre com nós facinho. Até fiquei no encalço do táxi durante uma cota de tempo, mas fui fechado por um caminhão e perdi eles de vista.Conheço a Flor desde moleca quando o finado RK, que Deus ou o capeta o tenha né, ainda era o chefe e tudo andava nos conforme na comunidade. Eu ainda era soldado e tava subindo de cargo na boca pouco a pouco agindo na transparência e na manhã do gato.Flor sempre foi uma garota de bom coração e muito preocupada com todos nós, principalmente com o Badaue, mesmo ele não merecendo. Sempre fomos amigos, sempre cuidei muito dela como se fosse minha própria irmã e até impedi dela tirar a própria vida assim que soube da morte do RK daquele jeito que nem gosto de lembrar. Até hoje ninguém sabe quem fez isso e te falo que é bem melhor assim. Perder o pai daquele jeito não é pra qualquer um e consigo entender porque Flor ficou tão desesperada quando soube de tudo pelos noticiários da TV tadinha.Me preocupo muito com ela e por isso nem consegui pregar os olhos essa noite tentando rastrear onde ela tinha se escondido. Essa cidade é o bicho e ficar rodando por aí não é pra qualquer um não sacou?Ainda são quatro da madrugada e os morador de bem já tão tudo saindo pra pegar no batente, porque o povo pensa que favela é lugar só de marginal, mas geral tá muito enganado... Comunidade é lugar também de gente de bem, de família de respeito, que anda pelo certo e foge do errado. Mas, que as vezes tá aqui por falta de condição, por falta de ajuda do governo ou muitas vezes porque se sente mais protegido por um traficante do que pelos fardado do asfalto que só sobe aqui largando o aço pra cima de geral matando a torta e a direita dizendo que geral é traficante só pra mostrar serviço pros graduado.Geral fazendo suas correria da vida na moral, enquanto tô aqui em cima da minha moto seguindo direto pra fortaleza do Badaue. Aquele filho de uma cadela encheu o tampo de rabo de galo e cheirou até não poder mais depois da merda que rolou ontem com o moleque.Se bem que depois de muito pensar até que algumas palavras que ele disse faz sentido, até tentamos liberar o moleque, mas a mãe do garoto e geral tava numa adrenalina do c@ralho e justo na hora que ela ia pegar o garoto aqueles filho de uma puta da PM chegou já largando o aço pra cima de nós sem dá tempo pra nada.Na real, eram eles ou nós naquela hora. Certo que nada justifica assaltar no asfalto e ainda por cima roubar trabalhador. Nunca nós fizemos isso e logo na primeira vez "kaboom" deu a merda que deu. Essa parada ainda vai longe pra caralho, a morte do garoto tá rodando em tudo quanto é lugar, até nos estrangeiro já tão anunciando o que rolou.Isso é bom?Isso é uma desgraça pra nós do movimento, porque tudo o que nós menos quer é ser visado e ficar chamando atenção dos cana. Avisei pro Animal que isso ia dar merda, mas ele com essa porra de querer libertar o parceiro dele Ferrugem do sistema e precisar de vários carros pra fazer isso acabou nos metendo nessa confusão da porra.Digo parceiro dele, porque não confio e nunca confiei nesse cara. Mas, fazer o que né!? Nós vivemos debaixo da hierarquia e da lei da favela, então se quero me manter vivo tenho que baixar a orelha e fazer vista grossa pras merdas que vejo "Animal" fazer por aí.Mas, com a Flor a parada é diferente. Por conta dele a garota tá por aí sem dinheiro, sozinha e correndo perigo de aparecer alguém pra fazer alguma maldade com ela. E se alguma coisa acontecer com ela, o culpado vai pagar muito caro.Dias atuaisCabo Frio— Mamãe, mamãe... — o belo menino de olhos claros corria desesperado com seu fiel amigo nos braços — O que foi meu amor? Por que esses gritos? — Zaya solta as ferramentas que usava para trocar o pneu de sua moto no chão — O "espuma" tá estranho. — o pequeno fala assustado— Como assim estranho? — Zaya fala curioso enquanto limpava as mãos — Ele caiu do telhado e não consegue mais levantar. Ele vai morrer mamãe? — o pequeno pergunta já fungando— Calma filho, tudo vai ficar bem. — Zaya acaricia o rosto do seu pequeno na tentativa de acalma-lo — Vem, vamos levá-lo no veterinário do centro da cidade! — o pequeno começa a chorar — Não chora meu amor, tudo vai ficar bem.Zaya segura na mão do filho Luiz Fernando que carrega seu gatinho de estimação, chamado Espuma, no colo. Luiz segue para o carro, enquanto Zaya pega sua bolsa com documentos, carteira, a chave do carro e fecha toda à casa. Desde que Animal foi preso e ela descobriu estar grávida se afastou complet
NarradorAnimal chega desesperado no morro e bate de frente com JC que logo diz:— A Ninja saiu do morro faz uma cota já patrão e pelo visto foi pra nunca mais voltar. — JC fala— Por que tá dizendo isso? — Animal pergunta agitado— Porque ela levou uma mala no carona e uma mochila bem cheia nas costas. Com certeza ela foi pra outro lugar, só tava mesmo no aguarde da Flor viajar pra fazer isso.Animal sai correndo em direção à casa onde Ninja ficava e quando chega sobe direto para o quarto em busca de respostas. Abre todas as gavetas da cômoda e dos armários, mas como ele pensava estava tudo vazio. Ela realmente foi embora. Animal cai sentado numa cadeira de madeira antiga que tinha ao lado da porta e fica paralisado, como tivesse tive a pior das notícias. Pouco tempo depois Senegal chega correndo no quarto e o vê ainda na mesma posição de minutos atrás. Vê uma folha na não direita do amigo e ao pegar arregala os olhos e coloca as mãos sobre a cabeça também desnorteado. Depois de l
Dois dias depois ZayaO tempo passou sem que eu sequer percebesse e hoje chegou o dia da viagem da Flor. Ela cogitou a possibilidade de não ir à essa viagem, mas cancelei esses pensamentos errados na mesma hora, ainda mais pelo motivo que era: O início de um relacionamento com Senegal. Pelo visto esses dois realmente se entenderam e depois daquele baile estavam um grude só. Flor me contou que ele havia se declarado e ela como uma eterna apaixonada por ele não hesitou em aceitar. No fundo estou feliz por eles, Senegal e eu não temos uma boa amizade ou nada parecido, mas não posso negar que ele daria a vida dele em troca da Flor para protege-la de todo mal e isso é algo que não tem preço e deve ser levado em consideração. Agora estou aqui no aeroporto me despedindo dessa menina que aprendi a amar como se fosse uma filha e óbvio que tentando como sempre conter as lágrimas. — Se cuida menina e seja muito feliz. — falo enquanto à abraço — Mas vou estar pertinho amiga, e nos feriados pr
ZAYA Desperto no susto depois de sentir o calor dos raios de Sol entrando no meu quarto e ao olhar para o lado vejo Fernando dormindo em um sono profundo. Sento na cama passando as mãos no rosto, ainda tentando entender como fui ter essa recaída depois de um ano. Falta tão pouco para tudo ter um fim e agora me acontece justamente o que tentei evitar todo esse tempo. Olho para o rádio relógio ao lado da cama e dou um salto quando percebo que já estava mais do que atrasada para o meu compromisso. Tinha marcado de encontrar Carneiro numa cafeteria no centro da cidade as dez horas da manhã e faltavam apenas quinze minutos para esse horário. Corro para o banheiro, fecho a porta e tomo um banho. Me enrolo na toalha, saio a procura de uma roupa e num tempo recorde me visto. O certo seria eu expulsar o Fernando daqui, mas nem para isso eu tinha tempo. Então pego meu celular, saio do quarto, fecho a porta e sigo para a garagem. Subo na moto e vou para o meu destino. Ao chegar avisto Carneiro
ZayaFlor grita e volto a si seguindo meu caminho. Estava trêmula e ainda não conseguia compreender o que estava acontecendo. E principalmente, porquê o Daniel forjou a própria morte? Isso é loucura. Mas preciso pensar friamente e agora não era o momento disso. Sigo para a comunidade e o movimento estava grande por conta do baile. Deixo Flor em casa e sigo para o meu barraco. Estaciono a moto em frente e sigo o meu caminho. Precisava tomar um banho, refrescar um pouco a cabeça antes de tomar qualquer decisão. Entro em casa e vou direto para o quarto, tiro minha roupa, tomo um banho demorado e visto algo leve. Desço para preparar um café, depois de pronto sento no sofá e fico pensativa por um longo tempo. Mas volto a si com o escândalo que a Flor faz por eu ainda estar desarrumada.— Não acredito que você ainda está desse jeito! — ela fala com as mãos na cintura e os olhos arregalados — Flor, eu já disse que não vou ao baile. Não curto esse tipo de música e outra, não tô muito animad
NinjaCemitério de Laranjeiras— Vou te aguardar aqui atrás amiga, esse momento é todo seu. — Flor toca no meu ombro e coloco minha mão em cima da sua agradecendo todo seu cuidado comigo, mesmo sabendo que estava indo contra seu próprio sangue— Obrigada minha menina! — respondo respirando fundo e tentando a todo custo segurar as lágrimas e manter a postura firme de sempreMe aproximo do local onde sofri a maior dor de toda minha vida, ao ver a lápide diante do túmulo do meu filho, sinto uma dor profunda que se apossa do meu corpo e faz cair instantaneamente lágrimas no meu rosto. Segurando uma dúzia de rosas brancas me ajoelho, fecho os olhos e faço uma oração, pedindo à Deus que meu menino tenha encontrado a paz que eu perdi desde que ele se foi. Perdida em lembranças o tempo passa rapidamente e sem que eu perceba sinto uma mão tocar meu ombro. Respiro fundo e apoio minha mão sobre a dela, já sabendo de quem se tratava. Era a segunda vez que eu vinha nesse cemitério, e dessa vez a d







