Compartilhar

Capítulo 3

Autor: Luna Sete
Ele ainda vestia o mesmo terno cinza feito sob medida que tinha usado naquela manhã para ir ao cartório pedir divórcio. Sentado no sofá, exalava uma mistura de preguiça e frieza, uma indiferença distante. Conversava casualmente com o médico, como se nada tivesse acontecido. Claramente o divórcio não abalou em nada seu humor.

Ao vê-la entrar, levantou os olhos em sua direção.

As mãos de Luísa se cerraram involuntariamente ao lado do corpo. O olhar que lançou a ele estava cheio de desdém e repulsa.

— Você veio. — O médico cumprimentou de forma simples.

— Sim. — Respondeu ela, desviando o olhar.

— Como já expliquei por telefone. — O médico estendeu a ela uma folha com valores. — Aqui está a planilha com os custos mensais. Se não houver problema, preencha os dados e assine.

Ela pegou o papel.

Ao se deparar com os valores de seis a sete dígitos por mês, seu coração afundou.

Se o patrimônio pré-matrimonial não tivesse sido levado pelo pai, talvez ainda conseguisse aguentar alguns meses. Mas agora não tinha nada. Com sua situação atual, era impossível sustentar uma despesa tão grande.

— Se achar os valores muito altos, pode escolher uma dessas alternativas. — Percebendo seu dilema, o médico lhe passou outro documento.

As opções eram realmente mais baratas, mas, ainda assim, custavam mais cem mil por mês.

Enquanto ela estudava a folha, o médico inconscientemente lançou um olhar a Rodrigo. Ele respondeu com um gesto sutil. O médico entendeu na hora.

— Bom, vou dar uma olhada no estado da paciente. Veja com calma. Se nenhuma das opções for adequada, podemos conversar melhor quando eu voltar. — disse, levantando-se.

— Está bem. — Respondeu Luísa, sem tirar os olhos dos papéis.

O médico saiu, fechando a porta atrás de si.

Luísa e Rodrigo ficaram sozinhos na sala, e o silêncio tomou conta do ambiente.

— Não importa quanto tempo você fique olhando, com sua capacidade financeira nunca vai conseguir arcar com o tratamento da sua mãe. — Disse Rodrigo, num tom despreocupado, quase preguiçoso.

A raiva subiu de imediato. Ela ergueu os olhos, furiosa.

— Sem falar que você ainda precisa alugar uma casa e sustentar o Cacá. — Completou ele.

— O que você está tentando dizer? — Luísa cravou o olhar nele.

— Podemos tratar o divórcio como um capricho seu. — Respondeu Rodrigo, levantando-se e caminhando até ela. — Desde que não volte a tocar no assunto, eu pago as despesas médicas da sua mãe. E você continua sendo minha esposa.

— E a Tatiana? — Perguntou ela.

— Vocês duas não precisam se envolver. — Disse ele, frio. — Se quiser, posso garantir que ela nunca apareça na sua frente.

Ela soltou uma risada curta, carregada de sarcasmo.

— Eu deveria agradecer pela sua consideração?

— Você deve saber o que é melhor para você. — Ele entendeu o sarcasmo e falou no mesmo tom que usava em reuniões de negócios. — Depois de tanto tempo vivendo no luxo, deve entender que é fácil se acostumar ao conforto, difícil é abrir mão dele.

Claro que ela entendia.

Luísa nunca tinha vivido qualquer dificuldade. Antes da queda da família Rodrigues, ela jamais precisou se preocupar com dinheiro. Depois, antes mesmo que pudesse se recompor, Rodrigo já havia se casado com ela. Com cartões ilimitados e cuidados minuciosos, ela nunca precisou se preocupar com dinheiro.

Pelo raciocínio dele, ela deveria estar satisfeita.

Mesmo com Tatiana ao lado, ele ainda não a trataria mal. Tudo que precisasse, ela continuaria a ter.

Mas a vida não é só dinheiro. Dignidade e integridade também são importantes.

— Integridade e dignidade não enchem barriga. — Ele rebateu, lendo seus pensamentos. — O mundo lá fora não é tão fácil quanto você imagina. Sem mim, com sua situação atual, você não tem saída.

— Não preciso que você se preocupe com isso. Cuide da sua vida. — Luísa retrucou, impaciente.

— Luísa... — Ele não entendia por que ela era tão teimosa.

— Sr. Rodrigo, se não tiver mais nada a tratar, por favor, saia. Tenho que falar com o médico. Não tenho tempo para ouvir sermões. — Esta foi a primeira vez que ela lhe falou com tanto desprezo.

Ele não se irritou. Apenas a encarou em silêncio.

Sob aquele olhar, a pressão sobre ela aumentava a cada segundo. Ela apertou os papéis nas mãos, forçando-se a sustentar a troca de olhares.

— Você tem um minuto para pensar. — Disse ele, calmo. — Se ceder agora, eu te perdoo e esqueço tudo. Passado um minuto, será apenas Luísa. E mesmo que depois venha implorar, eu não vou aceitar.

Ela desviou o olhar para a janela, respondendo em silêncio.

Um minuto depois, ele saiu sem dizer mais nada.

Para ele, Luísa não sabia o que era melhor para ela. Pessoas rebeldes precisavam dar de cara na parede para aprender.

A porta se fechou com força. O som ecoou dentro dela.

Por muito tempo, ela acreditou que, embora não houvesse uma paixão arrebatadora entre os dois, ao menos havia um amor constante e genuíno.

Agora, já não sabia mais.

O médico voltou, interrompendo seus pensamentos.

— Dr. Eduardo, vou levar os papéis e pensar melhor antes de decidir. Está bem? — Disse ela, recompondo-se.

— Claro. Mas não demore muito. O ideal é definir dez dias antes da próxima cobrança. — Respondeu o médico.

— Certo, obrigada. — Luísa disse, guardando os documentos e saindo do hospital.

Decidiu que precisava encontrar um emprego primeiro. Se o salário fosse bom, manteria a mãe ali mesmo. O hospital, que era privado, e pertencia ao Grupo Monteiro, era uma das melhores instituições do país e do exterior, equipado com tecnologia de ponta e especialistas renomados. Graças a Rodrigo, sua mãe sempre recebeu o melhor tratamento em todos os aspectos. Transferi-la significaria colocar sua vida em risco. Ela era sua única família verdadeira, a única pessoa que realmente a amava. Ela não queria que nada acontecesse com a mãe.

Esses pensamentos a acompanharam desde a saída do hospital até chegar em casa.

Pelo caminho, ela refletia em como contar para o Cacá sobre o divórcio. O menino sempre foi inteligente e maduro, com uma sensibilidade rara para a idade. Quase nunca dava trabalho. Mas divórcio não é coisa pequena para uma criança. Ela se preocupava que ele não conseguisse aceitar.

Mas, enquanto se preocupava, outros já agiam de forma oposta.

Assim que chegou em casa, deparou-se com uma cena que a fez sentir nojo. Tatiana estava no sofá, aninhada nos braços de Rodrigo.

— Afinal, aqui ainda é a sua casa com a Luísa. Não é inapropriado eu aparecer aqui? — Disse Tatiana, num tom hesitante.

— Não. — Respondeu ele, com voz grave.

— Mas... — Tatiana hesitou.

— Logo ela vai se mudar. Depois disso, você será a dona desta casa. — Ele a tranquilizou.

Tatiana ergueu os olhos para ele. Seus olhares se entrelaçaram, cheios de ternura. Estavam tão absorvidos um no outro que nem perceberam Luísa voltar.
Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 213

    — Tem certeza de que é "Sr. Rodrigo"? — Perguntou Rodrigo sem o menor sinal de irritação, com a expressão tranquila de sempre.— Certeza absoluta, total e confirmada. — Cacá respondeu.— Está bem. — Rodrigo deu um leve peteleco na testa dele.Já que estava chamando de senhor, então, se depois acontecesse alguma coisa e ele aproveitasse a situação, seria normal. Afinal, ele não era o "pai de verdade".Cacá ficou confuso.Essa reação dele não era nada paternal.— Lembra de vigiar para sua mamãe não molhar o machucado. — Antes de ir embora, Rodrigo lançou mais um olhar para o tornozelo ferido de Luísa e orientou Cacá. — Senão aí sim pode ficar sério.Cacá não respondeu.Depois que viu Rodrigo sair do apartamento, puxou Luísa em direção à porta e falou, num tom baixo, mas audível:— Mamãe, vamos trocar a senha!— Vamos. — Respondeu Luísa.Rodrigo, parado diante do elevador, observou os dois se apressando lá dentro. Não disse nada e entrou no elevador. Para ele, esse tipo de fechadura com s

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 212

    — Não é sonho. — Rodrigo rebateu.— Desista de vez. — Luísa nunca cedeu uma única vez nesse assunto. — Mesmo que eu vá pedir esmola na rua ou morra de fome, não vou olhar para trás.— Não tire conclusões precipitadas sobre coisas que ainda não aconteceram. — A voz de Rodrigo permaneceu estável e baixa. — Não se esqueça de que suas próprias palavras sempre acabam voltando contra você.Luísa não quis mais conversar. A antipatia que sentia por ele já tinha chegado ao limite, mas ainda não conseguia engolir aquilo. — Por que você continua me importunando?! — Depois de um breve silêncio, ela perguntou com emoção contida.— Porque você é a Luísa. — O nome era suave, mas o coração é ainda mais firme que o dele.— Então amanhã eu vou trocar meu nome. — Luísa estava de mau humor. — E você vai procurar outra Luísa.Os olhos negros de Rodrigo a encararam com emoções a mais. No fim, ele não retrucou, com medo de deixá-la ainda mais irritada.Depois de mais um tempo, Luísa se acalmou um pouco. Qua

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 211

    — Não vou repetir. — Rodrigo sabia exatamente como pressioná-la. — Neste quarto, agora, só estamos nós dois. Não posso garantir que não aconteça alguma coisa.— O que mais você sabe fazer além de me ameaçar? — Luísa achou aquilo baixo e desprezível.Os olhos de Rodrigo, negros como tinta, a encararam com uma pressão sufocante.O coração de Luísa gelou. Ela desviou o olhar, mas também não voltou a resistir.Conhecendo o temperamento teimoso dela, Rodrigo se levantou e se agachou à sua frente. Com a palma larga, segurou o tornozelo dela e, com dedos longos e claros, retirou com cuidado os curativos que ela havia colado de qualquer jeito.Sabendo o quanto ela era sensível, soprou levemente para aliviar a dor durante todo o processo.Olhando para aquele homem tão paciente, gentil e minucioso como sempre, Luísa realmente não entendia o que havia de errado com ele para decidir sustentar Tatiana pelo resto da vida.— Rodrigo.— Sim? — Ele respondeu sem erguer a cabeça, enquanto aplicava o rem

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 210

    Luísa ficou confusa e seu coração tenso se transformou em puro desprezo.— O que você está fazendo aqui?Como se tivesse lembrado de algo, ela olhou instintivamente na direção da porta. Para evitar que ele entrasse usando a chave, ela havia combinado com o proprietário a troca por uma fechadura inteligente. Ele tinha quebrado?— Não me olhe desse jeito. Foi o Cacá que me contou a senha. — Rodrigo entregou o celular a ela, falando palavra por palavra. — Se não acredita, pergunta para ele.Luísa pegou o celular, ainda desconfiada. Na tela, havia mesmo uma chamada perdida de Cacá.Ela tocou no número e ligou de volta, mas a cautela e a desconfiança em relação a Rodrigo não diminuíram nem um pouco.— Mamãe! — Cacá atendeu chamando por ela, com a preocupação impossível de esconder. — Você está bem?Luísa ficou sem entender.— Hã? — Ela não sabia o que Rodrigo tinha dito para ele.— O papai disse que você se machucou gravemente. Eu liguei e você não atendeu. Fiquei com medo de que algo tive

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 209

    — Você pode desistir. Eu não vou concordar. — Disse Cacá com extrema seriedade.— Hoje à noite, na festa de aniversário da empresa da sua mamãe, aconteceu um acidente. Ela se machucou gravemente. — Rodrigo, só para conseguir entrar, nem poupou o próprio filho. — Ela nem chegou a tratar o ferimento, voltou direto para casa.— Você não estava lá? — O coração de Cacá disparou.— O lustre de cristal caiu do teto. Eu estava longe demais e não consegui chegar a tempo. — A voz de Rodrigo ficou grave.Cacá ficou em silêncio. Numa situação normal, ele perceberia rapidamente as inconsistências nessa história. Mas, naquele momento, a mente dele estava cheia da imagem da Luísa ferida, e os pensamentos não estavam tão claros quanto de costume.— Sério? — Perguntou.— Sério. — Rodrigo respondeu com convicção.Cacá desligou a chamada e ligou rapidamente para Luísa. O celular, largado no sofá, começou a vibrar insistentemente. Luísa, que tomava banho no banheiro, não ouviu nada. Já Rodrigo, parado à p

  • Ela Pediu o Divórcio com o Bebê nos Braços — e Ele Surta!   Capítulo 208

    Ele sabia que Rodrigo tinha a mente astuta e implacável, mas não imaginava que, mesmo depois de algo assim acontecer, ele ainda conseguisse manter uma percepção tão afiada.— Por que eu me preocuparia com alguém insignificante? — Guilherme pegou o celular com naturalidade, olhou para a tela e disse. — Só estou um pouco com sono e quis ver que horas são.No fundo dos olhos de Rodrigo passou um leve brilho de deboche. Nem coragem de encarar os próprios sentimentos ele tinha. Patético.— Pare de usar a Luísa. — Ele foi direto ao ponto. Os olhos negros, profundos como tinta, eram impossíveis de decifrar. — Caso contrário, eu não me importo de envolver outras pessoas nisso.Dito isso, ele se virou e foi embora. A silhueta, como sempre, firme e indiferente. Só depois que ele e Henrique desapareceram completamente de vista é que Guilherme pegou o celular e fez uma ligação, com os olhos tingidos de uma frieza que raramente mostrava.No estacionamento, Henrique estava sentado no banco do motori

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status