تسجيل الدخولKaleo
O sorriso empurra ar para os meus pulmões e cobrança para a minha memória. Eu odeio essa mulher. — Ela é bonita demais para uma culpa dessas. — sussurro, só para me punir. Prendo a respiração quando ela pára diante de um banner, sozinha por três segundos de eternidade. Caminho até ali. Ela me percebe nas bordas do mundo, como sempre, Layla tem esse instinto de gata que fareja incêndio. — Senhor Donovan. — ela diz, no tom que outras pessoas usam para “ameaça de bomba”. — Senhorita Santos. — respondo, com polidez que dá coceira — Belo evento. Quase me convence de que anjos existem. — Sorte a sua. — O sorriso dela não chega aos olhos — Aqui só aceitamos doações, não sarcasmo. Eu rio baixo. O som que a faz odiar-me um pouco mais cada vez. — Doações eu faço com um dedo. — Levanto o copo — Sarcasmo exige talento. Ela inclina a cabeça, estudando-me como quem decide onde enfiar a faca. — O que você quer, Kaleo? — Hoje? — Dou um passo, invadindo o raio de calor que a protege do mundo — Ver você salvar o planeta inteiro enquanto esquece de salvar a si mesma. O músculo em sua mandíbula pula. Eu me delicio. — Você não muda. — ela sussurra. — Mudanças ficam lindas em você, Layla. Em mim, só combinam pecados. Um voluntário nos interrompe, pedindo a assinatura dela num formulário. Layla se afasta com alívio que me provoca e me irrita. Eu sigo meu roteiro, reconheço o chefe de cozinha, aperto mãos que não me interessam, sorrio para câmeras que não me merecem. Na varanda lateral, o vento traz cheiro de chuva e promessas ruins. É o meu lugar favorito para tomar decisões que custam caro. Abro o estojo discreto no bolso interno do paletó, duas micro ampolas idênticas, rótulos sem nome. Uma delas é nada além de água tônica. A outra, um susto inofensivo que provoca tontura por cinco minutos e deixa o coração lembrando que tem dono. Um lembrete cruel sobre fragilidade e, no meu caso, sobre controle. Não é envenenar, é testar o destino. Aproximo-me do bar. O barman me reconhece e tenta tremer só por dentro. Apoio as ampolas no balcão, invisíveis para olhos que não sabem procurar. Peço duas taças. A noite inclina o rosto para mim, cúmplice. — Está esperando alguém? — pergunta o barman. — Uma sentença. — respondo. Layla ressurge pela porta de vidro, varrendo a varanda com os olhos. Quando ela me encontra, a prudência dela dá meia-volta, mas o orgulho fica. Sempre fica. — Se vai estragar a noite, faça rápido. — diz, parando a um metro. — Eu nunca faço rápido. — Encho as duas taças — Brindamos? Aos animais que você protege de gente como eu. Ela ri. Um som curto, incrédulo. — Aos animais, então. Por um instante, vejo Adrian entre nós, com aquele sorriso de quem achava o mundo salvável. O fantasma encosta a mão no meu ombro. Eu deveria ser gélido. Deveria trocar as taças no último segundo, deveria deixá-la provar o que é fraqueza. Deveria. Meus dedos obedecem à coreografia planejada, um truque de salão ensaiado mil vezes, a taça com o “susto” para ela, a outra para mim. Dou o meio passo que fecha a distância. E então… a minha mão erra o copo. Não erra. Escolhe. — Por você. — digo, oferecendo-lhe a taça que era minha. — Por mim? — Ela franze o cenho — Não mereço a gentileza do diabo, Kaleo. — Não é gentileza. É estatística. — Bebo primeiro, para provar que não há perigo. O líquido queima diferente, um aviso dentro da pele. Eu aceito — Eu nunca deixo a morte sentar à mesa sem pagar a conta. Layla levanta a taça, me encara por sobre a borda, e bebe. A boca dela reluz de vinho e afronta. O vento carrega um trovão. O tempo, por um capricho, volta a andar. — Você me odeia tanto assim? — ela pergunta, voz baixa, quase cansada. — Eu odeio a parte de mim que te quer. — Apoio o copo — A parte que te rodeia. A parte que sabotou cada plano de acabar com você. Essa parte… eu mataria, se pudesse. Ela respira fundo, como quem encara um precipício que já conhece. — Então por que continua aqui? — Porque a minha prisão tem a sua voz. O silêncio entre nós é um campo minado. Layla dá meia-volta para retornar ao salão. Eu a pego pelo pulso, firme, sem dor. — Cuidado com o elevador à esquerda. — aviso, num sussurro que cheira a profecia — Está dando tranco. Ela gira devagar. — Desde quando você se preocupa com a minha segurança? — Desde sempre. — digo, sem maquiagem — Odeio concorrência com o acaso. Layla solta o pulso, sem agradecer. Vai pelo corredor iluminado, ignora o elevador da esquerda e escolhe a escada. Eu fico na varanda, sentindo o “susto” correr pelo sangue como um aviso, vivos sangram, vilões também. Quando volto ao salão, o mestre de cerimônias a chama ao palco. Layla pega o microfone. Fala da ONG, fala de doações, fala de bichos sem voz e de crianças sem abrigo. A sala inteira amolece. Eu fico duro como pedra. Ela termina com um sorriso que não nasceu para mim. O aplauso desaba como chuva. — Senhor Donovan? — Élio surge, discreto — O carro está pronto. — Não ainda. Olho para a escada por onde ela saiu. A tentação de segui-la é uma corda no meu pescoço que não enforca, só lembra. Eu poderia acabar com isso agora. Bastava um tropeço, um degrau, um empurrão tão leve quanto um segredo. Bastava. No telão, uma foto antiga surge… Layla mais jovem, abraçada a um rapaz de olhos gentis. Adrian. O auditório não sabe quem ele é. Eu sei. O mundo, por um segundo absurdo, some do meu alcance. O som do aplauso vira mar, a luz vira sal, e eu tenho que me segurar no corrimão da realidade. — Tudo começou naquela noite. — digo para ninguém — E ainda não acabou. Guardo as mãos nos bolsos antes que façam promessas que não posso cumprir. Quando saio, a chuva já decidiu. Desço os degraus do hotel com o rosto entregue ao céu e um gosto de derrota que só Layla consegue deixar na minha língua. — “Eu queria matar você.” — penso, entrando no carro — “E tudo o que faço, toda maldita vez, é provar que já sou seu.”LaylaJá a ONG… ah, a ONG floresceu. Com a força de Kaleo, vieram patrocinadores grandes, responsáveis e discretos, com a minha insistência, vieram reformas, ambulatórios novos, equipe triplicada. A Terra & Vida ganhou duas filiais em bairros diferentes, e as crianças agora têm um espaço de leitura com janelas enormes. Quando inauguramos a segunda unidade, Kaleo me segurou a mão por trás do palco e cochichou:— Você é mais perigosa que eu. — E sorriu com orgulho.Sarah, minha Sarah, se apaixonou. Por um vizinho meu. É claro. Morar perto virou projeto coletivo. O nome dele é Daniel, ele tem um sorriso que lembra casa aberta e mãos de quem conserta o que os outros quebram. Vi quando os olhos deles se encontraram na portaria, e o mundo segurou a vida nas mãos por um segundo.— Eu tô ferrada, Lay. — ela me disse naquela noite, na minha cozinha — E feliz.— Quer dizer que vai morar no prédio?— Em breve. — Ela piscou — Quero participar do condomínio dos loucos felizes e ricos.— O vilão a
LaylaTrês anos de casada com o vilão que o mundo aprendeu a temer e eu aprendi a amar. Engraçado como as pessoas chamam isso de fase. Para mim, parece mais uma vida inteira que começou no instante em que decidi que paz, para mim, tinha olhos azuis e humor perigoso. E um detalhe que eu não contava: ele é insaciável. Não é metáfora, é boletim de ocorrência do meu corpo. Kaleo acorda com fome, passa o dia faminto, e à noite... à noite meu nome vira religião. Resultado? Estou grávida. De gêmeos. Um casal. E hoje é o nosso aniversário de casamento.Passei a manhã preparando a surpresa. Uma caixa de madeira preta, simples por fora, terremoto por dentro: dois sapatinhos minúsculos, um branco com cadarços dourados, outro vermelho com cadarços prateados, duas roupinhas dobradas com cintas de seda e, por baixo, a ultrassonografia com os dois perfis pequeninos apontados para o futuro. Sim, dois. Quando vi a tela, chorei, ri e abracei a médica como se ela tivesse me dado a senha para o paraíso.
KaleoMeses se passaram desde que Bart desapareceu do nosso caminho algemado e sem glória. Meses em que aprendi que silêncio também pode ser paz, que rotina pode ser um refúgio, e que até monstros conseguem respirar sem sangue na boca.Casei-me com Layla sem pompas de realeza. Nada de castelo de cristal, nada de véus intermináveis. Apenas nós dois, as pessoas que realmente importavam e uma aliança simples, que no meu dedo pareceu uma algema doce, e no dela, uma chave. A sociedade, claro, não engoliu fácil.As manchetes chamaram-na de interesseira, de "a santa que virou diabinha vendida ao magnata". As mulheres nos jantares a olhavam de cima a baixo, como se pudessem farejar ouro na pele dela. Os homens a observavam como se fosse troféu, e alguns ainda cochichavam que eu perdi a sanidade ao escolher uma "filantropa sem fortuna".Eu ouvia. Eu sabia. Mas não me importava.Layla era a minha prioridade. O resto, apenas estática.— Eles falam. — ela me disse uma noite, tirando os brincos di
LaylaO beijo começou de pé, deslizou pela sala, encostou no piano, bateu no vidro da varanda com a cidade por testemunha. As mãos dele sabiam de mim como quem já amou este mapa noutras vidas, as minhas reconheciam nele o alívio de estar de volta.— Dói? — perguntei, roçando os lábios perto do ombro, mas com a ponta dos dedos no curativo.— Só o que me mantém vivo. — ele respondeu, engolindo um gemido quando meus dedos traçaram um caminho acima da atadura.— Então deixa doer de um jeito bom.E doeu. Devagar. Sem nenhuma palavra que nos envergonhasse, com todas as que nos libertavam. Quando ele segurou meus pulsos, foi leve, quando eu me soltei, foi certo. Fizemos amor devagar.Quando ele pediu meus olhos, dei. Quando eu pedi mais, ele entendeu. O corpo se curvou à música que não tocava. Eu disse o nome dele inteiro, e ele devolveu o meu como quem assina um documento irrevogável.Depois, deitamos virados um para o outro, o cabelo colado à testa, o riso fácil.— Pronto. — ele disse, pas
LaylaOs dias depois do galpão cheiraram a antisséptico e chuva. A cidade se moveu sozinha, como se precisasse provar que ninguém é imprescindível. Na cobertura, eu aprendi a abrir e fechar curativos como quem decifra um idioma novo. A pele de Kaleo, cortada no abdômen, pedia paciência ele, como sempre, pedia controle.— Não precisa olhar assim. — ele resmungou, apoiado na beira da cama — Já vi feridas piores.— Não no meu homem. — respondi, cortando a fita do curativo — Fica quieto.— Eu não sei ficar quieto.— Aprende.Ele deu meio sorriso e obedeceu. Eu limpei a ferida com cuidado, sentindo os pelos do braço dele eriçando quando a gaze encostava. Na janela, a tarde era com nuvens de algodão. Por dentro, alguma coisa minha alargava espaço.— Dói? — perguntei baixo.— Você tem ideia do que é sentir o seu toque doer? — Ele fechou os olhos, um suspiro que perdeu a arrogância no meio do caminho — É bom. E é tortura.— É cicatrização. — corrigi — Significa que já passou.— Nada passa em
KaleoO telefone vibrou de madrugada. Uma voz trêmula do outro lado, um dos meus homens, me disse o que eu já temia: Bart tinha desaparecido com Layla. Ela me pediu para ficar um final de semana só com a família dela já que nós iríamos viajar por uma semana… grande tolo eu sou.O sangue gelou, depois ferveu. O som da chuva contra os vidros da cobertura parecia zombar da minha calma. Levantei da poltrona como quem levanta de um túmulo, e tudo em mim voltou a ser instinto.— Onde? — rosnei.— “Um galpão na zona portuária. Tem homens armados. Parece que ele quer fazer um espetáculo.”Sorri de canto, aquele sorriso que meus inimigos chamam de aviso de morte.— Então ele vai ter o ato final. — Encerrei a ligação.Peguei a arma da gaveta, mas não foi a arma que me deu coragem. Foi o nome dela. Layla.No carro, atravessando as ruas desertas, pensei no caminho inteiro que percorri até aqui. Tudo começou com Adrian. A raiva, a vingança, o ódio que me alimentava. Sempre foi sobre ele. Até que







