Masuk— Seu cheiro está forte demais — o homem de olhos verdes (o lobo marrom) falou primeiro. Sua voz era um trovão rouco que vibrou no peito de Cora. — É capaz de atrair todos os machos da área. Você precisa vir com a gente. Agora.
Elara encolheu-se na água, os braços cruzados sobre o peito para esconder a calcinha e o sutiã encharcados. Uma pontada violenta no abdômen a fez curvar-se levemente. — N-não... eu... eu preciso voltar pro alojamento — ela gaguejou, a voz falhando enquanto o ar ao redor parecia sufocá-la com o cheiro masculino deles. — Você nem deveria ter saído do quarto hoje — o irmão de olhos mel (o lobo negro) deu um passo à frente, a mandíbula travada enquanto tentava manter o autocontrole perante a doçura do cio dela. — Is-isso nunca aconteceu antes... — Elara gemeu baixinho, incapaz de conter o som de dor e desejo que escapou por seus lábios. — Não era para ser assim... Só percebi o que era quando já estava na água... e vocês apareceram... O gêmeo de olhos verdes soltou um suspiro pesado, os punhos cerrados ao lado do corpo.— Se você continuar gemendo desse jeito, garota, não vai ajudar muito o nosso controle. — Temos que sair daqui agora — o irmão de olhos mel cortou, as orelhas movendo-se levemente para trás. — Já sinto a aproximação de outros lobos da escola. Eu conheço um lugar seguro. Sem esperar uma resposta, os dois homens saltaram para a frente e, no ar, suas formas humanas desapareceram, dando lugar novamente aos lobos colossais. O lobo marrom chocolate aproximou-se da margem e abaixou o corpo imenso, oferecendo o dorso. Elara sabia que não tinha escolha. O instinto de sua loba implorava pela proteção daqueles dois machos dominantes contra o resto do mundo. Trêmula, ela saiu da água, recolheu suas roupas secas em um bolo contra o peito e subiu no dorso macio e quente do lobo marrom, segurando-se firmemente na pelagem espessa de seu pescoço. O lobo negro disparou na frente como uma sombra veloz, abrindo caminho pela mata fechada. O lobo marrom saltou logo em seguida. A corrida foi um borrão de adrenalina e vento frio fustigando a pele exposta de Elara. A velocidade deles era inacreditável. As árvores passavam como fantasmas verdes e marrons enquanto os dois Alfas rasgavam o território da matilha, desviando das trilhas comuns e subindo em direção às áreas rochosas e isoladas, além dos limites da alcateia. Elara apertava os olhos, o rosto enterrado na pelagem com cheiro de almíscar, sentindo o calor do corpo do lobo queimar contra suas coxas nuas. Cada salto do animal fazia seu ventre pulsar com uma urgência quase insuportável. Após alguns minutos de uma corrida frenética, o lobo negro reduziu o passo diante de uma parede de rocha maciça, densamente coberta por trepadeiras espessas. O lobo marrom parou logo atrás. Elara escorregou de suas costas, as pernas vacilantes quase não aguentando o próprio peso. Ela assistiu, entorpecida pela febre do cio, o lobo negro empurrar a folhagem pesada com o focinho, revelando a entrada oculta de uma caverna. Mas não era uma caverna selvagem. Ao darem os primeiros passos para o interior, a iluminação suave de arandelas rústicas presas às paredes de pedra revelou um refúgio surpreendente. O chão de rocha era coberto por tapetes grossos e escuros de pele sintética. Ao fundo, um enorme colchão de casal ficava diretamente sobre uma estrutura de madeira tratada, cercado por almofadas pesadas. Havia um balcão de madeira com suprimentos, garrafas de água e mudas de roupas organizadas. Era o esconderijo particular deles, uma espécie de santuário estilizado, moderno e rústico ao mesmo tempo. O calor ali dentro parecia confinado, denso. Para Elara, o ar natural da caverna não foi suficiente para aplacar a queimação em seu sangue. Seus dedos foram direto para o fecho do sutiã encharcado. Ela precisava se livrar de qualquer coisa que a sufocasse. As peças de roupa íntima molhadas caíram no chão de pedra com um som abafado. Elara estava nua, a pele alva contrastando com a penumbra da caverna, arrepiada não pelo frio, mas pela febre avassaladora que consumia seu bom senso. Ela abraçou o próprio corpo, os dedos cravando-se nos braços enquanto uma onda de dor e prazer espasmódico subia por seu ventre. Estar naquele espaço fechado, impregnado com o cheiro concentrado dos dois machos, estava destruindo suas defesas. Os dois lobos gigantes fecharam o espaço atrás dela. Em segundos, os estalos de ossos cessaram e os gêmeos retomaram suas formas humanas.O vento que soprava do rio em direção à varanda da Casa da Matilha trazia o cheiro pesado da chuva que se armava sobre a floresta amazônica. Kaelen e Draven permaneciam imóveis, observando o pátio central onde as guirlandas e fitas de seda branca já começavam a ser testadas pelos ômegas da casa. Há exatamente três meses, a cerimônia de alfas havia oficializado os gêmeos como os Co-Alfas legítimos de Silvaterra, consolidando seu poder militar. No entanto, o peso real da liderança ainda estava por vir. Faltavam apenas dez dias para a cerimônia de Lunas, o prazo final do ultimato dado pelo Alfa pai. Ao olharem para os preparativos, a mente dos irmãos foi arrastada em uma sincronia perfeita para o mesmo rastro de memórias: a tensa reunião do conselho de cinco meses atrás, onde os casamentos políticos haviam sido selados sob protestos silenciosos de seus lobos, Bram e Vane. Naquele dia, a bancada dos anciãos e os líderes da matilha vizinha desenharam o futuro de Silvaterra como se estives
O teto de gesso e as lâmpadas fluorescentes da sala de aula do quinto ano pareciam zumbir de forma insuportável na mente de Aren. O relógio de parede marcava pouco mais de dez horas da manhã de uma terça-feira abafada. Ao redor do menino, o som de trinta crianças humanas folheando cadernos e o giz da professora arranhando a lousa verde soavam como trovões dentro de sua cabeça. A poção que Elara dera no passado e o isolamento forçado na cidade de concreto haviam funcionado por quase dez anos, mas o relógio biológico de um lobo não aceitava mais ser silenciado. Aren levou as mãos pequenas aos olhos, pressionando as pálpebras com força. Uma queimação violenta, como se estivesse encarando o sol a milímetros de distância, começou a derreter o conforto das películas gelatinosas castanhas. “Mamãe... dói muito”, ele pensou, a voz de seu lobo interior — que ainda era uma consciência jovem, mas já dotada de uma herança esmagadora — rugindo em pânico em seu peito. O poder de Sincronia, a hab
O despertador analógico de Daniel quebrou o silêncio do quarto antes que o sol terminasse de romper a linha dos prédios cinzentos da cidade. Elara abriu os olhos devagar, sentindo o peso do braço massivo do médico contornando sua cintura. Sua loba, Cora, repousava em um silêncio absoluto no fundo de sua mente, finalmente saciada pelo contato tátil e pelo calor físico que sua biologia de loba tanto clama sob a influência da lua. Não havia o laço místico de alma, mas ao ver Daniel sentar-se na cama e segurar sua mão com uma ternura genuína, Elara soube que havia encontrado um porto seguro. Como homem, ele respeitava os limites que ela impunha; como amigo, ele aceitava o mistério de sua vida sem fazer perguntas que ela não podia responder. Naquela manhã, entre o cheiro de café fresco e apostilas de anatomia abertas sobre o piso de madeira, eles selaram um acordo implícito de amizade colorida, uma parceria casual sem cobranças ou promessas de casamento, que manteria a sanidade de Elara
O peso de um jaleco branco e o cheiro de antisséptico eram as únicas coisas que conseguiam manter a mente de Elara longe das sombras da Matilha Silvaterra. Três meses após o nascimento secreto de Aren, ela estava de volta aos corredores da faculdade de medicina. Estava exausta. Para não perder o ano devido à licença-maternidade forçada, Elara puxara o dobro de matérias, tentando desesperadamente acompanhar o ritmo da turma. Sua rotina era um ciclo implacável de fraldas na madrugada com Marta, estudos teóricos e plantões de anatomia. Ela estava prestes a desabar quando Daniel cruzou seu caminho. Daniel, aos vinte e um anos, já exibia o porte físico impressionante que o destacava de qualquer humano comum: quase dois metros de altura, ombros largos que preenchiam perfeitamente as camisas de algodão e braços fortes. Mas o que realmente chamou a atenção de Elara foi a sua generosidade. Percebendo o desespero da colega de classe com as pilhas de p
O grande salão de festas da Casa da Matilha Silvaterra estava decorado com estandartes rústicos e velas aromáticas que tentavam camuflar, sem sucesso, a mistura opressiva de aromas de dezenas de lobos de elite. Era o Baile da Aliança. Para a maioria, uma noite de celebração; para Kaelen e Draven, uma execução política em câmera lenta. Vestindo trajes formais escuros que pareciam sufocar seus instintos, os gêmeos permaneciam perto da pilastra de pedra do mezanino. Quase cinco anos haviam se passado desde a noite na caverna. Cinco anos de um silêncio compartilhado e de uma ausência que corroía o peito de ambos a cada lua cheia. — Se mais uma loba sorrir para mim exibindo os dentes para mostrar que são fortes e saudáveis para reprodução, eu vou quebrar o protocolo e me transformar no meio do salão — Draven rosnou baixo, os olhos cor de mel fixos no movimento da pista de dança. Seu lobo, Vane, andava de um lado para o outro mentalmente, arreganh
A mesa de jantar da Casa da Matilha Silvaterra era feita de um tronco maciço de carvalho, tão pesado e rígido quanto as tradições que governavam os Woodstone. Sentado à cabeceira, o Alfa Alaric exalava uma aura sufocante. Seu lobo, Fenrir, arranhava as margens de sua mente, impaciente com a estagnação da linhagem. Do lado oposto, os gêmeos Kaelen e Draven mantinham os olhos fixos em seus pratos, os torsos tensos sob as camisas escuras. — Na idade de vocês, eu já liderava patrulhas de fronteira e segurava o rastro da mãe de vocês — Alaric quebrou o silêncio, sua voz grossa fazendo os talheres de prata vibrarem levemente. — Já se passaram 5 anos desde que completaram a maioridade. 5 anos de desculpas. A matilha precisa de estabilidade. Eu preciso de herdeiros. Draven apertou o garfo com tanta força que o metal começou a curvar-se sob seus dedos. Seu lobo, Vane, rosnou internamente, inquieto. Vane rejeitava o tom do pai, mas a culpa silenciosa daquela noite no lago há 6 anos agia com







