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Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo
Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo
Author: Ester

Capítulo 1: O Lago e o Despertar Antecipado

Author: Ester
last update publish date: 2026-08-27 10:20:52

A névoa da manhã ainda flutuava sobre a superfície do lago, densa e fria, mas o corpo de Elara parecia queimar de dentro para fora. Faltavam apenas dois dias para o seu aniversário de dezoito anos. Dois dias para que sua loba finalmente despertasse e ganhasse forma. No entanto, algo estava terrivelmente errado.

Uma cólica aguda, pesada e pulsante, castigava seu abdômen. Seus pulmões buscavam o ar fresco da floresta do internato, mas cada lufada parecia incendiar suas veias.

“Água... preciso de água”, pensou. A voz de sua loba ainda era apenas um sussurro confuso e distante em sua mente, ecoando como um aviso que ela não conseguia decifrar.

Elara ainda estava se adaptando àquela nova realidade. Fazia pouquíssimo tempo que sua vida havia sido destruída no ataque brutal que dizimou sua família, levando a vida de seus pais. Seu pai, um orgulhoso guerreiro Delta, e sua mãe, uma doce ômega. Sem eira nem beira, ela fora acolhida pelo tio paterno, um Delta de elite que servia nesta a alcateia Silvaterra. Ele, sua esposa também Delta e seus três filhos haviam lhe dado um teto, mas as regras locais exigiam que todos os jovens da idade dela fossem enviados imediatamente para o internato da matilha. Isolada naquele campus afastado do centro urbano, Elara ainda não conhecia quase ninguém dali.

Desajeitada pelo torpor que nublava sua mente, Elara despiu o uniforme do internato. Deixando as roupas na margem, deu um passo para dentro do lago usando apenas a roupa íntima. A água fria bateu contra suas coxas, arrancando-lhe um suspiro trêmulo. Não foi suficiente. O calor persistia, uma febre biológica que ela nunca havia experimentado antes. Ela afundou até os ombros, fechando os olhos enquanto o sol começava a romper a linha do horizonte.

Foi então que o silêncio da floresta se partiu.

O som de galhos estalando não era de um animal comum. Era pesado. Predatório.

“Fique quieta”, a voz da consciência de sua loba ecoou de repente, firme, assustada e urgente em sua cabeça. “Não se mexa. Se você correr, eles vão caçar.”

Elara abriu os olhos. O coração saltou para a garganta.

Saindo da densidade das árvores, dois lobos gigantescos pararam na margem. Elara sabia exatamente o que aquele porte significava. O tamanho colossal, a postura imponente e a pressão esmagadora no ar não deixavam dúvidas: eram Alfas. Mas quem? Será que pertenciam a Silvaterra? Ou andarilhos? Já que ela estava a margem do território da alcateia, e ela ainda não conhecia a linhagem real daquela alcateia.

O da esquerda tinha uma pelagem marrom, escura e rica como chocolate, com olhos verdes que pareciam brilhar com a própria vida da floresta. O da direita era um monstro de pelagem negra como a noite sem lua, os olhos cor de mel fixos nela com uma intensidade que fez sua pele arrepiar.

“Eles vão brigar por nós”, a voz interna de sua loba sussurrou, instintiva. “Nenhum lobo divide o cio de uma fêmea. Muito menos Alfas. Fique abaixada. Quando a briga começar, nós corremos.”

Elara encolheu-se na água, submergindo até o queixo, os olhos fixos na lama da margem, esperando o primeiro rosnado de desafio. Esperando as presas e o sangue que costumavam ditar as disputas entre machos dominantes.

Mas o ataque não veio.

Os minutos se arrastaram como horas tortuosas. Em vez de rosnados de fúria mútua, os dois lobos gigantes caminharam lado a lado, em uma sincronia perfeita e perturbadora. Eles entraram na água baixa.

À medida que se aproximavam, o vento levou até Elara o cheiro deles. Não era apenas o odor de animais selvagens. Era uma mistura inebriante de almíscar terroso vindo do lobo marrom e um aroma amadeirado, quente e denso, vindo do lobo negro. O aroma atingiu o nariz de Elara como um gatilho químico. O calor em seu ventre triplicou de intensidade. Uma onda de choque elétrico percorreu sua espinha.

“Cora...” ela chamou sua loba em pensamento, a voz trêmula de desejo e pânico.

Um hálito quente atingiu o topo de sua cabeça. Elara ergueu o rosto devagar, a água escorrendo por suas bochechas. Ao olhar de perto para a cor daqueles olhos e notar o padrão idêntico, mas invertido, das manchas nas pelagens, o choque de realidade a atingiu.

“Cora...” pensou, assustada. “Eles não vão brigar. Eles são gêmeos. Eles estão acostumados a dividir.”

O pânico misturou-se à excitação avassaladora que subia por suas pernas. Os dois lobos gigantes recuaram um passo, saindo da água em direção à margem de terra. Em um piscar de olhos, os ossos estalaram e os corpos massivos se reconfiguraram. Onde antes estavam os predadores, agora erguiam-se dois homens altos, completamente nus, com corpos esculpidos por músculos rígidos e imponentes.

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