LOGINA família Valença morava em uma casa grande demais para três pessoas.
Havia quartos vazios, salas que quase nunca eram usadas e um jardim projetado por alguém que nunca precisara varrer folhas. Caio crescera ali aprendendo a reconhecer o som das portas fechadas e o modo como seu pai transformava preocupação em ordens. Augusto Valença não gritava com frequência, não precisava. Bastava-lhe uma pausa antes de responder ou um olhar demorado para fazer todos ao redor calcularem as próprias palavras.Na manhã seguinte ao encontro na estação, Caio chegou à mesa do café atrasado. — O carro sai em dez minutos — disse Augusto. — Vou de ônibus. O pai ergueu os olhos do jornal. — Não vai. — Eu tenho aula às sete e meia. Se esperar o motorista, chegarei atrasado. — O motorista está esperando. — Então ele pode esperar mais. A mãe de Caio, Beatriz, pousou a xícara com cuidado. Ela tinha o mesmo sobrenome do marido, mas pouca voz dentro daquela casa. — Caio, não comece o dia assim. — Eu só disse que vou de ônibus. Augusto dobrou o jornal. — Você esteve na Vila Esperança ontem. Caio sentiu o corpo endurecer. — Quem contou? — Não importa. — Importa para mim. — Você não deve circular naquela região. — Por quê? — Porque eu mandei. — Isso não é uma resposta. O pai se levantou. Havia uma fotografia atrás dele, mostrando a inauguração da primeira unidade da clínica. Augusto aparecia ao lado de Renato Duarte, jovem, sorridente, com a mão apoiada no ombro do amigo. Caio já vira aquela foto muitas vezes. Sempre que perguntava quem era o homem ao lado do pai, recebia respostas vagas. — Renato Duarte era um funcionário desonesto — Augusto disse. — Tentou destruir tudo o que construí. — A filha dele não é responsável pelo que o pai fez. A sala ficou em silêncio. Beatriz olhou para o filho com medo. Augusto não perguntou como ele conhecia Lívia. Talvez não precisasse. — Você não vai vê-la novamente .— Não. — Não foi um pedido. — Eu ouvi. — Então obedeça. Caio pegou a mochila e saiu antes que a raiva falasse por ele. No carro, o motorista comentou que o trânsito estava pesado. Caio não respondeu. Mandou uma mensagem a Lívia. Estou vivo, meu pai descobriu que venho à Vila. A resposta demorou. O meu também descobriu. Minha mãe diz que a família de vocês destruiu a nossa. Caio olhou pela janela. As casas foram ficando menores, as ruas mais estreitas, os muros mais antigos. Pensou na fotografia do pai com Renato. Se haviam sido amigos, por que o nome de Renato era tratado como uma doença? Na escola, tentou prestar atenção à aula de química. Não conseguiu. No intervalo, seu melhor amigo, Rafael, percebeu. — Você está com cara de quem foi deserdado. — Meu pai proibiu que eu visse uma pessoa. — Uma pessoa ou uma garota? Caio não respondeu. — Então é uma garota. — O pai dela e o meu brigaram há muito tempo. — E você está apaixonado. — Não sei. Rafael abriu o suco. — Se você não sabe, é porque está. Caio sorriu sem vontade. — Ela acha que tudo é fácil para mim. — Não é? — Você também? — Eu acho que sua família tem três carros e uma piscina aquecida. Então, sim, algumas coisas parecem mais fáceis. — Não é isso. — Eu sei. Mas o fato de ser difícil por dentro não muda o que é fácil por fora. A frase ficou na cabeça de Caio durante o resto do dia Enquanto isso, Lívia atendia clientes na pequena loja de tecidos onde trabalhava três tardes por semana. A dona, dona Marta, deixava que ela estudasse nos intervalos, desde que não houvesse compradores. — Você está distraída — comentou Marta. — Estou pensando. — Pensar demais costuma ser doença de quem não tem trabalho suficiente. Lívia sorriu e voltou a dobrar os tecidos. No fim do turno, recebeu uma mensagem de Caio perguntando se podiam se encontrar. Quase respondeu imediatamente, mas lembrou-se da mãe. Depois pensou no rosto dele ao falar do pai e digitou: Na biblioteca. Uma hora. A biblioteca pública cheirava a papel, poeira e chuva antiga. Caio chegou com dez minutos de antecedência. Lívia o encontrou diante da estante de anatomia, segurando um livro grosso. — Você está tentando impressionar alguém? — ela perguntou. — Estou tentando entender por que o corpo humano precisa de tantos nomes. — Para complicar a vida dos estudantes. Ele devolveu o livro à prateleira. — Meu pai sabe quem você é. — Minha mãe também sabe quem você é. — Ela quer que você fique longe de mim? — Sim. — O meu também. Lívia apoiou-se na estante. — Talvez eles tenham razão. Caio avançou um passo. — Você acha que eu sou igual a ele? — Não. Mas você ainda vive na casa dele, estuda com o dinheiro dele e dirige o carro dele. — Você quer que eu peça desculpas por ter nascido naquela família? — Não quero que peça desculpas. Quero que entenda por que isso me assusta. — Eu entendo. — Não entende. Caio passou a mão pelo cabelo. A coragem dela vacilou. Mas havia anos em que ouvira os adultos falarem de Renato sempre que pensavam que ela não estava prestando atenção. — Meu pai trabalhava na clínica do seu. Eles eram amigos. Depois houve um problema com dinheiro, documentos, alguma coisa assim. Seu pai disse que o meu roubou. O meu morreu sem conseguir provar que era inocente. Minha mãe perdeu o emprego, a casa onde trabalhavam e a maior parte dos amigos. Nós passamos a vida tentando não depender de ninguém. Caio ficou pálido. — Meu pai disse que Renato roubou documentos e ameaçou a clínica. — E você acredita nele? — Não sei no que acreditar. — Eu também não. A biblioteca pareceu pequena demais para aquela história. Caio abriu a mochila e tirou uma folha dobrada. — Eu comecei a pesquisar a história da clínica. Só encontrei registros antigos e uma notícia sobre o acidente do seu pai. Diz que ele perdeu o controle do carro numa estrada molhada. — Eu já li. — Há uma coisa estranha. A notícia diz que ele estava voltando da clínica, mas minha mãe afirma que ele tinha sido demitido meses antes. Lívia sentiu o coração acelerar. — Você acha que isso significa alguma coisa? — Não sei. Mas quero descobrir. Ela o observou, Caio não parecia motivado apenas pela vontade de vê-la. Havia raiva em sua voz, e talvez vergonha. — Prometa uma coisa — disse Lívia. — O quê? — Se algum dia descobrir que sua família fez algo contra a minha, você não vai esconder. Caio levantou a mão, como se fizesse um juramento. — Prometo. — E se descobrir que meu pai estava errado? — Também vou contar. — Mesmo que doa? — Principalmente se doer. Na saída, começou a chover. Caio abriu um guarda-chuva. Lívia poderia ter caminhado sozinha até o ponto, mas ficou ao lado dele. — Por que você continua vindo? — perguntou. — Porque você continua aparecendo. — Isso não é resposta. — É a única que tenho. A chuva escorria pela calçada. As mãos deles se tocaram uma vez, depois outra. Na terceira, Caio segurou os dedos de Lívia. Ela não soltou. Nenhum dos dois chamou aquilo de começo. Ainda era cedo demais para dar nome às coisas. Mas, naquela noite, quando Lívia voltou para casa, percebeu que o nome de Caio já não podia ser dito como se fosse apenas o sobrenome de uma família inimiga, era o nome do garoto que esperava na chuva.No semestre seguinte, Lívia começou o estágio no setor de reabilitação infantil do hospital escola. O primeiro paciente que acompanhou chamava-se Samuel. Tinha oito anos e chegara ao hospital depois de um acidente de bicicleta. A perna direita fora imobilizada, mas o maior obstáculo não era físico. Samuel recusava-se a ficar em pé. — Se eu tentar, vai doer — dizia. — Talvez doa um pouco — Lívia respondeu. — Então não vou tentar. — Tudo bem. A mãe dele pareceu surpresa. — Tudo bem? — perguntou depois, no corredor. — Ele precisa se esforçar. — Ele precisa confiar que não será obrigado a enfrentar tudo de uma vez. Lívia explicou que a recuperação começaria com movimentos pequenos. Samuel poderia escolher a música durante os exercícios, decidir se queria contar as repetições ou apenas observar. A mãe parecia desconfiada, mas concordou. Caio acompanhava o caso pela equipe médica. Estava no terceiro ano e começava a assumir mais responsabilidades. Ainda se sentia inseguro, mas
Caio contou tudo ao pai dois dias depois da viagem. Não contou por telefone, nem deixou os documentos na mesa do escritório. Esperou Augusto voltar da clínica e o encontrou na sala onde a família costumava receber visitas importantes. Era um ambiente amplo, com sofás claros, quadros caros e uma janela que dava para o jardim. Caio escolhera aquele lugar porque não queria que o pai se escondesse atrás da mesa. Augusto entrou carregando uma pasta e parou ao vê-lo. — Você deveria estar estudando. — Eu estava. — E agora? — Agora preciso que o senhor leia isto. Caio colocou a declaração de Miguel sobre a mesa. Augusto não tocou no papel. — Onde conseguiu? — Fomos até a cidade onde ele mora. — Fomos? — Eu e Lívia. Augusto fechou os olhos por um instante. — Você não deveria ter levado essa garota. — Ela tem mais direito à verdade do que qualquer pessoa nesta casa. — Não sabe o que está dizendo. — O senhor também disse isso quando eu perguntei sobre Renato. A sala pareceu meno
A cidade onde Miguel Valença vivia ficava a três horas de ônibus.Lívia e Caio partiram antes do amanhecer, levando uma pasta com cópias dos documentos, duas garrafas de água e uma quantidade exagerada de ansiedade.Júlia tentou convencê-los a esperar.— Vocês não sabem quem esse homem é.— Por isso vamos descobrir — Caio respondeu.— Isso parece exatamente o tipo de frase que pessoas dizem antes de entrar em uma casa abandonada.— A casa não é abandonada — Lívia disse.— Isso não me tranquiliza.No terminal, Caio comprou dois cafés. Lívia aceitou o seu sem discutir. A viagem começou em silêncio. A cidade desapareceu aos poucos, substituída por estradas, postos de gasolina e pequenas propriedades cercadas por arame.— Você dormiu? — Caio perguntou.— Duas horas.— Eu também.— Está nervoso?— Estou tentando parecer calmo.— Não está funcionando.— Você continua honesta.— Você continua tentando parecer mais preparado do que está.Ele sorriu e apoiou a cabeça no banco.Por algum tempo,
Helena guardava a caixa havia cinco anos no fundo de um armário, atrás de tecidos que não usava mais. Lívia a encontrou por acaso, procurando uma linha azul para consertar a alça de uma bolsa. A caixa era pequena, pintada à mão, com as bordas descascadas. Havia um desenho de estrela na tampa. — O que é isso? — perguntou. Helena ficou imóvel junto à máquina de costura. — Nada. — Mãe. — São coisas antigas. Lívia pegou a caixa. — Posso abrir? Helena não respondeu. O silêncio foi suficiente. Dentro havia cartas. Algumas estavam amareladas. Outras tinham manchas de chuva. Os envelopes traziam o nome de Lívia escrito com a caligrafia inclinada de Caio. Ela reconheceu a letra imediatamente, embora nunca tivesse visto aquelas palavras. Abriu a primeira carta com as mãos trêmulas. Caio contava sobre a casa da avó, sobre o quarto onde dormia, sobre a sensação de estar vivendo em uma cidade que não o conhecia. Dizia que escrevera todos os dias, mas que nem sempre encontrava coragem
Augusto Valença descobriu que o filho e Lívia haviam se aproximado por causa de uma fotografia publicada nas redes sociais da universidade. Era uma imagem banal: estudantes reunidos depois da apresentação de um projeto, alguns segurando pastas, outros sorrindo para a câmera. Caio estava ao lado de Lívia. Não a tocava, mas o jeito como olhava para ela denunciava uma intimidade que Augusto reconheceu imediatamente. Ele conhecia aquele olhar porque já o vira no espelho, muitos anos antes, quando ainda acreditava que Renato Duarte era seu irmão escolhido. — Você voltou a se envolver com essa família — disse, entrando no quarto do filho sem bater. Caio fechou o livro que estava lendo. — Lívia não é uma família inteira. — Ela é filha de Renato. — E eu sou filho seu. Nenhum de nós escolheu os próprios pais. Augusto ficou parado junto à porta. O quarto de Caio era o único espaço da casa que parecia realmente habitado. Havia livros espalhados, roupas sobre a cadeira e uma ca
O beijo aconteceu por acidente, embora Lívia soubesse que acidentes raramente eram tão simples.Naquela semana, o hospital escola recebeu uma nova paciente, uma mulher chamada Teresa, que precisava de acompanhamento depois de uma cirurgia no joelho. Ela chegava sempre acompanhada da filha, uma menina de oito anos que corria pelos corredores e fazia perguntas sobre todos os aparelhos.Lívia gostava da menina. Explicava os exercícios com desenhos e deixava que ela contasse as repetições. Caio ajudava na avaliação clínica e passava mais tempo do que o necessário conversando com Teresa sobre os receios que ela tinha de voltar ao trabalho.— Você fala com as pessoas como se estivesse tentando convencê-las de que o medo não é vergonhoso — Lívia comentou.— Talvez porque eu saiba que é.— Você tem medo de quê?— De falhar.— Isso é muito genérico.— De falhar com meu pai, com meus pacientes, Comigo mesmo.— E comigo?Caio ficou em silêncio. Eles estavam no laboratório, revisando as anotaçõe







