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Capítulo 3 — Sete dias de verão

Author: Odete Uriah
last update publish date: 2026-09-01 01:47:46

Os sete dias seguintes foram uma sucessão de pequenos segredos.

Caio passou a descer do carro duas quadras antes da escola para caminhar até a biblioteca. Lívia inventava motivos para sair de casa depois do trabalho. Às vezes, encontravam-se por meia hora; outras, ficavam juntos até o céu escurecer.Não havia grandes declarações. Havia cafés divididos, mensagens escritas de madrugada e a descoberta cuidadosa de detalhes.

Caio odiava mamão, não sabia cozinhar arroz e tinha medo de decepcionar o pai mais do que admitia. Lívia gostava de filmes antigos, guardava ingressos de ônibus dentro dos livros e chorava quando estava com raiva, algo que detestava porque as pessoas confundiam suas lágrimas com fraqueza.

— Você sempre chora quando discute? — Caio perguntou certa tarde.

— Só quando estou furiosa.

— Isso parece contraditório.

— Meu corpo não tem obrigação de obedecer à lógica.

— É por isso que você quer fazer Fisioterapia?

— Em parte. Eu gosto da ideia de ajudar alguém a recuperar o controle do próprio corpo.

Estavam sentados no gramado do jardim botânico. Caio havia conseguido duas entradas com um colega, mas Lívia suspeitava que as entradas eram gratuitas para estudantes e que ele apenas não sabia disso.

— Você não precisa pagar tudo — ela disse.

— Eu não estou pagando tudo.

— Pagou o almoço.

— Você pagou a passagem

.— Isso não é equivalente.

— Então me deixe pagar algumas coisas sem transformar cada café em uma negociação internacional.

— É fácil falar quando não se sabe quanto dinheiro tem até o fim do mês.

Caio se calou.

Lívia se arrependeu, mas não retirou a frase. Esse era o problema de estar perto dele: ela queria que Caio entendesse tudo de uma vez, enquanto ele ainda aprendia a olhar para o próprio privilégio.

Depois de alguns minutos, ele perguntou:

— Quanto você precisa por mês?

— Não é assim que funciona.

— Eu só perguntei.

— Se eu responder, você vai querer resolver.

— Talvez eu queira ajudar.

— Ajudar não é pagar.

— Então me ensine.

Lívia olhou para ele. O pedido não tinha arrogância. Tinha sinceridade.

— Às vezes, ajudar é não fazer a pessoa se sentir menor por precisar de alguma coisa.Caio assentiu devagar.

— Vou tentar lembrar.

Naquela noite, ele a levou até a porta de uma clínica da rede Valença. Não entraram. Caio queria mostrar o prédio onde passara a infância esperando o pai terminar reuniões.

— Foi aqui que você decidiu fazer Medicina? — Lívia perguntou.

— Foi aqui que decidi não fazer Administração.

Ele contou que, aos doze anos, acompanhou uma médica durante um atendimento de emergência. A mulher falava com a família do paciente enquanto organizava a equipe, explicando cada passo com calma. Caio ficou fascinado pela combinação de conhecimento e cuidado.

— Meu pai acha que eu quero Medicina para assumir a clínica — disse.

— E você quer?

— Quero ser médico. Não sei se quero ser o filho dele dentro da clínica.

— Talvez você possa ser as duas coisas.

— Talvez. Mas não quero que meu futuro seja uma sala que já tenha meu nome na porta.

Lívia pensou na própria casa, onde o nome de Renato ainda aparecia em documentos antigos, contas e fotografias. Para ela, um nome era algo que podia ser perdido. Para Caio, era algo que tentavam entregar antes de ele escolher.

No sexto dia, Augusto viu o filho sair da biblioteca.

Não disse nada. Apenas o observou entrar no carro.

Na manhã seguinte, Caio recebeu a notícia de que viajaria para a casa da avó no interior. O pai disse que seria apenas por alguns dias, mas o tom deixava claro que a decisão não dependia de tempo.

Caio encontrou Lívia na estação.

— Eu vou embora amanhã.

Ela estava com um livro nas mãos. Não o deixou cair, embora tivesse vontade.

— Para onde?

— Para a casa da minha avó. Meu pai disse que preciso me concentrar nos estudos.

— Você está de férias.

— Ele sabe.

— Por quanto tempo?

— Não sei.

Lívia virou o rosto. Não queria chorar diante dele.

— Então é isso?

— Não.

— Parece muito com isso.

— Eu vou escrever.

— E se o seu pai impedir?

— Eu encontro outro jeito.

— Você sempre diz isso.

— Porque é verdade.

— Verdade não basta, Caio.

Ele se aproximou, mas não a tocou.

— Eu sei.

A estação estava vazia. O vento levantava folhas secas nos trilhos. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio, cercados pelo ruído distante da cidade.

— Eu não quero ser um segredo — Lívia disse.

— Você não é.

— Para sua família, sou.

— Para mim, não.

— Isso basta para você?

Caio demorou a responder.

— Não. Mas é o que eu consigo oferecer agora.

Era uma resposta honesta, e talvez por isso doesse mais.

Ele tirou do pulso um relógio antigo. A pulseira estava gasta e o vidro tinha um risco profundo.

— Era do meu avô. Quero que fique com você.

— Não posso aceitar.

— Pode.

— Caio, isso deve ser importante.

— É. Por isso quero que você fique com ele.

Lívia segurou o relógio, sentindo o metal frio na palma da mão.

— Para quê?

— Para lembrar que o tempo passa, mas não decide tudo.

Ela tirou do pescoço um cordão fino com uma estrela de metal.

— Então leve isto.

Caio franziu a testa.

— Uma estrela?

— Para lembrar que eu existo mesmo quando você não puder me ver.

Ele sorriu, mas os olhos estavam úmidos.

— Você sabe que vou voltar.

— Não faça promessas que não controla.

— Eu controlo uma coisa.

— O quê?

— O que sinto por você.

Lívia ficou imóvel.

Caio tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, dando-lhe tempo para se afastar. Ela não se afastou. O beijo foi breve, inseguro e completamente diferente de tudo o que Lívia já havia imaginado. Não tinha a perfeição dos filmes. Tinha o gosto do medo, a pressa da despedida e a delicadeza de duas pessoas tentando não quebrar aquilo que acabavam de encontrar.

Quando se separaram, Caio encostou a testa na dela.

— Eu amo você — disse.

Lívia sentiu que o mundo inteiro havia parado para escutar.

Queria responder. Queria dizer que também o amava. Mas amar alguém da família Valença parecia uma decisão grande demais para uma garota que ainda precisava pedir dinheiro à mãe para comprar material escolar.

Então apenas o abraçou.

Caio entendeu.

Naquela noite, ele escreveu a primeira carta. No dia seguinte, embarcou para o interior.

Lívia guardou o relógio em uma caixa de madeira e esperou.

A primeira carta chegou depois de seis dias.

A segunda, três semanas mais tarde.

A terceira nunca chegou.

E, antes que o verão terminasse, a guerra dos adultos encontrou o caminho até os dois.

Quando Helena descobriu as cartas, queimou algumas. Quando Augusto confiscou o telefone do filho, apagou outras. Nenhum dos dois imaginou que, ao tentar proteger seus filhos, estava apenas repetindo a antiga violência que havia separado Renato e Augusto.

Caio e Lívia ainda não sabiam disso.

Sabiam apenas que o silêncio começou a crescer entre eles, primeiro como uma pausa, depois como uma parede.

Uma parede que levaria cinco anos para cair.

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