LOGINO Jardim da Esperança
A noite finalmente chegou, trazendo com ela aquele silêncio que só o interior tem. Não saí do meu quarto. Fiquei ali, cercada pelas paredes claras e pelo som distante de grilos do lado de fora. Era como se o mundo estivesse desacelerando, mas aqui dentro tudo continuasse girando rápido demais. Abri minhas malas com calma, dobrando cada peça de roupa com cuidado exagerado, como se colocar tudo em ordem pudesse também colocar minha cabeça no lugar. Roupas íntimas numa gaveta, blusas em outra, calças dobradas com capricho. Repeti o processo até não sobrar mais nada fora do lugar. Depois me joguei na cama macia, os olhos presos no teto branco. O colchão afundava sob meu peso, como se me acolhesse, e a colcha cheirava a sabão de coco e lavanda. Era estranho como um cheiro podia trazer paz. A batida na porta foi suave, quase tímida. — Filha, a janta está pronta — disse minha tia com a voz baixa, gentil, como se tivesse medo de me assustar. — Obrigada, tia… mas estou sem fome. Só quero dormir um pouco — respondi, tentando parecer mais serena do que me sentia. Mas até eu percebi a exaustão escorrendo pela minha voz. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Está certo, querida. Se precisar de mim, estou aqui. Mesmo preocupada, ela respeitou meu espaço. E isso foi o primeiro gesto de amor que recebi em dias. Não insisti. Ela também não. E, pela primeira vez em muito tempo, agradeci isso em silêncio. A noite passou tranquila. Sem sonhos. Sem pesadelos. Dormi melhor do que imaginava. Talvez fosse o colchão, ou o cheiro de terra molhada que vinha da janela entreaberta. Talvez fosse só o fato de estar num lugar seguro. Na manhã seguinte, acordei com o toque suave do despertador do celular. A claridade entrava delicada pelas frestas da janela. Me espreguicei devagar, sentindo o corpo menos pesado. Vesti uma calça jeans escura, uma blusa florida e prendi o cabelo num rabo de cavalo alto. Passei um pouco de corretivo e rímel — só o suficiente para parecer menos abatida. Me olhei no espelho e repeti mentalmente: só por hoje, deixa a tristeza no quarto. Desci as escadas, sentindo o cheiro de café fresco se espalhando pela casa. Fui direto para a cozinha da pousada, que era simples, com móveis de madeira clara e cortinas floridas nas janelas. Os hóspedes tomavam café no salão ao lado, mas eu queria ficar só com a tia naquele momento. Ela já me esperava com um sorriso que parecia abraço. — Bom dia, minha flor. Dormiu bem? — Dormi sim, tia. Obrigada por tudo — disse, puxando a cadeira com suavidade. Ela colocou à minha frente uma xícara de café bem forte e dois pães com geleia de morango, ainda mornos. — Fiz como você gostava quando era pequena. Ainda lembra do gosto? Sorri, emocionada. — Como esquecer? Eu amava isso. Ela se sentou ao meu lado, tomou um gole do café dela e me observou com aquele olhar que sabia de tudo sem precisar perguntar. — Está pronta para ir até a floricultura da Leonilda? — Sim… mas será que você pode me levar até lá? Não lembro muito bem da cidade. Meus pais se mudaram para São Paulo quando eu tinha uns dez anos. — Claro que levo, filha. E não se preocupa, vai dar tudo certo. A Leonilda é uma boa mulher. Se tiver uma vaga mesmo, ela vai te receber de braços abertos. — Tomara… preciso ocupar a cabeça. Fazer alguma coisa útil. Ela tocou minha mão com delicadeza. — Você já está fazendo. Está se cuidando. Isso já é muito. Depois do café, minha tia chamou a moça que ajudava na pousada. — Roseli, cuida das coisas para mim até eu voltar, está bem? Vou levar minha sobrinha na floricultura. — Pode deixar, dona Benedita. Vai tranquila — respondeu Roseli, sempre sorridente. Entramos no carro. Minha tia ainda dirigia bem, com firmeza e atenção. Fomos devagar pelas ruas de pedra da cidadezinha, as janelas abertas deixando entrar o ar fresco da manhã. O cheiro de terra, de café e de flores se misturava num perfume que só o interior tem. Eu olhava pela janela como quem olha um álbum de lembranças. Cada casa colorida, cada árvore, cada canteiro florido me puxava de volta à infância. Dez minutos depois, ela estacionou na frente da floricultura. E, por um instante, tudo parou. Era um lugar encantado. Flores por toda parte. Vasos coloridos, jardineiras penduradas, canteiros organizados com perfeição. Rosas, margaridas, lavandas, girassóis. Um espetáculo de cores vivas, como se a natureza tivesse pintado ali seu quadro favorito. Na entrada, um capacho bordado dizia: “Sejam bem-vindos”. E eu me senti exatamente assim. Bem-vinda. Foi então que ela apareceu. Dona Leonilda — ou como pensei de imediato, dona Nilda — surgiu na porta com um sorriso que mais parecia raio de sol. Usava óculos grandes, uma saia longa florida e um colete de crochê sobre uma blusa clara. Seu jeito era calmo, acolhedor, e dava a impressão de que ela conversava com as plantas. E elas respondiam. — Minha nossa, olha só quem está aqui! — exclamou, abrindo os braços. Ela me abraçou apertado, como se me conhecesse a vida toda. E mesmo sem lembrar muito dela, eu correspondi. — Você cresceu tanto, menina! Minha tia se adiantou: — Leonilda, a Isa veio morar comigo por um tempo. Está passando por umas coisas e quer recomeçar. Acha que pode ajudar? — Claro que posso! — disse dona Nilda, sem hesitar. — Essa loja tem espaço para mais um coração apaixonado por flores. — Eu… eu gosto de flores desde pequena — confessei, meio sem jeito. — Sempre conversava com as do quintal da minha mãe. Mas não sei cuidar de verdade… Ela riu com doçura. — Ah, minha flor… falar com planta é o primeiro passo. Quem conversa com elas tem alma leve. O resto eu te ensino. É mais simples do que parece. — Posso te chamar de dona Nilda? — perguntei, meio envergonhada. — Pode sim, minha flor — respondeu, rindo. — Aliás, adorei. Me faz parecer personagem de novela. Rimos juntas, e naquele instante, tudo pareceu mais leve. — Então… estou contratada? — Contratada — respondeu ela, pegando minha mão. — Você começa amanhã. A gente vai devagar, sem pressa. Cuidar das flores ajuda a curar o que a gente nem sabe que está machucado. Olhei para minha tia, que sorria com orgulho, e depois para dona Nilda. Era só o começo, mas alguma coisa dentro de mim sussurrou: você vai se encontrar aqui. E eu quis acreditar.O Nosso Para SempreISABELAUm mês depois...Depois que voltamos de Paris, o tempo pareceu correr em um ritmo diferente, mais leve, mais rápido, como acontece quando a felicidade é a bússola. Um mês havia se passado voando, e cada dia foi dedicado a um único propósito: planejar o nosso casamento nos mínimos detalhes. Rafael estava ao meu lado em cada escolha, desde a cor das fitas até o tipo de flor, mostrando um entusiasmo contagiante que me fazia amá-lo ainda mais. Ele se entregou de corpo e alma, buscando fornecedores, experimentando sabores do buffet, discutindo o local da festa depois que a cerimônia acaba-se. Cada sorriso que ele me dava ao aprovar um detalhe, cada toque de mão para me tranquilizar, era uma paz para minha alma. Era a prova de que essa nova etapa da nossa vida seria construída a quatro mãos, com o mesmo amor e dedicação.A pousada, estava impecável. Seus recantos rústicos e charmosos foram adornados com as flores frescas que eu mesma havia trazido da minha floric
A Grande SurpresaRAFAELIsa não tem noção do que Camile e eu aprontamos o dia todo para ela. Sim, passamos o dia juntos, conversando e nos reconectando, mas não foi só isso. Eu preparei uma surpresa para ela hoje em um restaurante caro, um lugar que escolhi a dedo. Liguei para Carlos, Sofia e Tia Benedita para que eles viessem para Paris. A ideia de ter todos ali, juntos, para um momento tão importante, me encheu de uma expectativa quase infantil.Agora, enquanto estamos dentro do carro, dirigindo até o restaurante, eu relembro os acontecimentos do dia. Primeiro, Camile e eu fomos até uma joalheria. Finalmente, resolvi que era a hora certa de pedir Isabela em casamento. Mas espero que ela diga sim e que não jogue uma taça de vidro na minha cabeça depois do que conversamos sobre casamento. Não sei se ela está pronta, mas eu, com certeza, estou. Aquele momento na Pont des Arts foi um divisor de águas, e a noite que passamos juntos só reforçou minha certeza.Recebi Carlos, Sofia e Tia B
Depois da conversa que tive com Camile na delegacia, senti que ela ainda não havia me perdoado completamente; estava nítido em seu olhar evasivo e na forma como evitava meu olhar. Saímos de lá, e Rafael prometeu que conversaria com os pais para ajudar a irmã. Ele temia que, de alguma forma, tudo aquilo chegasse aos ouvidos deles. Camile, envolta no abraço protetor de Rafael, disse a ele que queria trocar de faculdade. Ele deu um beijo na têmpora dela e garantiu que a polícia iria punir o ex-namorado babaca e as garotas que tanto a agrediram.O carro de Rafael parou na frente da casa. Camile o abraçou e saiu sem olhar para mim, entrando rapidamente.— Ela vai ficar bem? — perguntei a Rafael, sentindo um nó na garganta.— Tenho certeza que sim! — ele respondeu, mas vi dúvidas em seu rosto, um cansaço que a situação da irmã havia imposto.— Eu estava pensando em voltar para o interior, mas acho que você gostaria de ficar mais? — falei, a pergunta pairando no ar. Parecia que não havia mai
O Confronto InevitávelISABELAAssim que entramos mais a fundo na casa, somos saudados pelo som grave e pulsante vindo de dentro, enquanto as pessoas circulam na frente. Era uma balada completa, com luzes piscando e uma multidão dançando. "Uau. De onde saiu tantos jovens?", eu pensei, sentindo um certo deslocamento. Por um breve instante, tentei me convencer de que poderia estar errada e que Camile estaria apenas fazendo novos amigos, sem perigo real.Essa esperança logo se desfez. Uma garota de cabelos compridos e muitas tatuagens nos parou. Seus olhos estavam um pouco arregalados, e ela parecia nervosa.— Vocês estão aqui por Camile? — ela perguntou, a voz meio abafada pela música.— Exatamente, eu sou irmão dela! — Rafael rosnou, sua voz baixa e carregada de fúria, fazendo a coitada da garota se encolher visivelmente.— Ela está na sala discutindo com Chris — ela falou, apontando para uma área mais ao fundo da casa.— Quem diabos é Chris? — eu perguntei, sentindo um arrepio na espi
— Bem, eu vou indo antes que Rafael venha me procurar — falei, sentindo a urgência em cada sílaba, meus passos já direcionados à porta entreaberta do quarto de Camile. Precisava de ar, de tempo para processar aquela bomba e, principalmente, para pensar em um plano.— Tá bom, e muito obrigado por guardar o meu segredo e me ajudar — ela respondeu, a voz quase um sussurro, os olhos fixos no chão como se o mármore frio contivesse todas as suas vergonhas. — Eu mudei a impressão que eu tinha de você. — Aquelas palavras, vindas dela, foram um pequeno alívio em meio ao turbilhão.Dei-lhe um último aceno, um misto de alívio por sua confiança e uma preocupação crescente pela sua situação. Saí do quarto, mas meus olhos se arregalaram em choque, meu coração dando um salto triplo. Lá estava Rafael, parado do lado de fora, com os braços cruzados sobre o peito musculoso, uma expressão séria e indomável em seu rosto. O ar ao redor dele parecia vibrar com uma tensão contida.Ele não disse uma palavra.
Na manhã seguinte, fui acordada com um beijo suave nos lábios. — Acorda, querida — Rafael falou enquanto eu lutava com a claridade que invadia o quarto pela janela.— Que horas são? — perguntei sem abrir os olhos, ainda imersa no sono.— Ainda muito cedo, são 6 horas — ele respondeu, me puxando pela cintura para mais perto.— Volte a dormir — eu falei, enquanto me levantava, sentindo a necessidade urgente de ir ao banheiro. Caminhei até lá, e quando voltei para a cama, já tinha perdido o sono. Tratei de colocar um moletom e caminhei para fora do quarto, sem acordar Rafael.Foi então que escutei a porta da frente se abrindo. Era Camile chegando, a essa hora da manhã. Ela caminhou com passos lentos para a escada, e foi ali, na penumbra do hall, com os braços cruzados, que eu decidi falar. — Bom dia, Camile? — falei, mas rapidamente me arrependi, lembrando-me da forma como ela passou por mim e Emma na noite anterior.— Hum, é você! — Ela mordeu a bochecha, um sinal claro de desconforto.







