Compartilhar

Um Doce Recomeço

last update Data de publicação: 2026-05-31 23:34:47

Sarah

Os primeiros dias em Londres passaram como uma névoa da qual eu não conseguia escapar. As horas se misturavam umas às outras, os dias começavam e terminavam sem que eu realmente percebesse, e tudo parecia acontecer distante demais, como se eu estivesse assistindo à minha própria vida de fora.

Minha mãe fazia o que podia para me distrair. Falava sem parar durante o café da manhã, comentava sobre os vizinhos, sobre o trabalho, sobre qualquer assunto que pudesse preencher os silêncios que eu insistia em deixar entre nós. Mark também tentava ajudar, mas do jeito dele. Não fazia perguntas invasivas nem insistia quando eu respondia apenas com um sorriso. Em vez disso, me observava com aquela preocupação discreta que ele nunca conseguia esconder completamente.

Kate, por sua vez, parecia determinada a não me deixar afundar. Todos os dias meu celular recebia uma sequência interminável de mensagens, vídeos engraçados, memes absurdos e fotos aleatórias que ela encontrava na internet. Às vezes eu até ria. Outras vezes apenas observava a tela sem realmente prestar atenção.

Porque, inevitavelmente, meu olhar acabava encontrando o nome dele.

Ethan.

Mesmo depois de tudo, bastava ver aquelas cinco letras para sentir algo apertar dentro do meu peito.

No início, ele ligava todos os dias. Algumas vezes pela manhã, outras durante a noite, como se estivesse tentando adivinhar os momentos em que eu estaria mais vulnerável. Quando percebeu que eu não atenderia, as mensagens começaram a chegar.

Primeiro eram curtas.

"Sarah, por favor."

"Preciso falar com você."

"Me deixa explicar."

Depois ficaram maiores, mais insistentes. Eu nunca abria nenhuma delas. Lia apenas os trechos que apareciam nas notificações antes de apagar tudo rapidamente, como se aquelas palavras fossem capazes de me machucar.

Porque eram.

Os áudios vieram logo depois.

Eu nunca escutei nenhum.

Nem um único segundo.

Ainda assim, às vezes me pegava olhando para a tela do celular e imaginando o que ele estaria dizendo. Imaginando o tom da sua voz. Imaginando qual desculpa criaria dessa vez para justificar mais uma maldade do irmão.

Isso me irritava mais do que qualquer outra coisa.

Eu não queria pensar nele.

Não queria lembrar daquela noite.

Não queria lembrar da humilhação de acreditar que tinha vivido algo especial para descobrir, poucas horas depois, que tudo não passara de um enorme desastre.

Bloqueei o número mais de uma vez.

Mas Ethan sempre encontrava outra maneira de aparecer.

Um novo número.

Uma nova tentativa.

Uma nova mensagem.

Era como se fosse ele quem tivesse me magoado. Enquanto Jack continuava fingindo que eu nunca existi.

E talvez por isso eu soubesse que precisava encontrar alguma coisa que ocupasse meus pensamentos antes que acabasse enlouquecendo.

Foi quando minha mãe sugeriu o curso de confeitaria.

No começo, achei que ela estivesse brincando.

Eu nunca fui exatamente apaixonada por cozinhar. Na verdade, durante boa parte da minha vida, considerei um milagre conseguir preparar qualquer coisa sem fazer uma bagunça monumental no processo.

Mas, sem ter muito a perder, aceitei.

E para minha surpresa, gostei.

Gostei mais do que imaginava ser possível.

Na primeira aula, descobri que havia algo estranhamente reconfortante em misturar ingredientes, seguir receitas e observar algo ganhar forma diante dos meus olhos. Enquanto minhas mãos trabalhavam a massa ou decoravam um bolo, minha mente finalmente encontrava alguns momentos de paz.

Pela primeira vez em meses, eu conseguia passar horas sem pensar em Jack.

Sem pensar naquela noite.

Pouco a pouco, aquilo se transformou em um refúgio.

As semanas passaram mais rápido do que eu esperava. Eu me dedicava às aulas, chegava em casa cansada e, pela primeira vez desde que voltara para Londres, sentia que estava construindo algo novo para mim.

Quando surgiu a oportunidade de estagiar em uma confeitaria renomada no centro da cidade, agarrei a chance sem pensar duas vezes.

O trabalho era cansativo.

As jornadas começavam cedo, minhas mãos viviam cobertas de pequenos cortes e queimaduras, e eu chegava em casa exausta quase todos os dias.

Mas era uma exaustão boa.

Uma exaustão que me fazia sentir viva.

Aos poucos, voltei a sorrir sem precisar fingir. Voltei a fazer planos. Voltei a acreditar que talvez fosse possível seguir em frente.

Até que os enjoos começaram.

No início, não dei importância.

Atribuí tudo ao excesso de trabalho, às horas em pé ou ao estresse acumulado dos últimos meses. Afinal, meu corpo tinha passado por muita coisa recentemente.

Mas os dias continuaram passando.

E os enjoos também.

Depois vieram o cansaço constante, a sensibilidade aos cheiros e aquela sensação estranha de que alguma coisa estava diferente.

Quando percebi que minha menstruação estava atrasada, um frio percorreu minha espinha.

Ainda assim, tentei encontrar outras explicações.

Porque a verdade parecia impossível demais.

Mesmo assim, comprei um teste de gravidez.

Lembro de ter caminhado até a farmácia com o coração disparado, repetindo para mim mesma que aquilo era apenas precaução. Que eu estava exagerando. Que tudo ficaria bem.

Mas, no fundo, eu já sabia.

Quando me vi sentada no chão do banheiro, segurando o teste entre os dedos trêmulos, senti um medo que nunca havia experimentado antes.

Os segundos passaram devagar.

Lentos demais.

Até que o resultado apareceu.

Dois traços.

Fiquei encarando o visor por vários segundos, incapaz de respirar direito.

O mundo pareceu parar.

Minha mente tentava negar o que meus olhos estavam vendo, como se bastasse olhar por mais tempo para que o resultado mudasse.

Mas não mudou.

Eu estava grávida.

O teste escorregou dos meus dedos enquanto minhas costas encontravam os azulejos frios da parede. Encolhi as pernas contra o peito e apertei os braços ao redor delas, tentando desesperadamente organizar os pensamentos.

Como aquilo tinha acontecido?

Como eu contaria para minha mãe?

E, acima de tudo, como lidaria com o fato de que o homem cujo nome eu passara meses tentando esquecer agora estava ligado a mim de uma forma impossível de apagar?

As lágrimas vieram sem que eu percebesse.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App
Comentários (1)
goodnovel comment avatar
Felipe Crepaldi
Ela tá grávida do irmão do cara
VER TODOS OS COMENTÁRIOS

Último capítulo

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    O Florescer do Nosso Tempo

    Sarah O som das risadas vindas da sala de estar ecoava pelos tetos altos da nossa casa, misturando-se ao aroma convidativo do assado que terminava de dourar no forno. Parada na cozinha, ajustei o avental ao redor da minha cintura e parei por um instante apenas para respirar. Três anos. Três anos haviam se passado desde a noite em que o nosso mundo virou do avesso e, ao mesmo tempo, encontrou o seu verdadeiro eixo. Olhei pela janela que dava para o imenso jardim da mansão que Ethan e eu havíamos escolhido para construir a nossa história. A luz dourada do fim da tarde nas colinas trazia uma sensação de paz que, durante muito tempo, julguei ser impossível de alcançar. O processo para chegar até aqui não foi simples. Houve longos meses de terapia, audiências judiciais exaustivas decorrentes do desfecho trágico e louco de Jack e Clara, e muitas conversas nas madrugadas onde Ethan e eu recolhemos, um a um, os pedaços das nossas antigas dores. Mas nós havíamos vencido. O amor, quando

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    Um Futuro a Vista

    Ethan O estofado estreito do sofá parecia a única superfície sólida em um universo que desabava e se reconstruía ao mesmo tempo. No instante em que o moletom de Sarah caiu no chão, seguido pelo restante de nossas roupas, o choque térmico da pele dela contra a minha fez meu cérebro silenciar de vez. Não havia mais espaço para os fantasmas da chácara, para as ameaças de Jack ou para os cálculos frios que ditaram as minhas escolhas nos últimos sete anos. Só existia o agora. Um agora urgente, febril e desesperado. Puxei-a para mais perto, sentindo a maciez do seu abdômen contra o meu, o calor irradiando da sua pele como uma fogueira no meio daquela madrugada fria. Sarah prendeu os dedos nos meus cabelos, ainda ligeiramente úmidos do banho, e me puxou para baixo com uma força que me surpreendeu. Seus lábios encontraram os meus novamente, não em um beijo de despedida, mas em uma posse violenta. Nossas línguas se enlaçaram em um ritmo frenético, um diálogo mudo onde cada toque tentava

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    Sobreviventes de um Naufrágio

    Ethan Quando entrei no cômodo, percebi que a minha presença para fazê-lo pegar no sono já não era mais necessária. Elliot estava profundamente adormecido, com o cobertor cobrindo seu corpinho até o peito, a respiração finalmente calma, compassada e livre do medo. Ao lado dele, deitada de lado por cima das cobertas, com um braço estendido de forma protetora sobre o menino, estava Sarah. Ela parecia ter pegado no sono também, completamente vencida pelo esgotamento físico, pelos soluços e pelo desgaste emocional daquela noite terrível. Fiquei parado na penumbra por alguns longos segundos, apenas observando a cena. Minha família. A família de quem eu passei longos sete anos longe, e que agora estava ali, ao alcance das minhas mãos, respirando sob o mesmo teto. Senti que não tinha o direito de perturbar o descanso deles. Dei um passo para trás, girando o corpo devagar para sair do quarto e deixá-los dormir no silêncio que tanto mereciam. Ao sair do pequeno quarto de Elliot, me encamin

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    Um Intruso

    Ethan A sensação daquele abraço foi a primeira coisa real, quente e genuína que senti em meio ao inverno rigoroso em que minha vida havia se transformado nas últimas horas. Senti o corpinho de Elliot se moldar ao meu peito com uma confiança que eu, sinceramente, não merecia. Afastei-me sutilmente, o bastante apenas para olhar o seu rosto pequeno, limpando com o polegar o rastro de uma lágrima que secava em sua bochecha. Com cuidado, segurei-o firme e o levantei do chão, acomodando-o no meu colo. O peso dele já não parecia um fardo, mas uma âncora, a única coisa que me mantinha fixo no chão depois que todo o meu mundo desmoronou. Olhei por cima do ombro do menino em direção ao sofá da sala de estar. Sarah continuava exatamente do mesmo jeito: estática, com as mãos recolhidas e os olhos fixos em nós, como se estivesse tentando processar o fato de que a realidade que ela conhecia havia mudado completamente de eixo em questão de minutos. O choque e a exaustão profunda estavam estamp

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    Um Coração Aliviado

    Ethan A dor que se instalou no meu peito era diferente de tudo o que já senti. Não era o cansaço físico, nem o resquício dos golpes de Jack. Era a fragilidade da vida do meu filho exposta bem diante de mim, cobrando um preço que eu sabia que teria de pagar mais cedo ou mais tarde. Olhei para a mãozinha dele agarrada a minha jaqueta e percebi que o tempo das omissões havia chegado ao fim de forma definitiva. Devagar, sentindo cada músculo do meu corpo protestar, me ajoelhei no chão de madeira até ficar exatamente à altura dos olhos de Elliot. O mundo ao redor pareceu desaparecer. Estendi a mão direita, ainda um pouco trêmula, e segurei o ombro dele com suavidade, sentindo a textura do pijama limpo. Antes de falar, meu olhar se desviou instintivamente para o sofá. Sarah estava estática. O choro ruidoso de antes havia cessado, dando lugar a uma rigidez assustadora. Ela nos encarava fixamente, com os olhos arregalados e os lábios entreabertos, como se estivesse assistindo ao própri

  • Entre Irmãos, Uma traição e um bebê    Sem mais Mentiras

    Ethan O ar parecia ter sido completamente drenado da sala da casa de Sarah. A pergunta de Elliot flutuou entre nós, expandindo-se até preencher cada fresta daquele ambiente, pesada como uma sentença de tribunal da qual eu não tinha como escapar. Senti o meu sangue congelar nas veias, uma dormência fria subindo pelas minhas extremidades até travar a minha mandíbula. As palavras, que sempre foram minhas ferramentas de comando na Holding, simplesmente sumiram. Fiquei paralisado, encarando aqueles olhos castanhos que eram o espelho exato dos meus, sentindo o chão oscilar sob os meus pés.O segredo que eu havia guardado no fundo do meu peito por todos esses meses, arrastando-me pelo purgatório da culpa, acabava de ser desenterrado pela inocência de uma criança de oito anos. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, antes que o meu cérebro conseguisse articular um único som para amenizar o impacto, Sarah tomou a frente. Seus movimentos foram bruscos, impulsionados por um desespero p

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status