FAZER LOGINQuando cheguei em casa, o barulho do meu sapato molhado contra o chão pareceu alto demais. Tudo ali parecia amplo demais, silencioso demais, vazio demais. Era como se o eco da tempestade ainda vibrasse no meu corpo, e junto com isso um pensamento ainda mais complicado.
Lorenzo. O nome dele entrou na minha cabeça como uma pressão súbita no peito, me fazendo fechar os olhos. Eu ainda conseguia sentir o cheiro dele, o calor do corpo tão perto do meu, o ar preso na garganta quando ele disse aquilo no escuro. “Isso ainda não acabou.” Aquela frase ainda ecoava na mente repetidas vezes. Joguei a bolsa no sofá e fiquei parada no meio da sala, encarando o vazio como se ele fosse me dar respostas. Mas a única coisa que ele me dava era um silêncio cruel, onde todos os pensamentos que eu preferia evitar vinham com força dobrada. Meus dedos tremiam um pouco. Talvez fosse a adrenalina? Eu precisava de alguém. De uma voz conhecida. De um toque de realidade. Peguei o celular, já sabendo quem poderia puxar meu pé de volta pro chão. “Lis… preciso conversar. Você tá aí?” A resposta veio antes mesmo de eu raciocinar. “Me encontra no Reviera, em 20 minutos.” Olhei o relógio, já se passavam das nove dá noite. Vesti qualquer coisa, prendi o cabelo num rabo de cavalo e pedi um Uber. A cidade ainda respirava aquela umidade densa pós-tempestade, com as ruas refletindo luzes e pedaços de folhas grudadas no asfalto. Dentro do carro, eu tentava organizar os pensamentos em caixinhas lógicas, mas eles simplesmente… não se encaixavam. O caminho foi silencioso, quebrado apenas por perguntas protocolares do motorista. Lis me esperava no canto reservado do restaurante, aquele que ela sempre escolhia quando sabia que a conversa ia ser séria. O ambiente rústico, com mesas de madeira maciça, plantas em abundância davam um ar aconchegante e discreto. Fui recebida por um abraço caloroso, sem nada dito, mas que falava mais que qualquer palavra. Ela sabia que eu estava precisando. — Você tá horrível! — comentou, sem cerimônia. — Por dentro eu tô bem pior, amiga. — murmurei, tentando brincar, mas a voz saiu meio falha. — Pode começar do começo, quero todos os detalhes — disse, ajeitando-se na cadeira com aquele sorriso curioso. A luz amarela refletia no vinho, fazendo tudo parecer um pouco mais seguro. Sentei e contei tudo: a escuridão, o pânico do pessoal, a porta quebrada, a tempestade balançando tudo. Lis ouviu tudo sem me interromper, apenas com aqueles olhos de radar emocional que ela sempre carregava. — E isso te incomodou? — Ela abriu um sorrisinho perigoso. — Eu não sei. Sim. Não. Talvez. — Apertei o guardanapo entre os dedos. — Eu organizei a equipe para saída… e acabei ficando presa. Com ele. Ela bateu na mesa. — Você ficou trancada no escuro com Lorenzo Castellani? — Fiquei. — E aconteceu o quê, Mila? O QUÊ? Revirei os olhos, mas o rosto queimou. — Ele… estava muito perto. Muito mesmo. E teve um momento que não parecia só profissional. E antes que eu pudesse dizer… qualquer coisa… o Júlio apareceu. Lis reclamou tão alto que duas mesas olharam na nossa direção. Ri, nervosa, apoiando o rosto na mão. — Eu não sei o que fazer — admiti baixinho. — Ah, sabe sim — ela retrucou, incisiva. — Você só não quer admitir. Meu silêncio disse tudo. — Tá — ela disse por fim, cruzando os braços. — Então você está me dizendo que ficou presa com um homem lindo, inteligente, cheiroso, bilionário e altamente interessado em você… e a sua reação é “estou apavorada”? — Sim. — Suspirei. — Porque eu tô. Lis… eu gostei dele. Eu gostei demais. E isso me assusta. — Mila — ela disse, mais suave — ninguém tá pedindo pra você casar com esse homem. — Não é tão fácil assim. Ela apoiou os cotovelos na mesa. — É por causa do Marcos? A forma direta como ela disse o nome me cortou. Engoli seco. — Eu não quero me machucar de novo, Lis. Eu mal consegui juntar meus pedaços depois dele. E o Lorenzo… — É a primeira pessoa que faz você se sentir viva de novo depois de dois anos. Lis apoiou sua mão na minha, sem dó, mas com carinho. — Mila… querer e ter medo ao mesmo tempo é normal. Aliás, é aí que mora a coragem. Você não precisa se jogar de cabeça. Só precisa… se permitir. No seu ritmo. Meu peito apertou, o corpo entrando naquele estado de luta e fuga. — E tem outra. — Lis apoiou o queixo na mão, analisando. — Ele te olha como se quisesse decifrar você até na frente dos outros. Isso pode ser perigoso… mas também pode ser muito, muito bom. Ri, sem humor. — Ele disse que aquilo… — balancei as mãos em círculos — ainda não tinha terminado. Lis quase derrubou a taça. — Mila, pelo amor de Deus, esse homem quer você. E aquela frase ficou presa na minha mente como uma nota que continua vibrando depois da música acabar. Felizmente o resto da noite passou rápido, entre confidências, fofocas e risadas. Eu estava me sentindo mais leve. Quando finalmente nos despedimos já se passavam das onze. Lis já tinha ido embora. Eu fiquei ali, embaixo da marquise, tentando pedir um Uber enquanto o vento começava a soprar de novo. Foi quando o SUV preto desacelerou diante de mim, devagar, como se estivesse escolhendo o melhor segundo para me encontrar. O vidro desceu. — O que faz perdida a essa hora na rua, senhorita Moretti? — perguntou com um sorriso surpreendentemente relaxado. Era ele. Eu arregalei os olhos, e um suspiro escapou sem a minha permissão, como uma criança sendo pega fazendo alguma coisa errada. — Encontrei uma amiga aqui. Mas não estou conseguindo carro… Antes que eu pudesse terminar de falar ele desceu, deu a volta e abriu a porta do passageiro. — Acabou de encontrar. E eu não aceito “não” como resposta. Senti meu rosto queimar por um momento. — Uh… É um belo upgrade — forcei um sorriso — Mas, sério! Não quero incomodar, senhor Castellani. — É meu dever cuidar da segurança dos que trabalham comigo. — Pessoalmente? — provoquei, arqueando uma sobrancelha. Sua expressão endureceu, sua mandíbula ficou contraída como se eu tivesse tocado em um ponto sensível. — Foi coincidência eu estar passando por aqui. E, o que você tem a perder? Olhei ao redor como se buscasse uma resposta, o tempo estava se fechando novamente, e eu definitivamente não queria pagar pra ver. — Porque não né?! — Assenti e entrei. O carro era luxuoso, elegante e impecavelmente limpo. Me segurei para não parecer impressionada demais. Coloquei o cinto e olhei pra ele, por um momento o silêncio pairou no ar, aquele mesmo silêncio que vivemos horas antes naquela sala escura. Senti minha boca afastar ligeiramente, e um leve suor surgindo em minhas mãos. Era como se cada respiração, cada batimento cardíaco meu dissesse uma palavra. Nossos olhos se encontraram. O choque foi o mesmo. Mas uma buzina do carro de trás nos tirou daquela transe. Ele acelerou o carro, e deixou escapar: — Seu namorado não se importa com tantas horas de trabalho? A pergunta veio afiada, mas o tom… O tom era presunçoso. — Não tenho namorado. — disse arqueando uma sobrancelha. — Não? — ele desviou o olhar rapidamente para mim, como quem analisa uma informação importante. — E sua família? Amigos? Alguém espera você chegar em casa? — Só a Lis. — dei um sorriso sem graça. — Minha família está em Santa Catarina. E… a gente não se fala muito. Desde que eu saí de Floripa, falar da minha família ainda era complicado. Ele percebeu o incômodo antes de eu conseguir disfarçar. A mão dele relaxou no volante. — Não precisamos falar disso — disse com uma gentileza que eu não esperava. Soltei um suspiro que eu nem sabia que estava segurando. — E você? — perguntei, tentando retomar o equilíbrio. — Tem namorada? Um sorriso lento, quase imperceptível, surgiu no canto dos lábios dele. — Não, Mila. Não tenho. Meu nome na voz dele com aquele tom fez meu corpo estremecer. Olhei pela janela, tentando organizar o caos dentro da minha cabeça. Mas a verdade é que, por um momento, não havia passado, nem medo, nem história pra fugir. Havia só ele.~Lorenzo~Fiquei olhando para Mila.Ela não me respondeu de imediato. As suas pupilas estavam tão dilatadas que quase cobriam toda a parte azul. Os dedos começaram a torcer a barra do lençol, torcendo o tecido até os nós ficarem visíveis na ponta dos dedos. Ela estava hesitando e eu a conhecia o suficiente para saber.— Eu… é… — a voz dela saiu quase um sussurro. Ela limpou a garganta. — Eu passei muito mal nos últimos dias.As mãos dela pararam e subiram para o próprio rosto, como se quisessem se esconder. Os polegares esfregavam a lateral do rosto, um movimento curto, repetitivo.— Enjoo. Cansaço. E foram tantas coisas acontecendo, que eu não me atentei ao meu ciclo. — Ela estava falando rápido, as palavras se atropelando. — Eu achei que era o estresse do trabalho e dos últimos acontecimentos… Não tirei os olhos dela nem por um segundo. Segurei a mão que ela deixou pairar no ar e a trouxe para perto da minha. Ela apertou com força.— Mas quando eu cheguei aqui, uma enfermeira me v
Acordei com um sobressalto, o coração martelando na garganta. A luz que entrava pela janela não era mais o rosa pálido da manhã, mas um laranja profundo, quase âmbar se misturado com tons de roxo, indicando que o dia estava se despedindo. Olhei para o relógio na parede e o pânico me atingiu: eu tinha dormido por quase doze horas.— Droga, Mila… — resmunguei, sentando-me rapidamente, a cabeça girando por um segundo.— Bom dia, dorminhoca. Ou melhor, boa noite.A voz dele me fez congelar. Virei o rosto tão rápido que senti um estalo no pescoço. Lorenzo estava acordado. Ele estava com a cabeceira da cama levemente elevada, tentando, com uma coordenação questionável, levar uma colher de gelatina à boca usando apenas a mão direita.— Lorenzo! — Eu praticamente pulei da cama. Corri em sua direção, mas parei a centímetros de tocá-lo, minhas mãos pairando no ar, com medo de que qualquer toque pudesse machucá-lo ainda mais. — Meu Deus, você acordou! Como v
O sol começava a pintar o céu de Lisboa, mas dentro daquele quarto de hospital, o tempo parecia ter congelado na madrugada. Lorenzo tinha saído da cirurgia há pouco mais de duas horas.O Dr. Martim explicou que a placa no rádio tinha sido colocada com sucesso, mas que as costelas quebradas e o trauma na cabeça exigiriam um repouso absoluto.Ele estava ali, cercado por fios, com o monitor cardíaco emitindo um bipe rítmico que era a única música que eu queria ouvir. Um acesso venoso no braço direito levava soro e analgésicos, e um pequeno cateter de oxigênio ajudava sua respiração ainda pesada pela anestesia. Eu estava exausta, mas o sono era um luxo que eu não podia me permitir.Sentada naquela poltrona numa posição desconfortável ao lado da cama de Lorenzo, eu vigiava a porta como se a própria morte pudesse entrar a qualquer momento vestindo uma roupa de grife. Olhei para seu rosto pálido, esperando qualquer tipo de reação. O medo era um gosto me
A porta do quarto se abriu com um clique suave, e a Lis entrou carregando uma bolsa de lona grande, como se estivesse apenas trazendo roupas limpas e o meu notebook.— Consegui — ela sussurrou, fechando a porta e dando uma última espiada no corredor. — Ninguém me parou. Acho que a família do Lorenzo está ocupada demais com os advogados e a imprensa lá embaixo.Ela abriu a bolsa e tirou duas caixinhas. Uma simples, e outra mais sofisticada, daqueles testes digitais que prometem precisão absoluta.— Comprei dois. Pra garantir, né?— ela disse, tentando manter a voz firme, mas eu via o tremor nas suas mãos.— Lis, eu estou com medo. — admiti, sentindo minhas pernas fraquejarem.— Eu sei, amiga. Mas você não está sozinha. — ela estendeu uma das mãos para mim. — Vamos? — Sei que você tem dificuldade com limites… Mas eu não vou fazer xixi num potinho na sua frente.— Tá, tá! Eu fico aqui de costas, pra te dar privacidade.Bufei, revirando os olhos, mas cedi a sua proposta, eu precisava dela
O brilho da tela do celular era a única luz no quarto escuro, e ele parecia queimar meus olhos. Eu não conseguia parar de atualizar as páginas de notícias. O nome “Castellani” estava em todo lugar. Primeiro, o escândalo de lavagem de dinheiro, com as malditas fotos distorcidas de Campinas e Lisboa servindo de combustível para o ódio público. Agora, a notícia do acidente. “CEO da Castellani em estado grave após despiste em Sintra”.As pessoas nos comentários eram cruéis. Diziam que era carma, que ele merecia, que era uma cortina de fumaça pra não dar explicações, que ele estava fugindo da justiça. — Ah, se eles soubessem a verdade. — murmurei baixinho.Uma notificação do Sr. Moreira apareceu no topo da tela. Mais uma das dezenas que eu já tinha recebido. Ele queria explicações, queria saber como isso afetaria a agência, queria que eu “gerenciasse a crise”, antes de perdermos o cliente.— Ele que ele se foda — sussurrei para o silêncio do quarto, jogando o celular sobre o colchão.Eu t
O quarto do hospital era tão grande que parecia uma suíte de hotel. Mas, ainda assim, as paredes brancas pareciam se fechar sobre mim a cada passo que eu dava, de um lado para o outro, em um ritmo frenético que não conseguia acalmar meu coração. Lorenzo ainda estava no centro cirúrgico. A cada minuto que passava, o peso da culpa e do medo aumentava.Como ele reagiria quando acordasse? Eu precisava de um plano. Precisava desmascarar a Beatrice antes que ela terminasse de destruir o que restava da integridade do Lorenzo. Mas como, se eu estava presa aqui, enquanto ele estava em uma mesa de cirurgia?Meus pensamentos foram interrompidos por mais uma onda súbita de náusea. Não era apenas um enjoo leve; era uma revolta completa do meu sistema. Corri para o banheiro, mal conseguindo chegar ao vaso sanitário. Não havia nada no meu estômago além de bile e desespero. Aquela gosma amarga e ácida subia pela minha garganta, deixando um rastro de fogo.Senti uma mão quente e firme segurando meu







