Mag-log inOs últimos dias tinham sido uma mistura insana de prazos, café quase frio, reuniões atrás de reuniões e uma vontade crescente de arrancar o próprio couro cabeludo. Desde que a Castellani Holdings assinou oficialmente o contrato, a agência estava em um modo frenético que eu secretamente amava. O caos criativo sempre foi meu habitat natural.
Alguns dias já tinham passado desde nossa primeira reunião, e eu ainda não conseguia decidir o que era mais exaustivo: o volume absurdo de demandas … ou o fato de que Lorenzo sempre aparecia na minha linha de visão quando eu menos esperava. Estávamos no estúdio gravando a última sequência de anúncios. A equipe esbarrava em cabos, as câmeras eram ajustadas freneticamente, a luz refletia nos painéis brancos. E ele… ele observava tudo de braços cruzados, expressão impassível, como se estivesse avaliando até o ar. A cada vez que eu sentia o olhar dele pousar em mim, meu estômago dava um micro salto irritante. E quando eu, sem querer, acabava retribuindo, ele segurava o contato com uma calma que era quase… perigosa. Eu analisava um storyboard quando tudo apagou. A luz piscou uma única vez antes de morrer por completo. O ar-condicionado desligou com um suspiro metálico. — Caralho — murmurei sem pensar. Um trovão explodiu do lado de fora, forte o suficiente pra tremer parte das paredes. A chuva veio logo depois, violenta, batendo contra as janelas enormes do décimo andar como se estivesse tentando entrar. — Gente, calma! — gritei acima da confusão. — Todo mundo seguindo para a saída de emergência! Usem as escadas, nada de elevador! Celulares se acenderam em pequenos feixes de luz tremida. O vento lá fora uivava entre as frestas, e por um instante eu tive a impressão de que o prédio inteiro iria desabar. Enquanto todos seguiam para a saída, eu fui na direção contrária. — Tem alguém aí ainda? — chamei, tateando o corredor. — Alguém ficou pra trás? Eu sei. É um instinto idiota, mas é mais forte do que eu. Um vento fortíssimo passou pelo corredor, e a porta atrás de mim bateu com tanta força que eu lentamente me virei já prevendo um desastre. Girei a maçaneta uma vez. Duas vezes. Nada. Na terceira, ela quebrou na minha mão com um estalo seco. — Não, não, não… isso não tá… — suspirei, encostando a testa na porta. — Claro. Óbvio. Tem que ser comigo. — Aparentemente, tem. — a voz grave atrás de mim fez meu corpo travar. Virei devagar. Ele estava ali. Lorenzo Castellani estava ali. Encostado em uma mesa, mão no bolso, o rosto iluminado apenas pela luz fraca do celular que ele segurava de maneira quase negligente. Ele parecia absolutamente tranquilo, apesar do caos lá fora. — Você? — perguntei, incrédula. — Tá todo mundo correndo e você tá aí… parado? — Pânico não costuma ajudar ninguém —respondeu calmamente. Revirei os olhos. Grande erro, porque um raio iluminou exatamente nesse momento, deixando meu sarcasmo registrado para sempre no universo. — Certo. E ficar plantado no escuro enquanto o vento tenta arrancar o prédio do chão é a sua grande estratégia? — E correr para o lado oposto da saída é a sua? — rebateu, dando um passo em minha direção. Cruzei os braços. Parte pra me proteger. Parte pra disfarçar o fato de que eu estava tremendo só nos dedos. — Eu vim conferir se alguém ficou pra trás. É o que pessoas responsáveis fazem. Ele se aproximou um pouco, a luz do celular recortando seu rosto de um jeito que me obrigou a engolir em seco. — Ou pessoas que acham que precisam resolver tudo sozinhas — ele devolveu, sem pressa. A frase me atingiu em cheio. — Desculpa se eu não sou do tipo que fica esperando o mundo desabar para então tomar uma decisão. A sobrancelha dele arqueou com tanta elegância que era ofensiva. — Então além dos palavrões sussurrados, você também solta umas verdades quando está nervosa. Interessante. Franzi o cenho, irritada com o impacto que aquela frase teve dentro de mim. Um trovão estourou justo naquele momento, tão forte que derrubou alguma coisa na sala ao lado. Dei um pulo involuntário, meu corpo instintivamente recuando — e recuando direto na direção dele. Lorenzo me segurou pelo cotovelo num reflexo rápido. Não invasivo. Mas o suficiente pra despertar um arrepio que subiu pela minha pele como faísca elétrica. Ele estava perto demais. Perto o suficiente para que eu sentisse o perfume amadeirado, envolvente que ele usava. Perto o suficiente pra eu perder completamente qualquer senso de espaço pessoal. Meu coração parou por um microssegundo. — Você é observador demais — murmurei, antes de ter a chance de impedir. Ele sorriu de lado. Aquele sorriso. O discreto. O calculado. O que deixava meu corpo inteiro consciente da proximidade. — Profissional deformação — disse, dando mais um passo. — É o que eu faço. Observar. Entender. Antecipar. — Ótimo — sussurrei. — Deve ser maravilhoso nunca perder o controle. — Quem disse que eu nunca perco? O ar ficou mais quente e perigoso. Seus olhos estreitaram como se analisassem cada pedacinho do meu rosto sob a penumbra. — Sabe, eu gosto do seu jeito! Você é diferente — ele disse, tão perto que eu senti sua respiração quente tocar minha bochecha. — Não tenta me impressionar. Não tenta me agradar. Não tem medo de me enfrentar. Meu coração batia rápido demais. Dava pra ouvir? — Você não devia me observar tanto assim — sussurrei. — Talvez eu não consiga evitar. Eu olhei para o rosto dele. Mas meus olhos, teimosos, desceram para a boca. Foi instintivo. E ele percebeu. Claro que percebeu. A distância entre nós se dissolveu num silêncio que parecia puxar o ar pra dentro. — Você… — comecei, sem saber exatamente o que ia dizer. — Mila? Senhor Castellani? — uma voz ecoou pelo corredor. — Estão aí dentro? O momento se quebrou como um vidro. Eu dei um passo para trás rápido demais. Lorenzo nem se mexeu. — Aqui, Júlio — respondeu, ainda olhando pra mim. — A maçaneta da porta quebrou. O silêncio que veio a seguir foi quebrado por pés apressados no corredor. Ruídos de ferramentas. Mas Lorenzo não desviou o olhar. Nem por um segundo. E, enquanto eu tentava lembrar como se respirava normalmente, ele disse em voz baixa muito, muito perto do meu ouvido: — Isso aqui não acaba aqui.~Lorenzo~Fiquei olhando para Mila.Ela não me respondeu de imediato. As suas pupilas estavam tão dilatadas que quase cobriam toda a parte azul. Os dedos começaram a torcer a barra do lençol, torcendo o tecido até os nós ficarem visíveis na ponta dos dedos. Ela estava hesitando e eu a conhecia o suficiente para saber.— Eu… é… — a voz dela saiu quase um sussurro. Ela limpou a garganta. — Eu passei muito mal nos últimos dias.As mãos dela pararam e subiram para o próprio rosto, como se quisessem se esconder. Os polegares esfregavam a lateral do rosto, um movimento curto, repetitivo.— Enjoo. Cansaço. E foram tantas coisas acontecendo, que eu não me atentei ao meu ciclo. — Ela estava falando rápido, as palavras se atropelando. — Eu achei que era o estresse do trabalho e dos últimos acontecimentos… Não tirei os olhos dela nem por um segundo. Segurei a mão que ela deixou pairar no ar e a trouxe para perto da minha. Ela apertou com força.— Mas quando eu cheguei aqui, uma enfermeira me v
Acordei com um sobressalto, o coração martelando na garganta. A luz que entrava pela janela não era mais o rosa pálido da manhã, mas um laranja profundo, quase âmbar se misturado com tons de roxo, indicando que o dia estava se despedindo. Olhei para o relógio na parede e o pânico me atingiu: eu tinha dormido por quase doze horas.— Droga, Mila… — resmunguei, sentando-me rapidamente, a cabeça girando por um segundo.— Bom dia, dorminhoca. Ou melhor, boa noite.A voz dele me fez congelar. Virei o rosto tão rápido que senti um estalo no pescoço. Lorenzo estava acordado. Ele estava com a cabeceira da cama levemente elevada, tentando, com uma coordenação questionável, levar uma colher de gelatina à boca usando apenas a mão direita.— Lorenzo! — Eu praticamente pulei da cama. Corri em sua direção, mas parei a centímetros de tocá-lo, minhas mãos pairando no ar, com medo de que qualquer toque pudesse machucá-lo ainda mais. — Meu Deus, você acordou! Como v
O sol começava a pintar o céu de Lisboa, mas dentro daquele quarto de hospital, o tempo parecia ter congelado na madrugada. Lorenzo tinha saído da cirurgia há pouco mais de duas horas.O Dr. Martim explicou que a placa no rádio tinha sido colocada com sucesso, mas que as costelas quebradas e o trauma na cabeça exigiriam um repouso absoluto.Ele estava ali, cercado por fios, com o monitor cardíaco emitindo um bipe rítmico que era a única música que eu queria ouvir. Um acesso venoso no braço direito levava soro e analgésicos, e um pequeno cateter de oxigênio ajudava sua respiração ainda pesada pela anestesia. Eu estava exausta, mas o sono era um luxo que eu não podia me permitir.Sentada naquela poltrona numa posição desconfortável ao lado da cama de Lorenzo, eu vigiava a porta como se a própria morte pudesse entrar a qualquer momento vestindo uma roupa de grife. Olhei para seu rosto pálido, esperando qualquer tipo de reação. O medo era um gosto me
A porta do quarto se abriu com um clique suave, e a Lis entrou carregando uma bolsa de lona grande, como se estivesse apenas trazendo roupas limpas e o meu notebook.— Consegui — ela sussurrou, fechando a porta e dando uma última espiada no corredor. — Ninguém me parou. Acho que a família do Lorenzo está ocupada demais com os advogados e a imprensa lá embaixo.Ela abriu a bolsa e tirou duas caixinhas. Uma simples, e outra mais sofisticada, daqueles testes digitais que prometem precisão absoluta.— Comprei dois. Pra garantir, né?— ela disse, tentando manter a voz firme, mas eu via o tremor nas suas mãos.— Lis, eu estou com medo. — admiti, sentindo minhas pernas fraquejarem.— Eu sei, amiga. Mas você não está sozinha. — ela estendeu uma das mãos para mim. — Vamos? — Sei que você tem dificuldade com limites… Mas eu não vou fazer xixi num potinho na sua frente.— Tá, tá! Eu fico aqui de costas, pra te dar privacidade.Bufei, revirando os olhos, mas cedi a sua proposta, eu precisava dela
O brilho da tela do celular era a única luz no quarto escuro, e ele parecia queimar meus olhos. Eu não conseguia parar de atualizar as páginas de notícias. O nome “Castellani” estava em todo lugar. Primeiro, o escândalo de lavagem de dinheiro, com as malditas fotos distorcidas de Campinas e Lisboa servindo de combustível para o ódio público. Agora, a notícia do acidente. “CEO da Castellani em estado grave após despiste em Sintra”.As pessoas nos comentários eram cruéis. Diziam que era carma, que ele merecia, que era uma cortina de fumaça pra não dar explicações, que ele estava fugindo da justiça. — Ah, se eles soubessem a verdade. — murmurei baixinho.Uma notificação do Sr. Moreira apareceu no topo da tela. Mais uma das dezenas que eu já tinha recebido. Ele queria explicações, queria saber como isso afetaria a agência, queria que eu “gerenciasse a crise”, antes de perdermos o cliente.— Ele que ele se foda — sussurrei para o silêncio do quarto, jogando o celular sobre o colchão.Eu t
O quarto do hospital era tão grande que parecia uma suíte de hotel. Mas, ainda assim, as paredes brancas pareciam se fechar sobre mim a cada passo que eu dava, de um lado para o outro, em um ritmo frenético que não conseguia acalmar meu coração. Lorenzo ainda estava no centro cirúrgico. A cada minuto que passava, o peso da culpa e do medo aumentava.Como ele reagiria quando acordasse? Eu precisava de um plano. Precisava desmascarar a Beatrice antes que ela terminasse de destruir o que restava da integridade do Lorenzo. Mas como, se eu estava presa aqui, enquanto ele estava em uma mesa de cirurgia?Meus pensamentos foram interrompidos por mais uma onda súbita de náusea. Não era apenas um enjoo leve; era uma revolta completa do meu sistema. Corri para o banheiro, mal conseguindo chegar ao vaso sanitário. Não havia nada no meu estômago além de bile e desespero. Aquela gosma amarga e ácida subia pela minha garganta, deixando um rastro de fogo.Senti uma mão quente e firme segurando meu







