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Author: Érika Gomes
last update publish date: 2026-10-01 03:38:55

Foi terrível quando vi a forma que Carlos me encarava, a decepção e a frustração em seus olhos. Que ele não se sentia da mesma forma que eu, era um fato. Para ele, aquele relacionamento era perfeito, ele ditava as regras e eu as seguia sem reclamar, não tentava impor minha personalidade ou vontades, somente aceitava o que tinha para me dar e me deixava levar pelo seu norte. Não sei em que momento da minha vida me perdi, deixei de ser eu mesma para ser apenas a sombra de alguém que apenas sobrevive. Carlos não era o culpado, de forma alguma, ele só encontrou alguém que não queria lutar para se destacar e aceitava tudo o que ele oferecia.

Sou uma mulher forte, responsável, desenvolvo muito bem o meu papel na área administrativa de uma multinacional, sou reconhecida no meu setor, focada, objetiva. Agora, na vida sentimental, já não me reconhecia mais. Fui me moldando às pessoas que passaram por minha vida, como uma maldita esponja, absorvendo tudo de todo mundo, e nesse processo esqueci quem sou. 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Aos poucos conseguia colocar minha vida no lugar, Carlos buscou suas coisas no outro dia e pediu que eu não estivesse no apartamento, o que compreendi. Também não iria querer me ver se fosse ele. Fiquei na padaria tomando um café e comendo um pão na chapa bem torradinho. Desde que comecei a sair com Carlos, parei de comer meu pão na chapa, segundo ele, manteiga demais em uma chapa suja, não fazia bem a ninguém. Mas eu amava.

Vi quando alguns homens saíram com caixas e mais caixas, enchendo um pequeno caminhão. Carlos veio logo em seguida, segurando a tal planta da felicidade que nunca funcionou – acho que ela só levou felicidade para ele, já que era o dono daquele vaso imenso e horrível. Ajeitou a planta no banco da frente e, para minha surpresa, passou o cinto de segurança e foi embora.

Voltei correndo para casa. 

Estava vazia, com buracos em alguns lugares, faltando a tralha tecnológica do Carlos que se espalhou pelo apartamento. Sorri e me joguei no sofá, estava sozinha. Minha casa era minha de novo, minha vida era minha mais uma vez.

Não demorou trinta minutos para o interfone tocar e anunciar a chegada da Fê. Fiquei com a porta aberta, esperando por ela, o sorriso machucando a bochecha. Ela saiu do elevador com o mesmo sorriso nos lábios, segurando uma sacola com duas caixas de cerveja e na outra pacotes de salgadinhos.

— Vamos encher a cara e ferrar com essa bunda redonda e essa barriga chapada — rimos alto e a puxei para dentro para começarmos a primeira noite da minha busca por uma nova Danielle.

— Gelada? — Me surpreendi pegando a sacola de sua mão, indo para a cozinha com Fernanda me seguindo.

— Claro, acha que iria trazer sua liberdade e ficar esperando gelar? — Fernanda se movia pela cozinha, abrindo as portas certas do armário, pegando travessas coloridas e enchendo com os salgadinhos que trouxe. Ela estava em casa, mesmo se mantendo afastada por tanto tempo.

Fê levou as travessas para a sala, apoiando sobre a mesa baixa. Surgi logo em seguida, com um pequeno balde com gelo e algumas long necks, deixando o restante na geladeira.

— Olha, sente isso — respirou fundo, fechando os olhos e sorrindo largo. Não entendi nada

— Sentir o quê? — Funguei algumas vezes, buscando qualquer odor desagradável.

— Esse cheiro de liberdade! — riu abertamente sem esconder o alívio que estava sentindo.

— Não gosta mesmo dele, né? — Carlos e Fernanda nunca se deram bem, brigaram todas as vezes em que se encontraram e ela avisou que se afastaria para não matar ele com uma tijolada.

— Não é isso, Nielle. — Minha amiga me encarou com seriedade. — Eu o detesto, com força! — Pegou a cerveja, abrindo e entregando para mim, abriu outra e a ergueu em minha direção. — A todas as fodas loucas que você ainda não viveu, mas estão por vir!

Toquei minha garrafa na dela, sorrindo para o brinde que só poderia ter saído da boca suja de Fernanda. Levei a pequena garrafa à boca, virando o líquido gelado, fechando os olhos com a sensação boa escorregando por minha garganta e meu pensamento só conseguia ver um mar verde e revolto. 

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