LOGINFernanda me encarava com cara de poucos amigos. A sobrancelha arqueada deixava claro que ela não engolia a merda que jogava sobre ela e, para ser sincera, nem eu mesma acreditava nas palavras que saíam da minha boca. Permitir que Carlos viesse morar comigo foi uma das piores decisões da minha vida, nosso namoro já era uma porcaria, porque acreditei que conviver com ele vinte quatro horas por dia, iria melhorar algo? Mas a verdade é que ele estava lá, ocupando meu espaço, colocando ordem na minha bagunça, mudando meus livros de lugar, enchendo minha geladeira com legumes e verduras, a fruteira com frutas e a porra do meu saco.
Namoramos por quase um ano e, após uma noite de loucura, senti o peso sobre os ombros. Na tentativa de me redimir com Deus, convidei Satanás para dormir na minha cama e ocupar a minha casa. Hoje entendia por que ele foi expulso do céu, chato pra caramba.
— Sinceramente, não entendo até hoje qual motivo te levou a convidar esse cara para tua casa — disse sem rodeios, virando um longo gole no gargalo da long neck. — Agora falar que está cogitando aceitar o pedido dele e se casar? Está ficando louca, Danielle?
— Já moramos juntos mesmo e... — Ela não me deixou concluir o argumento.
— Não fode, Nielle! — rosnou, acabando sua cerveja e virando a garrafa com o gargalo para baixo dentro do balde com gelo sobre a mesa, pegando outra em seguida. — Vive uma vida fodida, ninguém mais te reconhece, não pode nada nunca. Qualquer coisa com você precisa ter autorização e ser agendado com duas semanas de antecedência. Não é possível que não consiga identificar essa merda toda.
Funguei, segurando o choro. Sim, conseguia identificar isso e muito mais, só não via motivos para recomeçar, não existia em mim um motivo concreto para sair daquele relacionamento. Carlos era muito chato, certinho, organizado, metódico e muito mais. Isso me irritava profundamente. Era um ser humano egoísta e se priorizava cem por cento, mas já estávamos juntos há quase três anos, sei lá. Sabe aquele pãozinho que você sente o gosto do fermento, não curte muito, dá até uma azia, mas você não muda de padaria porque a outra é muito longe e te dá preguiça? Carlos era o meu pãozinho com gosto de fermento.
— Ele me conhece. — Dei de ombros e minha voz não passou de um sopro.
— Conhece? — falou afiada e eu só confirmei com a cabeça, tomando um gole de suco de laranja, fazendo uma careta em seguida. — Por que está
tomando esse suco? — Não me deixou responder. — Está tomando porque ele disse que faz bem e que você deveria parar com a coca. Você nem gosta de laranja, Nielle! Se contorce toda sempre que toma essa porra.
Não gostava mesmo, mas vitamina C é boa para a imunidade.
— Ah céus! — choraminguei, cruzando os braços sobre a mesa do barzinho e batendo minha cabeça algumas vezes sobre eles. — Como sou idiota, até meus pensamentos estão usando a fala de Carlos como justificativa. O que eu vou fazer?
— Danielle Lima! — bradou meu nome inteiro e meus olhos cravaram nos dela. Fernanda me conhecia desde pequena, crescemos na mesma rua, morávamos a algumas casas de distância uma da outra. Ela sempre foi boca suja, brigona e sincera demais, mas sua lealdade e amizade, eram coisas raras. — Você é uma mulher linda, madura, inteligente, independente, dona do seu apartamento, com carro, emprego, uma bunda gostosa e o corpo todo trabalhado naquelas merdas que você toma e
horas de academia. Para que bosta seca você precisa de um cara que é chato para um caralho, te impede de ser você mesma e não acrescenta em nada na sua vida?
A pergunta ficou pairando entre nós, pesando o ar do local, e não havia uma resposta que servisse de apoio para a minha falta de atitude – ou até havia, mas não queria falar sobre aquilo. Prometi que não tocaria naquele assunto de novo e que esqueceria aquela noite.
— Nielle... — O tom suave me surpreendeu, era sempre mais perigoso quando a Fê falava manso. — Ele não virá, foi incrível, a melhor foda da sua vida, mas ele não virá. Já faz dois anos.
Maldito gigante loiro e sua promessa mentirosa.
Depois daquela noite nunca mais deixei o celular sem bateria, andava com ele para cima e para baixo, vivia em função da espera do telefonema onde ele diria que estava indo me buscar. Só na minha cabeça iludida que uma transa sem pé nem cabeça, em um banheiro minúsculo de um lugar qualquer, resultaria em um conto de fadas de amor eterno. Maldita Disney e essas bostas fantasiosas que colocam na cabeça da gente.
— Eu sei — me rendi. Iria dar um rumo em minha vida, indiferente de ter ou não uma montanha de músculos que fodia muito bem, me esperando.
Faria por mim.
Não sei se seria sempre a mesma luta ou se com o passar do tempo ela iria se acostumar ou mesmo se apaixonar pela vida na estrada, mas o trajeto até o seu apartamento, não saber o que vestir, a dúvida a cada passo que ela dava, me consumia. Sua dificuldade em se ambientar em meu mundo era algo normal, mas aquilo de alguma forma mexia com a autoestima de Danielle, que me mostrou cinco calças jeans em seu corpo, três blusas com cores e modelos diferentes, duas jaquetas, um tênis e duas botas, no fim, optou por jeans escuro, regata branca, jaqueta em couro, botas e os cabelos presos em uma trança. Não queria que minha vida fosse algo doloroso, uma situação que levasse dúvidas ao coração da minha pequena, queria que fosse leve, que ela se sentisse envolvida e que tomasse a estrada como parte essencial de sua vida.Após o que me pareceu ser a eternidade, parou de frente para mim e me olhou implorando por aprovação, sorri para a cena, mas a preocupação para uma conversa futura ficou registr
O jogo do domínio, poder sobre o outro e suas vontades, não era para todos. Exigia muito mais do que algumas pessoas conseguiam entender, mas ela curtia o momento e confesso que eu também. Poderia subir o quadril e empurrá-la para baixo com facilidade, empalando seu corpo com o meu, mas segurei meu desejo de sentir meu pau se enterrando dentro dela.Rosnei quando se moveu devagar, rebolando o suficiente para que sentisse o calor de sua entrada.— Acabei de te encontrar e já quer me matar, pequena? — As palavras saíram mais baixa do que pretendia e o sorriso dela se ampliou.— Quero... — falou manhosa, rebolando um pouco mais, engolindo meu pau de uma só vez, fazendo o ar de meus pulmões serem jogados para fora.Se qualquer pessoa me contasse aquela loucura, não acreditaria ou colocaria muitas coisas em dúvida, mas foi comigo, estava vivendo aquele reencontro e, caralho, era mil vezes melhor do que me lembrava. Minha pequena começou a se mover sobre meu corpo, em um subir e descer len
Em algum momento fomos parar no quarto dele, Enzo me teve de todas as formas que falou que teria, desde a parede, cama, uma poltrona no canto do quarto e cama novamente. Minha cabeça em seu peito, a perna sobre a dele, seu braço me puxando para mais perto e seus dedos deslizando por minha coluna em um movimento tranquilo. Era o meu cenário ideal, saciada, exaurida de prazer e segura em seus braços como jamais me senti. Sem dúvida alguma, aquele homem era como ondas em um mar agitado, levando todas as minhas forças e ar, mas ao mesmo tempo era o oxigênio que meu corpo precisava para se manter vivo e seus braços a paz que minha mente buscava. — Como me procurou? — questionou, sua voz não passando de um sussurro.— Me lembrava do nome que vi na sua jaqueta. Fiz uma pesquisa, achei o site do moto clube, mas não havia nada lá. Nada que me levasse a você.Sabia que minha voz carregava o peso da dor que sentia, do tempo que deixamos de ter um com o outro.— Eu fiz uma promessa. — Sua voz es
Saber que meu corpo estava exposto a uma velocidade considerável, sem estar protegido por todo o ferro que envolve um carro ou desafiando a gravidade e se mantendo em movimento com apenas duas rodas, me apavorava. Aquele passeio de longe se parecia com os descritos em livros ou vistos em filmes. Não sentia minha alma livre e o vento no cabelo não trazia nada de agradável, somente um emaranhado de fios e o desespero em pensar no fedor que minha cabeça estaria quando tirasse aquele pinico. Minhas mãos estavam enterradas no gigante, meus dedos presos ao tecido de sua camisa, o segurava com tanta força que tudo em mim doía, acreditei que subir a serra seria apavorante, mas havia me esquecido do trânsito louco de São Paulo e assim que entramos na Avenida Bandeirantes minha alma abandonou meu corpo.Aquela imensidão, pilotando a outra imensidão, entrou pelos corredores formados entre os carros, bastaria um carro se mover sem ligar a seta e nós estaríamos voando e beijando o chão. Só pensav
Sabe quando você começa a dar risada no momento errado e todos ao seu redor te olham como se fosse uma louca descompensada e a vergonha e constrangimento te deixa sem ação, paralisada, querendo ser engolida pelo chão? Pois é, era exatamente assim que me sentia, olhando para meu pé que mexia com a areia úmida, as mãos que após devolver o celular ao dono, se mantinham ao lado do corpo sem saber como agir ou o que fazer com elas. — Então... — Ouvi a voz grossa e o tom quase ríspido, esperando por uma resposta ou explicação.— Eu não sei o que aconteceu. — Dei de ombros e finalmente encarei a inundação intensa de seus olhos verdes. — Toda aquela loucura, Carlos gritando na porta, meu corpo sem entender de onde veio tanto prazer, fiquei confusa. Queria me bater.Queria ter o poder de voltar no tempo, de cair sobre aquela pia novamente e mudar tudo o que aconteceu depois que peguei aquele papel e caneta em minha bolsa. Tudo o que eu poderia ter vivido, todas as conversas perdidas, os mome
Estava cega de ódio, já não tinha mais o controle da minha voz, muito menos da minha paciência. Empurrei o gigante com mais força, ele deveria estar distraído com algum pensamento, pois se afastou o suficiente para que conseguisse escapar dos seus braços, me permitindo virar para ir embora de uma vez.— Danielle. — Aquele misto de autoridade e sensualidade, a forma como meu nome soou em seus lábios, fez meus pés travarem. Parei de costas para ele. — Olhe para mim. — Sinceramente, eu gostaria muito de ser estudada pela NASA, pois sabe lá Deus por qual razão, eu obedeci. Me virei, encontrando o mar muito agitado e o verde escurecido demais. — Por que você nunca atendeu minhas ligações ou retornou minhas mensagens?Eu ri. Mas não foi qualquer risada não, ri alto, ri com gosto, ri ao ponto de sentir as lágrimas escorrerem pelo cantinho dos meus olhos. O gigante cruzou os braços, empinou o queixo e me encarou sem ver a mesma graça que eu via na sua pergunta.— Sério mesmo que esse será o







