LOGINFallon Hayes
O homem asqueroso foi arrancado do quarto primeiro, enquanto eu, humilhada, caía de joelhos e agarrava os tornozelos de Killian. Meus olhos procuravam desesperadamente o rosto dele, mas meu marido se recusava a me encarar. Eu queria que ele olhasse para mim, que visse meu desespero, que percebesse o quanto eu precisava que me ajudasse.
Só queria que ele me ouvisse.
Eu confiava que ele entenderia.
Mas Killian parecia disposto a me odiar.
— Tirem ela daqui! — A voz dele soou fria, cruel como eu nunca tinha visto antes. — Eu nunca mais quero olhar para você, Hayes.
— Eu não fiz nada, eu juro! Não sei o que aconteceu, amor. Por favor, me escuta.
Minhas pernas se debatiam involuntariamente enquanto os guardas me arrastavam para fora do quarto. Eu tentava me agarrar a qualquer coisa, mas não conseguia impedir que me levassem. Ainda assim, continuei olhando para Killian, esperando que ele mudasse de ideia, que enxergasse no meu rosto a verdade.
Eu havia chegado a essa fortaleza há cerca de cinco anos, depois de mal sobreviver lá fora. Foi ele quem cuidou de mim, que me deu emprego e que, há três anos, começou a me amar.
Agora, eu já não significava mais que um pedaço de lixo.
Mesmo assim, quando percebi que seus passos nos acompanhavam pelo corredor, meu coração tolo encontrou um motivo para ter esperança. Talvez ele tivesse mudado de ideia. Talvez estivesse prestes a mandar os guardas me soltarem, a me envolver nos braços e a perguntar o que realmente havia acontecido.
Só quando paramos no corredor percebi por que ele nos seguia. Meu pai estava ali.
— Papai... — murmurei.
Ele olhou primeiro para o meu rosto e, em seguida, para minhas roupas rasgadas, para a pele exposta e para o estado lamentável em que eu me encontrava. — Fallon, o que aconteceu?
Meu pai era um homem velho, um simples faxineiro, assim como havia sido antes de o apocalipse destruir o mundo que conhecíamos. Durante toda a minha vida, eu acreditei que, independentemente do que acontecesse, ele estaria do meu lado.
Antes que eu conseguisse responder, Killian se colocou à minha frente, cobrindo meu corpo dos olhares do seu braço direito e dos guardas parados no corredor. Por um instante, aquele gesto quase me fez acreditar que ele ainda se importava comigo.
Então ele destruiu a última esperança que me restava.
— Sua filha me traiu.
— C-como? — os olhos escorrendo de mim para Killian. — Traiu como?
— Papai, eu não fiz nada. Eu juro... — A frase morreu quando meu marido me encarou.
A frieza naqueles olhos me fez perceber que, independente da verdade, ele já não as queria mais.
Já não faria diferença.
— Ela estava comigo durante todo esse tempo. Vai dizer que não sabia que sua filha dormia fora todas as noites nos últimos três anos? — Ele inclinou a cabeça, avaliando meu pai. — Vai mentir na minha cara e fingir que não percebia que ela passava mais tempo comigo do que na própria casa?
Meu pai abaixou os olhos.
E eu fiz o mesmo.
Ele tinha vergonha de mim. Essa foi a primeira coisa que pensei, até perceber que havia algo ainda pior naquela reação. Ele sabia, mas preferia fingir porque não lhe custaria risco algum.
— Se quiser salvar sua filha agora, essa é a sua última chance, velho.
— Mesmo?
— Pegue ela agora, saiam os dois da minha fortaleza imediatamente, e eu prometo que ninguém vai machucá-los se fizerem isso.
Era injusto, e ele sabia. Meu pai mal conseguia sobreviver dentro dos muros da cidade; lá fora, seríamos mortos em dias.
Meu pai balançou a cabeça, se recusando a me defender.
Pensei que ele me ajudaria, mas a mão que acertou meu rosto deixou bem claro que ele estava disposto a fazer qualquer coisa para provar que não estava do meu lado, e que, seja qual fosse a minha punição, eu pagaria sozinha.
O tapa veio tão depressa que não consegui me preparar. Meu rosto virou com o impacto, espalhando a vermelhidão e a ardência. Mas isso já não parecia nada, comparada à dor que eu sentia rasgar minha garganta.
— Traidora!
Aquela foi a última coisa que me disse antes de se virar e ir embora.
— Até o seu pai acha que você não vale nada, e ainda teve a audácia de segurar o Killian por anos, sua imunda.
Somente naquele momento, lembrei que ela ainda estava ali e a raiva me deixou cega, irritada a ponto de enfrentar pessoas que normalmente me calariam só com um olhar. Levantei os olhos lentamente e então encarei. — Foi você quem armou isso.
O sorriso dela murchou. — Claro. Ele precisava saber quem você era de verdade.
— O que eu era? — questionei, olhando para os dois. — Eu era uma barreira para você, não era? Mas sou a mulher que ele ama, Isadora, e pode ser que ele acredite agora, mas a verdade vai aparecer e, quando isso acontecer, você vai se arrepender. Os dois vão!
— Que verdade? — Killian deu um passo à frente, como se desejasse desesperadamente que houvesse uma justificativa para o que ele viu. — Do que exatamente você está falando?
— Ela só está falando isso para você ficar com raiva de mim, lindo. O conselho sabe que nós dois devemos ficar juntos e que isso é o melhor que podemos fazer para proteger centenas de pessoas, ainda mais que...
Ele a calou. — Diga a sua verdade, Fallon.
Meu coração aqueceu um pouco, mas já não permitia que tivesse alguma esperança em mim. — Ela me deu algo para beber e eu comecei a ficar muito tonta. Acho que ela me dopou.
Isadora riu. — Eu?
Killian a encarou, sério. — Isso é verdade?
Os olhos dela se encheram de lágrimas. Nunca tinha visto alguém fingir tão rápido, mas ela parecia doce demais para a própria personalidade. Como ele não percebia? — Killian, você sabe que eu jamais faria qualquer coisa para te machucar. Eu não fiz isso. Eu nem sabia que estavam juntos... Ninguém sabia!
E então, eu disse: — Pergunte a ele, então.
O homem que me atacou levantou o rosto machucado. Ele estava assistindo a tudo em silêncio. — Eu...
— Diga! — Killian exigiu, mas eu podia ver que queria matar o homem ali mesmo.
— Eu ofereci dinheiro e ela aceitou! Disse que não tinha problema se divertir na cama do chefe, porque você ia demorar para voltar. Não sabia que era sua esposa, senhor. Me perdoe.
Ele caiu de joelhos, juntando as palmas das mãos.
Antes, matar uma pessoa o levaria à prisão, mas agora as leis eram dele.
Killian não teve compaixão. — Se considere um homem morto.
Antes de apontar a faca, ele gritou: — Não, não me matar, eu imploro. Eu conto tudo!
Fallon HayesHavia um silêncio absurdo dentro do carro depois que deixamos o caos do fogo e de um Killian vingativo como nunca vi antes. A verdade era que não sabia as razões da Dra. Haven, embora pudesse imaginar a preocupação com seu marido, estava estável, mas bem.E, quanto a mim, não esperava que, ao olhar através do fogo, encontrasse os olhos do meu ex-marido em mim, muito menos que ele cairia de joelhos e me encararia como se eu fosse um fantasma diante dos seus olhos.O tiro era para mim, assim como toda a exigência de entrega. Então, talvez eu devesse presumir que ele queria que eu tivesse sido atingida quando disparou algo que atingiu um inocente, não seu alvo. Mas a ideia me magoava a ponto de eu precisar dispensá-la antes mesmo de que se enraizasse no meu cérebro.Somente horas depois da Dr. Haven parou o carro e nos abrigamos em uma casa, em um lugar devastado que eu não conhecia.— Está anoitecendo, então é melhor ficarmos por aqui. — Apenas aceitei. — Fallon, você sabe a
Killian Voss— Era ela... — Levantei com dificuldade, agarrando o primeiro infeliz que encontrei por perto. E, segurando no meu braço direito pelo casaco tático, olhei em seus olhos. — Diga que a viu também. Fala! — implorei, alucinado para perceber que parecia louco.A garganta ardia, e, embora não soubesse distinguir se vinha da fumaça espessa ou do desespero, ignorei a dor. E ignorei porque eu precisava que alguém confirmasse. Mas tudo o que recebi foram olhares de pena. Algo que, normalmente, eu odiaria, mas que naquele momento decidi deliberadamente ignorar apenas em troca da informação que precisava.Mas que inferno, merda! Por que se recusavam a me dizer o que precisava? Ao que parecia, cada um dos vinte homens que me acompanharam naquela noite havia perdido a língua. E ainda no silêncio cortado apenas pelo barulho das chamas perigosamente perto a devorar tudo logo à frente, encarei um e outro.— Fale você! — exigi, depois Jace, meu braço direito.— Senhor, sinto muito. Eu só
Fallon Hayes— Nos deixe em paz! — Dr. Haven gritou, entrando no carro e abaixando para se proteger.O resto de vidro que nos protegia foi estilhaçado quando ele disparou mais uma vez. A voz do meu Killian nunca tinha sido daquela maneira, tão bravo com a vida. Ele parecia até mesmo triste...Era tão ruim assim perder a maldita vingança? Será que ele não entendia que eu era inocente nessa história? A única vítima de tudo. Fui eu a traída e injustiçada, e sou eu sangrando no banco de trás de um carro, deitada sobre um homem para estancar o sangue que jorra em seu abdômen.Quanto ele vai se cansar de me fazer sofrer?— Não... não vou.Um homem gritou por trás da proteção do carro ao lado: — Vá embora, cara. A gente não quer guerra.— Eu vou, assim que entregarem ela para mim. — Killian exigiu. — Vamos lá, não seja covarde. Prometo não fazer você sofrer muito...Não consegui segurar o choro. A dor na garganta era forte demais, o corpo tremia e eu sentia que, se Killian não me matasse, en
AtualmenteFallon HayesSó percebi que havia sido o cheiro de sangue ainda impregnado nas minhas roupas quando, mesmo tentando me esconder, o morto me achou atrás do sofá. Olhar para cima e dar de cara com o par de olhos brancos é aterrorizante, mas não tanto quanto perceber que há mais de um deles entrando pela porta escancarada.Em desespero, corri e entrei na primeira porta que achei. Me vendo trancada em um cômodo minúsculo do que parecia ser um banheiro não terminado. Fechei os olhos e, por reflexo, tentei puxar o cordão onde minha aliança ficava. A mesma que Killian havia me dado quando se declarou, e que foi minha companheira por anos todas as vezes em que o alarme da fortaleza soou. Agora já não havia mais anel arremessado nele na hora da raiva. Também não existia mais marido ou proteção. Somente eu e a certeza de que ninguém viria por mim.Ninguém. Mas eu tinha uma pessoa para proteger. Por isso minha mão parou na barriga por um momento, ainda tremendo mais do que tudo. Foi
Killian VossSe ela tivesse sido mordida, eu arrancaria a parte do corpo sem pensar, porra. Eu a manteria viva, e não apenas por vingança. A ideia de viver onde ela já não existia era sufocante, desesperadora de tão impensável.Corri ao lado do soldado franzino, tremulo o suficiente para eu saber que havia chegado aqui a pouco tempo e ainda não havia sido treinado como deveria. Foi só quando chegamos ao muro, onde eu sabia que havia uma abertura estratégica na parede. Local onde poucas pessoas conheciam. Fallon era uma delas. Foi que a ficha começou a cair. Ela tentou escapar de mim... Ia mesmo desaparecer, como imaginei que tivesse feito, mas que não esperava que acontecesse. Provavelmente havia se machucado no processo, considerando o rastro de sangue que se espalhava na grama.— Senhor, ela está ali... — Disse, hesitante, levantando o dedo que não parava de tremer. — É ela, não é? — questionou no instante em que a arrastavam para fora.Acompanhei o local com o olhar, sentindo que
Horas mais cedo...Killian VossIrritado com a dor que sentia no coração, levei minha esposa para casa enquanto a mente permanecia estagnada no mesmo lugar.O olhar de decepção da garota doce que jurei proteger desde que chegou aqui, sob minha guarda, era algo que jamais seria capaz de me esquecer. E sabia que, com o casamento, havia condenado a mim mesmo ao inferno. A culpa, no entanto, não foi minha, mas dela, por ter sido uma traidora de merda.Assim que coloquei Isadora no chão, ela se esqueceu de gemer de dor. Meu corpo inteiro entrou em alerta, como alguém que sabia que havia sido manipulado e odiava isso. Claro, ela tentaria tirar Fallon do meu foco, e eu nem ao menos deveria reclamar, já que foi ela quem me salvou de ter a reputação manchada.Perder o respeito nessa comunidade. Antes, no mundo civilizado onde eu existia como CEO de armas, terminar o relacionamento teria bastado. Mas aqui as leis eram diferentes. Perder respeito significava perder tudo.— Você não torceu o pé.







