LOGINNão era Cidade B. Por isso, era até natural que as notícias corressem mais devagar para os Frota do que para os Marques.Cauã respirou fundo e se controlou:— Não deixa a Amanda chegar de novo no seu pai.Os dois falavam “seu pai” pra cá, “seu pai” pra lá.Mas ninguém comentou nada.Edson, na verdade, concordou com ele:— Beleza. Isso é fácil de resolver.Do jeito que Durval sempre tinha passado a mão na cabeça da Amanda, não era exagero dizer que, se um dia ela matasse alguém e chorasse um pouco, ele ainda ajudaria a enterrar o corpo.Mesmo com o poder de Durval esvaziado, ele ainda carregava o sobrenome Frota. Muita gente, mesmo que não respeitasse o homem, respeitava a família. E isso já era o suficiente pra continuarem abrindo certas portas pra ele.Resultado: encontrar Amanda ficava ainda mais difícil.Enquanto isso, em um condomínio de casas discretas em Cidade A, Amanda estava sentada no sofá, num estado deplorável. Ela se agarrava a uma lixeira, vomitando até parecer que ia col
Aos olhos de qualquer um de fora, a diferença de origem e de posição social entre eles já tinha decretado, desde o começo, que aquele relacionamento jamais seria equilibrado — quanto mais ter um final feliz.Por isso, quando a família Frota procurou Lilian pela primeira vez e empurrou aquele cheque gordo na direção dela, ela até chegou a balançar um pouco por dentro.Mas foi só por alguns instantes.Ela sabia muito bem que, no mundo dos outros, sempre existiam degraus, castas invisíveis. Mesmo assim, ela não aceitava que, só porque ela tinha nascido com menos, o tempo e o sentimento dela valessem menos também.As palavras dela fizeram um espanto rápido passar pelos olhos de Cauã. Em seguida, ele puxou um sorriso torto, cheio de ironia com ele mesmo:— Você acha mesmo que é assim que eu penso?Ele tinha entendido direitinho o que ela queria dizer nas entrelinhas: que ele não precisava nem sonhar em brincar com o que ela sentia.Lilian não se deixou abalar pelo tom dele. Ela devolveu a p
Lilian sempre tinha sido boa em virar o jogo. Assumir o controle da conversa, inverter quem estava por cima e por baixo, já era um vício profissional que ela tinha lapidado em anos de tribunal.Mas Cauã sabia disso fazia tempo.Lá atrás, quando os dois namoravam, isso já aparecia. Ela sempre foi ótima em segurar as rédeas: avançar ou recuar tinha que ser do jeito dela, na hora em que ela quisesse.Do mesmo jeito que, para eles ficarem juntos, tinha sido ela quem deu o primeiro passo e partiu pra cima dele. E, quando terminou, tinha sido ela também que largou uma frase seca e sumiu da vida dele.Naquele momento, Cauã não demonstrou nem um pouco de constrangimento por ter ouvido a conversa dela no celular. A voz dele saiu fria:— Eu tô na porta da minha própria casa. Que tipo de “ouvir escondido” é esse? Você é que não me viu.Na última frase, Lilian não soube dizer se era impressão dela, mas ela jurou ter escutado um fiapo de mágoa ali no meio.Ela decidiu que só podia ser imaginação.U
Lilian estava saindo quando Samuel a acompanhou até lá embaixo.Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela já apontou para o próprio carro:— Sobe logo.— Espera um pouco. — Samuel a chamou de repente. Ele deu mais alguns passos na direção dela, pensou nas palavras e só então falou, num tom baixo. — Sobre o que a minha mãe falou agora há pouco…— A gente é amigo. — Lilian curvou levemente os lábios, sorrindo como se nada fosse. — Tem coisa que a sua mãe fala mais pra brincar. Eu não vou levar isso a sério, muito menos deixar que isso atrapalhe essa parceria de guerra de tantos anos que a gente tem.Ela tinha falado sem deixar brecha.Mas, justamente por isso, não tinha sobrado uma única fresta para Samuel se segurar.O subtexto era claro.Se fosse só a Helena falando, ela engolia como piada e seguia em frente, continuando amiga de sempre. Agora, se ele repetisse o assunto, aí, sim, nem amizade ia sobrar.Enquanto ele ouvia, a boca de Samuel foi se esticando até virar uma linha reta. De
Cauã mal levantou a ponta do olho, num movimento quase imperceptível, e fingiu que não tinha visto nada. Ele recolheu o olhar, pegou os papéis e estava prestes a assinar quando, ali perto, soou uma voz masculina clara e muito familiar:— Lilian, desculpa. De novo eu te fiz perder tempo vindo com a minha mãe pro retorno.Cauã nem precisou olhar para saber que era Samuel.Do nada, a caneta escapou nos dedos dele e deixou um risco comprido de tinta bem em cima da linha de assinatura.O estagiário, sem entender absolutamente nada, só percebeu que o ar em volta de Cauã tinha ficado bem mais frio, distante daquela postura tranquila e bem‑humorada de sempre.— Doutor Cauã, aconteceu alguma coisa com o documento?— Desculpa. Não, tá tudo certo.A expressão de Cauã não mudou. Ele encostou de novo a ponta da caneta no papel, rabiscou a assinatura em poucos segundos, devolveu o formulário ao estagiário e, em seguida, enfiou as mãos nos bolsos e voltou para a sala.O estagiário recebeu os papéis e
Gustavo desligou o celular, virou-se e voltou para o escritório. Quando ele ia fechar a porta de vidro da varanda, levantou os olhos e viu Luiza ali dentro, sem que ele soubesse ao certo quando ela tinha entrado.Mesmo assim, ele não chegou a se surpreender muito.Mimada por toda a família como se fosse um tesouro, Luiza tinha travado meio mundo em casa só para conseguir, a duras penas, roubar de Leonardo a tarefa de trazer café para ele. Enquanto ela colocava a xícara sobre a escrivaninha, ela perguntou, intrigada:— O que aconteceu? Que conversa é essa de “sem peso na consciência”?Ela tinha entrado bem no meio da ligação e só tinha pegado meia dúzia de palavras soltas.Mas ela tinha percebido, com facilidade, que o tom de Gustavo não estava nada bom; pelo contrário, ainda tinha um quê de raiva contida.Quando Gustavo olhou para ela, o aperto incômodo que ele sentia no peito se dissolveu um pouco. Em compensação, a dor que ele sentia por ela só aumentou.Ele se aproximou em poucos pa
Luiza balançou a cabeça, tentando se livrar do torpor, e pegou o celular que estava na cama. Quando viu o registro de uma chamada de sete horas de duração, ficou completamente atônita. Demorou alguns segundos para se lembrar do que tinha prometido antes de cair no sono. Ela pigarreou, tentando d
Lilian deu um sorriso distante e, com uma voz baixa, respondeu: — Tá vendo, Cauã? Nós dois não somos do mesmo mundo. Não é só você que sabe disso, eu também… — Me dá um tempo. — Cauã a interrompeu de repente. Lilian estreitou os olhos, tentando clarear a mente, como se não tivesse certeza do q
Os lóbulos das orelhas de Luiza ficaram tão vermelhos que pareciam prestes a pingar sangue. Ela, nervosa, murmurou apressadamente: — Eu… Eu vou ao banheiro sozinha. — Espera. — Gustavo segurou o pulso dela com firmeza e a puxou para mais perto. Então, com um movimento rápido e preciso, ele amarr
Mas Miguel não era fã de socializar. Todo ano, no aniversário dele, ele só convidava Luiza, e, nos últimos dois anos, Raul também passou a ser incluído. Com o filho de Miguel e Noemi morando no exterior, Luiza era praticamente como uma filha para eles. — O professor vai ficar muito feliz de ouvi