MasukPOV — Madson Smith
— A Sky e eu já namoramos.
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse avaliar as consequências. Não que fossem mentira. Pelo contrário. Talvez fossem a coisa mais verdadeira que eu havia dito em dois anos.
Iris olhou para mim, surpresa. Ben parou de procurar guardanapos, e Sky... Ah, Sky. Se olhares pudessem matar, eu estaria sendo enterrada naquele exato momento.
— Sério? — Iris perguntou, alternando a atenção entre nós duas.
Assenti.
— No ensino médio.
Sky soltou uma risada. Não era uma risada divertida. Eu conhecia a diferença.
— Que interessante.
Meu estômago afundou.
— Sky...
— Não, sério. Interessantíssimo, Madson. Porque eu me lembro de uma versão bem diferente dessa história.
Iris franziu a testa. Ben ficou imóvel com uma fatia de pizza na mão. Eu merecia aquilo. Merecia cada palavra que Sky decidisse jogar na minha cara.
— Você tem razão — respondi.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Tenho? Nossa. Estamos vivendo um dia histórico.
— Sky, eu...
— Não precisa explicar. — Ela cruzou os braços. — Só achei curioso você lembrar que namoramos depois de passar tanto tempo dizendo exatamente o contrário.
O silêncio que se seguiu foi horrível. Mas não tão horrível quanto perceber que ela estava certa. Completamente certa.
Iris me lançou um olhar confuso. Eu poderia inventar alguma coisa. Dizer que éramos adolescentes, que o relacionamento tinha sido complicado, que nossas lembranças eram diferentes. Tinha experiência em mentir quando estava acuada. Infelizmente, era justamente essa experiência que havia destruído a única relação que eu realmente quis preservar.
— Eu menti — falei.
Sky parou de sorrir.
— O quê?
— Naquela época. Eu menti quando disse que não namorávamos.
Ben abaixou a pizza. Iris permaneceu em silêncio. Meu coração batia tão depressa que eu conseguia senti-lo na garganta.
— Nós namoramos por quase dois anos — continuei, olhando para Sky. — E eu fui uma covarde quando neguei isso.
Ela me encarou durante alguns segundos. Havia alguma coisa em seus olhos que eu não sabia identificar. Raiva? Surpresa? Talvez as duas coisas.
— Parabéns — respondeu finalmente. — Descobriu a honestidade. Quer uma medalha?
Pegou a bolsa que havia deixado sobre o ombro.
— Sky...
— Aproveitem a pizza.
E foi embora. Fiquei olhando para a porta até ela desaparecer pelo corredor. Eu já tinha assistido Sky ir embora de uma conversa comigo. Uma vez, dois anos antes, depois que eu a humilhei diante de metade do nosso colégio. Naquela ocasião, não tive coragem de segui-la. Dessa vez, tive. Mas não tinha o direito.
— Você quer me explicar o que acabou de acontecer?
Iris estava sentada no sofá, com uma expressão séria que não combinava em nada com a garota que passara os últimos vinte minutos discutindo com Ben sobre colocar abacaxi na pizza.
Suspirei.
— É complicado.
— Geralmente é o que as pessoas dizem quando fizeram alguma besteira.
Ben ergueu a mão.
— Em minha defesa, eu não sabia que a ex estava vindo.
Iris lhe lançou um olhar.
— Benjamin.
— O quê? Estou tentando aliviar o clima.
— Vá buscar refrigerante.
— Já temos refrigerante.
— Então vá buscar mais.
Ben olhou para mim, depois para Iris.
— Entendi. Conversa de mulheres com problemas emocionais. Vou me retirar.
Ele pegou duas caixas de pizza e saiu. Iris esperou até a porta se fechar.
— Agora conta.
Passei as mãos pelo rosto.
— A Sky e eu namoramos no ensino médio.
— Essa parte eu ouvi.
— Ninguém sabia. Quer dizer, algumas pessoas desconfiavam, mas nós mantínhamos tudo escondido.
Iris cruzou as pernas.
— Por quê?
Pensei em todas as respostas possíveis. Na cidade pequena. Nos comentários dos colegas. Na maneira como meu pai falava sobre relacionamentos que não considerava aceitáveis.
— Eu tinha medo — respondi.
Iris não disse nada.
— Um dia, alguém gravou um vídeo nosso nos beijando. Espalharam pela escola. Todo mundo começou a perguntar se era verdade.
Minha garganta apertou. Ainda conseguia me lembrar do corredor. Do cheiro de produto de limpeza. Dos celulares levantados. E de Sky, parada perto dos armários, com aqueles cabelos ruivos caindo sobre os ombros. Ela estava assustada. Mas não envergonhada. Nunca pareceu envergonhada de me amar.
— E o que você fez? — Iris perguntou.
Olhei para minhas mãos.
— Disse que ela estava obcecada por mim.
O silêncio foi imediato. Iris deixou de parecer curiosa.
— Você fez o quê?
Engoli em seco.
— Disse que nunca tivemos nada. Que ela tinha inventado nosso relacionamento.
Minha colega me encarou por alguns segundos.
— Caramba, Madson.
Assenti.
— Eu sei.
— Não. Acho que você não sabe.
Aquilo me fez levantar os olhos. Iris se inclinou para a frente.
— Você não apenas terminou com ela. Fez parecer que a garota era uma mentirosa.
— Eu sei.
— E deixou ela lidar com isso sozinha?
Não respondi. Não precisava. Iris soltou o ar lentamente.
— Agora entendo por que ela quer arrancar sua cabeça.
Dei uma risada amarga.
— Entre outras partes do meu corpo.
Ela balançou a cabeça.
— E você ainda gosta dela?
A pergunta me atingiu com uma força ridícula. Olhei para a porta. Sky provavelmente estava em algum lugar do campus, contando para os amigos o quanto me odiava. Talvez estivesse com a garota que lhe mandava mensagens. A garota responsável pelo sorriso que eu havia visto surgir em seu rosto minutos antes. Um sorriso que, durante quase dois anos, tinha sido meu privilégio conhecer de perto.
— Nunca deixei de gostar — admiti.
Iris ficou quieta. Depois perguntou:
— Então por que contou que vocês namoraram justamente hoje?
Eu sabia a resposta. E tinha vergonha dela.
— Porque vi Sky sorrindo para o celular.
Iris piscou.
— Como assim?
— Alguém mandou uma mensagem. Ela sorriu daquele jeito... — Interrompi a frase.
Daquele jeito. Como se houvesse uma piada secreta entre ela e outra pessoa. Como costumava sorrir para mim. Iris me observou atentamente.
— Você ficou com ciúmes?
Fechei os olhos.
— Fiquei.
— Madson...
— Eu sei que não tenho esse direito.
Ela inclinou a cabeça.
— Sentir ciúmes não é a mesma coisa que ter o direito de fazer alguma coisa a respeito.
Pensei naquilo por alguns segundos. Porque Iris estava certa. Eu não podia impedir Sky de conhecer outras garotas. Não podia reclamar. Não podia exigir explicações. Mas, por um segundo vergonhoso, quis que todas as pessoas naquela sala soubessem que eu havia sido a primeira garota a amá-la. E esse pensamento me fez perceber uma coisa desagradável. Eu ainda tinha muito a aprender sobre amar alguém sem pensar primeiro em mim.
Às oito e meia, voltei para o quarto. Sky não estava lá. A cama permanecia arrumada, havia alguns lápis espalhados sobre a escrivaninha e um moletom verde-escuro pendurado na cadeira. Reconheci a peça. Não porque fosse minha. Mas porque Sky sempre gostara daquela tonalidade.
Quando namorávamos, dizia que verde combinava com meu cabelo castanho. Eu respondia que preferia vermelho. A cor dos cabelos dela. Ridículo. É impressionante como uma pessoa pode transformar lembranças bonitas em instrumentos de tortura.
POV SKYMinha garganta apertou.— Eu também gosto de você.Naomi sorriu tristemente.— Só que ainda gosta dela.Não consegui responder. Porque qualquer negativa seria uma mentira. E eu havia prometido que seria sincera.— Eu não sei o que fazer com o que sinto — admiti.Naomi assentiu.— Então acho que precisamos diminuir o ritmo.Olhei para ela.— Você quer parar de me ver?— Quero parar de fingir que estou completamente tranquila com isso.A resposta foi honesta. Justa. E doeu. Naomi segurou minha mão por alguns segundos.— Você é incrível, Sky. Mas eu não quero ser a garota que fica esperando enquanto você decide se ainda ama sua ex.Baixei os olhos.— Desculpa.— Não precisa se desculpar por estar confusa. Só precisa ser cuidadosa com o que faz enquanto tenta se entender.Ela soltou minha mão delicadamente. Depois recolheu o notebook.— Vou te dar um pouco de espaço.Assenti.— Tudo bem.Naomi hesitou antes de sair. Então se inclinou e beijou minha bochecha.— Se cuida, ruivinha.
POV — Sky BlakeÀs sete e quarenta e três da manhã, Madson Smith estava sentada na beirada da cama, olhando para o celular como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Eu sabia porque estava observando havia pelo menos dez minutos. Não que estivesse encarando. Eu apenas não conseguia dormir. O que era perfeitamente compreensível, considerando que, na noite anterior, havia beijado minha ex-namorada depois de dois anos tentando esquecê-la. E, aparentemente, aquele beijo havia provocado uma crise financeira.Certo. Eu sabia que não era tão simples. O pai de Madson era um babaca controlador. Evelyn era uma manipuladora profissional. E eu não tinha culpa pelas decisões de nenhum dos dois. Mas isso não impedia que me sentisse péssima. — Você vai ficar olhando para esse telefone até ele pedir desculpas? — perguntei.Madson levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos. Ela dormira pouco. Eu também.— São quase oito — respondeu.— Percebi.— Meu pai pediu para eu ligar.Sentei na cama,
POV — MadsonMinha irmã suspirou.— Isso é um assunto familiar.— Uma pergunta simples, Evelyn.— Sky, você realmente precisa aprender a não se intrometer em assuntos que não lhe dizem respeito.Minha ex-namorada soltou uma risada. Uma daquelas risadas que nunca anunciavam nada bom.— Engraçado. Você não teve essa preocupação quando resolveu se intrometer no nosso relacionamento.— Madson — Evelyn disse, ignorando-a. — Tire essa garota da chamada.Meu coração estava disparado.— Sky, deixa. Eu resolvo.Ela virou para mim.— Você está tremendo.Baixei os olhos. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o celular. Sky pareceu ficar ainda mais furiosa.— Evelyn, você tem vinte e cinco anos. Já passou da hora de parar de tratar sua irmã como uma criança que precisa ser punida.— E você precisa compreender que não vai conseguir viver às custas da nossa família.Sky abriu a boca, indignada.— Eu nunca pedi um centavo de vocês!— Mas minha irmã continua disposta a desperdiçar o fut
POV — Madson SmithA primeira mensagem chegou às seis e treze da manhã.Evelyn: Precisamos conversar sobre o seu comportamento de ontem.A segunda veio três minutos depois.Evelyn: Seu pai está extremamente decepcionado.Às seis e vinte e dois, recebi a terceira.Evelyn: Você sabe quem administra o dinheiro da sua faculdade, Madson?Foi essa que me fez sentar na cama. Olhei imediatamente para Sky. Ela estava dormindo de lado, abraçada ao travesseiro, com os cabelos ruivos cobrindo metade do rosto.Na noite anterior, havíamos jantado sentadas no chão, cercadas por fotografias antigas. Não nos beijamos. Não nos abraçamos. Sky sequer disse alguma coisa particularmente carinhosa. Mas ficou. E, depois de dois anos, aquilo foi suficiente para me fazer dormir sem chorar.Agora, meu celular continuava vibrando.Evelyn: Mamãe e papai criaram um fundo para custear seus estudos. Como você sabe, tenho autorização para administrar os pagamentos.Evelyn: Não vou continuar liberando dinheiro enquant
POV SKYO quarto ficou silencioso. Madson começou a mexer num anel prateado.— Evelyn era o exemplo. Sempre. Notas perfeitas, faculdade perfeita, namorado perfeito. Eu não conseguia fazer nada sem ouvir o nome dela.Sua voz ficou mais baixa.— Quando eu ganhava alguma coisa, meu pai perguntava por que não tinha conseguido antes. Quando errava, dizia que Evelyn jamais cometeria aquele erro.Senti meu peito apertar. Eu sabia das comparações. Madson costumava fazer piadas sobre ser a versão de segunda categoria da irmã. Eu ria. Achava que ela estava exagerando. Agora, aquelas lembranças pareciam terrivelmente diferentes.— Você nunca me contou que era assim — murmurei.Ela deu de ombros.— Eu tinha vergonha.— Vergonha de quê?Madson me encarou. Seus olhos estavam molhados.— De você descobrir que eu não era aquela garota incrível que achava que eu era.Meu coração apertou.— Madson...— Você me olhava como se eu fosse capaz de qualquer coisa, Sky.Ela riu, limpando uma lágrima.— Você d
POV — Sky Blake— Espero que você não esteja cometendo a estupidez de escolher aquela garota outra vez.A voz de Evelyn Smith atravessou o quarto como uma lâmina. Aquela garota. Era assim que ela se referia a mim. Não Sky. Não a menina que havia frequentado sua casa durante quase dois anos. Não a garota que ela abraçara, aconselhara e convidara para jantar. Aquela garota.Madson estava imóvel, segurando o celular com tanta força que seus dedos haviam ficado brancos.— Não fala dela assim — respondeu.Sua voz estava baixa. Evelyn soltou uma risada.— Ah, por favor, Madson. Não vamos começar com esse drama novamente.Olhei para minha ex-namorada. Algo na maneira como ela se encolheu me incomodou. Madson Smith nunca fora uma garota tímida. No ensino médio, discutia com professores, enfrentava garotos arrogantes e conseguia transformar qualquer situação desconfortável numa piada. Mas, diante da própria irmã, parecia diminuir alguns centímetros.— Você mandou o vídeo para o Gabriel — Madso







