LOGINPOV Madson
Tirei os tênis e me sentei na cama. Meu celular vibrou.
Mãe: Conseguiu se instalar?
Eu: Consegui.
Mãe: E o curso? Já conheceu alguém?
Olhei para a cama vazia do outro lado.
Eu: Conheci.
A resposta seguinte demorou alguns segundos.
Mãe: Espero que esteja fazendo boas escolhas dessa vez.
Fiquei olhando para aquelas palavras. Minha mãe não precisava mencionar Sky. Eu sabia exatamente do que estava falando. Apaguei a conversa da tela sem responder.
Tinha passado tempo demais ouvindo outras pessoas me dizerem quais escolhas eram aceitáveis. O pior era lembrar que, quando chegou a hora de escolher entre a opinião delas e Sky, eu mesma escolhi abandoná-la. E ninguém precisou segurar minha mão para fazer aquilo.
A porta abriu às dez e doze. Sky entrou rindo de alguma coisa que alguém havia dito no corredor.
— Você é uma idiota! — exclamou, olhando para trás.
— E você me adora! — respondeu uma voz feminina.
Reconheci a voz antes mesmo de ver a dona. A garota de cabelos pretos apareceu na porta. Era bonita. Muito bonita. Usava uma jaqueta jeans sobre uma camiseta branca e tinha uma câmera pendurada no pescoço.
Sky se virou para ela.
— Obrigada por me acompanhar.
— Sempre um prazer, Blake.
A garota segurou delicadamente a cintura dela. Meu estômago se contraiu. Não olha. Olhei. Claro que olhei.
A desconhecida inclinou o rosto, e Sky a beijou. Na boca. Sem hesitar. Sem olhar para os lados. Sem procurar algum lugar escondido. Foi um beijo breve, mas suficiente para fazer alguma coisa desagradável se espalhar pelo meu peito.
Eu sabia que não deveria sentir aquilo. Sky estava solteira. Era linda. Inteligente. Engraçada. E eu não tinha absolutamente nada a oferecer além de um histórico vergonhoso de decisões ruins. Ainda assim, observar outra garota beijando a boca que eu conhecia tão bem foi uma experiência próxima de engolir vidro.
— Boa noite, ruivinha — a desconhecida murmurou.
Sky sorriu.
— Boa noite, Naomi.
Naomi. Então aquele era o nome. A garota finalmente percebeu minha presença.
— Ah, oi.
Forcei um sorriso.
— Oi.
Sky olhou para mim. Seu sorriso desapareceu um pouco.
— Naomi, essa é Madson. Minha colega de quarto.
Colega de quarto. Duas palavras. Perfeitamente verdadeiras. Mesmo assim, doeram.
Naomi estendeu a mão.
— Prazer.
Apertei.
— Igualmente.
Ela tinha um aperto firme e um sorriso fácil. Era o tipo de pessoa que eu provavelmente teria gostado de conhecer em qualquer outra circunstância. O que tornava tudo ainda mais irritante.
— Bom, vou deixar vocês descansarem — anunciou.
Naomi beijou a bochecha de Sky. Depois desapareceu pelo corredor. A porta se fechou. O silêncio que ficou entre nós duas parecia ocupar cada centímetro do quarto.
Sky largou a bolsa sobre a cama.
— Você estava encarando.
Ergui os olhos.
— O quê?
— A Naomi.
Droga.
— Não estava.
Sky soltou uma risada.
— Você continua mentindo muito mal quando está nervosa.
Aquilo me atingiu. Não pela provocação. Mas porque ela estava certa sobre algo muito maior do que um olhar.
— Desculpa — murmurei.
Sky começou a tirar os sapatos.
— Você anda pedindo muitas desculpas.
— Tenho motivos.
Ela ficou quieta por alguns segundos. Depois se virou.
— Por que você contou para aquelas pessoas que nós namoramos?
Meu coração acelerou. Ali estava. A pergunta que eu vinha evitando desde que Iris me confrontara.
— Porque é verdade.
Sky cruzou os braços.
— Também era verdade dois anos atrás.
— Eu sei.
— Então o que mudou?
Olhei para ela. Os cabelos ruivos estavam um pouco bagunçados, havia uma pinta minúscula perto de sua clavícula e ela continuava sendo a garota mais bonita que eu já havia visto. Mas não era mais a adolescente que eu conhecia. Havia alguma coisa diferente em sua postura. Na maneira como me encarava. Sky não parecia estar esperando minha aprovação. E, apesar de tudo, senti orgulho dela.
— Eu mudei — respondi.
Ela soltou uma risada.
— Que conveniente.
— Não estou dizendo que isso conserta alguma coisa.
— Ainda bem.
Respirei fundo.
— Mas nunca mais vou negar que namorei você.
Sky me encarou.
— Mesmo que alguém pergunte?
— Mesmo assim.
— Mesmo que sua família descubra?
A pergunta me fez hesitar. Não por falta de resposta. Mas porque eu ainda conseguia ouvir a voz do meu pai naquela noite, dois anos antes.
Enquanto morar debaixo do meu teto, não vai envergonhar esta família.
Olhei para Sky.
— Mesmo que descubram.
Seus olhos examinaram meu rosto. Procurando alguma mentira, provavelmente. Eu não a culpava.
— E você acha que isso muda o que aconteceu? — perguntou.
— Não.
— Então por que está fazendo isso agora?
Engoli em seco. Eu poderia dar uma resposta bonita. Dizer que estava tentando corrigir o passado. Que finalmente tinha coragem de assumir quem era. Tudo aquilo era verdade. Mas não era a verdade inteira. E Sky merecia mais do que outra meia-verdade.
— Porque senti ciúmes.
Ela ficou completamente imóvel.
— O quê?
— Quando você sorriu para aquela mensagem. Eu senti ciúmes. E falei sem pensar no que aquilo poderia causar para você.
Sky abriu a boca. Fechou. Depois soltou uma gargalhada incrédula.
— Você está brincando comigo.
— Não.
— Madson Smith, você está me dizendo que resolveu assumir nosso namoro dois anos depois porque ficou com ciúmes de uma mensagem?
A maneira como ela pronunciou meu nome inteiro deveria ter me assustado. Na verdade, assustou. Bastante.
— Não foi só por isso — expliquei. — Eu queria dizer a verdade. Mas foi o ciúme que me fez falar naquele momento.
Sky passou as mãos pelos cabelos.
— Você é inacreditável.
— Eu sei.
— Não, você não sabe!
Sua voz subiu. Eu me levantei instintivamente, mas permaneci ao lado da minha cama.
— Você não pode fazer isso, Madson. Não pode entrar na minha vida, ficar com ciúmes e decidir que agora quer reconhecer um relacionamento que você mesma destruiu!
— Eu não quero decidir nada por você.
— Mas decidiu!
Fiquei em silêncio. Sky respirou fundo. Havia lágrimas brilhando em seus olhos. Aquilo quase me fez atravessar o quarto. Quase. Mas eu não tinha direito de tocá-la apenas porque vê-la sofrer ainda me destruía.
— Você me deixou sozinha — disse ela, mais baixo. — E agora quer agir como se tivesse algum direito sobre mim?
Balancei a cabeça.
— Não tenho.
— Então pare.
Assenti.
— Vou parar.
Ela me observou durante alguns segundos. Depois pegou o pijama e caminhou até o banheiro. Antes de entrar, parou.
— Madson?
Levantei o rosto.
— Oi?
Sky apertou a roupa contra o peito.
— A Naomi não tem vergonha de me beijar na frente das pessoas.
A frase atravessou meu peito. Não havia raiva em sua voz dessa vez. Apenas uma verdade simples. Dolorosa.
— Eu sei — respondi.
Ela assentiu.
— Era só isso que eu queria de você.
E fechou a porta. Fiquei olhando para a madeira por um longo tempo. Porque, durante dois anos, imaginei que a pior coisa que poderia acontecer seria encontrar Sky apaixonada por outra pessoa. Estava errada.
A pior coisa era descobrir que alguém estava oferecendo a ela, com a maior naturalidade do mundo, aquilo que eu nunca tivera coragem de dar. E que talvez Sky estivesse começando a se apaixonar justamente por isso.
POV SKYMinha garganta apertou.— Eu também gosto de você.Naomi sorriu tristemente.— Só que ainda gosta dela.Não consegui responder. Porque qualquer negativa seria uma mentira. E eu havia prometido que seria sincera.— Eu não sei o que fazer com o que sinto — admiti.Naomi assentiu.— Então acho que precisamos diminuir o ritmo.Olhei para ela.— Você quer parar de me ver?— Quero parar de fingir que estou completamente tranquila com isso.A resposta foi honesta. Justa. E doeu. Naomi segurou minha mão por alguns segundos.— Você é incrível, Sky. Mas eu não quero ser a garota que fica esperando enquanto você decide se ainda ama sua ex.Baixei os olhos.— Desculpa.— Não precisa se desculpar por estar confusa. Só precisa ser cuidadosa com o que faz enquanto tenta se entender.Ela soltou minha mão delicadamente. Depois recolheu o notebook.— Vou te dar um pouco de espaço.Assenti.— Tudo bem.Naomi hesitou antes de sair. Então se inclinou e beijou minha bochecha.— Se cuida, ruivinha.
POV — Sky BlakeÀs sete e quarenta e três da manhã, Madson Smith estava sentada na beirada da cama, olhando para o celular como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Eu sabia porque estava observando havia pelo menos dez minutos. Não que estivesse encarando. Eu apenas não conseguia dormir. O que era perfeitamente compreensível, considerando que, na noite anterior, havia beijado minha ex-namorada depois de dois anos tentando esquecê-la. E, aparentemente, aquele beijo havia provocado uma crise financeira.Certo. Eu sabia que não era tão simples. O pai de Madson era um babaca controlador. Evelyn era uma manipuladora profissional. E eu não tinha culpa pelas decisões de nenhum dos dois. Mas isso não impedia que me sentisse péssima. — Você vai ficar olhando para esse telefone até ele pedir desculpas? — perguntei.Madson levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos. Ela dormira pouco. Eu também.— São quase oito — respondeu.— Percebi.— Meu pai pediu para eu ligar.Sentei na cama,
POV — MadsonMinha irmã suspirou.— Isso é um assunto familiar.— Uma pergunta simples, Evelyn.— Sky, você realmente precisa aprender a não se intrometer em assuntos que não lhe dizem respeito.Minha ex-namorada soltou uma risada. Uma daquelas risadas que nunca anunciavam nada bom.— Engraçado. Você não teve essa preocupação quando resolveu se intrometer no nosso relacionamento.— Madson — Evelyn disse, ignorando-a. — Tire essa garota da chamada.Meu coração estava disparado.— Sky, deixa. Eu resolvo.Ela virou para mim.— Você está tremendo.Baixei os olhos. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o celular. Sky pareceu ficar ainda mais furiosa.— Evelyn, você tem vinte e cinco anos. Já passou da hora de parar de tratar sua irmã como uma criança que precisa ser punida.— E você precisa compreender que não vai conseguir viver às custas da nossa família.Sky abriu a boca, indignada.— Eu nunca pedi um centavo de vocês!— Mas minha irmã continua disposta a desperdiçar o fut
POV — Madson SmithA primeira mensagem chegou às seis e treze da manhã.Evelyn: Precisamos conversar sobre o seu comportamento de ontem.A segunda veio três minutos depois.Evelyn: Seu pai está extremamente decepcionado.Às seis e vinte e dois, recebi a terceira.Evelyn: Você sabe quem administra o dinheiro da sua faculdade, Madson?Foi essa que me fez sentar na cama. Olhei imediatamente para Sky. Ela estava dormindo de lado, abraçada ao travesseiro, com os cabelos ruivos cobrindo metade do rosto.Na noite anterior, havíamos jantado sentadas no chão, cercadas por fotografias antigas. Não nos beijamos. Não nos abraçamos. Sky sequer disse alguma coisa particularmente carinhosa. Mas ficou. E, depois de dois anos, aquilo foi suficiente para me fazer dormir sem chorar.Agora, meu celular continuava vibrando.Evelyn: Mamãe e papai criaram um fundo para custear seus estudos. Como você sabe, tenho autorização para administrar os pagamentos.Evelyn: Não vou continuar liberando dinheiro enquant
POV SKYO quarto ficou silencioso. Madson começou a mexer num anel prateado.— Evelyn era o exemplo. Sempre. Notas perfeitas, faculdade perfeita, namorado perfeito. Eu não conseguia fazer nada sem ouvir o nome dela.Sua voz ficou mais baixa.— Quando eu ganhava alguma coisa, meu pai perguntava por que não tinha conseguido antes. Quando errava, dizia que Evelyn jamais cometeria aquele erro.Senti meu peito apertar. Eu sabia das comparações. Madson costumava fazer piadas sobre ser a versão de segunda categoria da irmã. Eu ria. Achava que ela estava exagerando. Agora, aquelas lembranças pareciam terrivelmente diferentes.— Você nunca me contou que era assim — murmurei.Ela deu de ombros.— Eu tinha vergonha.— Vergonha de quê?Madson me encarou. Seus olhos estavam molhados.— De você descobrir que eu não era aquela garota incrível que achava que eu era.Meu coração apertou.— Madson...— Você me olhava como se eu fosse capaz de qualquer coisa, Sky.Ela riu, limpando uma lágrima.— Você d
POV — Sky Blake— Espero que você não esteja cometendo a estupidez de escolher aquela garota outra vez.A voz de Evelyn Smith atravessou o quarto como uma lâmina. Aquela garota. Era assim que ela se referia a mim. Não Sky. Não a menina que havia frequentado sua casa durante quase dois anos. Não a garota que ela abraçara, aconselhara e convidara para jantar. Aquela garota.Madson estava imóvel, segurando o celular com tanta força que seus dedos haviam ficado brancos.— Não fala dela assim — respondeu.Sua voz estava baixa. Evelyn soltou uma risada.— Ah, por favor, Madson. Não vamos começar com esse drama novamente.Olhei para minha ex-namorada. Algo na maneira como ela se encolheu me incomodou. Madson Smith nunca fora uma garota tímida. No ensino médio, discutia com professores, enfrentava garotos arrogantes e conseguia transformar qualquer situação desconfortável numa piada. Mas, diante da própria irmã, parecia diminuir alguns centímetros.— Você mandou o vídeo para o Gabriel — Madso







