MasukPOV — Madson Smith
Na primeira manhã, Sky não me deu bom-dia. Na segunda, saiu do quarto antes de eu acordar. Na terceira, passou por mim usando apenas uma toalha, pegou suas roupas no armário e entrou no banheiro sem sequer reconhecer minha existência. Eu estava começando a suspeitar que havia desenvolvido a capacidade de ficar invisível.
Não que pudesse culpá-la. Depois da nossa discussão, na terça-feira, Sky deixou bastante claro que não queria conversar comigo. Então fiz exatamente o que ela pediu. Parei. Não perguntei como tinham sido suas aulas. Não comprei café para ela. Não tentei fazer comentários engraçados quando a encontrava estudando.
Quando chegava ao quarto, cumprimentava apenas se nossos olhares se cruzassem. O que praticamente nunca acontecia. Sky era excelente em ignorar pessoas. Principalmente quando a pessoa era uma ex-namorada idiota que merecia ser ignorada.
Na sexta-feira, acordei às sete e encontrei um bilhete colado na geladeira pequena que dividíamos.
Comprei leite. Sua metade fica na prateleira de cima. — Sky.
Olhei para o papel durante alguns segundos. Era a primeira comunicação direta que recebia dela em três dias. Sobre leite. Meu Deus. Eu havia passado de amor da vida dela para coproprietária de um litro de leite. O universo realmente tinha senso de humor.
Peguei minha mochila e saí para a aula.
— Você está com uma aparência horrível.
Iris empurrou um copo de café na minha direção.
— Bom dia para você também.
— Estou falando sério. Dormiu?
— Algumas horas.
— Quantas?
— Isso depende de como você define dormir.
Ela suspirou. Estávamos sentadas na área externa da cafeteria, esperando nossa primeira aula de Jornalismo. Iris havia decidido que ser minha amiga significava assumir a responsabilidade de me alimentar, me criticar e impedir que eu tomasse decisões estúpidas. Era um trabalho em tempo integral.
— Ainda estão sem conversar? — perguntou.
Assenti.
— Três dias.
— E você tentou alguma coisa?
— Não.
Ela pareceu surpresa.
— Nada?
— Absolutamente nada.
— Uau.
Olhei para ela.
— O quê?
— Estou impressionada com sua capacidade de seguir uma instrução simples.
Joguei um guardanapo nela. Iris riu.
— Brincadeiras à parte, acho que você está fazendo a coisa certa.
Mexi no café.
— Não parece.
— Claro que não. Você quer conversar com ela.
— Quero.
— Quer que ela perdoe você.
— Mais do que qualquer coisa.
— E provavelmente quer que a namoradinha dela desapareça num buraco.
Levantei os olhos.
— Naomi não é namorada dela.
Iris abriu um sorriso.
— Ah, então você já investigou a situação?
— Sky disse que elas ficam.
— E você guardou essa informação com bastante carinho, aparentemente.
Revirei os olhos.
— Você é insuportável.
— E você é ciumenta.
Não respondi. Porque não havia defesa possível. Eu tinha ciúmes de Naomi Torres. Da maneira como ela podia beijar Sky nos corredores. De como Sky sorria quando recebia suas mensagens. E, principalmente, da facilidade com que Naomi fazia coisas que eu havia transformado em problemas durante nosso namoro. Segurar a mão dela. Beijá-la em público. Apresentá-la aos amigos sem inventar alguma desculpa.
Eu deveria ter feito tudo aquilo. Em vez disso, tinha passado quase dois anos dizendo que não precisávamos provar nada para ninguém. Era uma frase bonita. Conveniente também. Principalmente quando quem estava pagando o preço era Sky.
— Você vem à festa hoje? — Iris perguntou.
Fiz uma careta.
— Não sei.
— Madson.
— Iris.
— Você precisa fazer alguma coisa além de estudar e sofrer por uma ruiva.
— Tenho outros hobbies.
— Quais?
Pensei por alguns segundos.
— Lavar roupa.
Ela me encarou.
— Nossa. Que vida emocionante.
Às quatro da tarde, eu já havia decidido que não iria à festa. Às seis, Iris apareceu no meu quarto acompanhada de Ben e uma garota chamada Chloe, que conhecêramos naquela semana. Às seis e quinze, os três estavam discutindo meu guarda-roupa.
— Essa camiseta parece uniforme de posto de gasolina — Ben comentou.
Olhei para a peça preta que segurava.
— É uma camiseta normal.
— Exatamente. Tristemente normal.
Chloe, estudante de Relações Públicas, tinha cabelos loiros cortados na altura do queixo e uma habilidade impressionante para criticar pessoas com um sorriso encantador. Ela pegou uma camisa verde-escura do meu armário.
— Essa.
Iris assentiu.
— Definitivamente essa.
Suspirei.
— Vocês sabem que eu consigo me vestir sozinha?
— Sabemos — Ben respondeu. — É justamente isso que nos preocupa.
Acabei cedendo. Coloquei a camisa verde, uma calça jeans escura e minhas botas favoritas. Enquanto procurava os brincos, a porta do quarto abriu.
Sky entrou. E os quatro ficaram em silêncio. Ela usava uma saia preta curta, meia-calça fina e uma blusa vinho de mangas compridas. Os cabelos ruivos estavam soltos, formando ondas que chegavam pouco abaixo dos ombros. Havia pintado os lábios de vermelho.
Eu lembrava daquele batom. Ou talvez fosse apenas parecido. Não importava. O efeito foi o mesmo. Fiquei momentaneamente incapaz de formular uma frase inteligente.
— Oi, Sky! — Chloe cumprimentou, animada.
Sky sorriu.
— Oi, gente.
Ela havia conhecido Chloe durante um jantar na quarta-feira, quando Ben convidara metade do andar para comer pizza. Eu também estava lá. Sky conversou com todo mundo. Menos comigo.
— Você vai à festa? — Ben perguntou.
— Vou. A Harper e o Theo estão me esperando.
— Ótimo! A gente se vê lá.
Ela assentiu. Passou por mim para pegar a bolsa sobre a cama. Nosso ombros quase se tocaram. Quase. Sky se afastou antes. Eu permaneci imóvel, fingindo procurar alguma coisa dentro da mochila.
Quando ela saiu, Ben soltou um assobio.
— Caramba. Sua colega é bonita.
Iris deu uma cotovelada nele.
— Benjamin!
— O quê? Eu tenho olhos!
— E pouquíssimo instinto de sobrevivência — Chloe completou.
Fingi não ouvir. Mas a verdade era que eu havia percebido uma coisa terrível. Sky tinha se arrumado para encontrar Naomi. E eu sabia exatamente como era ser a garota para quem ela escolhia uma roupa especial.
A festa acontecia numa casa alugada por estudantes de Comunicação, a quinze minutos do campus. A música podia ser ouvida antes mesmo de entrarmos. Luzes coloridas iluminavam o quintal, pessoas conversavam perto da piscina e alguém havia decidido colocar uma máquina de fumaça na sala.
Era o tipo de ambiente que eu adorava no ensino médio. Música alta. Gente bonita. A possibilidade de conhecer alguém interessante. Agora, tudo parecia um pouco cansativo.
— Você precisa beber alguma coisa — Ben anunciou.
— Preciso de água.
Ele me olhou como se eu tivesse ofendido seus antepassados.
— Você está numa festa universitária.
— E continuo possuindo rins.
Chloe gargalhou.
— Gostei dela.
Iris segurou minha mão e me arrastou para o quintal.
— Vamos dançar.
— Iris, eu não...
— Sem negociação.
Acabei rindo. E, durante aproximadamente vinte minutos, consegui esquecer que estava dividindo um quarto com a garota que ainda amava. Foi uma sensação boa. Eu precisava de mais momentos assim.
POV SKYMinha garganta apertou.— Eu também gosto de você.Naomi sorriu tristemente.— Só que ainda gosta dela.Não consegui responder. Porque qualquer negativa seria uma mentira. E eu havia prometido que seria sincera.— Eu não sei o que fazer com o que sinto — admiti.Naomi assentiu.— Então acho que precisamos diminuir o ritmo.Olhei para ela.— Você quer parar de me ver?— Quero parar de fingir que estou completamente tranquila com isso.A resposta foi honesta. Justa. E doeu. Naomi segurou minha mão por alguns segundos.— Você é incrível, Sky. Mas eu não quero ser a garota que fica esperando enquanto você decide se ainda ama sua ex.Baixei os olhos.— Desculpa.— Não precisa se desculpar por estar confusa. Só precisa ser cuidadosa com o que faz enquanto tenta se entender.Ela soltou minha mão delicadamente. Depois recolheu o notebook.— Vou te dar um pouco de espaço.Assenti.— Tudo bem.Naomi hesitou antes de sair. Então se inclinou e beijou minha bochecha.— Se cuida, ruivinha.
POV — Sky BlakeÀs sete e quarenta e três da manhã, Madson Smith estava sentada na beirada da cama, olhando para o celular como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Eu sabia porque estava observando havia pelo menos dez minutos. Não que estivesse encarando. Eu apenas não conseguia dormir. O que era perfeitamente compreensível, considerando que, na noite anterior, havia beijado minha ex-namorada depois de dois anos tentando esquecê-la. E, aparentemente, aquele beijo havia provocado uma crise financeira.Certo. Eu sabia que não era tão simples. O pai de Madson era um babaca controlador. Evelyn era uma manipuladora profissional. E eu não tinha culpa pelas decisões de nenhum dos dois. Mas isso não impedia que me sentisse péssima. — Você vai ficar olhando para esse telefone até ele pedir desculpas? — perguntei.Madson levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos. Ela dormira pouco. Eu também.— São quase oito — respondeu.— Percebi.— Meu pai pediu para eu ligar.Sentei na cama,
POV — MadsonMinha irmã suspirou.— Isso é um assunto familiar.— Uma pergunta simples, Evelyn.— Sky, você realmente precisa aprender a não se intrometer em assuntos que não lhe dizem respeito.Minha ex-namorada soltou uma risada. Uma daquelas risadas que nunca anunciavam nada bom.— Engraçado. Você não teve essa preocupação quando resolveu se intrometer no nosso relacionamento.— Madson — Evelyn disse, ignorando-a. — Tire essa garota da chamada.Meu coração estava disparado.— Sky, deixa. Eu resolvo.Ela virou para mim.— Você está tremendo.Baixei os olhos. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o celular. Sky pareceu ficar ainda mais furiosa.— Evelyn, você tem vinte e cinco anos. Já passou da hora de parar de tratar sua irmã como uma criança que precisa ser punida.— E você precisa compreender que não vai conseguir viver às custas da nossa família.Sky abriu a boca, indignada.— Eu nunca pedi um centavo de vocês!— Mas minha irmã continua disposta a desperdiçar o fut
POV — Madson SmithA primeira mensagem chegou às seis e treze da manhã.Evelyn: Precisamos conversar sobre o seu comportamento de ontem.A segunda veio três minutos depois.Evelyn: Seu pai está extremamente decepcionado.Às seis e vinte e dois, recebi a terceira.Evelyn: Você sabe quem administra o dinheiro da sua faculdade, Madson?Foi essa que me fez sentar na cama. Olhei imediatamente para Sky. Ela estava dormindo de lado, abraçada ao travesseiro, com os cabelos ruivos cobrindo metade do rosto.Na noite anterior, havíamos jantado sentadas no chão, cercadas por fotografias antigas. Não nos beijamos. Não nos abraçamos. Sky sequer disse alguma coisa particularmente carinhosa. Mas ficou. E, depois de dois anos, aquilo foi suficiente para me fazer dormir sem chorar.Agora, meu celular continuava vibrando.Evelyn: Mamãe e papai criaram um fundo para custear seus estudos. Como você sabe, tenho autorização para administrar os pagamentos.Evelyn: Não vou continuar liberando dinheiro enquant
POV SKYO quarto ficou silencioso. Madson começou a mexer num anel prateado.— Evelyn era o exemplo. Sempre. Notas perfeitas, faculdade perfeita, namorado perfeito. Eu não conseguia fazer nada sem ouvir o nome dela.Sua voz ficou mais baixa.— Quando eu ganhava alguma coisa, meu pai perguntava por que não tinha conseguido antes. Quando errava, dizia que Evelyn jamais cometeria aquele erro.Senti meu peito apertar. Eu sabia das comparações. Madson costumava fazer piadas sobre ser a versão de segunda categoria da irmã. Eu ria. Achava que ela estava exagerando. Agora, aquelas lembranças pareciam terrivelmente diferentes.— Você nunca me contou que era assim — murmurei.Ela deu de ombros.— Eu tinha vergonha.— Vergonha de quê?Madson me encarou. Seus olhos estavam molhados.— De você descobrir que eu não era aquela garota incrível que achava que eu era.Meu coração apertou.— Madson...— Você me olhava como se eu fosse capaz de qualquer coisa, Sky.Ela riu, limpando uma lágrima.— Você d
POV — Sky Blake— Espero que você não esteja cometendo a estupidez de escolher aquela garota outra vez.A voz de Evelyn Smith atravessou o quarto como uma lâmina. Aquela garota. Era assim que ela se referia a mim. Não Sky. Não a menina que havia frequentado sua casa durante quase dois anos. Não a garota que ela abraçara, aconselhara e convidara para jantar. Aquela garota.Madson estava imóvel, segurando o celular com tanta força que seus dedos haviam ficado brancos.— Não fala dela assim — respondeu.Sua voz estava baixa. Evelyn soltou uma risada.— Ah, por favor, Madson. Não vamos começar com esse drama novamente.Olhei para minha ex-namorada. Algo na maneira como ela se encolheu me incomodou. Madson Smith nunca fora uma garota tímida. No ensino médio, discutia com professores, enfrentava garotos arrogantes e conseguia transformar qualquer situação desconfortável numa piada. Mas, diante da própria irmã, parecia diminuir alguns centímetros.— Você mandou o vídeo para o Gabriel — Madso







