FAZER LOGINEpílogo — AdrianEu odiava o sistema de compatibilidade.Odiava a ideia de um algoritmo decidir algo tão pessoal quanto um vínculo e chamar aquilo de destino. Kieran sentia a mesma coisa, então, quando o Departamento nos vinculou a uma humana que nunca tínhamos visto antes, entramos juntos com o recurso e realmente acreditamos que funcionaria.Não funcionou.A única coisa que tornava aquilo suportável era o ano experimental. Um ano, e depois disso sairíamos limpos daquela situação.Então Lila Bennett entrou no nosso apartamento carregando café como se já pertencesse àquele lugar.E nada voltou a ser simples depois disso.Ela era tímida no começo. Cuidadosa.Mas, de vez em quando, fazia algo inesperadamente corajoso, como se aproximar para limpar sangue de um corte enquanto as mãos tremiam ou pressionar uma bandagem contra um machucado tentando esconder o nervosismo.Lila também chorava fácil.Não de maneira escandalosa.Nunca para chamar atenção.Eram apenas lágrimas silenc
A quarta-feira chegou acompanhada de uma chuva fina e constante.Quando estacionamos em frente ao Departamento, os degraus de pedra já estavam escuros por causa da água. Adrian saiu do carro primeiro, deu a volta até o meu lado e abriu a porta antes mesmo que eu tocasse na maçaneta. Assim que desci, ele me guiou para perto da cobertura da entrada e afastou a umidade da manga do meu casaco com as costas da mão.Pelo canto do olho, vi Kieran dar alguns passos na nossa direção segurando um guarda-chuva.Então ele parou.Na noite em que contei que queria encerrar tudo, Kieran se recusou a acreditar no começo. Os olhos dele ficaram vermelhos quase imediatamente e ele repetiu meu nome várias vezes. Em um momento, tentou me tocar, mas eu me afastei por instinto, e a expressão no rosto dele depois daquilo ficou comigo por muito mais tempo do que eu gostaria. Adrian apareceu logo depois e levou Kieran para o outro cômodo. Nunca descobri o que os dois conversaram lá dentro.Mesmo assim...
Depois de terminar de cuidar dos machucados de Adrian, fui lavar as mãos.Na volta, passei pelo quarto de Kieran e percebi que a porta ainda estava entreaberta.Ele permanecia exatamente onde tinham deixado depois da briga. Meio encostado na parede, uma perna dobrada, a cabeça baixa. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua entrando pela janela.Ele ainda nem tinha limpado o sangue.A gola da camisa estava manchada, havia um hematoma forte na maçã do rosto e um corte nos nós dos dedos que parecia pior do que antes. Kieran normalmente era cuidadoso demais com a própria aparência para ficar daquele jeito por muito tempo.Agora apenas encarava o chão como se nada daquilo doesse.Fiquei parada ali mais do que deveria.Então voltei até o banheiro, peguei o antisséptico extra e algumas bandagens e deixei tudo do lado de fora da porta dele.Talvez eu realmente fosse mole demais.Não queria admitir, mas havia algo na visão dele sozinho naquele quarto escuro que apertav
Durante o jantar daquela noite, percebi quase imediatamente que havia alguma coisa errada com Adrian.Ele parecia cansado, mas aquilo não era novidade. O que realmente chamou minha atenção foi o pequeno embrulho de papel ao lado do prato dele, intacto desde o momento em que se sentou à mesa.Dentro do papel estavam os pedaços da caneca que fiz para ele.Cuidadosamente recolhidos.Quebrados em vários fragmentos.Aquilo não tinha sido acidente.Parecia que alguém tinha jogado a caneca no chão de propósito. Com força.Do outro lado da mesa, Kieran soltou uma risada curta.— Bom... — ele comentou, recostando na cadeira. — Acho que eu não fui o único que achou aquilo ridículo.Mal ouvi o que ele disse.Tudo em que consegui pensar foi se Adrian tinha se machucado.Estendi a mão imediatamente por cima da mesa, mas Adrian segurou meu pulso com cuidado antes que eu começasse a examinar as mãos dele.— Eu tô bem — disse calmamente. — A caneca não estava comigo.Olhei para ele sem en
Ele não estava mais olhando para a caneca.Estava olhando para Adrian.Para o fato de Adrian ter trazido a caneca até a mesa. Para o fato de ele realmente estar usando aquilo.— E isso aí era pra ser o quê? — Kieran perguntou sem expressão, apontando para o desenho pintado.Antes que eu morresse de vergonha, Adrian respondeu por mim:— Uma lua crescente.Kieran soltou uma breve risada pelo nariz.— Aquilo é a lua?— É, se você não for idiota.O clima da sala mudou imediatamente.A leveza desapareceu.As risadas também.Kieran se recostou outra vez na cadeira, mas agora o movimento parecia forçado.— Claro... — murmurou. — Foi feito à mão. Isso melhora bastante as coisas.Ele tentou soar debochado.Mas não conseguiu.Adrian sentou ao meu lado como se nada tivesse acontecido.Do outro lado da mesa, Kieran sequer tocava no café da manhã.Ele ainda olhava para a caneca.E naquele instante eu entendi.Aquilo nunca foi sobre o presente.Era sobre o fato de que eu tinha f
Voltei para o meu quarto sem fazer barulho algum e fiquei deitada encarando o teto.Então Kieran tinha planejado aquilo desde o começo.Ele não gostava de mim.Não gostava da minha personalidade, do espaço que eu ocupava na vida dele e muito menos da ideia de passar o resto da existência preso a mim. Homens como Kieran se importavam demais com orgulho, status e com a necessidade de sempre sair por cima. Ser ligado a mim era a única coisa na vida dele que não podia transformar em vitória.Mas se fosse ele quem terminasse primeiro, as pessoas falariam.Um lobo abandonando uma humana nunca parecia algo bonito.Ele seria o culpado por me descartar.Então não seria o primeiro a dizer aquilo em voz alta.No começo, o plano provavelmente era simples: deixar Adrian me manter calma durante o ano experimental e esperar que eu mesma fosse embora quando tudo acabasse.Só que Adrian mudou de ideia.Ele queria ficar comigo.E agora Kieran estava preso a mim contra a própria vontade.“Eu