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Eu Parei de Amá-los Igualmente
Eu Parei de Amá-los Igualmente
Author: Eternity

CAPÍTULO 1

Author: Eternity
Adrian foi o primeiro a perceber a mudança.

Ele não comentou nada. Como sempre, apenas pegou a xícara de café coado das minhas mãos e agradeceu naquela voz baixa e tranquila que parecia nunca se alterar.

Kieran estava largado na ilha da cozinha, deslizando o dedo pela tela do celular enquanto assistia aos melhores momentos de algum jogo. A televisão murmurava o noticiário da manhã ao fundo. Foi só quando deixei a xícara de Adrian ao lado dele e me virei de volta para a cafeteira que ele finalmente percebeu o que estava faltando.

— Ei.

A voz dele saiu carregada de irritação.

Parei no mesmo instante.

Os olhos dele desceram da xícara de Adrian para minhas mãos vazias.

— O que isso quer dizer? Acabou o café... ou você resolveu que só um de nós merece beber hoje?

Adrian era sempre controlado. Frio na medida certa. Kieran, por outro lado, era puro instinto e arrogância. Impulsivo, temperamental, cruel o suficiente para machucar alguém apenas com palavras.

— O quê? — ele retrucou ao notar meu silêncio. — Tá me vendo aqui ou ficou cega de repente?

A explicação que eu estava prestes a dar morreu antes mesmo de sair.

Meu sorriso desapareceu devagar.

— Não.

— Não?

Kieran soltou uma risada curta, debochada.

— Então que porra é essa?

Uma provocação?

Minha mente voltou automaticamente para alguns dias atrás.

Adrian e Kieran tinham sido chamados para uma emergência no meio da madrugada e precisaram sair às quatro da manhã. Eu acordei com o barulho deles se arrumando, pulei da cama e fui correndo para a cozinha preparar alguma coisa antes que saíssem. Tirei do forno o frango assado com batatas que tinha guardado para eles e servi duas canecas de café quente.

Kieran desceu as escadas parecendo acabado. Os olhos estavam cercados por olheiras escuras, o cabelo bagunçado e ele ainda bocejava enquanto colocava a jaqueta.

No instante em que o vi, caminhei na direção dele automaticamente.

Eu estava preocupada.

Peguei uma das canecas e me aproximei, pronta para perguntar se ele estava bem, mas antes mesmo que eu abrisse a boca, Kieran me empurrou.

Lobisomens eram naturalmente mais fortes do que humanos.

Meu corpo bateu com força no chão. A caneca escapou da minha mão e se espatifou nos meus pés. O café fervendo derramou pelas minhas pernas e pelo piso de madeira.

Kieran congelou por meio segundo.

Mas a irritação voltou logo em seguida.

— Caralho! — ele disparou irritado. — Você não consegue perceber que eu tô ocupado?

Olhei para ele sem reação.

Não parecia preocupado porque eu tinha caído.

Parecia irritado porque eu o interrompi.

— Esse seu jeito grudento já é insuportável normalmente — ele falou friamente. — Mas eu tô cansado pra caralho hoje. Acabei de chegar em casa e você já tá em cima de mim de novo, igual uma vira-lata carente.

Uma vira-lata.

Então era isso que toda a minha preocupação significava para ele.

Não amor. Não cuidado. Não carinho.

Só algo patético.

Algo inconveniente que continuava voltando mesmo depois de ser chutado para longe inúmeras vezes.

O nojo na voz dele atravessou meu peito como uma faca.

Senti meu rosto queimar de humilhação tão rápido que nem consegui levantar a cabeça. Apenas me apoiei no chão e voltei para o quarto sem dizer absolutamente nada.

Pouco depois, ouvi um barulho seco vindo da sala.

Adrian tinha socado Kieran.

Não demorou muito para Adrian entrar no meu quarto carregando a caixa de primeiros socorros. Ele se ajoelhou na minha frente em silêncio e só então percebi que a pele da minha perna estava vermelha e inchada por causa do café quente.

Eu sempre soube que os irmãos Blackwood me desprezavam.

Qualquer pessoa conseguia perceber que eu era quem não pertencia àquele lugar.

Eles eram os garotos de ouro da sociedade dos lobisomens. Gêmeos, bonitos, brilhantes, fortes, admirados por onde passavam.

E eu...

Eu era só comum.

Sem graça. Fácil de ignorar. O tipo de mulher por quem os olhos das pessoas simplesmente passavam sem parar.

Se não fosse pela compatibilidade do sistema, o governo jamais teria unido nossos nomes.

Nossas vidas nunca teriam se cruzado.

No começo, eu fiquei feliz.

Cresci em lares adotivos e, mais do que qualquer coisa, sempre sonhei em ter uma família. Naquela época, fui ingênua o suficiente para acreditar que Adrian e Kieran poderiam se tornar meu lar.

Então, não importava o quanto fossem frios comigo. Não importava quantas vezes fossem indiferentes ou cruéis.

Eu continuava tentando.

Continuava sorrindo. Cuidando deles. Fazendo de tudo para agradá-los.

Toda vez que eles comiam algo preparado por mim, eu sentia aquela felicidade ridícula crescendo dentro do peito, como se finalmente fosse útil para alguém. Como se finalmente pertencesse a algum lugar.

As pessoas precisam de algo que as mantenha presas ao mundo.

Por muito tempo...

Adrian e Kieran foram isso para mim.

Os primeiros seis meses foram horríveis.

Eles odiavam a união.

Homens como eles estavam acostumados a serem invejados, mas no instante em que o Departamento os ligou a mim, todas as pessoas que queriam vê-los humilhados finalmente encontraram motivo para rir.

“Então foi essa aí que os gêmeos Blackwood receberam como noiva?”

Era uma humilhação que eles não conseguiam engolir.

Então fizeram com que eu engolisse no lugar deles.

Adrian era o mais controlado dos dois. Na maior parte do tempo, agia como se eu nem existisse. Frio, distante, educado apenas quando realmente precisava ser.

Mas Kieran...

Kieran era cruel sem esconder.

Ele debochava de tudo em mim. Das minhas roupas, do meu trabalho, da forma como eu falava, da maneira como eu andava.

Para ele, eu era insuficiente em todos os sentidos possíveis.

Vergonhosa.

Patética.

E mesmo assim...

Eu fiquei.

Só que, aos poucos, as coisas começaram a mudar. Ou pelo menos eu achei que estavam mudando.

Nem consigo dizer exatamente quando começou.

Adrian parou de agir como se eu fosse invisível. Sempre que eu colocava o café ao lado dele pela manhã, ele aceitava. Às vezes até agradecia.

De vez em quando, ele olhava para mim e passava a mão pelos meus cabelos distraidamente, num gesto tão suave que sempre me deixava sem reação.

Eu não estava acostumada com gentileza.

Então qualquer mínimo carinho parecia gigantesco.

Kieran também mudou.

Ou pelo menos eu pensei que tivesse mudado.

Ele passou a me provocar menos. Às vezes apontava para o sofá com a cabeça e mandava eu sentar para assistir ao restante de algum jogo ao lado dele, reclamando o tempo inteiro que eu não entendia nada de esporte. Mas sempre que alguém na televisão me irritava, ele começava a falar mal da pessoa também, como se minha opinião fosse mais importante do que a partida.

Eu realmente achei que as coisas estavam melhorando.

Achei que finalmente tinha conseguido alcançá-los.

Talvez insistir significasse alguma coisa.

Talvez, enquanto eu me esforçava tanto para fazer aquilo funcionar, eles também estivessem aprendendo a me aceitar.

Até aquela caneca quebrada.

Foi como acordar de um sonho e perceber que eu era a única sonhando.

Todos aqueles anos de esforço.

Todo carinho.

Toda dedicação.

Toda aquela devoção humilhante.

No final, Kieran resumiu tudo em uma única palavra.

Uma vira-lata.

Indesejada.

Carente.

Vergonhosa.

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