FAZER LOGINClara continuou olhando para o nome na tela.Isabela.Sessenta mil reais haviam saído da Bellavista Consultoria.Dias depois, cinquenta e cinco mil chegaram à GSA Participações.Depois, o dinheiro alcançou a Horizonte.E quarenta e dois mil terminaram na conta da empresa de Marcelo.A sequência estava ali.Fria.Organizada.Documentada.Mas Clara mal conseguia enxergar os números.Só enxergava o nome.Isabela.— Clara?Adrian falou baixo.Ela levantou a mão.— Não.Ele parou.— Não fala nada ainda.Adrian obedeceu.Clara colocou o telefone sobre a mesa.Levantou.Deu alguns passos pela sala.Voltou.Não sabia exatamente o que fazer com as mãos.Nem com a raiva.— Ela pagou.A voz saiu baixa.Adrian permaneceu em silêncio.— Ela colocou dinheiro nisso.Clara olhou para ele.— Não foi uma mensagem impulsiva. Não foi ciúme. Não foi aquela tentativa ridícula de perguntar se eu sabia tudo.A voz começou a falhar.— Ela colocou dinheiro numa estrutura para procurar coisas sobre o nosso casa
A resposta sobre os quarenta e dois mil reais chegou na manhã seguinte.E não era exatamente o que Clara esperava.Teresa apareceu na casa pouco depois das oito com Rafael Nogueira, o diretor financeiro do Grupo Montenegro.Adrian olhou para os dois.— Encontraram?— Encontramos a origem — respondeu Rafael. — Mas precisamos ter cuidado antes de chamar isso de pagamento por informação.Clara se sentou.— Então o que era?Rafael colocou alguns documentos sobre a mesa.— Formalmente, consultoria.— Consultoria de quê?— Análise de risco para aquisição de ativos logísticos.Adrian franziu a testa.— Marcelo não trabalha com isso.— Esse é o problema.A empresa individual de Marcelo havia emitido uma nota fiscal de quarenta e dois mil reais para a Horizonte Estratégia e Gestão.Descrição:“Consultoria técnica para levantamento histórico de contingências e riscos operacionais.”Clara leu duas vezes.— Histórico de contingências.— Sim — disse Teresa.— Isso foi onze dias depois de Marcelo m
Teresa não respondeu imediatamente à pergunta.Como Gustavo sabia das fotografias?Em vez disso, abriu novamente a comunicação enviada pela defesa.— Quero verificar uma coisa.Clara permaneceu sentada.Adrian estava ao lado da janela.— O quê? — perguntou ele.Teresa ampliou um trecho.— Eles não escreveram apenas “eventuais registros fotográficos”.Ela virou o notebook.Clara leu.“Duas imagens encaminhadas à assessoria de comunicação do Grupo Montenegro durante o período de negociação da aquisição da Valenza Logística.”Clara sentiu um arrepio.— Eles sabem quantas eram.— Exatamente.Adrian se aproximou.— Isso não estava em nenhuma informação pública.— Não.— Nem no processo.— Também não.Clara olhou para Teresa.— Então alguém contou.— Sim.A investigação começou pelo registro antigo.Teresa pediu ao jurídico do grupo a relação de pessoas que tinham acesso ao dossiê do incidente.O resultado chegou menos de uma hora depois.Sete pessoas.Adrian.O pai.O assessor de comunicaç
Clara não esperou Adrian terminar de explicar.— Liga para o seu pai.Ele ficou parado.— Agora?— Agora.— Clara...— Você acabou de me dizer que ele sabia da traição três semanas antes de mim.A voz dela continuava controlada.Era justamente isso que assustava Adrian.— Eu quero ouvir dele como soube.Adrian pegou o telefone.— Vou pedir que venha.— Não.Clara levantou.— Liga.— Você quer fazer isso por telefone?— Quero saber se ele vai contar a mesma história sem ter tempo para preparar uma versão.Adrian entendeu.Fez a ligação.O pai atendeu depois de poucos segundos.— Adrian?— O senhor pode falar?— Posso.Adrian olhou para Clara.Ela fez um gesto.Viva-voz.Ele ativou.— Clara está comigo.Houve uma pausa.— Aconteceu alguma coisa?Clara respondeu:— Aconteceu há alguns anos. Estou descobrindo hoje.Silêncio.— Clara...— Adrian me contou que o senhor sabia sobre Isabela antes de eu descobrir.Dessa vez, a pausa foi longa.Longa demais.— Sabia.Clara fechou os olhos por u
Clara estava terminando uma consulta quando Teresa ligou.Não a Teresa da clínica.A advogada que acompanhava as questões pessoais surgidas desde que Gustavo entrara novamente na história.Clara olhou para o relógio.Quase cinco.Atendeu.— Teresa?— Você pode falar?O tom bastou.Clara fechou a porta.— Posso.— Gustavo foi citado hoje.Clara sentou.Já esperava que isso acontecesse.— E?— A defesa respondeu mais rápido do que prevíamos.— O que querem?Houve uma pausa curta.— Ouvir Adrian.Clara ficou imóvel.— Sobre o quê?— Sobre Isabela.O nome atravessou a sala.Clara sentiu o estômago apertar.— Explica.Teresa foi objetiva.Gustavo havia sido chamado formalmente a prestar esclarecimentos sobre a forma como tivera acesso a determinadas informações relacionadas à traição de Adrian.Até ali, tudo seguia o esperado.O problema estava na estratégia da defesa.— Eles alegam que Gustavo não obteve informação de maneira ilícita — explicou Teresa. — Dizem que ele tomou conhecimento p
Clara percebeu a mudança na quinta-feira.Adrian estava em casa às seis e dez.Na quarta, tinha chegado às seis e vinte.Na terça, antes das sete.Aquilo, isoladamente, não significava nada.O problema era que Adrian raramente chegava tão cedo três dias seguidos.Naquela noite, Clara entrou na cozinha e o encontrou sem paletó, mexendo numa panela.Parou.— O que está acontecendo?Adrian olhou por cima do ombro.— Estou fazendo jantar.— Isso eu consigo ver.Ela se aproximou.— Estou perguntando por que você está em casa de novo.Ele franziu a testa.— Eu moro aqui.— Adrian.Ele desligou o fogo.— O quê?— Você está saindo mais cedo da empresa.— Estou organizando melhor meu horário.— Desde quando?— Desde esta semana.Clara cruzou os braços.— Por minha causa?Ele hesitou.Foi suficiente.— Adrian.— Não é um problema.— Eu não perguntei se era problema.— Estou tentando estar mais presente.— Para mim.— Para nós.Clara sentiu o incômodo crescer.— Quantas reuniões você cancelou?—







