O JUIZ ARROGANTE - LIVRO II

O JUIZ ARROGANTE - LIVRO II

last updateLast Updated : 2026-09-21
By:  sLunnyOngoing
Language: Portuguese
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Thomas é a personificação da justiça: rígido, inflexível e movido por princípios inabaláveis. Como juiz federal, sua palavra sempre foi lei — até o dia em que um acidente inesperado vira sua vida de cabeça para baixo. Ao atropelar uma mulher em situação de rua, Thomas acredita estar diante de mais um infortúnio da vida urbana. Mas tudo muda quando descobre a verdadeira identidade da vítima: uma renomada jornalista cuja carreira foi destruída por um julgamento que ele próprio presidiu. O encontro entre os dois desperta muito mais do que ressentimentos do passado. Em meio a confrontos, orgulho ferido e verdades enterradas, Thomas se vê diante de um sentimento que jamais permitiu florescer: o desejo de redenção… e um amor que pode abalar todas as suas certezas.

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Chapter 1

01

Thomas

O peso do martelo ainda pulsa em minha mão, mesmo horas depois. Um eco fantasma do poder que exerço, da ordem que imponho sobre o caos das vidas alheias. A audiência de Flora e Adam se arrastou como um pântano, um lodo denso de acusações veladas, defesas frágeis e aquela tensão quase insuportável que sempre acompanha os casos que tocam a elite da cidade. Saio do tribunal quase tropeçando no próprio cansaço, a mente um turbilhão de códigos legais, precedentes jurisprudenciais e, teimosa, a imagem do rosto devastado de Flora. Uma pontada incômoda aperta meu peito. Classifico como consequência do estresse. Só isso. Justiça. É o que sirvo. Fria, imparcial, desapaixonada.

É o que sou. Não há espaço para a bagunça pegajosa das emoções humanas nesse cálculo preciso. O átrio do fórum está quase vazio, as luzes frias refletindo no mármore polido. O silêncio amplifica o zumbido em meus ouvidos. Pego minha pasta de couro, símbolo discreto de status, e caminho até a saída, passos ecoando no vazio. Meu motorista, Bernard, está dispensado hoje. Preciso de solidão. De espaço. De controle. A noite me recebe com um tapa úmido e frio na cara. A chuva, que começou tímida, agora desaba com fúria sobre a cidade, transformando ruas em espelhos escuros que refletem faróis e postes em borrões impressionistas. O ar cheira a asfalto molhado e exaustão. A minha exaustão.

Destravo o carro com um clique quase inaudível sob a cortina de água. Um sedã alemão potente, discreto, meu santuário particular sobre rodas. O couro frio do banco é conforto familiar. Ligo o motor e os limpadores entram em ação com arcos hipnóticos. A visibilidade, péssima. O mundo, distorcido. Dirijo. Minhas mãos enluvadas apertam o volante com mais força do que o necessário. Mas a mente se recusa a focar na direção. Retorna, teimosa, à sala do tribunal. Aos argumentos sussurrados, à decisão que tomei. Flora... Ryan...

O favor antigo paira sobre mim como uma dívida não quitada. Ryan e sua lealdade comprada. Flora e sua fragilidade quase teatral. Adam e sua presença irritante. Um elemento fora do lugar. Desvio o pensamento com esforço. Meu papel foi cumprido. A lei foi aplicada. Ponto. As ruas estão quase desertas. A solidão me acompanha como uma sombra. Os pingos grossos martelam o teto. Um ritmo enervante. Preciso de um uísque. Um single malt de dezoito anos. Preciso de silêncio. Preciso apagar as últimas horas.

A poucos quarteirões de casa. Minha fortaleza de vidro e aço, onde as regras são minhas. Onde o mundo não me alcança. Acelero. Quero me livrar do terno úmido, da gravata sufocante. Uma rua secundária. Mal iluminada. Um atalho que uso para evitar o tráfego da avenida. A chuva engrossa de repente. Uma parede líquida diante do carro. Reduzo a velocidade, olhos semicerrados.

E então, acontece.

Um vulto. Escuro. Súbito. Materializa-se do nada, bem no meio da via. Meu pé esmaga o freio. O carro derrapa, os pneus cantam no piso escorregadio. O ABS vibra. O vulto se torna humano. Braços erguidos em defesa. Um impacto surdo. Um baque nauseante.

Algo – alguém – b**e no capô e desliza para fora da minha visão. O carro para bruscamente. Meu corpo é jogado contra o cinto. O silêncio que segue é ensurdecedor. Apenas minha respiração e o tique-taque do relógio caro no pulso. Meu coração martela. Minhas mãos tremem.

Não. Isso não pode estar acontecendo. Eu não cometo erros. Eu sou Thomas Montenegro. A porra da lei encarnada. Respiro fundo. Uma, duas, três vezes. O cheiro de borracha queimada invade a cabine. A chuva continua, indiferente, lavando a cena da minha falha.

Preciso sair. Avaliar a situação. Retomar o controle. Abro a porta. A chuva me atinge como um batismo gelado. Encharca meu cabelo, escorre pelo colarinho. Dou a volta no carro, os sapatos italianos afundando em uma poça.

E lá está.

Caída no asfalto molhado. Uma mulher. Roupas escuras, ensopadas. Cabelos longos grudados ao rosto. Ela se move. Um gemido baixo escapa. Está viva. Um alívio vergonhoso me percorre. Substituído por irritação. Que diabos fazia ela no meio da rua numa noite dessas? Sem guarda-chuva, sem nada refletivo. Imprudência. Uma afronta pessoal.

— Você está bem? — pergunto. A voz sai mais ríspida do que pretendo.

Aproximo-me com cautela. Não posso me envolver demais. Protocolos. Procedimentos. Ela se vira. O rosto pálido, sujo de lama. Os olhos escuros faiscando de ódio.

— Bem? — Ela tenta se erguer, mas geme de dor e cai de volta. — Você me atropela como um saco de lixo e tem a audácia de perguntar se estou bem? Seu imbecil arrogante! 

imbecil? Arrogante? Ninguém fala assim comigo. Ninguém ousa.

— Senhora, entendo que esteja assustada, mas a senhora estava no meio da via, sob chuva intensa. O acidente foi inevitável — retruco, voz fria. Olho rapidamente os danos. O carro está amassado. Ela... uma variável irritante.

Ela solta uma risada seca.

— Inevitável? Ou você estava distraído demais sendo... você? Contemplando sua própria importância enquanto quase me mata? — O ódio dela me atravessa. — Não pense que vai sair dessa impune, Juiz. Eu vou processar você. Vou garantir que pague por cada osso quebrado. Por cada gota de sangue. Todos saberão o tipo de monstro que você é por trás dessa toga ridícula!

Processar? A mim? Ela mal consegue se mexer. Mas cospe ameaças com convicção. Uma parte lógica cataloga: emergência, polícia, protocolo. Outra parte, curiosa, sente algo mais. Como se ela me conhecesse.

— Faça o que achar que deve — digo, a arrogância me blindando. — Mas primeiro, talvez devêssemos cuidar desses seus ferimentos. Ou prefere continuar aí, na sarjeta, planejando minha ruína financeira enquanto arrisca uma hipotermia?

O olhar dela me atravessa como uma faca. Este acidente, esta mulher... isso não estava nos meus planos. E eu odeio, com cada fibra do meu ser, quando perco o controle.

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