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Capítulo 5 — O Dinheiro Levava Até Ela

Author: Eva Belmont
last update publish date: 2026-09-28 20:45:04

Clara chegou à empresa pouco depois das sete da manhã.

Naquela hora, o prédio ainda estava praticamente vazio.

Ela gostava daquele horário.

Durante anos, havia usado aquelas primeiras horas do dia para revisar contratos importantes sem interrupções. Antes que telefones começassem a tocar, reuniões fossem marcadas e funcionários ocupassem os corredores, conseguia trabalhar em silêncio.

Naquela manhã, porém, não estava ali para trabalhar.

Precisava entender uma coisa.

O dinheiro.

Na noite anterior, havia reunido documentos suficientes para saber que existiam transferências suspeitas, mas ainda não conseguia provar que aqueles valores tinham relação direta com Isabela.

Uma empresa receber dinheiro de outra empresa não significava, por si só, que Adrian estivesse sustentando uma amante.

Clara sabia disso melhor do que ninguém.

Precisava de uma ligação concreta.

Abriu o sistema financeiro interno.

Em vez de procurar pelo nome de Isabela, começou pelo contrato que Adrian havia colocado sobre sua mesa.

Era a maneira mais segura de reconstruir o caminho.

Primeiro, identificou a empresa que aparecia como beneficiária.

Depois, abriu os registros de pagamento.

Havia quatro parcelas programadas.

A primeira já havia sido paga.

A segunda venceria naquela semana.

As outras duas estavam previstas para os meses seguintes.

Clara anotou os valores.

Depois abriu o comprovante da primeira transferência.

O dinheiro não havia sido enviado diretamente para a conta que aparecia no contrato.

Ela franziu a testa.

Havia uma empresa intermediária.

M7 Consultoria Empresarial.

Clara conhecia o nome.

Era uma prestadora que trabalhava com serviços de consultoria administrativa para o grupo.

Nada estranho.

Até aquele momento.

Ela abriu os contratos antigos da M7.

A empresa realmente prestava serviços ao grupo.

Mas os valores habituais eram muito menores.

Clara comparou os pagamentos dos últimos dois anos.

A diferença era enorme.

A M7 costumava receber valores mensais relativamente estáveis.

Naquele contrato, porém, havia recebido uma quantia extraordinária.

Clara voltou ao comprovante.

A descrição do pagamento dizia:

Consultoria estratégica e estruturação societária.

Ela permaneceu alguns segundos olhando para a tela.

Depois abriu a nota fiscal correspondente.

O documento indicava que a M7 havia contratado uma empresa terceirizada para executar parte do serviço.

Clara abriu o nome.

Seu coração acelerou.

Montenegro Participações Ltda.

Ela ficou imóvel.

Montenegro.

O mesmo sobrenome de Isabela.

Ainda assim, não era prova suficiente.

Sobrenome poderia ser coincidência.

Clara continuou.

Abriu o contrato entre a M7 e a Montenegro Participações.

A empresa havia sido contratada para prestar serviços de estruturação societária.

Data do contrato:

Cinco meses antes.

Valor:

Exatamente o mesmo valor que havia sido transferido pela empresa de Adrian para a M7, descontadas apenas as taxas administrativas.

Clara recostou-se na cadeira.

Agora começava a fazer sentido.

O dinheiro não estava indo diretamente para Isabela.

Adrian havia usado uma empresa que já prestava serviços ao grupo como intermediária.

A M7 recebia.

Depois repassava quase todo o valor para a empresa de Isabela.

Clara abriu os documentos societários.

E encontrou a informação que faltava.

A Montenegro Participações tinha apenas duas sócias.

Uma delas era Isabela Montenegro.

A outra era uma mulher que Clara não conhecia.

Mas havia algo curioso.

O endereço comercial das duas empresas era o mesmo.

Clara anotou.

M7 Consultoria.

Montenegro Participações.

Mesmo endereço.

Ela continuou investigando.

Encontrou mais três pagamentos.

Todos seguiam o mesmo caminho.

Empresa do grupo.

M7.

Montenegro Participações.

O padrão estava estabelecido.

Clara sentiu um aperto no peito.

Agora havia uma ligação financeira concreta.

Mas ainda faltava entender por que Adrian havia feito aquilo.

Ela abriu o primeiro contrato.

O serviço descrito era legítimo.

No papel.

Mas a prestação de serviço não fazia sentido.

A Montenegro Participações havia sido contratada para “assessoria em expansão internacional”.

Clara conhecia os projetos internacionais da empresa.

Nenhum deles estava sendo conduzido por Isabela.

Ela verificou os relatórios.

Não havia reuniões registradas.

Não havia entregas.

Não havia pareceres.

Não havia apresentações.

Nenhum trabalho correspondente ao valor pago.

Apenas transferências.

Clara fechou os olhos.

— Então era isso...

Ela não estava diante de um simples pagamento.

Alguém havia criado uma justificativa empresarial para movimentar dinheiro.

E a estrutura era suficientemente discreta para passar pelo fluxo financeiro normal.

Mas havia um problema.

Clara conhecia os processos da empresa.

Sabia que uma operação daquele tamanho deveria ter passado por sua análise jurídica.

Não havia passado.

Por quê?

Ela voltou ao histórico do contrato.

Encontrou a solicitação interna.

O pedido havia sido aberto por Marcelo.

Depois encaminhado para Adrian.

E, em seguida, enviado para o setor jurídico.

Mas havia uma observação:

“Solicitação excepcional da presidência. Tratamento prioritário.”

Clara leu novamente.

Presidência.

Adrian.

Ela continuou descendo a tela.

O sistema mostrava quem havia autorizado a dispensa de algumas etapas de análise.

O nome apareceu.

Adrian Ferraz.

Clara ficou em silêncio.

Agora entendia por que ninguém havia questionado.

Adrian havia usado a própria autoridade para retirar a operação do fluxo normal.

E depois enviara para Clara apenas a parte que precisava de sua assinatura.

Ele não queria que ela visse o caminho completo do dinheiro.

Queria apenas a validação final.

Clara fechou o notebook por alguns segundos.

Seu coração estava acelerado.

A raiva começou a substituir a tristeza.

Não era apenas uma traição.

Era uma operação cuidadosamente escondida.

E ela quase havia sido usada para legitimá-la.

Às nove horas, Clara chamou o departamento de contabilidade.

Não perguntou diretamente sobre Adrian.

Seria perigoso.

Escolheu uma abordagem profissional.

— Preciso revisar algumas despesas extraordinárias relacionadas à expansão internacional.

A contadora responsável, Patrícia, entrou na sala com uma pasta.

— Sabe quais?

Clara entregou o nome da M7.

— Quero entender alguns pagamentos feitos nos últimos meses.

Patrícia abriu os registros.

— Houve alguns serviços extraordinários.

— Quem aprovou?

Patrícia verificou.

— Presidência.

— E quem solicitou?

— Marcelo.

Clara manteve o rosto neutro.

— Esses serviços foram efetivamente entregues?

Patrícia hesitou.

— Pelo que consta, sim.

— Você viu os relatórios?

— Não. A documentação veio assinada.

— Por quem?

Patrícia verificou novamente.

— Pelo senhor Marcelo e pelo setor responsável.

Clara assentiu.

— Obrigada.

Patrícia levantou-se.

Antes de sair, porém, parou.

— Doutora Clara?

— Sim?

— Posso perguntar uma coisa?

— Claro.

— Esses pagamentos estão com algum problema?

Clara percebeu a preocupação em seu rosto.

— Estou apenas fazendo uma revisão.

Patrícia assentiu.

Mas antes de sair, disse:

— Eu achei estranho um deles.

Clara imediatamente prestou atenção.

— Qual?

— O primeiro pagamento para a M7.

— Por quê?

— O valor.

Patrícia voltou à pasta.

— Foi muito maior que os anteriores.

— Quanto maior?

Ela informou o valor.

Clara já o conhecia.

Era o mesmo valor que havia sido repassado para a empresa de Isabela.

— E ninguém questionou?

Patrícia balançou a cabeça.

— A autorização veio da presidência.

Clara agradeceu.

Quando ficou sozinha novamente, percebeu que sua mão estava tremendo.

Não de medo.

De indignação.

Pouco depois do meio-dia, Clara recebeu uma nova mensagem de Adrian.

“Hoje à noite quero falar sobre nós.”

Ela olhou para a tela.

Dessa vez, não sentiu vontade de responder imediatamente.

Abriu os documentos que havia reunido.

A ligação financeira estava clara.

Adrian havia autorizado.

Marcelo havia solicitado.

A M7 havia recebido.

A empresa de Isabela havia recebido logo depois.

E os serviços que justificavam os pagamentos não apresentavam documentação compatível com os valores.

Clara não sabia se aquilo seria suficiente para provar uma fraude.

Não sabia sequer qual era o objetivo final de Adrian.

Mas sabia que havia algo errado.

E agora tinha uma vantagem.

Adrian ainda acreditava que ela não sabia de nada.

Ela respondeu:

“Podemos conversar hoje.”

Guardou o celular.

Depois imprimiu apenas os documentos essenciais.

Não levaria tudo para casa.

Faria cópias.

Guardaria os arquivos em um lugar que Adrian não conhecesse.

Antes de sair, abriu novamente o registro da Montenegro Participações.

Leu o nome completo da sócia.

Isabela Montenegro.

A mesma mulher que havia visto com Adrian.

A mesma mulher que mandava mensagens para ele.

A mesma mulher que estava ligada ao dinheiro.

Clara sentiu os olhos arderem.

Mas não chorou.

Dobrou os documentos.

Colocou-os dentro de uma pasta neutra.

E fechou a gaveta.

Naquela noite, Adrian esperaria encontrar a esposa que ainda confiava nele.

Encontraria uma Clara tranquila.

Atenciosa.

Disposta a conversar.

Mas por trás daquela calma havia uma mulher que finalmente começava a entender a dimensão do segredo.

E, antes que Adrian descobrisse que ela estava investigando, Clara precisava descobrir uma última coisa:

por que ele precisava tanto que ela assinasse aquele documento.

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