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10. O HOMEM QUE DEVERIA ESTÁ MORTO

last update publish date: 2026-08-28 05:07:29

— Dante.

Aquela voz atravessou a cabana. O Alfa Supremo ficou imóvel. Lívia percebeu imediatamente que havia algo errado. Dante conhecia aquele homem. E, pela primeira vez desde que o conhecera, ela viu medo em seus olhos.

— Quem é ele? — perguntou.

Dante não respondeu. A porta se abriu completamente. Um homem entrou.

Era alto, elegante e tinha cabelos escuros marcados por alguns fios grisalhos. Seu rosto carregava as marcas do tempo, mas seus olhos eram frios e atentos.

Ele sorriu.

— Quanto tempo, sobrinho.

Lívia olhou para Dante.

— Sobrinho?

Dante deu um passo à frente.

— Você morreu.

O homem soltou uma pequena risada.

— Foi exatamente isso que todos precisavam acreditar.

A avó de Lívia se colocou ao lado da neta.

— Gabriel.

O sorriso do homem desapareceu.

— Ainda viva, Helena?

— Infelizmente para você.

Gabriel olhou para Aurora. Seu semblante mudou.

— Então é verdade.

Dante ficou na frente da criança.

— Não se aproxime.

— Você não entende o que aquela menina representa.

— Ela é minha filha.

— Ela é muito mais do que isso.

Gabriel voltou os olhos para Lívia.

— Ela também.

Lívia sentiu um arrepio.

— O que você quer comigo?

Gabriel a observou por alguns segundos.

— Quero o que sua família escondeu de mim durante décadas.

— Eu não sei do que está falando.

— Eu sei.

Ele sorriu.

— E é justamente isso que torna tudo tão interessante.

Dante avançou.

— Acabou, Gabriel.

— Não.

Gabriel balançou a cabeça.

— Está apenas começando.

Lívia não conseguia entender. Gabriel. Irmão do antigo Alfa. Homem que Dante acreditava estar morto. E agora ele estava diante dela, falando como se conhecesse sua família.

— Minha avó disse que você está por trás da minha gravidez.

Gabriel olhou para ela.

— Não fui eu.

Dante franziu a testa.

— Então quem?

— Você continua fazendo as perguntas erradas.

Gabriel caminhou lentamente pela sala.

— Eu apenas aproveitei uma oportunidade que alguém criou.

Lívia sentiu o estômago apertar.

— Quem criou?

Gabriel parou.

— Sua mãe.

O silêncio foi imediato.

— Minha mãe?

— Sua mãe sabia que os Caçadores estavam desaparecendo. Sabia que os lobos estavam divididos. Sabia que uma guerra maior estava prestes a começar.

Lívia balançou a cabeça.

— Ela jamais faria isso.

Helena fechou os olhos.

Gabriel sorriu.

— Sua avó sabe que estou dizendo a verdade.

Lívia olhou para Helena.

— Vovó?

A mulher demorou a responder.

— Sua mãe procurou uma forma de acabar com a guerra.

— E encontrou?

— Encontrou uma possibilidade.

Lívia olhou para Aurora.

— Minha filha.

Helena assentiu.

— A profecia dizia que uma criança nascida da união entre o sangue do Alfa Supremo e a última linhagem dos Caçadores poderia quebrar o ciclo de violência entre os dois povos.

Dante ficou sério.

— Então alguém provocou a fertilização.

— Sim.

Lívia sentiu as pernas fraquejarem.

— Minha mãe planejou minha gravidez?

— Não exatamente — respondeu Helena.

— Então explique!

A avó se aproximou.

— Sua mãe queria apenas encontrar uma forma de salvar você. Mas alguém descobriu o plano antes que ela pudesse concluí-lo.

Gabriel interrompeu:

— E transformou a profecia em uma arma.

Dante o encarou.

— Você.

Gabriel sorriu.

— Eu precisava que a criança nascesse.

— Por quê?

— Porque somente com a criança nascida o poder poderia despertar.

Lívia apertou Aurora contra o peito.

— Que poder?

Gabriel olhou para a menina.

— O poder de unir ou destruir os dois mundos.

Dante avançou um passo.

— Você não vai chegar perto dela.

Gabriel riu.

— Ainda não entendeu, Dante.

— O quê?

— Eu não vim buscar Aurora.

Dante ficou em silêncio.

Gabriel apontou para Lívia.

— Vim buscar a mãe.

Lívia recuou.

— Por quê?

Gabriel respondeu:

— Porque a criança não pode despertar completamente sem você.

Dante olhou para Lívia.

Ela estava pálida.

— O que ele quer dizer?

Gabriel continuou:

— O sangue dos Caçadores não está apenas em suas veias, Lívia.

Ele fez uma pausa.

— Está adormecido.

Lívia olhou para o próprio pulso.

A pequena marca de meia-lua começou a arder.

Ela levou a mão ao local.

— Não...

A marca brilhou. Dante sentiu seu lobo reagir. Aurora começou a chorar. A luz dourada que costumava aparecer ao redor da criança surgiu novamente. Mas dessa vez aconteceu algo diferente. A luz de Aurora se estendeu até Lívia. As duas ficaram envolvidas por um brilho suave.

Helena empalideceu.

— Não pode ser.

Dante virou-se para ela.

— O que está acontecendo?

A velha respondeu em um sussurro:

— O despertar começou.

Gabriel sorriu.

— Finalmente.

Dante imediatamente segurou a mão de Lívia.

— Olhe para mim.

Ela levantou os olhos.

— Eu estou com medo.

— Eu sei.

— O que está acontecendo comigo?

Dante apertou sua mão.

— Não sei.

Gabriel riu.

— Pela primeira vez, você está dizendo a verdade.

Dante o encarou.

— Saia daqui.

— Você realmente acredita que pode impedir isso?

— Posso impedir você.

Gabriel ficou sério.

— Então venha atrás de mim.

Ele caminhou até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para Lívia.

— Quando o sangue despertar completamente, você descobrirá por que sua mãe passou a vida inteira escondendo sua verdadeira identidade.

Lívia ficou imóvel.

— O que eu sou?

Gabriel sorriu.

— Essa é a pergunta que você deveria fazer à sua avó.

Então desapareceu na floresta.

O silêncio tomou conta da cabana. Lívia virou-se lentamente para Helena.

— O que ele quis dizer?

A mulher não respondeu.

— Vovó.

Nada.

— Eu quero a verdade.

Helena respirou fundo.

— Você tem o direito de saber.

Dante permaneceu ao lado de Lívia. Helena caminhou até uma antiga estante. Retirou um livro grosso e colocou-o sobre a mesa. A capa estava marcada pelo mesmo símbolo que Lívia carregava no pulso.

— Este livro pertenceu à sua família por centenas de anos.

Lívia passou os dedos pela capa.

— O que tem dentro?

— A história dos primeiros Caçadores.

Ela abriu o livro. As páginas estavam preenchidas por desenhos antigos. Lobos. Humanos. Símbolos. E, no centro de uma das páginas, uma mulher segurando uma criança. Lívia ficou imóvel. Era idêntica à sua própria marca. Helena apontou para uma frase escrita abaixo do desenho.

— Leia.

Lívia se aproximou. As palavras fizeram seu coração disparar.

“Quando o sangue do Alfa encontrar o sangue da Guardiã, nascerá a criança capaz de escolher o destino de ambos os mundos.”

Dante leu em silêncio. Então percebeu algo.

— Guardiã?

Helena assentiu.

— Essa é a verdadeira origem dos Caçadores.

Lívia franziu a testa.

— Então eu não sou uma Caçadora?

— Não.

Helena olhou diretamente para ela.

— Você é descendente da primeira Guardiã.

Dante ficou imóvel. Lívia sentiu as lágrimas surgirem.

— E por que ninguém me contou?

Helena fechou o livro.

— Porque, durante séculos, todos que descobriram a verdade tentaram usar essa linhagem.

Ela olhou para Aurora.

— Até agora.

Lívia abraçou a filha.

— O que vai acontecer com ela?

Helena respondeu:

— Depende de você.

— De mim?

— Sim.

— Como?

A velha olhou para Dante.

— Porque a profecia não fala apenas de uma criança.

Dante franziu a testa.

— Então fala sobre o quê?

Helena respondeu:

— Fala sobre a escolha da mãe.

Lívia ficou em silêncio. A mulher continuou:

— Um lado tentará transformar Aurora em uma arma.

— E o outro?

— Tentará destruí-la antes que ela cresça.

Lívia sentiu o coração apertar.

— E o que eu devo fazer?

Helena olhou para ela.

— Escolher em quem confiar.

Os olhos de Lívia encontraram os de Dante. Pela primeira vez, ela percebeu que sua maior ameaça talvez não estivesse apenas do lado de fora. Porque Dante também escondia segredos. E, enquanto ele segurava sua mão, uma pergunta começou a crescer dentro dela: Será que o Alfa Supremo realmente estava protegendo sua filha... ou também tinha seus próprios motivos para querer mantê-la por perto?

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