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Capítulo 4

Autor: DANI VENCES
last update Fecha de publicación: 2025-12-09 23:19:52

Antony

Entro no escritório do rancho, um quarto bagunçado com pilhas de papéis, fotos antigas na parede e o cheiro de couro velho e café frio. Meu pai sentava aqui, administrando tudo com uma precisão que eu nunca vou ter. Minha mãe montou o próprio escritório do outro lado da casa, dizendo que este seria meu, mas não consigo ficar mais que dois minutos encarando os papéis. O último a mexer nisso foi Brian. Ele disse que nosso pai ia querer o escritório arrumado, mas não durou nem um dia — largou tudo e foi pro bar, voltando com cheiro de uísque e um sorriso torto. Saio do escritório com essa lembrança pesando no peito e dou de cara com minha mãe na varanda, o olhar severo dela me avisando que vem bronca.

— Antony , precisamos conversar — ela diz, a voz cortante como uma faca, os braços cruzados, a postura rígida como sempre. O cabelo loiro tá preso num coque impecável, e o vestido verde-escuro parece mais um uniforme de guerra que uma roupa.

— Mãe, agora não — retruco, tirando o chapéu e passando a mão pelo cabelo úmido de suor. — Tô lidando com o gado hoje.

— Lidando com o gado? — ela repete, o tom amargo, quase venenoso. — Você não pode continuar fugindo dos negócios, Antony . O rancho é seu legado, não um hobby que você abandona pra brincar de cowboy no rodeio.

— Não é brincadeira — disparo, o sangue subindo. — O rodeio me mantém vivo. Você cuida disso tudo melhor que eu jamais faria.

— Vivo? — ela corta, os olhos faiscando com uma mistura de raiva e dor. — Brian... Brian teria assumido se você não quisesse. Eu o convenci, Antony . Ele era brilhante, ia levar os negócios adiante, mas a tragédia nos tirou ele. Agora só resta você.

As palavras me acertam como um soco no estômago. Brian era o cara dos números, o moleque que admirava meu pai e sonhava em ser como ele, mesmo sendo irresponsável às vezes. Eu sou o herdeiro, o milionário que prefere o risco do touro ao conforto do dinheiro, e a culpa por isso me engole vivo. Quero gritar que preciso de liberdade, que o administrar me sufoca, mas, no fundo, sei que ela tem razão. Esse é o nosso legado, e eu tô deixando ele escapar pelos dedos.

— Eu vou assumir, mãe — digo, a voz baixa, quase engasgada. — Mas no meu tempo. Preciso de espaço.

— Não pode passar o resto da sua vida delegando o seu trabalho para Caleb, seu pai se envergonharia disso, Antony . — A acusação me fere, mas era a verdade. Minha mãe cuidava das empresas herdadas por seus pais, porém o rancho, a fazenda e tudo que meu pai construiu ela deixou sob meu comando, e eu admito que, desde que meu pai morreu, entreguei a Caleb essa função, e quando tentei voltar, Brian morreu e me afastei de novo.

— Eu sei... Irei voltar.

Ela assente, mas o olhar dela é duro, como se eu fosse uma decepção ambulante. Saio da varanda, o peso da conversa me arrastando pro chão, o sol quente nas costas como um castigo. O rancho, o dinheiro, o legado — tudo parece vazio sem as risadas de Brian, sem o moleque que me fazia sentir que valia a pena. E então, penso em Carol, na única noite em que o buraco no peito não existiu. Ela escapou, como tudo que me importa, mas a lembrança dela — o jeito que ela revirava os olhos, o sorriso tímido, o fogo nos olhos castanhos me faz querer voltar para nova york andar por todos os dormitórios da faculdade até encontrá-la 

Meu celular toca, quebrando o silêncio do pátio. É Nathan, o tom sarcástico do outro lado da linha, como sempre.

— Antony , uma garota brasileira tá te procurando — ele diz, rindo. — Encontrei sua garota, cowboy. Me deve uma.

Meu coração para, o ar preso nos pulmões. 

— Como assim? — pergunto, a voz saindo mais alta do que pretendo, as mãos apertando o celular.

— A amiga decidiu me ligar. Eu sabia que ela ia guardar meu número, todas sempre voltam pro Nathan — ele explica, ainda rindo. — Sua garota falou comigo, tava estranha. O que você fez, cowboy? Vou te passar o número.

— Manda agora — digo, o sangue correndo quente, uma faísca de esperança acendendo pela primeira vez em meses.

O número chega, e eu ligo na mesma hora, o coração batendo como se eu estivesse montando um touro de verdade. Não quero esperar nem um segundo.

Carol atende, a voz suave, mas hesitante, com aquele sotaque brasileiro que enrola as sílabas de um jeito que me faz sorrir.

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Último capítulo

  • Gravida do Cowboy   Epílogo

    CarolO auditório da faculdade de Direito em Nova York brilha sob a luz suave da tarde, os raios de sol refletindo nas becas pretas dos formandos, o ar carregado com o cheiro de papel novo e expectativa. Meu coração bate forte, o capelo equilibrado na cabeça, enquanto caminho pelo palco, o nome ecoando pelo microfone: “Carol Silva, Direito.” Pego o diploma, o peso dele na mão como uma conquista que carrega o suor de noites sem dormir, o sonho de uma garota que veio do Brasil por isso. Olho para a plateia, e lá está Antony , Brian nos braços, o chapéu de cowboy trocado por um sorriso que ilumina meu mundo. Nosso menino, agora com um ano, balbucia algo, os olhos escuros brilhando como os meus, o cabelo castanho bagunçado como o do pai. Evelyn está ao lado, os cachos ruivos saltando enquanto vibra, gritando meu nome como se fosse um gol no Maracanã. “Meu Deus”, penso, o peito apertado de felicidade. De uma noite sem planos num bar de Nova York a isso — uma família, um diploma, uma vida.

  • Gravida do Cowboy   Capítulo 38

    CarolO disparo corta o ar como um trovão, ecoando na poeira da Fazenda Redstone.Meu grito rasga a garganta. — Antony !O coração para, o mundo gira. Caleb cai primeiro, o sangue manchando a terra seca, os olhos abertos, sem vida. Depois vejo Antony estendido no chão, a arma ainda na mão, o corpo arqueado de dor. Ele pressiona o ombro, onde uma mancha vermelha cresce rápido demais na camisa jeans.— Não, não, não... — corro até ele, a barriga pesada me atrasando, o bebê chutando como se sentisse o pânico. — Meu Deus! — choro em português, segurando-o ele abre os olhos.— Carol... — ele sussurra, os olhos cor de mel vidrados, a voz fraca. — Você... tá bem?— Eu tô, mas você não, seu idiota! — grito, tentando erguer o peso dele, quase me desequilibrando.O cheiro de pólvora e sangue me sufoca. A caminhonete de Margaret está a poucos metros. Apoio Antony com todas as forças, o suor escorrendo pela testa, o coração disparado. Uma contração me rasga por dentro, a dor como uma lâmina. —

  • Gravida do Cowboy   Capítulo 37

    Antony A memória explode como um flash — nítida, como se o tempo tivesse parado naquela tarde de verão. O rancho estava quieto; o sol batia forte no pátio, e o cheiro de poeira enchia o ar. Eu tinha 17 anos, Brian 10, e estávamos jogando cartas na varanda quando o som de passos irregulares nos fez olhar. Um menino magro e sujo, cabelos negros emaranhados e olhos fundos de fome, parou no portão; as roupas rasgadas colavam à pele queimada de sol. Era Caleb, 12 anos, um refugiado do México que se perdera da família na travessia da fronteira — vagava sem rumo, pedindo carona.Brian foi quem o viu primeiro, com o coração mole de sempre. — Pai! — gritou, saltando da cadeira. — Tem um garoto aqui. Ele precisa de comida!Meu pai saiu de casa, avaliando o menino com o olhar. Caleb ficou de pé, trêmulo, os olhos baixos, como se esperasse um chute. — O que você quer, garoto? — perguntou meu pai, a voz grave, sem crueldade.— Comida — murmurou Caleb, rouco de desidratação. — Qualquer coisa. Po

  • Gravida do Cowboy   Capítulo 36

    CarolA sala de jantar do Rancho Capell está envolta em uma luz suave, o lustre de ferro lançando sombras dançantes sobre a mesa de carvalho. O cheiro de ensopado de carne e pão quente enche o ar, misturado ao perfume de jasmim que Margaret trouxe do jardim. Nathan e Evelyn estão sentados à nossa frente, as vozes altas enquanto discutem quem será o melhor padrinho para Lucas. Margaret, na cabeceira, sorri com uma calma que não combina com os olhos cansados, como se carregasse um segredo que não revela. Eu estou ao lado de Antony , a mão na barriga, sentindo o bebê chutar, um lembrete de tudo que quero proteger. Mas meus olhos estão nele, no jeito que ele corta a carne com movimentos bruscos, no silêncio que cai quando Nathan faz uma piada. Antony está diferente, distante, os olhos cor de mel fixos no prato, como se vissem algo além. Temo que a memória tenha voltado, que ele saiba de Brian, da sabotagem, e que o homem controlador esteja voltando. O pensamento aperta meu peito, e eu en

  • Gravida do Cowboy   Capítulo 35

    CarolO lago do Rancho Capell espelha o céu do fim de tarde, a água capturando tons de laranja e roxo, como se tentasse segurar o crepúsculo antes que a noite chegue. Estou sentada na margem, os pés descalços afundando na grama úmida, o vento leve bagunçando meus cabelos. Evelyn está ao meu lado, as pernas cruzadas, o vestido florido ondulando com a brisa, os cachos ruivos brilhando como fogo na luz suave. Faz um dia que ela e Nathan chegaram, e o rancho parece pulsar com a energia dos risos deles, mas agora, com o silêncio entre nós, o peso do que escondo de Antony aperta meu peito.— Fala logo, Carol — diz Evelyn, virando o rosto, os olhos cheios de preocupação. — Você tá com aquela cara de quem carrega um segredo que tá doendo.Suspiro, a mão na barriga, sentindo o bebê se mexer, um lembrete do futuro que quero proteger.— É o Brian — admito, a voz baixa, como se o nome pudesse acordar algo escondido. — A morte dele não foi acidente. Foi sabotagem. Alguém mexeu nos freios do carro

  • Gravida do Cowboy   Capítulo 34

    Antony O sol da tarde aquece os campos do rancho, a brisa leve carregando o cheiro de grama fresca e o som distante de cavalos relinchando. Estou no escritório, o ar pesado com o aroma de papel velho e couro, folheando relatórios que Caleb deixou na minha mesa. As memórias voltaram há semanas, pedaços nítidos que me cortam a noite em Nova York com Carol, o riso dela, o jeito que seu corpo se curvou contra o meu. Finjo que não, que ainda sou o homem confuso que acordou no hospital, porque ver ela se abrir, me contar segredos do Brasil, é como ganhar um presente que não mereço. Mas Caleb... ele anda estranho, os olhares desviados, as respostas curtas, e meu instinto sussurra que algo não encaixa.Chamo Caleb para o escritório, a voz firme, mantendo a fachada de amnésia. Ele entra, o chapéu na mão, a camisa suada do trabalho nos campos, o rosto marcado por sombras que não estavam lá antes.— Senta — digo, apontando para a cadeira de couro. — Quero saber sobre o Brian. A noite que ele m

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