Se connecterHá cinco anos, Ana Gusmão embarcou para a Itália com uma mala de mão e um segredo que nem ela conhecia ainda. Edgar Prado a expulsou do país com ameaças e provas falsas e convenceu o próprio filho de que ela havia se vendido por dinheiro. Ana refez a vida em Roma, aceitou o sobrenome do homem que lhe estendeu a mão e enterrou o Brasil junto com ele. Júlio Prado cumpriu o casamento que salvou a construtora do pai. Cinco anos ao lado de Roberta Martinez, uma casa vazia e uma cobrança diária por um herdeiro que ele sabe que nunca vai chegar. O que ele não sabe é que a esposa tem um caso com Jonas, seu próprio irmão, e que os dois já escolheram o dia de tirá-lo da presidência. O império dos Prado começa a ruir quando Ana volta ao Brasil como a advogada que representa as trinta famílias do Residencial Splendor — e senta do outro lado da mesa de Júlio. Com ela vem Pietro, um menino de cinco anos e olhos verdes que morde o lábio quando se concentra, exatamente como alguém que Júlio conhece bem demais. Entre uma audiência e muita negociação, o desejo que nenhum dos dois conseguiu matar volta a queimar; enquanto isso, Jonas se apaixona pela sócia de Ana e começa a hesitar sobre até onde vai proteger o nome da família. A vingança levou cinco anos para ser construída. Vai levar noventa dias para descobrir se ainda é isso que Ana quer.
Voir plusO saguão de embarques internacionais de Guarulhos fervilhava de gente àquela hora, mas para Ana Gusmão o mundo parecia ter emudecido. Sentada num banco de plástico duro, ela apertava contra o peito uma única mala de mão — tudo o que restara de uma vida inteira, desfeita em poucas horas. Ao redor dela, famílias se despediam entre abraços demorados, crianças puxavam os pais pela manga ansiosas para embarcar em alguma aventura de férias, casais trocavam últimos beijos apressados antes do check-in fechar. Ninguém ali parecia notar a mulher imóvel no canto mais afastado dos bancos, como se a dor pudesse ser silenciosa o bastante para se tornar invisível.
Fazia menos de quatro horas que sua vida tinha virado do avesso. As ameaças, os gritos, o desprezo nos olhos — tudo ainda ecoava em sua cabeça como um disco arranhado, girando sem parar. Ana fechava os olhos por instantes e via de novo cada rosto, cada palavra afiada, como se a própria memória se recusasse a lhe conceder um segundo sequer de trégua.
Seu celular vibrou no colo. Ana encarou a tela por um longo instante antes de destravá-la. O nome do banco piscava no topo da notificação, e logo abaixo, um valor que representava tudo o que ela jurara nunca aceitar. Não era para ficar com aquele dinheiro — nunca fora essa a intenção — apenas devolvê-lo, cada centavo, à origem que tentara comprá-la como se fosse mercadoria. Com dedos trêmulos, abriu o aplicativo, conferiu uma última vez e confirmou. Salvou o comprovante da transação depois de tocar em “Concluir”. Não sobrava nem orgulho suficiente para sentir alívio.
Guardou o celular no bolso do casaco e levou as mãos ao rosto, enxugando as lágrimas que insistiam em escapar antes que alguém pudesse vê-la chorar. Ana Gusmão não chorava em público. Prometeu a si mesma que nunca mais choraria em público, respirando fundo até o ar preencher os pulmões doloridos. Endireitou as costas contra o encosto duro do banco, como se o próprio gesto pudesse costurar de volta os pedaços que sentia se espalharem por dentro do peito.
— Passageiros do voo com destino a Roma, embarque pelo portão doze — anunciou a voz metálica pelos alto-falantes.
Ela se levantou, ajeitou a alça da mala no ombro e caminhou até o portão sem olhar para trás, como se alguém pudesse aparecer correndo pelo saguão para impedi-la — como nas novelas de que ela costumava zombar assistindo ao lado de sua falecida mãe. Ele não apareceu. Ninguém apareceu. Era assim que aquela história terminava: sozinha, com uma mala de mão e um coração em pedaços.
A funcionária no portão conferiu seu passaporte com um sorriso automático de rotina, alheia ao fato de que carimbava, sem saber, o fim de uma vida inteira. Ana seguiu pelo corredor estreito até a aeronave, cada passo ecoando mais alto do que deveria em seus próprios ouvidos.
O avião decolou pouco depois das três da tarde. Ana escolheu a janela, encostou a testa fria no vidro grosso e observou o Brasil encolher lá embaixo até virar apenas uma mancha verde e cinza no horizonte. As luzes da cidade piscavam ao longe como promessas quebradas, cada uma um pedaço da vida que ela deixava para trás sem nenhuma garantia de retorno.
Foi só então, com o país inteiro que a rejeitara reduzido a um ponto insignificante entre as nuvens, que ela permitiu que a última lágrima escorresse.
“Eu nunca mais vou voltar”, prometeu a si mesma em silêncio, os olhos fixos na vastidão azul lá fora. “Mas se um dia eu voltar...”
Ana fechou os olhos, e quando os abriu, o mesmo brilho de gelo que um dia definiria a “Doutora Ana”, já começava a se formar em seu olhar.
“...vai ser para fazer cada um deles pagar.”
Querida Leitora, esta estória já se encerrou, mas já tem outra quentinha esperando por você. Se você gosta de segredos de família, amor impossível e uma reviravolta de tirar o fôlego, você tem que conhcecer a estória de Maria Teresa e Danilo, pais de Miguel e Anamaria que se apaixonou por Juan Fran e foi impedida de se casar com ele, por conta de segredos antigos envolvendo seus pais. Casei com meu irmão (ou quase!) é uma estória divertida cheia de fofoca e reviravoltas, contada por Miguel que reune alguns dos convidados do casamento de seus amigos de infância ao redor de uma mesa, para revelar os segredos que Alella nem imagina que escondia. Segue o primeiro capitulo para você sentir um gostinho do que vem por aí...Capitulo 1 - Convidado de HonraCasamento é o único evento em que todos combinam, sem dizer em voz alta, de mentir um pouquinho. A noiva jura que chora de emoção, mas pensa no sapato apertado. Os pais discursam sobre amor eterno, apesar da briga da semana anterior por cau
Otávio ajeitava a gravata pela décima vez diante do espelho pequeno do quarto improvisado nos fundos da chácara, as mãos suando dentro do terno que Júlio insistira em lhe dar de presente, apesar de todos os protestos modestos que ele tentara opor.— E se ela desistir na última hora? — perguntou, pela terceira vez naquela manhã, encarando Júlio e Jonas através do reflexo do espelho.— Ela esperou quarenta anos por esse dia, professor — Jonas respondeu, dando um tapinha tranquilizador no ombro dele, o próprio sorriso caloroso desmentindo qualquer resquício da desconfiança que sentira meses atrás. — Acho que a essa altura, desistir é a última coisa na cabeça dela.Júlio, ajeitando a própria lapela ao lado dele, encarou Otávio com uma seriedade que teria sido impensável quando os dois se conheceram
Ela chegou com quinze minutos de atraso, tempo suficiente para que Otávio já tivesse repassado mentalmente, pela centésima vez, todas as formas possíveis daquele encontro dar errado. Quando finalmente a viu atravessar a porta do café, hesitante, os olhos procurando entre as mesas até encontrarem os dele, Otávio sentiu o próprio corpo inteiro se levantar quase automaticamente, as pernas bambas de um jeito que ele não sentia desde os vinte e dois anos de idade.— Marta — ele disse, a voz falhando logo na primeira sílaba, a emoção maior do que qualquer controle que ele tivesse conseguido ensaiar durante a semana inteira de espera.— Eu não tinha certeza se viria — Marta confessou, aproximando-se devagar, os olhos já marejados. — Fiquei três dias inteiros sem conseguir decidir.— Eu também não tinha certeza de nada
Os três meses que se seguiram ao enterro de Edgar Prado passaram, para Otávio, numa espécie de inquietação silenciosa que ele vivia inteiramente sozinho, sem ninguém por perto para notar as mudanças sutis na própria rotina — mais silêncios prolongados durante o café da manhã, mais tempo gasto olhando pela janela do pequeno apartamento sem realmente enxergar nada específico lá fora.Não conseguia esquecer a imagem de Marta parada diante daquele túmulo, a postura digna carregando, mesmo à distância, um peso de décadas inteiras que ele reconhecia por instinto, como quem reconhece a própria dor refletida no rosto de outra pessoa. Repassava, semana após semana, os mesmos argumentos dentro da cabeça — era tarde demais, ela provavelmente já não queria mais retomar algo que nunca teve, procurá-la agora seria e






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