LOGINMia WolfeAcordei e fui correr. A esteira do prédio não me servia, então desci e peguei o caminho do parque, o mesmo de quase todas as manhãs desde que me mudei para aquela casa. O ar ainda estava frio, e eu gostava disso porque o frio não deixava espaço para pensar no jantar da noite anterior. Correr era rotina, e rotina era o que ainda me segurava quando o resto tinha data para acabar. A minha liberdade tinha uma data. Trinta dias, de acordo com a mensagem que eu recebi do cartório. À medida que a partida se aproximava, a ansiedade subia no peito antes mesmo que eu me desse conta, e a corrida empurrava isso para as pernas. Não resolvia, só deixava minha cabeça menos barulhenta. Ainda assim, no terceiro quilômetro eu já tinha parado de contar o passo e começado a contar o que ia levar para Portugal. Pouca coisa. Apenas o que era meu antes desse contrato, e só o que tinha sido escolhido por mim, porque o que tinha sido escolhido pelo Senador eu já tinha deixado na casa dos Voss há onz
Adrian WolfeEram nove e cinco, e o carro ainda não tinha virado na Madison. Eu resolvia o que dava pelo celular, com o motorista em silêncio e a pasta da primeira reunião no banco ao lado. A mensagem de Sloane entrou por cima de um e-mail do jurídico. Já estava no The Mark, perguntava onde eu estava, como se o café tivesse sido confirmado. Não tinha, não falei em nenhum momento que estaria lá. Dessa vez, ignorei de novo, do mesmo jeito que ignorei a mensagem da noite anterior, e voltei para a planilha que o secretário tinha mandado às sete. Ela mandou outra em seguida, só com o nome do hotel e um ponto de interrogação. Também ficou sem resposta. Se eu começasse a explicar por mensagem, ela ia transformar minha explicação em motivo para um bate-papo, e eu não tinha tempo para ela.A reunião começou no horário. Tinham seis pessoas presentes, a fusão na mesa, o advogado da outra parte ainda abrindo a pasta quando a porta abriu de uma vez. Não foi batida. Foi praticamente invadida. Todo
Adrian WolfeEntrei e fiquei parado ao lado da cama o tempo de contar a respiração dela. Estava regular demais para quem dorme de verdade. Eu já tinha visto a luz do abajur por baixo da porta, que apagou dois segundos antes dos meus passos pararem no corredor, e não precisava de mais prova. Mia fingia dormir. Fazia isso em quase todas as noites em que eu cruzava aquele quarto desde o casamento, e eu sempre achei prático. Fingir dormir evitava conversas difíceis e climas estranhos.Em noites de jantares e eventos importantes, eu costumava nem chegar até ali. Toda aquela encenação, e ver como ela era boa em fingir, me deixava irritado. No carro, enquanto voltávamos para casa, o clima sempre acabava pesando. Mas, dessa vez, eu tinha entrado mesmo assim, com um questionário inteiro na cabeça, enquanto a mulher que podia responder estava de olhos fechados a poucos palmos de mim. Pensei em dizer que sabia que ela estava acordada. Uma frase só, dita no escuro, bastava para acabar com a enc
Mia Wolfe Eu fui para o quarto. Ele foi para o escritório. Nem um boa-noite. Em onze meses aprendemos a atravessar a casa como dois hóspedes que dividem os cômodos e nada mais. O elevador ainda fechava quando cada um já tinha escolhido o próprio corredor. Tirei o sapato ainda no tapete. Os pés agradeceram de alívio. O vestido e todo o resto continuavam no lugar certo. Desci para a cozinha descalça, sentindo o mármore frio nas solas dos pés, e acendi a luz dos armários só o suficiente para eu não esbarrar em nada que fizesse barulho. A empregada tinha deixado uma torta de maçã na bancada. Ainda estava morna, a casca brilhante, um recado mudo de quem conhece a rotina da casa melhor do que os donos. Eu sempre voltava com fome desses jantares. Não era fome de comida. Era a outra, a de quem teve a alma sugada até o prato virar um conforto. Cortei um pedaço irregular, comi em pé, encostada na bancada. A canela veio primeiro, depois o açúcar. Depois as lembranças da noite fatídica. Bebi
Adrian WolfeMandei Mia para o carro porque todos à mesa viram o que Sloane fez na hora da foto. Não se discute prejuízo no meio de acionistas; disso eu entendo. Mas uma coisa era certa: eu não ia deixar aquela merda sair barata.Peguei o guardanapo e o passei na lateral da boca. A mancha veio vermelha, nítida demais para passar por vinho.A raiva, a essa altura, já me consumia, e a vontade era cobrar a conta ali mesmo. Mas não cheguei onde estou sendo levado por emoções. Então, levantei-me lentamente, despedi-me de todos com um aceno e deixei que meu secretário ficasse para a assinatura dos papéis. Sabia que Sloane viria atrás de mim. E ela veio.Assim que passamos pela porta, eu a puxei pelo pulso. O segurança baixou a cabeça e observou o próprio sapato com uma descrição que eu pago bem para ele ter. Levei-a para o recuo de uma pilastra, um ponto cego entre uma câmera de segurança e outra.— Se você repetir uma merda daquelas... — falei baixo, sem soltar o pulso — pode esquecer cam
Mia Wolfe O salão cheirava a dinheiro antigo e aquele vinho que as pessoas pedem para serem vistas pedindo. Eu conhecia o cheiro desde os dezoito anos. Meu pai me empurrava para salas iguais e eu aprendi a sorrir sem ocupar mais do que o espaço de um vaso.Adrian puxou a cadeira à direita dele, sem nem virar o rosto na minha direção, e eu sentei. Onze meses e quatro dias eu ocupava aquele lugar porque era o da esposa. Ninguém perguntava se eu queria. Era como se a cadeira já vinhesse com o meu nome gravado por causa do contrato.— A senhora Wolfe... — ele disse, quando um homem de gravata azul estendeu a mão tempo demais na minha direção — ela é só um acordo que o Senado de Nova York teve a gentileza de me vender.Os presentes na mesa riram no tom certo. Para eles eu era isso: a esposa de papel, a cláusula com um vestido escuro e uma joia discreta. Eu não era mais importante do que a mobília. Na verdade, se eu desaparecesse no meio do segundo prato, alguém pediria outro vinho e todos







