Share

Trinta e um

Author: Nati Almeida
last update publish date: 2026-10-06 07:51:12

Mia Wolfe

Eu fui para o quarto. Ele foi para o escritório. Nem um boa-noite. Em onze meses aprendemos a atravessar a casa como dois hóspedes que dividem os cômodos e nada mais. O elevador ainda fechava quando cada um já tinha escolhido o próprio corredor.

Tirei o sapato ainda no tapete. Os pés agradeceram de alívio. O vestido e todo o resto continuavam no lugar certo. Desci para a cozinha descalça, sentindo o mármore frio nas solas dos pés, e acendi a luz dos armários só o suficiente para eu não esbarrar em nada que fizesse barulho.

A empregada tinha deixado uma torta de maçã na bancada. Ainda estava morna, a casca brilhante, um recado mudo de quem conhece a rotina da casa melhor do que os donos. Eu sempre voltava com fome desses jantares. Não era fome de comida. Era a outra, a de quem teve a alma sugada até o prato virar um conforto. Cortei um pedaço irregular, comi em pé, encostada na bancada. A canela veio primeiro, depois o açúcar. Depois as lembranças da noite fatídica. Bebi um copo de água até o último gole e abri o celular outra vez, lendo novamente a mensagem do cartório como se o número de dias que faltava pudesse diminuir cada vez que eu olhava a tela do celular.

Lavei o copo e o prato, enxuguei, pus cada coisa no lugar. Miudeza de quem foi criada para não dar trabalho. Meu pai odiava evidência. Uma xícara fora do alinhamento já era motivo para sermão.

No quarto, o espelho me devolveu inteira. Tirei o vestido e fiquei ali por um tempo que não soube medir. Batom no lugar, cabelo no lugar e cara de esposa do homem que a Forbes gosta de estampar na capa. Por baixo, porém, o peito ainda batia errado e rápido demais para o silêncio daquele andar. Flashes daquela noite voltaram à mente: a boca de Sloane no canto da boca dele, ele me apresentando como um produto do senador, e eu, feito uma idiota no banco de trás, contando os segundos para que a outra porta se abrisse. E, como se já não tivesse sido humilhada o suficiente, ainda não consegui evitar ver a mensagem que Sloane mandou, marcando um encontro com ele para o dia seguinte.

Vesti a camisola, deitei e fiquei olhando para o teto. Mais lembranças vieram, não dos últimos onze meses, mas dos três anos anteriores que passei gostando de Adrian Wolfe. Eu acompanhava cada nova notícia que saía sobre ele.

Nunca me esqueci da primeira vez que os rostos de Adrian e Sloane foram estampados juntos em um site de fofocas: as imagens eram bem íntimas e comprometedoras, no que parecia ser a suíte de um hotel. Depois, eles assumiram um relacionamento público e viraram o par que o país aprendeu a invejar. O divórcio de um ator famoso de Hollywood não vendia o que um clique daqueles dois vendia. Adrian já era o bilionário mais jovem do país e um dos mais jovens do mundo. A família dele tinha dinheiro antigo; o dele era novo, bem maior e feito do zero. A empresa nasceu ainda na faculdade, numa sala emprestada. O que no início chamavam de teimosia, passaram rapidamente a chamar de visão.

Sloane, graças ao relacionamento com Adrian, saiu do quase anonimato para a fama internacional. Passou a trabalhar em campanhas publicitárias uma atrás da outra e a desfilar nas principais passarelas do mundo. Os milhões de seguidores chegaram na esteira do namoro. Meses depois, ela mesma anunciou o fim em um texto curto sobre agendas e distância. Adrian nunca deu uma única entrevista a respeito.

Enquanto aqueles dois eram o assunto na mídia por meses, eu continuava sendo empurrada para salões. Meu pai escolhia o vestido, a cor que ficava bem em fotos, o decote que fechava contratos.

Quando eu chegava em casa, sempre pegava o casaco de lã do Adrian, o que ficou comigo desde o dia do terraço. Já não tinha mais o cheiro dele, mas era o máximo que eu podia ter na época. Não que eu tivesse mais que isso depois de ter virado o contrato.

Me sentia patética cada vez que lembrava de ter guardado esse casaco fantasiando com ele, e mais patética ainda quando me dava conta de que ainda gostava do idiota. Amar quem sempre me tratou como cláusula? Isso só podia ser masoquismo.

Parei de pensar no que se tornaria passado e voltei meus pensamentos para o futuro. Rafael. Meu melhor amigo da universidade, que sempre me acompanhava nos cafés ruins e me fazia rir até o estômago doer. Ele era o único homem da minha vida que não me via como algo lucrativo ou uma cláusula de contrato. Semanas atrás, eu liguei pedindo emprego. Rafael mora em Portugal e tem sua própria empresa. Ele riu como se o tempo não tivesse passado, como se fôssemos os mesmos da época da faculdade, e perguntou se eu ainda sabia escrever código ou se o casamento tinha apagado isso também. Eu disse que sabia. Em poucos minutos, contei tudo o que aconteceu nesse último ano em que mal nos falamos. Por fim, disse que queria sumir. Sumir do meu pai, do Adrian. E que, para sumir, eu precisava de um recomeço. Rafael não hesitou. Pelo contrário, ele fez mais. Disse que eu podia ficar em sua casa até achar um lugar, além, é claro, de me dar o emprego. Eu teria um salário que não passaria pela mesa do senador, num país onde o sobrenome do meu pai e o de Adrian pesam menos.

Fui tirada dos meus pensamentos ao escutar passos no corredor.

Desliguei o abajur e fechei os olhos. Onze meses me ensinaram essa encenação também.

A luz por baixo da porta mudou. Os passos chegaram e pararam do lado de fora.

Não achei que ele fosse entrar. Sempre que tinha algum jantar ou evento onde precisávamos ir juntos, ele voltava irritado e acabava dormindo no quarto de hóspedes. Mas a maçaneta girou lentamente, e ele entrou.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    A caixa

    Mia WolfeAcordei e fui correr. A esteira do prédio não me servia, então desci e peguei o caminho do parque, o mesmo de quase todas as manhãs desde que me mudei para aquela casa. O ar ainda estava frio, e eu gostava disso porque o frio não deixava espaço para pensar no jantar da noite anterior. Correr era rotina, e rotina era o que ainda me segurava quando o resto tinha data para acabar. A minha liberdade tinha uma data. Trinta dias, de acordo com a mensagem que eu recebi do cartório. À medida que a partida se aproximava, a ansiedade subia no peito antes mesmo que eu me desse conta, e a corrida empurrava isso para as pernas. Não resolvia, só deixava minha cabeça menos barulhenta. Ainda assim, no terceiro quilômetro eu já tinha parado de contar o passo e começado a contar o que ia levar para Portugal. Pouca coisa. Apenas o que era meu antes desse contrato, e só o que tinha sido escolhido por mim, porque o que tinha sido escolhido pelo Senador eu já tinha deixado na casa dos Voss há onz

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    Cinco minutos

    Adrian WolfeEram nove e cinco, e o carro ainda não tinha virado na Madison. Eu resolvia o que dava pelo celular, com o motorista em silêncio e a pasta da primeira reunião no banco ao lado. A mensagem de Sloane entrou por cima de um e-mail do jurídico. Já estava no The Mark, perguntava onde eu estava, como se o café tivesse sido confirmado. Não tinha, não falei em nenhum momento que estaria lá. Dessa vez, ignorei de novo, do mesmo jeito que ignorei a mensagem da noite anterior, e voltei para a planilha que o secretário tinha mandado às sete. Ela mandou outra em seguida, só com o nome do hotel e um ponto de interrogação. Também ficou sem resposta. Se eu começasse a explicar por mensagem, ela ia transformar minha explicação em motivo para um bate-papo, e eu não tinha tempo para ela.A reunião começou no horário. Tinham seis pessoas presentes, a fusão na mesa, o advogado da outra parte ainda abrindo a pasta quando a porta abriu de uma vez. Não foi batida. Foi praticamente invadida. Todo

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    A porta do outro lado

    Adrian WolfeEntrei e fiquei parado ao lado da cama o tempo de contar a respiração dela. Estava regular demais para quem dorme de verdade. Eu já tinha visto a luz do abajur por baixo da porta, que apagou dois segundos antes dos meus passos pararem no corredor, e não precisava de mais prova. Mia fingia dormir. Fazia isso em quase todas as noites em que eu cruzava aquele quarto desde o casamento, e eu sempre achei prático. Fingir dormir evitava conversas difíceis e climas estranhos.Em noites de jantares e eventos importantes, eu costumava nem chegar até ali. Toda aquela encenação, e ver como ela era boa em fingir, me deixava irritado. No carro, enquanto voltávamos para casa, o clima sempre acabava pesando. Mas, dessa vez, eu tinha entrado mesmo assim, com um questionário inteiro na cabeça, enquanto a mulher que podia responder estava de olhos fechados a poucos palmos de mim. Pensei em dizer que sabia que ela estava acordada. Uma frase só, dita no escuro, bastava para acabar com a enc

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    Trinta e um

    Mia Wolfe Eu fui para o quarto. Ele foi para o escritório. Nem um boa-noite. Em onze meses aprendemos a atravessar a casa como dois hóspedes que dividem os cômodos e nada mais. O elevador ainda fechava quando cada um já tinha escolhido o próprio corredor. Tirei o sapato ainda no tapete. Os pés agradeceram de alívio. O vestido e todo o resto continuavam no lugar certo. Desci para a cozinha descalça, sentindo o mármore frio nas solas dos pés, e acendi a luz dos armários só o suficiente para eu não esbarrar em nada que fizesse barulho. A empregada tinha deixado uma torta de maçã na bancada. Ainda estava morna, a casca brilhante, um recado mudo de quem conhece a rotina da casa melhor do que os donos. Eu sempre voltava com fome desses jantares. Não era fome de comida. Era a outra, a de quem teve a alma sugada até o prato virar um conforto. Cortei um pedaço irregular, comi em pé, encostada na bancada. A canela veio primeiro, depois o açúcar. Depois as lembranças da noite fatídica. Bebi

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    O papel

    Adrian WolfeMandei Mia para o carro porque todos à mesa viram o que Sloane fez na hora da foto. Não se discute prejuízo no meio de acionistas; disso eu entendo. Mas uma coisa era certa: eu não ia deixar aquela merda sair barata.Peguei o guardanapo e o passei na lateral da boca. A mancha veio vermelha, nítida demais para passar por vinho.A raiva, a essa altura, já me consumia, e a vontade era cobrar a conta ali mesmo. Mas não cheguei onde estou sendo levado por emoções. Então, levantei-me lentamente, despedi-me de todos com um aceno e deixei que meu secretário ficasse para a assinatura dos papéis. Sabia que Sloane viria atrás de mim. E ela veio.Assim que passamos pela porta, eu a puxei pelo pulso. O segurança baixou a cabeça e observou o próprio sapato com uma descrição que eu pago bem para ele ter. Levei-a para o recuo de uma pilastra, um ponto cego entre uma câmera de segurança e outra.— Se você repetir uma merda daquelas... — falei baixo, sem soltar o pulso — pode esquecer cam

  • Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York    O lugar à direita

    Mia Wolfe O salão cheirava a dinheiro antigo e aquele vinho que as pessoas pedem para serem vistas pedindo. Eu conhecia o cheiro desde os dezoito anos. Meu pai me empurrava para salas iguais e eu aprendi a sorrir sem ocupar mais do que o espaço de um vaso.Adrian puxou a cadeira à direita dele, sem nem virar o rosto na minha direção, e eu sentei. Onze meses e quatro dias eu ocupava aquele lugar porque era o da esposa. Ninguém perguntava se eu queria. Era como se a cadeira já vinhesse com o meu nome gravado por causa do contrato.— A senhora Wolfe... — ele disse, quando um homem de gravata azul estendeu a mão tempo demais na minha direção — ela é só um acordo que o Senado de Nova York teve a gentileza de me vender.Os presentes na mesa riram no tom certo. Para eles eu era isso: a esposa de papel, a cláusula com um vestido escuro e uma joia discreta. Eu não era mais importante do que a mobília. Na verdade, se eu desaparecesse no meio do segundo prato, alguém pediria outro vinho e todos

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status