LOGINMayaO vapor quente da água aromatizada com óleos de lavanda e flor de laranjeira preenchia o imenso banheiro de mármore dos meus aposentos, criando uma névoa espessa que embaçava os espelhos e suavizava o ar gélido da noite.Duas servas do Norte terminavam de trançar fios de prata fina nos meus cabelos negros, recolhendo metade das mechas em um coque elaborado e deixando o restante cair em ondas volumosas sobre as minhas costas. Pousei a mão sobre a água morna, observando o contorno pronunciado da minha barriga. A gestação avançava rapidamente, e a sensação do meu filho movendo-se com força sob a minha pele trazia uma serenidade estranha — uma âncora de vida no meio da tempestade política que havíamos arquitetado para aquela noite.A porta dupla de carvalho do quarto abriu-se e fechou-se com um baque surdo. O som dos passos firmes e desacelerados de Dominic no tapete pesado avisou-me de que o Supremo adentrara o cômodo. Dispensando as servas com um leve aceno de cabeça no espelho, fi
MayaA neblina densa da manhã descia sobre o vale de Valência como um manto acinzentado e frio, camuflando os picos pontiagudos das serras ao longe. No interior do palácio, a atmosfera não estava menos carregada. A notícia contida da interceptação na fronteira não havia vazado para os criados ou para a população, mas entre os nobres e diplomatas que ainda orbitavam o salão nobre, a tensão era palpável. Cada olhar trocado nos corredores trazia o peso do pânico velado.De pé diante da grande mesa de mapas na sala da regência, alisei o veludo pesado da minha saia. A gestação começava a exigir ajustes sutis nas minhas túnicas, e o peso extra na minha cintura era um lembrete físico constante de que o tempo corria não apenas para a diplomacia, mas para a história da nossa família.Dominic estava ao meu lado, a braçadeira de couro do ombro agora mantida mais por prudência do que por necessidade. Ele observava as marcações em miniatura que representavam as guarnições de guarda posicionadas en
DominicO silêncio do aposento era cortado apenas pela respiração ritmada de Maya, que dormia resguardada no meu abraço. Eu permaneci acordado por um longo tempo, observando o brilho suave das brasas refletido nos traços nobres do seu rosto. A mão que mantive sobre o seu ventre sentia cada movimento sutil do nosso filho — uma vida gerada no meio do caos, mas destinada a governar sobre os destroços de um passado que insistia em nos perseguir.Quando os primeiros sinais do amanhecer pintaram o horizonte em tons de cinza e chumbo, a calma da noite foi brutalmente interrompida.Três batidas secas e pesadas ecoaram na porta do quarto. A urgência do toque não era a de um servo trazendo provisões ou do médico conferindo o meu ombro; era o ritmo frenético de um mensageiro da linha de frente.Soltei-me de Maya com extrema delicadeza, cobrindo o seu corpo com a manta de pele para protegê-la do ar gélido. Vesti a minha túnica preta de nobre, ajustando a braçadeira no ombro esquerdo. A dor da pra
Maya O peso da conspiração e os desdobramentos da traição no Norte pairavam sobre o palácio como uma promessa de tempestade. No entanto, quando as portas pesadas do meu quarto privativo se fecharam, o mundo lá fora — com seus exércitos, conselhos e mapas sangrentos — foi sumariamente barrado. A penumbra do aposento era acolhedora, aquecida pelas chamas vivas da lareira de pedra que crepitavam suavemente, projetando sombras alaranjadas pelas paredes de carvalho. O aroma de madeira de sândalo e o calor do fogo misturavam-se ao perfume marcante de Dominic, criando um refúgio denso e impenetrável. Caminhei até o banheiro com passos lentos, desfazendo as amarras pesadas da minha túnica de veludo escuro. Retirei a tiara de prata, o selo real e as joias que pesavam sobre a minha pele durante o dia de regência, pousando cada peça sobre a madeira entalhada. Olhei pelo reflexo do espelho e vi Dominic aproximar-se por trás. Ele retirara a pesada túnica de nobre, vestindo apenas uma calça d
Maya A revelação trazida pelo corvo de Damon caiu sobre o escritório como uma lâmina afiada. O brasão encontrado no livro de códigos dos mercenários não deixava margem para dúvidas: a teia de aranha que sufocara a vida da minha mãe Diana por tantos anos e tentara me transformar em uma serva sem voz não fora tecida no Sul. Valência fora apenas o cativeiro de luxo; o arquiteto da tragédia sentava-se em uma cadeira de alto valor no próprio coração do Norte. Dominic dispensou o Capitão Vane com um aceno curto de cabeça. Assim que a porta se fechou, a aura do Supremo expandiu-se pelo cômodo, pesada, sufocante e carregada pela fúria de um Alfa cujo território fora contaminado por traidores de sangue alto. Ele caminhou até o mapa do continente estendido sobre a mesa de jacarandá, batendo com a palma da mão sadia bem sobre a marcação da Capital do Norte. — Uma casa nobre de Ravenwood... — rosnou Dominic, a voz reverberando nas paredes de carvalho. — Alguém do círculo íntimo do seu avô pa
Maya O crepúsculo caiu sobre o escritório da regência, pintando o teto com vigas de carvalho em sombras profundas. Sobre a grande mesa de jacarandá, pilhas de relatórios financeiros de Valência, livros de contabilidade confiscados da casa dos Davenport e os primeiros comunicados de patrulha da fronteira formavam uma montanha de obrigações. Pousei a pena de caligrafia no tinteiro de prata e massageei levemente a nuca. O cansaço da gestação cobrava o seu preço após horas ininterruptas de despacho. — Você está exigindo demais do seu corpo, Maya — disse Dominic. Ele estava sentado no cadeirão de couro do outro lado da mesa, trajando uma túnica preta simples. Embora o seu ombro esquerdo estivesse imobilizado, o rosto já recuperara totalmente a cor e a vivacidade. Os seus olhos dourados observavam cada suspiro meu com uma atenção obsessiva. — Alguém precisa reorganizar as rotas de abastecimento antes do inverno, Dominic — respondi, apoiando as costas no estofado e encarando-o. — Os D







