FAZER LOGINIsabella
A música ficou mais baixa quando subimos.
Não porque o lugar era mais vazio. Pelo contrário.
A área de cima estava cheia.
O andar de cima não parecia uma boate.
Parecia outra coisa.
Luzes mais baixas. Sofás espalhados pelos cantos. Garrafas caras em mesas de vidro. Homens que claramente não estavam ali só pra beber.
Todos bem vestidos.
Todos olhando.
Meu estômago virou quando um deles passou os olhos devagar pelo meu corpo, sem nem tentar esconder.
Sofia diminuiu o passo só um pouco.
— Não encara ninguém — ela murmurou sem olhar pra mim. — E tenta parecer calma.
Quase ri.
Sofia finalmente parou perto de um corredor menor e virou pra mim.
Ela ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, tentando disfarçar meu nervosismo.
— Escuta — falou baixo. — Faz o mínimo possível pra irritar o Viktor hoje.
Balancei a cabeça sem conseguir responder.
Ela observou meu rosto por mais um segundo.
— E tenta não demonstrar medo.
Olhei pra ela quase sem acreditar.
— Você tá vendo meu estado?
— Eu sei.
Ela suspirou.
— Mas eles gostam disso.
Meu corpo gelou na hora.
Antes que eu pudesse responder, Viktor apareceu no fim do corredor.
— Finalmente — ele resmungou, se aproximando. — Anda.
Meu pé quase travou quando ele segurou meu braço outra vez.
A sala principal da área VIP apareceu logo depois.
E foi ali que eu percebi o quanto Sofia tinha tentado me poupar.
Homens espalhados pelos sofás. Segurança em cada canto. Garotas sentadas no colo deles, sorrindo mesmo quando claramente não queriam.
Meu coração começou a bater tão forte que achei que alguém fosse ouvir.
Viktor continuou me puxando pelo salão enquanto vários olhares se voltavam na nossa direção.
Então aconteceu.
Levantei os olhos sem querer.
E vi ele.
Sentado mais afastado dos outros, como se não precisasse fazer esforço nenhum pra chamar atenção.
Terno escuro.
Postura relaxada.
Um copo de bebida parado na mão.
Mas foram os olhos que me prenderam.
Os olhos dele pararam em mim.
Escuros.
E atentos demais.
E foi a primeira vez na noite que alguém olhou pra mim sem parecer faminto.
Viktor apertou meu braço outra vez quando percebeu que eu tinha parado.
— Anda.
Desviei os olhos rápido do homem sentado no canto e voltei a caminhar.
Mesmo assim, senti o olhar dele continuar em mim.
Viktor me levou até uma mesa no centro da área VIP, onde dois homens já estavam bebendo. Os dois olharam pra mim daquele jeito que fazia minha pele querer sair do corpo.
— Essa é nova — um deles comentou.
Viktor soltou um sorriso torto.
— E cara.
Meu estômago afundou.
Ele me empurrou de leve pra frente.
— Senta.
Fiquei parada.
O sorriso dele desapareceu na mesma hora.
— Eu não vou repetir.
Sentei devagar, tentando ignorar a mão do homem que já tinha parado na minha perna.
— Relaxa, princesa — ele riu. — Ninguém vai te machucar.
Viktor continuou ali mais alguns segundos, mas logo saiu.
O homem ao meu lado apertou minha coxa.Meu corpo travou na hora.
— Tá nervosa?
Não respondi.
— Gosto das quietinhas.
Sua voz rouca e velha me deu ânsia.
— Tira a mão dela.
— Qual foi, Moretti?
Moretti.
Ele continuou olhando direto pro homem, ignorando completamente a pergunta.
— Eu mandei tirar a mão dela.
O aperto na minha coxa desapareceu na mesma hora.
IsabellaDuas semanas depois, eu já não conseguia fingir que não estava percebendo.No começo foram coisas pequenas. Um segurança diferente perto da entrada dos fundos, Luca aparecendo no jardim enquanto eu cuidava das rosas, dois homens que eu não conhecia circulando pela propriedade. Não dei importância. Aquela casa sempre teve segurança, e eu ainda não sabia quem era metade das pessoas que trabalhavam para Dante.Até começar a prestar atenção.Naquela manhã, desci pronta para sair e encontrei minha mãe terminando o café com Lucia. As duas passariam o dia resolvendo os últimos detalhes da casa nova, que já estava praticamente mobiliada.
DanteEnzo entrou no meu escritório pouco depois das nove. Luca veio atrás e fechou a porta, e bastou olhar para a cara dos dois para saber que não tinham aparecido para falar dos carregamentos.— O que aconteceu?Enzo puxou a cadeira à minha frente.— Viktor está perguntando por Isabella.Parei de escrever.— Desde quando?— Pelo menos desde que vocês voltaram da lua de mel. No começo eram perguntas soltas. Agora ele está procurando informação de verdade.Larguei a caneta.&
IsabellaJá era noite e Dante tinha finalmente encerrado o trabalho. Depois do jantar, minha mãe subiu para o quarto cedo, alegando que precisava descansar porque Lucia apareceria pela manhã para levá-la às lojas de móveis. Matteo também tinha ido embora, e a mansão ficou mais silenciosa.Encontrei Dante na sala servindo uma dose de uísque.— Você não trabalhou o suficiente hoje?Ele olhou para mim enquanto fechava a garrafa.— Estou bebendo.— E a casa da sua mãe? — perguntou.— Ela e Lucia vão escolher os móveis amanhã. Est
Dante— Quero saber como essa porra entrou no nosso território sem ninguém perceber.Joguei as fotografias sobre a mesa e encarei os homens reunidos à minha frente. Enzo estava à minha direita, passando os olhos pelos relatórios, enquanto Luca permanecia próximo à porta. Do outro lado estavam três dos meus capos, todos em silêncio desde que a reunião tinha começado.As fotografias mostravam dois carregamentos apreendidos naquela semana. Cigarros, armas e dinheiro entrando por uma rota que pertencia aos Moretti havia anos. O problema não era a mercadoria. Era alguém ter usado meus portos sem autorização.— O primeiro caminhão entrou na terça-feira — Enzo explicou. — O segundo, ontem à noite. Mesma documentação, empresas diferentes e homens diferentes fazendo a retirada.Peguei uma das fotografias.— E ninguém reconheceu nenhum deles?Carlo, responsável pela região portuária, balançou a cabeça.— Não são nossos.— Isso eu já sei, Carlo.Ele fechou a boca.Empurrei a fotografia de volta.
IsabellaTrês dias depois, minha mãe já tinha rejeitado quatro casas.A primeira era grande demais. A segunda ficava longe demais. A terceira, segundo ela, tinha “cara de casa de gente morta”, e eu nem tentei entender o que aquilo significava. A quarta tinha sido perfeita até Helena descobrir o valor.— Nem pensar.Ela devolveu a pasta para o corretor antes mesmo que ele terminasse de explicar.— Mãe...— Isabella, eu não vou deixar seu marido gastar esse absurdo comigo.— Você sabe que ele não se importa.— Eu me imp
IsabellaQuando chegamos à sala de jantar, minha mãe já parecia muito mais à vontade do que algumas horas antes. Lucia tinha conseguido esse milagre. As duas entraram conversando sobre alguma coisa que eu não fazia ideia, enquanto Matteo vinha atrás carregando uma garrafa de vinho que, segundo ele, tinha escolhido especialmente para comemorar.— Helena, sente aqui perto de mim — Lucia pediu, puxando a cadeira ao seu lado.Minha mãe sentou-se e olhou para a mesa enorme.Dante ocupava a cadeira ao meu lado. As funcionárias começaram a servir o jantar, mas Helena tentou pegar uma das travessas das mãos de uma delas por puro costume.— Pode deixar que eu coloco.







