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Capítulo 2

Autor: Carla
last update Fecha de publicación: 2025-01-14 18:50:33

EMMA

Toda a gente conhecia este nome. O Black Velvet era uma das discotecas mais exclusivas de Los Angeles, famosa pelas festas, pelos convidados importantes e pela dificuldade de entrar sem convite.

— Nem pensar.

— Já consegui colocar os nossos nomes na lista.

— Isso não torna a ideia melhor.

— Uma noite fora de casa, Emma. Precisas de te distrair.

— Estou distraída.

— Passaste as últimas semanas a fingir que não estás a pensar naquele homem da gala.

Endireitei-me no sofá.

— Não tenho pensado nele.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Claro que não.

— Não tenho.

— Então não haverá problema nenhum em sairmos. Afinal, Daniel West não vai aparecer magicamente em todos os lugares aonde vamos.

Ela tinha razão. Los Angeles era enorme, e Daniel pertencia a um círculo social ao qual eu nunca teria acesso. As probabilidades de voltarmos a encontrar-nos eram praticamente inexistentes.

Talvez aquela saída fosse exatamente aquilo de que precisava. Uma oportunidade para provar a mim própria que conseguia divertir-me sem pensar nele.

Duas horas depois, estava diante do Black Velvet, a questionar todas as decisões que me tinham levado até ali.

A fila estendia-se ao longo do passeio, mas Sarah falou com um dos seguranças e, depois de confirmar os nossos nomes, ele afastou a barreira de veludo e deixou-nos entrar.

A música atingiu-me antes de eu conseguir observar o interior. O som grave fazia vibrar o chão. Luzes vermelhas e violetas atravessavam o espaço, iluminando corpos que se moviam demasiado próximos uns dos outros.

O ar estava quente e carregado com uma mistura de perfumes, álcool e desejo.

Sarah agarrou-me pela mão e conduziu-me até à pista de dança.

Durante alguns minutos, tentei acompanhá-la. Deixei que a música abafasse os meus pensamentos e esforcei-me por ignorar as pessoas que se empurravam contra mim. Contudo, quanto mais a multidão se fechava à minha volta, mais desconfortável me sentia.

— Vou ao bar! — gritei junto ao ouvido de Sarah.

Ela fez-me um sinal de aprovação, já demasiado envolvida na música para me acompanhar.

Afastei-me da pista e encontrei um lugar vazio ao balcão. Pedi um cocktail e observei a multidão enquanto esperava. Sarah dançava como se tivesse nascido para estar ali. Eu continuava a sentir-me uma intrusa.

Quando o empregado colocou o copo à minha frente, bebi um gole generoso.

Talvez precisasse apenas de relaxar.

Estava a pousar o copo quando senti a mesma inquietação que experimentara na gala. Não soube explicar o motivo. Foi uma sensação súbita, como se o meu corpo tivesse reconhecido uma presença antes de os meus olhos a encontrarem.

Levantei o rosto.

E vi-o.

Daniel estava sentado numa área reservada, ligeiramente elevada em relação ao resto da discoteca. Vários homens ocupavam os sofás à sua volta, todos vestidos de escuro e com expressões demasiado sérias para quem estava num lugar de diversão. Algumas mulheres conversavam perto deles, mas Daniel não lhes prestava atenção.

Estava a olhar para mim.

Durante semanas, tentara convencer-me de que nunca mais o veria. Agora, ali estava ele, a poucos metros de distância, tão imponente e inquietante como eu me lembrava.

Talvez ainda mais.

Ao contrário da noite da gala, Daniel não sorriu. Não levantou o copo nem fez qualquer gesto de cumprimento. Limitou-se a observar-me com uma intensidade fria.

Desviei os olhos e levei novamente o copo aos lábios.

O coração batia-me depressa demais.

Ele não devia estar ali.

Ou talvez fosse eu quem não devia.

Tentei concentrar-me na bebida e resistir à vontade de voltar a olhar para a área reservada. Não queria que Daniel percebesse o efeito que exercia sobre mim. Não queria sequer admitir esse efeito a mim própria.

Contudo, poucos segundos depois, os meus olhos traíram-me.

A cadeira dele estava vazia.

Procurei-o entre os homens que continuavam sentados, mas Daniel já não se encontrava ali. Uma tensão estranha apoderou-se de mim. Virei-me ligeiramente, tentando localizá-lo no meio da multidão.

Foi então que o vi aproximar-se.

Daniel atravessava a discoteca com passos firmes. As pessoas afastavam-se antes de ele precisar de pedir passagem. Não sorria nem desviava os olhos de mim. A camisa preta, aberta no primeiro botão, tornava-o menos formal do que na gala, mas não menos intimidante.

Quando parou ao meu lado, tive de erguer o rosto para conseguir encará-lo. O perfume dele misturou-se com o cheiro do meu cocktail e trouxe-me de volta àquela despedida à chuva.

— Emma Collins.

A sua voz grave atravessou a música sem esforço. Não soou como um cumprimento. Pareceu antes a confirmação de que me tinha encontrado.

— Daniel West.

O olhar dele percorreu lentamente o meu vestido antes de regressar ao meu rosto. Não fez qualquer elogio. A maneira como me observou foi muito mais íntima do que qualquer palavra poderia ter sido.

— Não a imaginava num lugar destes.

— É a segunda vez que me diz que pareço deslocada.

— E é a segunda vez que tenho razão.

A resposta saiu sem humor. Daniel não estava a provocar-me; estava apenas a afirmar aquilo em que acreditava.

— Está sempre tão seguro das suas conclusões?

— Quando tenho motivos.

— Mal me conhece.

— Observo bem.

Aquela resposta fez-me apertar o copo.

— E o que observou sobre mim?

Daniel ignorou a pergunta.

— Quem a trouxe?

— A minha amiga.

Os olhos dele desviaram-se para a pista e encontraram Sarah quase imediatamente.

— A mesma que a deixou sozinha na gala.

— Ela não me deixou sozinha. Foi dançar.

— E a Emma veio esconder-se no bar.

— Não estou escondida.

Daniel olhou para o meu cocktail e depois para mim.

— Se prefere chamar-lhe outra coisa…

A irritação ajudou-me a recuperar parte da segurança.

— Sei cuidar de mim.

O olhar dele tornou-se mais duro.

— Espero que sim.

Havia qualquer coisa naquelas três palavras que me deixou alerta.

— Isso pareceu uma ameaça.

Daniel aproximou-se apenas o suficiente para me obrigar a baixar a voz.

— Se fosse uma ameaça, não teria dúvidas.

Fiquei sem resposta.

Não levantara a voz nem alterara a expressão. Ainda assim, a frase atingiu-me com uma força que fez desaparecer todo o ruído à nossa volta durante um breve instante.

— O que está aqui a fazer? — perguntei.

— Negócios.

— Numa discoteca?

— Especialmente numa discoteca.

Olhei para os homens que permaneciam na área reservada. Nenhum deles parecia estar ali para dançar ou beber.

— Que tipo de negócios?

Daniel encarou-me em silêncio, sem responder.

A frieza dele devia ter-me feito terminar a conversa. Em vez disso, aumentou a minha curiosidade.

— Está desconfortável — observou.

— Está a contribuir bastante para isso.

— Mas ainda não se afastou.

Os meus dedos apertaram-se em torno do copo.

— Não tenho o hábito de fugir.

Daniel inclinou-se, aproximando os lábios do meu ouvido. Não me tocou, mas senti o calor da sua respiração contra a pele.

— Devia escolher melhor as ocasiões em que decide ser corajosa.

Virei o rosto. Os nossos lábios ficaram perigosamente próximos, mas a expressão dele permaneceu indecifrável.

— Isso foi um conselho?

Os olhos de Daniel desceram até à minha boca.

— Foi o único que lhe vou dar esta noite.

Ficámos em silêncio. A música continuava forte, as pessoas dançavam e Sarah permanecia algures no meio da multidão. Contudo, naquele instante, tudo parecia distante.

Só conseguia sentir a presença de Daniel e a tensão que se acumulava entre nós.

Subitamente, ele afastou-se.

Fez um pequeno sinal com a mão. Quase de imediato, dois seguranças junto à entrada endireitaram a postura e abriram caminho até à porta.

Não houve explicação.

Daniel virou-me as costas e começou a caminhar em direção à saída, como se tivesse a certeza de que eu continuaria a observá-lo.

Antes de atravessar a porta, parou.

Virou lentamente o rosto e encontrou o meu olhar por cima do ombro.

Não disse uma única palavra.

Também não precisou.

Havia uma pergunta silenciosa na forma como me observava. Uma pergunta que eu sabia que não devia querer ouvir.

Mesmo assim, permaneci junto ao bar, incapaz de desviar os olhos.

Daniel manteve-os fixos em mim durante alguns segundos. Depois, em vez de atravessar a porta, regressou.

Parou a uma distância calculada, suficientemente perto para que eu o ouvisse sem que precisasse de levantar a voz.

— Se quiser, posso levá-la a um lugar mais tranquilo.

A frieza com que fez a proposta contrastava com o significado das palavras. Não havia um sorriso, uma tentativa de me conquistar ou qualquer sinal de nervosismo. Daniel falava como um homem que já tinha considerado todas as respostas possíveis.

— Não gosta de estar no centro das atenções — acrescentou.

— E acha que me conhece assim tão bem?

— Sei que passou a maior parte da noite a procurar uma saída.

Olhei na direção da pista. Sarah continuava a dançar, alheia à conversa.

— Talvez estivesse apenas à procura da minha amiga.

— Não estava.

A certeza dele irritou-me.

— Está sempre tão convencido de que tem razão?

— Quase sempre tenho.

— Isso deve ser insuportável para as pessoas à sua volta.

— Elas habituam-se.

Não consegui perceber se estava a brincar. A expressão dele não se alterou.

— E onde fica esse lugar mais tranquilo?

— Na minha casa.

A resposta direta fez o meu estômago apertar-se.

Daniel não tentou fingir que se tratava de um convite inocente. Não falou em beber café, ouvir música ou continuar a conversa. Deixou a intenção clara sem precisar de a explicar.

Eu sabia que devia recusar.

Conhecia-o mal. Não sabia exatamente o que fazia, por que razão os seguranças lhe obedeciam ou por que motivo homens de aspeto perigoso aguardavam por ele na área reservada. Tudo em Daniel me dizia que devia manter a distância.

Mas também me lembrava dele havia semanas.

— Não costumo ir para casa de homens que mal conheço — disse.

— Então não venha.

A resposta apanhou-me desprevenida.

Daniel consultou o relógio, sem demonstrar impaciência.

— O meu carro ficará cinco minutos à porta. Se aparecer, o motorista levá-la-á a casa quando quiser. Não voltarei a perguntar.

Virou-se e saiu.

Fiquei a olhar para a porta, com o copo ainda entre as mãos.

Não me pressionara. Não tentara tocar-me nem convencer-me. Simplesmente pusera a escolha diante de mim e partira com a certeza desconcertante de que eu iria atrás dele.

Talvez fosse isso que mais me irritava.

Ou talvez fosse o medo de que tivesse razão.

Encontrei Sarah no meio da pista e toquei-lhe no braço para chamar a sua atenção.

— Vou sair — disse junto ao ouvido dela.

Sarah seguiu o meu olhar até à entrada da discoteca, onde Daniel me aguardava. Assim que o reconheceu, abriu um sorriso cheio de curiosidade.

— Vais sair com o homem misterioso da gala?

— Vou.

— Eu sabia que ainda ias voltar a vê-lo!

— Fala mais baixo.

Sarah soltou uma gargalhada e aproximou-se para me conseguir ouvir por cima da música.

— Está bem, não vou fazer perguntas agora. Mas amanhã vais contar-me tudo.

— Não prometo contar tudo.

— Nesse caso, conta pelo menos as partes interessantes.

Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso.

— Manda-me uma mensagem quando chegares — acrescentou ela. — Só para eu saber que está tudo bem.

— Mando.

— E diverte-te, Emma. Já passaste tempo suficiente a pensar demasiado.

Sarah deu-me um beijo rápido no rosto e regressou à pista de dança, ainda a sorrir.

Olhei novamente para Daniel. Estava junto ao carro preto, a falar com o motorista. Não verificava se eu vinha.

Respirei fundo e atravessei a saída antes que tivesse tempo de mudar de ideias.

Daniel abriu a porta traseira quando me aproximei. Não demonstrou surpresa.

— E o seu motorista leva-me a casa?

— Se for isso que quiser.

Entrei no carro.

Daniel sentou-se ao meu lado e fechou a porta. O veículo arrancou poucos segundos depois. Havia uma divisória escura entre nós e o motorista, deixando-nos isolados do resto do mundo.

Durante o percurso, Daniel não tentou tocar-me. Permaneceu sentado ao meu lado, com uma das mãos apoiada sobre a perna, perfeitamente tranquilo. A proximidade dele era suficiente para me deixar consciente de cada movimento meu.

— Não vai perguntar por que razão decidi acompanhá-lo?

— Não.

— Porquê?

— Porque ainda não sabe a resposta.

Virei-me para a janela, irritada com a facilidade com que parecia compreender-me.

A casa ficava um pouco longe do centro da cidade, estava mais para uma mansão. O segurança da entrada cumprimentou Daniel e abriu-nos passagem sem fazer perguntas.

Entramos , o espaço era amplo, moderno e quase inteiramente decorado em tons escuros. Através das enormes janelas, Los Angeles estendia-se sob os nossos pés, iluminada por milhares de luzes. Era uma vista impressionante, mas a casa parecia não ter sido feito para ser habitado. Tudo estava no lugar certo, demasiado limpo e impessoal.

Não havia fotografias. Não havia objetos deixados por acaso. Não havia qualquer sinal de uma vida que não tivesse sido cuidadosamente controlada.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou Daniel.

— Não. Já bebi o suficiente.

Ele tirou o casaco e pousou-o sobre uma cadeira.

— Ótimo.

Daniel aproximou-se lentamente. Não havia pressa nos seus movimentos. Parou diante de mim e ergueu uma mão, mas não me tocou.

— Se quiser sair, o carro continua lá em baixo.

— E se eu quiser ficar?

Os olhos dele escureceram.

— Então diga-me.

A minha respiração tornou-se mais curta.

Eu sabia o que ele estava a pedir. Não apenas consentimento, mas a certeza de que eu assumiria a minha própria escolha. Daniel não aceitaria uma hesitação que depois pudesse ser transformada em arrependimento.

Olhei-o nos olhos.

— Quero ficar.

Só então Daniel me tocou.

A mão dele fechou-se em torno da minha nuca e puxou-me para si. O primeiro beijo não teve nada da contenção que demonstrara até ali. Foi firme, exigente e carregado de uma fome que ele parecia ter passado a noite inteira a controlar.

Agarrei-lhe a camisa para não perder o equilíbrio.

Daniel não me permitiu recuar, mas também não avançou além daquilo que eu lhe dava. Cada vez que a minha boca correspondia à dele, o beijo tornava-se mais profundo. Quando os meus dedos se prenderam ao seu cabelo, ouvi-o soltar um som baixo, quase um aviso.

A boca dele abandonou a minha e desceu até ao meu pescoço.

Inclinei a cabeça sem pensar, dando-lhe mais espaço. Os lábios quentes percorreram a minha pele, alternando beijos lentos com pequenas mordidas que faziam o meu corpo reagir antes de a minha mente conseguir acompanhar.

— Daniel…

Ele ergueu o rosto.

Os seus olhos estavam mais escuros, mas a expressão continuava controlada.

— Olha para mim.

Obedeci.

A mão dele deslizou da minha nuca até à cintura, apertando-me contra o seu corpo. A dureza que senti através da roupa eliminou qualquer dúvida sobre o que desejava. Daniel observou-me durante mais um instante, como se procurasse uma hesitação que contradissesse as minhas palavras.

Não a encontrou.

Beijou-me novamente e conduziu-me para trás até as minhas costas encontrarem a parede. O contacto frio fez-me estremecer. Daniel colocou uma mão junto à minha cabeça e manteve a outra na minha cintura, prendendo-me entre o corpo dele e a parede sem usar verdadeira força.

Ainda assim, senti-me completamente sob o seu controlo.

As mãos dele percorreram-me por cima do vestido. Não havia pressa nem movimentos inseguros. Daniel parecia descobrir o meu corpo da mesma forma como observava tudo o resto: com uma atenção minuciosa, registando cada mudança na minha respiração e cada lugar onde eu me tornava mais sensível.

Levei a mão atrás do corpo e baixei eu própria o fecho.

Daniel não sorriu, mas alguma coisa mudou na sua expressão. Uma satisfação escura e silenciosa.

Afastou lentamente as alças dos meus ombros. O vestido deslizou pelo meu corpo e caiu aos meus pés, deixando-me apenas com a roupa interior e os sapatos.

O impulso de me cobrir surgiu imediatamente. Daniel segurou-me pelos pulsos antes que eu o fizesse, sem me magoar.

— Não te escondas de mim — disse.

A forma como me olhava fez desaparecer parte da minha vergonha. Não havia ternura nos olhos dele, mas também não havia julgamento. Daniel observava-me como se eu fosse a única coisa naquela cobertura capaz de prender verdadeiramente a sua atenção.

Soltou-me os pulsos.

Desta vez, fui eu que me aproximei. Passei as mãos pelo peito dele e comecei a desapertar-lhe os botões da camisa. Daniel permitiu que o despisse sem desviar os olhos do meu rosto.

Quando afastei o tecido, descobri um corpo forte, marcado por várias cicatrizes. Algumas eram pequenas; outras pareciam antigas e profundas. Passei os dedos por uma junto às costelas.

— O que aconteceu?

A mão dele fechou-se sobre a minha.

— Esta noite não é para perguntas.

Não insisti. Em vez disso, deixei que levasse a minha mão até à boca e beijasse o meu pulso.

O gesto foi inesperadamente íntimo.

No instante seguinte, Daniel inclinou-se, passou um braço por baixo das minhas pernas e ergueu-me. Soltei uma exclamação e agarrei-me aos seus ombros.

— Eu consigo andar.

— Eu sei.

Mesmo assim, não me pousou.

Levou-me até ao quarto e colocou-me sobre a cama. A forma como o fez contrastou com a intensidade do olhar que manteve sobre mim.

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