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NICK
Eu estava sentado na cadeira de couro italiano do escritório do meu irmão, girando um copo de uísque que custava mais do que o carro da maioria das pessoas, enquanto ele andava de um lado para o outro, gritando ao telefone.
— Preciso ir, Nick — disse Ethan, desligando o celular. — Um motorista bateu o Bentley. Tenho que resolver isso antes que a imprensa descubra. Fica de olho no escritório por dez minutos? A secretária saiu.
— Não sou seu secretário — respondi, imóvel. — Sou o investidor que pagou por tudo isso. E estou achando que a Elite Companions dá mais dor de cabeça do que lucro.
— Só atenda se for emergência. — disse ele, fechando a porta atrás de si.
O silêncio voltou. O silêncio caro e insuportável da minha vida. Aos trinta e dois anos, com bilhões na conta, a vida tinha perdido a cor. Era tudo previsível. Tudo comprável.
Foi então que a linha privada na mesa tocou. A linha dos "clientes VIP".
Olhei com desprezo, mas o tédio é perigoso. Atendi.
— Quem é? — perguntei, impaciente.
— Hã... é da agência? — Uma voz feminina respondeu, à beira de um colapso. — Preciso de um homem. Agora. Para amanhã.
Arqueei uma sobrancelha. Não havia sedução naquela voz. Havia pânico.
— Um homem — repeti, testando o absurdo. — Tem ideia de que horas são?
— Eu não me importo! — Ela gritou. Ninguém gritava comigo desde que eu tinha cinco anos. — Tenho dinheiro. Cartão de crédito. Preciso de alguém que pareça dono do mundo. Que faça meu ex-noivo parecer um manobrista. Alto, bonito e que saiba usar terno. Pago o dobro se ele for convincente.
Um sorriso lento se formou no meu rosto. Dono do mundo. Fazer o ex parecer um manobrista. Aquela mulher não queria um acompanhante. Queria uma arma nuclear para explodir o ego de alguém. Pela primeira vez em meses, achei divertido.
— O dobro? — perguntei, sentindo o gosto da ironia. — Quer alguém pra fingir ser dono do mundo?
— Exatamente.
Olhei meu reflexo na janela. Terno Armani, relógio Patek Philippe. Eu não precisava fingir.
— Interessante... — murmurei. — Esteja no lobby do Hotel Plaza em uma hora. Não se atrase. Odeio atrasos.
Desliguei. Peguei as chaves do Rolls-Royce que Ethan deixava na garagem. Eu não ia mandar um funcionário. Eu mesmo iria. Queria ver a cara da mulher que teve a audácia de gritar comigo.
***
Uma hora depois, entrei no lobby do Plaza.
Ela era a única coisa autêntica naquele mar de fingimento. Parada perto de uma coluna, usava um vestido preto um número menor do que deveria e segurava a bolsa como um escudo. Era linda de uma forma bagunçada. Cabelos castanhos rebeldes, olhos grandes e alertas, e uma boca entreaberta em choque ao me ver.
Ela veio tropeçando nos saltos.
— Você está atrasado trinta segundos — disparou.
Quase ri. A audácia não tinha limites. Antes que eu respondesse, ela enfiou um envelope amassado no bolso do meu paletó.
— Aqui. Metade agora, metade depois.
Toquei o envelope fino. O "dobro" que ela prometeu não pagaria nem meu charuto matinal. Mas aquilo tornou tudo fascinante. Ela achava que podia me comprar com trocados.
— As regras — ela continuou, nervosa. — Seu nome será Ethan. Só fale se falarem com você. Sem toques excessivos. E sem beijo na boca.
Aproximei-me, invadindo o espaço dela. O cheiro de perfume barato e ansiedade era inebriante.
— Primeiro, meu nome é Nick — corrigi, decidindo jogar com as minhas cartas. — Segundo, se quer que acreditem que um homem como eu está com uma mulher como você, faremos do meu jeito.
Vi as pupilas dela dilatarem. Medo? Excitação? Os dois. Inclinei-me para o ouvido dela.
— E terceiro... eu beijo quando eu quiser.
Afastei-me antes que ela rebatesse e sinalizei para o motorista. Entramos no carro. O isolamento acústico nos separou do mundo. Ela relaxou no banco de couro, soltando um suspiro trêmulo, crente de que tinha contratado o melhor profissional da cidade.
— Ok, "Nick" — disse ela, tentando recuperar a pose. — A produção é impecável. Mas sério, quando encontrarmos o Jeffrey, tenta parecer mais... apaixonado. E menos homicida.
Ignorei, checando mensagens no celular. Ela tirou mais dinheiro da bolsa. Um bolo de notas tristes e amassadas.
— Aqui está o resto. Prefiro pagar tudo agora.
Olhei para aquele dinheiro. Aquilo só podia ser o aluguel dela. Ela estava me dando tudo para salvar a própria honra.
— Guarde seus trocados, Katherine — disse eu, rindo do absurdo.
— Como assim? É o contrato.
— Você não tem dinheiro suficiente para pagar nem pela gasolina até o restaurante — respondi, inclinando-me para ela, apreciando o terror em seus olhos. — Mas sabe de uma coisa? Eu estava terrivelmente entediado hoje. E ver você mentir na cara do seu ex parece fascinante.
Apertei o botão do intercomunicador.
— James, leve-nos ao restaurante.
Ela se encolheu, segurando o dinheiro como salvação, achando que eu era um acompanhante caro e perigoso. Mal sabia que a realidade era pior: ela acabava de virar o brinquedo favorito de um homem sem limites. E eu pretendia brincar muito naquela noite.
CHLOE A mala ocupava o centro da cama outra vez, embora naquela manhã estivesse aberta por uma razão muito diferente da que a deixou escondida durante meses no fundo do armário. As roupas entravam dobradas com calma, escolhidas entre as peças que Chloe levara para passar uma semana no apartamento e algumas que ainda permaneciam ali desde antes do casamento. O sexto dia começou com uma certeza simples. A experiência já tinha produzido a resposta que ela procurava, e continuar longe apenas para cumprir os sete dias planejados transformaria uma decisão emocional em calendário. Durante aquela semana, o apartamento cumpriu uma função importante. Chloe acordou sozinha, voltou da HelioGrid sem encontrar Ethan na cozinha, assistiu a filmes com Mia, dormiu na cama estreita do antigo quarto e retomou pequenas rotinas que existiram muito antes da mansão. Esperava que aquele espaço devolvesse algum senso automático de identidade, como se as paredes, os móveis e os objetos pudessem reconectá-la
ETHAN A mala aberta sobre a cama ocupava pouco espaço no quarto e, ainda assim, conseguiu trazer de volta uma noite que Ethan lembrava com detalhes demais. A marca lateral continuava no mesmo lugar, a etiqueta antiga permanecia presa à alça e algumas roupas tinham sido afastadas para que Chloe pudesse encontrá-la no fundo do armário. Ele não precisava perguntar o que tinha acontecido. A expressão dela, a posição do objeto e a tensão que encontrou assim que entrou no apartamento deixavam claro qual fragmento tinha voltado. Por alguns segundos, ficou perto da porta, sentindo a mesma pressão no peito que experimentou quando a viu arrumar aquela mala pela primeira vez, meses antes, depois da publicação da matéria de Rebecca Sloan. Naquela ocasião, Chloe estava humilhada, furiosa e exausta. A reportagem transformou mentiras, omissões e circunstâncias reais numa narrativa em que ela aparecia como uma oportunista que seduziu um homem rico, conseguiu emprego por influência e usou um casamen
CHLOE O armário antigo ocupava quase toda a parede do quarto e guardava mais coisas do que Chloe imaginou quando decidiu passar alguns dias no apartamento. Mia tinha dito pela manhã que talvez ainda existisse ali uma pasta com anotações sobre a certificação profissional que ela pretendia retomar, e a busca parecia simples até que roupas antigas, caixas de documentos e objetos esquecidos começaram a aparecer nas prateleiras superiores. Depois de quase meia hora, Chloe já tinha colocado metade do conteúdo sobre a cama e começava a desconfiar de que a organização anterior ao acidente era muito menos eficiente do que gostaria de acreditar. Ainda assim, continuou procurando, interessada em qualquer registro que ajudasse a reconstruir planos profissionais sem depender das informações fornecidas por outras pessoas. A noite anterior continuava aparecendo em pequenos intervalos enquanto ela mexia nas caixas. Ethan tinha entrado naquele apartamento pela primeira vez como convidado, transado c
ETHAN A terceira noite de encontros terminou diante do mesmo prédio, com o carro estacionado junto à calçada e a luz da portaria acesa poucos metros à frente. Durante os últimos dias, aquele endereço passou a representar uma espécie de limite físico que nenhum contrato, casamento ou intimidade anterior lhe concedia o direito de atravessar. Chloe aceitava jantar, passear, conversar durante horas e beijá-lo até tornar difícil lembrar qualquer intenção de autocontrole. Depois abria a porta do carro, entrava sozinha no edifício e deixava Ethan voltar para uma mansão onde o quarto parecia grande demais. O processo estava funcionando exatamente como ela queria, e ele começava a considerar a experiência uma forma sofisticada de tortura. Naquela noite, tinham jantado num restaurante pequeno escolhido por ela e caminhado durante quase uma hora antes de voltar ao carro. A conversa fora leve, distante de contrato, acidente, lembranças ou decisões sobre o futuro. Chloe contou um problema ocorri
CHLOE O despertador tocou às seis e quarenta, e uma mão atravessou o colchão antes que o corpo acompanhasse o movimento. Os dedos encontraram apenas o lençol frio, e a consciência levou alguns segundos para alcançar o gesto automático. O quarto pequeno voltou a existir ao redor da cama, com a cortina clara, a cômoda antiga e o ruído abafado dos carros na rua. Durante aquelas primeiras horas no apartamento, tudo pareceu familiar de um jeito prático, suficiente para que Chloe soubesse onde encontrar uma toalha ou qual janela emperrava. A intimidade emocional que esperava sentir com o lugar ainda não apareceu. Naquela manhã, descobriu outra coisa: acordara procurando Ethan antes mesmo de lembrar que escolhera ficar longe dele. Ela permaneceu deitada por alguns minutos, olhando para o espaço onde a mão continuava pousada. Na mansão, algumas noites terminavam no quarto dele e outras no seu, embora nas últimas semanas a frequência tivesse aumentado. Chloe se acostumou ao calor do corpo pe
ETHAN O relógio do painel marcava sete e vinte e três quando o carro parou diante do prédio de Chloe. A reserva era para oito, e o trajeto até o restaurante levaria menos de vinte minutos. Havia tempo suficiente para esperar, ainda que a ideia de permanecer dentro do carro diante de um edifício onde sua esposa estava se arrumando irritasse Ethan de uma forma difícil de justificar. Durante meses, bastava sair do escritório, atravessar a mansão e encontrá-la. Agora ele precisava estacionar na rua, mandar uma mensagem e aguardar como qualquer homem que buscava uma mulher para um encontro. Ele pegou o celular, abriu a conversa e digitou que tinha chegado. A resposta apareceu pouco depois, informando que Chloe ainda levaria alguns minutos. Ethan olhou para a entrada do prédio, depois para a tela, e decidiu que sete e vinte e três talvez tivesse sido cedo demais. A conclusão durou pouco. Chegar no horário previsto continuava parecendo mais razoável do que circular pelo quarteirão para fi







