LOGINNaquela manhã, Helena teve a sensação de que sua vida havia mudado antes mesmo de sair de casa.Não havia acontecido nada de extraordinário.Nenhuma ligação inesperada.Nenhuma notícia.Nenhuma descoberta.Ainda assim, tudo parecia diferente.Talvez porque, pela primeira vez em seis anos, ela havia acordado sabendo que seu filho estava vivo.Miguel.Ela repetiu o nome em pensamento enquanto terminava de se arrumar.Era estranho pensar que aquele menino existia em algum lugar do mundo.Um menino que tinha os seus olhos.Ou talvez os olhos de Dante.Um menino que tinha crescido sem saber que ela passava todas as noites imaginando como teria sido segurá-lo nos braços.Helena respirou fundo diante do espelho.— Eu vou encontrar você.Disse aquilo baixinho.Como uma promessa.Quando saiu do quarto, encontrou Dante encostado na parede do corredor.Ele estava segurando uma pasta cheia de documentos.— Você está pronta?Helena assentiu.— Acho que sim.Dante a observou por alguns segundos.—
Enzo estava sentado sozinho na sala quando Ethan entrou.Os dois se olharam.Nenhum deles disse nada.Durante anos, aquele silêncio havia sido comum entre os irmãos.Mas agora parecia diferente.Mais pesado.Ethan se aproximou e sentou-se na poltrona em frente.— Você está bem?Enzo soltou uma risada sem humor.— Essa pergunta já está ficando irritante.— Então responde de outra forma.Enzo olhou para ele.— Não. Não estou bem.Ethan assentiu.— Eu também não.Enzo ficou alguns segundos em silêncio.— Você me odeia?Ethan pareceu surpreso.— O quê?— Você ouviu.— Não.— Depois de tudo?Ethan respirou fundo.— Eu fiquei com raiva de você.Enzo abaixou os olhos.— É diferente?— Muito.Ethan apoiou os braços nos joelhos.— Eu passei anos acreditando que você tinha seguido em frente. Que tinha construído uma vida perfeita enquanto eu...Ele parou.— Enquanto você estava morto?Ethan sorriu de canto.— É.Enzo ficou sério.— Eu achei que você tinha morrido.— Eu sei.— Eu fui ao seu fune
Helena permaneceu alguns segundos em silêncio depois que Isabella foi embora. A fotografia ainda estava em suas mãos. Miguel. O nome parecia pequeno demais para carregar tudo aquilo. Seis anos. Seis anos em que Helena acreditou que seu filho havia morrido. Seis anos tentando sobreviver a uma dor que, naquele momento, descobria que nunca deveria ter existido. Ela passou o polegar delicadamente sobre a fotografia. — Meu filho... — sussurrou. A voz saiu quebrada. Dante estava parado diante dela, observando-a. Ele queria dizer alguma coisa, qualquer coisa que pudesse diminuir aquela dor. Mas sabia que não existiam palavras suficientes. Aproximou-se devagar. — Helena... Ela levantou os olhos. — Você sabia. Não era uma pergunta. Dante respirou fundo. — Eu suspeitava. — Há quanto tempo? — Não faz tanto tempo quanto você imagina. Helena desviou o olhar. — Por que não me contou? Dante sentou-se ao lado dela. — Porque eu não tinha certeza. E eu não queria colocar uma esp
Helena não conseguiu falar.As palavras de Isabella permaneciam no ar.“Essa é a parte que eu nunca tive coragem de contar.”Helena sentiu o coração bater contra o peito.— Então conta agora.Isabella baixou os olhos.— Naquela noite, depois que contei para Enzo que você estava grávida, ele foi atrás de você.Helena franziu a testa.— Eu não me lembro disso.— Eu sei.— O que aconteceu?Isabella respirou fundo.— Enzo encontrou você no estacionamento.Uma lembrança surgiu na mente de Helena.Luzes fortes.O barulho da chuva.Enzo discutindo com alguém.Ela segurando a própria barriga.— Eu estava com medo? — perguntou.— Muito.— E Dante?— Ele apareceu depois.Helena fechou os olhos.A lembrança voltou em pequenos pedaços.Dante correndo em sua direção.A voz dele dizendo seu nome.As mãos dele segurando seus ombros.E depois...Um carro.Uma buzina.Um impacto.Helena abriu os olhos assustada.— Houve um acidente.Isabella assentiu.— Sim.— Eu estava no carro?— Não.Helena respiro
Helena continuou segurando a mão de Dante.Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.Era estranho.Depois de tantos anos, depois de tantas coisas mal resolvidas, eles finalmente estavam sentados frente a frente, sem precisar fingir que não sentiam nada.Dante passou o polegar lentamente sobre a mão dela.— Você está tremendo.Helena soltou uma risada baixa.— Você também.Ele sorriu.— Talvez eu esteja mais nervoso que você.— Impossível.— Helena...— Sim?Dante ficou olhando para ela.— Eu esperei muito por isso.O sorriso dela desapareceu.— Eu também.Ele se inclinou um pouco sobre a mesa.— Mas eu não quero que você tome nenhuma decisão por causa da culpa, da saudade ou do que aconteceu no passado.— E se eu estiver tomando porque ainda amo você?Dante não respondeu imediatamente.— Então eu vou ficar.Helena sentiu os olhos marejarem.— Você promete?— Prometo.Dessa vez, não houve interrupção.Nenhuma mensagem.Nenhum telefonema.Nenhuma porta se abrindo.Apenas os dois.E, p
Helena passou os dedos pela tela do celular.A mensagem de Dante continuava ali.“Precisamos conversar sobre aquela noite.”Ela sabia exatamente qual noite ele estava falando.Ou, pelo menos, achava que sabia.O problema era que sua memória parecia uma fotografia rasgada. Algumas partes estavam claras demais, enquanto outras simplesmente não existiam.E quanto mais ela tentava lembrar, mais sua cabeça doía.Sentou-se na cama.Fechou os olhos.Dante.A chuva.A varanda.As mãos dele segurando as suas.E aquela frase.“Se você realmente quiser ficar comigo, eu vou assumir tudo.”Helena abriu os olhos de repente.— Meu Deus...Ela levou a mão à boca.Por que nunca havia se lembrado disso?Pegou o celular e ligou para Dante.Ele atendeu no segundo toque.— Helena?Ela não conseguiu responder imediatamente.Só ouvir a voz dele já fez seu peito apertar.— Você falou sobre aquela noite.Do outro lado, silêncio.— Sim.— Por quê?Dante respirou fundo.— Porque acho que você está começando a l







