MasukA manhã seguinte chegou sem anúncios. A luz cinzenta da madrugada filtrava pelas frestas das cortinas pesadas quando Isabella abriu os olhos. O quarto ainda cheirava a sono e a proteção — o leve aroma de sabão no corpo de Alessandro, o residual do perfume que ela mesma usava, o calor preso entre os lençóis. Alessandro ainda dormia ao lado dela — ou fingia dormir. Uma das mãos dele permanecia espalmada sobre a barriga, o polegar solto, o corpo virado na direção dela como se, mesmo inconsciente, recusasse qualquer distância. O menino chutou de leve, um movimento preguiçoso e quente sob a palma, e Isabella cobriu a mão do pai com a sua. Os dedos se entrelaçaram sobre a curva. O anel de família Vitale e o solitário brilharam juntos na penumbra.Não perguntou sobre a noite anterior. Não precisava. A forma como Alessandro subira as escadas, a forma como lavara as mãos no lavabo do corredor antes de entrar no quarto, a forma como dissera “resolveu” com a voz rouca demais… tudo isso já contav
O homem que ousou abrir a porta para Maria Rossi foi levado pouco depois do anoitecer. Não houve gritos no pátio. Não houve espetáculo. Apenas dois capos o conduziram pelos corredores laterais da mansão, longe dos aposentos de Isabella, longe do quarto do bebê, longe de qualquer olhar que não precisasse ver. As mãos do traidor estavam presas atrás das costas com uma gravata de plástico. Ele tropeçava de vez em quando, os sapatos arrastando no chão de pedra. Ninguém falava. O único som era o eco irregular dos passos e a respiração curta demais do homem que, horas antes, aceitara um envelope grosso em troca de cinco minutos de distração. A sala isolada ficava no subsolo antigo da propriedade — um cômodo de paredes de pedra grossa, piso frio e úmido, uma única lâmpada pendurada no centro por um fio desencapado e nenhuma janela. O cheiro era de umidade, de ferro antigo e de algo que nunca era completamente lavado. Era o tipo de lugar que a família Vitale usava quando a conversa precisava
Isabella ainda estava de pé no meio da biblioteca quando os passos no corredor se aproximaram com pressa.A porta se abriu sem batida. Alessandro entrou primeiro, a expressão já fechada, o corpo em tensão total, Enzo logo atrás. O olhar cinzento varreu a sala em segundos — a poltrona deslocada, o casaco escuro que Maria esquecera caído perto da porta, o rosto pálido de Isabella, a mão ainda firmemente pressionada contra a barriga. Algo no ar denunciava o que acabara de acontecer antes mesmo de qualquer palavra. O perfume antigo ainda pairava, leve e invasivo, misturado ao cheiro de livros e madeira.— O que foi? — a voz dele saiu baixa, controlada, mas o corpo já estava em alerta absoluto. — Os homens da entrada reportaram uma irregularidade na portaria. Um dos novos. Dinheiro. Eu quero saber quem entrou. Agora.Isabella soltou o ar que não sabia que segurava. O peito subiu e desceu rápido demais. O menino chutou sob a palma, inquieto, como se a adrenalina da mãe o alcançasse.— A min
Alguns dias se passaram desde a noite em que Alessandro confessara a visita de Donatella a Chiara.A mansão continuava em estado de alerta elevado. O perímetro externo permanecia dobrado. A escuta no apartamento de Brooklyn Heights já estava ativa, embora ainda não tivesse captado nada além de silêncios longos e passos isolados. Isabella dormia com a mão de Alessandro sobre a barriga todas as noites, mas o sono vinha leve, interrompido por chutes do menino e por sonhos em que o sorriso de Donatella se misturava ao rosto de Lorenzo. Durante o dia, ela se ocupava do quarto do bebê — ajeitando mantas, reorganizando gavetas, deixando Sofia ajudá-la com o mobile —, tentando construir alguma normalidade sobre a rachadura que a ameaça interna abrira.Foi numa tarde cinzenta, enquanto revisava a lista de enxoval na biblioteca, que o impossível aconteceu.A porta se abriu sem o peso usual de hostilidade ou de anúncio. Maria Rossi apareceu no umbral.Isabella sentiu o chão oscilar sob os pés.A
No quarto, a porta se fechou com um clique suave. O som ecoou mais alto do que deveria no silêncio que se seguiu ao jantar. Alessandro tirou a camisa social com movimentos mecânicos, ficou apenas com a camiseta escura, e deitou ao lado dela. O colchão afundou sob o peso dele. Sem pedir permissão, puxou Isabella para perto, o braço envolvendo o corpo dela com uma firmeza que não admitia distância, a mão grande se acomodando sobre a barriga. O menino chutou sob a palma, um golpe firme e deliberado, como se reconhecesse o toque. Alessandro deixou a mão quieta ali, sentindo, o polegar começando a desenhar círculos lentos, quase inconscientes, o mesmo gesto que repetia todas as noites desde que o ultrassom confirmara o sexo.Isabella ficou em silêncio por um tempo. O calor do corpo dele a envolvia, o cheiro de sabão e de pele familiar preenchia o espaço entre os dois. A respiração dele era constante contra o alto da cabeça dela. Mas a tensão do jantar ainda queimava sob a pele. As farpas d
As horas passaram rapidamente desde o confronto entre Alessandro e Donatella.Desde então, ele não viu Isabella. Não por falta de vontade, mas por cálculo. Se ela o olhasse nos olhos naquele momento, perceberia que algo havia acontecido — algo pesado o suficiente para deixar marcas no rosto e na voz. E isso era exatamente o que ele não desejava. Donatella mentira com a mesma tranquilidade de sempre. Chiara fora visitada. O dispositivo no carro confirmara o endereço e o tempo. E agora o jantar se aproximava como um campo minado que ninguém poderia evitar.Alessandro passou a tarde no escritório, revisando relatórios que não conseguia concentrar-se o suficiente para entender. Enzo entrava e saía com atualizações curtas: nenhuma movimentação nova no acostamento, nenhuma ligação suspeita nos números monitorados, nenhuma saída adicional de Donatella. Ainda assim, a certeza permanecia. A conversa em Brooklyn Heights não fora inocente. E Donatella, pela primeira vez em anos, mentira para o r







