LOGINO silêncio no carro de volta foi diferente do silêncio que os acompanhara até o píer. Não havia mais a vulnerabilidade aberta das memórias da mãe de Alessandro, nem o peso suave das promessas murmuradas sobre a água. Agora havia apenas o cansaço residual da madrugada, o cheiro de rio ainda impregnado nas roupas e a sensação de que o mundo lá fora — o mundo de sangue e de sobrenomes — já começava a reclamar o espaço que eles tinham roubado por algumas horas. Isabella mantinha a cabeça apoiada no ombro dele, uma mão sobre a barriga, o anel solitário frio contra a pele. Alessandro dirigia com a mandíbula travada, os olhos cinzentos fixos na estrada, como se cada quilômetro de volta à mansão o obrigasse a reassumir a pele de Don.Quando os portões de ferro se abriram e o carro atravessou o pátio interno, a mansão parecia mais sombria sob a luz cinzenta da manhã. Homens armados trocavam olhares discretos. Enzo esperava no topo da escadaria de pedra, o rosto fechado de um jeito que Isabella
Já estava amanhecendo quando eles saíram do Bianchi. A cidade ainda dormia sob uma luz cinza-azulada que se espalhava lentamente entre os prédios. O ar frio da madrugada entrava pelas janelas entreabertas do carro blindado, trazendo o cheiro distante de asfalto molhado e rio. Isabella vestia o casaco pesado de Alessandro por cima do vestido de seda preta, o tecido fino ainda carregando o calor residual do corpo dele e o perfume das velas do restaurante. O colar de diamantes descansava frio contra a pele do pescoço; o anel solitário brilhava cada vez que a mão dela se movia sobre a barriga. O corpo doía de um jeito doce e profundo — uma dor boa, de músculos usados, de beijos que tinham demorado demais, de um prazer que ainda latejava entre as pernas. Alessandro dirigia em silêncio, uma mão firme no volante, a outra repousada sobre a coxa dela, o polegar desenhando círculos lentos e distraídos. A cicatriz abaixo da clavícula puxava levemente quando ele girava o volante, mas ele não se q
O jantar foi servido por um único garçom discreto que aparecia e desaparecia como sombra. Risotto de funghi porcini com trufa. Filé ao molho de vinho tinto envelhecido. Uma sobremesa de chocolate amargo e framboesa que Isabella quase não tocou porque os olhares entre eles pesavam mais que a fome. Beberam vinho tinto em goles lentos — ela apenas um pouco, o suficiente para aquecer o peito e soltar os nervos. Alessandro observava cada movimento dela como se quisesse gravar. O salão vazio amplificava cada som: o tilintar das taças, o farfalhar da seda do vestido, a respiração compartilhada. — Eu não lembro da última vez em que sentei em um restaurante sem que alguém estivesse armado atrás de mim — disse Isabella, girando a taça entre os dedos. O anel solitário capturava a luz das velas. — Eu também não — admitiu Alessandro. — Mas eu queria isso para você. Uma noite em que a guerra ficasse do lado de fora. Em que você fosse só Isabella. Não a Rossi. Não a mulher do Don. Só você. — E vo
No dia seguinte, Alessandro acordou antes do amanhecer. A cicatriz abaixo da clavícula ainda puxava quando ele se levantava rápido demais, mas a dor já não comandava o corpo. O que incomodava era outro tipo de peso. O celular novo que Sofia dera a Isabella. A forma simples e genuína como a irmã pensara no básico — algo só dela, sem ordem, sem proteção armada, apenas um presente. Alessandro passara a noite revirando isso na cabeça. Ele controlava rotas, congelava contas, queimava depósitos e mantinha Isabella viva. Mas não tinha pensado em lhe dar algo que fosse apenas belo. Apenas dela. Ao meio-dia, a decisão estava tomada. Ele chamou Enzo. — Fecha o Bianchi esta noite. O restaurante inteiro. Só nós dois. Segurança no perímetro, mas ninguém dentro depois das oito. Quero o melhor vinho da adega, a mesa central, luz baixa e silêncio. E manda a estilista, a cabeleireira e a maquiadora para o quarto de Isabella às cinco. Tudo discreto. Enzo apenas assentiu. Ordens do Don não se discut
O carro preto parou com um solavanco seco a poucos metros do grupo. Alessandro desceu antes mesmo do motorista apagar o motor. A expressão no rosto dele era a mesma de sempre quando algo saía do controle: mandíbula travada, olhos cinzentos varrendo a rua com precisão fria, o corpo tenso sob a camisa preta. A cicatriz abaixo da clavícula ainda puxava levemente quando ele se movia rápido demais, mas a dor agora era secundária. O que importava estava a poucos passos de distância. Isabella o viu e sentiu as pernas fraquejarem de alívio. As sacolas de roupas de maternidade escorregaram dos dedos e caíram no chão com um som abafado. Ela não pensou. Não esperou. Atravessou a pequena distância que os separava e se jogou nos braços dele, o corpo inteiro pressionando o dele, os braços se fechando ao redor do tronco com uma força que quase doía. O rosto enterrou-se no peito firme. O cheiro dele — cologne, sabonete e um leve residual de antisséptico — a envolveu de uma vez. Alessandro retribuí
Exatamente um mês se passou desde o dia em que a bala foi extraída e a febre quebrou. Alessandro caminhava pelo corredor do segundo andar com a postura firme de sempre. A cicatriz abaixo da clavícula ainda era vermelha e sensível, mas a dor constante dera lugar a um incômodo suportável. Os médicos tinham declarado que a recuperação estava dentro do esperado. Ele já voltara a treinar leve, a assinar ordens e a controlar a guerra contra os Rossi à distância. O corpo respondera. A mente, também. Isabella, no entanto, enfrentava outro tipo de guerra. A barriga crescera de forma evidente. As roupas que antes serviam agora apertavam de um jeito desconfortável. Blusas que antes caíam soltas agora marcavam a curva. Calças não fechavam. Até os vestidos mais largos da casa pareciam curtos demais ou justos demais. Naquela manhã, ela estava diante do espelho do quarto, tentando puxar para baixo a barra de uma camisa de Alessandro que já não cobria completamente a barriga. Sofia apareceu na por







