LOGINO silêncio que se instalou no corredor era tão denso que quase dava para ouvir o som das nossas respirações cortando a penumbra.No segundo em que os olhos de Amanda se cravaram nos meus, a rigidez do corpo dela pareceu se desfazer em um sobressalto quase imperceptível. O olhar sério e a postura firme que ela mantinha até um segundo atrás evaporaram, dando lugar, em uma fração de segundo, ao mesmo sorriso suave, doce e acolhedor de sempre. Uma transição tão rápida e perfeita que me causou um arrepio incômodo na espinha.— Beatriz! — ela exclamou, a voz subindo um tom, cheia de uma cordialidade quase exagerada enquanto dava dois passos na minha direção. — Meu Deus, você chegou! Eu não ouvi o barulho do carro na garagem...Parei a poucos metros de distância, mantendo a minha mala pequena presa em uma das mãos e o corpo em alerta total.— Desculpe interromper — falei devagar, a minha voz saindo fria, contida. — A porta da frente estava destravada, então só subi.— Imagina, você não inter
A brisa gelada da montanha continuava a soprar entre as alamedas do cemitério, mas o frio já não parecia mais tão insuportável. A presença do meu tio, a firmeza da sua mão segurando a minha e o calor daquele abraço tinham conseguido, ao menos por alguns instantes, estancar o sangramento da minha alma. — Você precisa ir agora, não é, minha estrela? — Henrique perguntou, a voz suave quebrando o silêncio da manhã. Ele olhou para o Porsche parado no acostamento da estrada e depois voltou os olhos para mim, cheios de uma preocupação paternal. — Eu preciso, tio — engoli a saliva seca na garganta, sentindo o peso da realidade voltar a esmagar o meu peito. — O advogado da família disse que se eu quebrar as regras da partilha ou sumir antes dos três dias, eles acionam uma cláusula de escândalo. A imprensa vai revirar o acidente de cinco anos atrás, os jornais vão pisar na memória do papai e a holding pode até intervir no tratamento que mantém a minha mãe viva. Eu não posso deixar isso acont
O ar prendeu no fundo da minha garganta, tão gélido que parecia rasgar as paredes do meu peito como uma lâmina. Meus pés, antes travados sobre o paralelepípedo úmido do cemitério, moveram-se em um impulso involuntário, quase mecânico. Dobrei os joelhos com hesitação extrema, sentindo a sola das minhas botas estalar fraco contra as folhas secas e o cascalho espalhados pela alameda. Cada passo que eu dava era lento, desconfiado, acompanhado pelo som ensurdecedor do meu próprio coração batendo desordenado contra as minhas costelas. Quem era aquele homem? O que ele fazia ali, de pé diante da lápide do meu pai, em uma manhã cinzenta e morta de quinta-feira, no meio do nada? A figura alta deu um pequeno passo de lado, ajustando a gola do sobretudo escuro que parecia pesado demais para o corpo. O vento frio da montanha soprou mais forte pela encosta, balançando os ramos dos lírios brancos colocados com cuidado sobre a pedra fria de mármore. Ninguém visitava aquele jazigo. Ninguém além de
A mensagem de Amanda continuava queimando na tela do painel do carro, brilhando como uma acusação pública no meio da penumbra da cabine."Eu descobri tudo."As minhas mãos travaram no volante com tanta força que senti as articulações dos dedos estalarem. O ar sumiu do meu peito de uma vez só, substituído por um pânico violento e descontrolado que fez a minha visão turvar. As curvas da serra começaram a borrar diante dos meus olhos enquanto o Porsche continuava em movimento automático pela estrada molhada.Meu Deus. Ela sabe.A minha cabeça virou um turbilhão caótico de pensamentos. A imagem da minha mãe no quarto de cima, olhando para mim com aquele desgosto gélido, veio de encontro à minha mente como uma lâmina. Eu era um veneno. Uma força destrutiva na vida de qualquer pessoa que cometesse o erro de se aproximar de mim. Destruí a saúde da minha mãe, matei o meu pai de desgosto, arruinei a juventude de Cassius... e agora, como uma praga, eu estava destruindo a vida de uma mulher inoc
A luz cinzenta e gélida da manhã entrou sem pedir licença pelas frestas das janelas de madeira, cortando a penumbra da sala.Acordei com o corpo totalmente travado sobre o chão de tábua corrida. Minha pele estava congelada, e as minhas roupas, ainda úmidas da tempestade da noite anterior, colavam ao meu corpo como um abraço morto, pesado. Fiquei imóvel por longos minutos, encarando as vigas do teto cobertas por teias de aranha e poeira acumulada, sentindo um vazio tão absoluto no peito que até o ato de puxar o ar parecia doer.A dor aguda e desesperada da madrugada — aquela que me fez chorar até perder o fôlego — dera lugar a uma apatia física profunda. Uma anestesia amarga e perigosa.Eu sacrificara cinco anos da minha juventude. Cinco anos de humilhações silenciosas, de um casamento forçado com Augusto Vance, de noites em claro me corroendo por um amor interrompido e destruído com Cassius... tudo por uma ilusão grotesca. Tudo para manter viva e protegida uma mulher que passou cada s
Encolhida sobre o chão frio da sala de estar, ouvindo a chuva bater sem trégua contra as vidraças e o vento uivar forte na mata ao redor da casa, fechei os olhos. A dor no meu peito não era metafórica; era um peso físico, uma falta de ar tão violenta que parecia rasgar os meus pulmões a cada respiração vacilante. As palavras cruéis da minha mãe ainda flutuavam no ar do andar de cima, mas, conforme a exaustão me dominava, o barulho da tempestade lá fora começou a se distorcer, dando lugar ao som de uma garoa antiga.Uma garoa de cinco anos atrás.---O visor do meu celular acendeu sobre a mesa de cabeceira, cortando a escuridão do meu quarto de solteira que continha as paredes cheias de pôsteres das minhas bandas de rock favorita. O relógio marcava três e doze da manhã.Puxei o aparelho devagar, me sentando na cama com o coração batendo na garganta para não fazer ruído e acordar os meus pais no quarto ao lado. O brilho da tela iluminava o nome que sempre fazia o meu estômago dar um nó







