LOGINHakin toca minhas costas e faz uma leve pressão para que sigamos em direção à saída. Tento manter o rosto sereno enquanto passamos pelos familiares, mas ainda sinto os olhos de todos sobre mim.Nesta hora, o telefone começa a tocar.Zenaide atende, mas Hakin continua sua difícil caminhada. Ele manca muito e não parece curioso para saber quem está ligando.—Senhor Osman.Paramos.Hakin vira levemente o rosto, e eu também encaro a empregada.—É a irmã de Hanna —ela diz, piscando—, quer dizer, Aysha.Hanna me ligou?Allah!Claro!Deixei minha bolsa com meus documentos e meu celular com ela. Por isso, minha irmã me ligou para aquele telefone.Com certeza, se arrependeu quando leu o jornal. Agora quer encontrar uma brecha para trocar de lugar comigo novamente. Talvez pense que Hakin ainda não contou nada à família e que conseguirá convencê-lo a aceitá-la de volta.Hakin sorri de um jeito perverso.Seus olhos adquirem um brilho de satisfação. Ele olha para mim e, em seguida, para a empregad
Sua mão treme, e o tecido se movimenta rapidamente diante de seu rosto. O choque parece grande demais para ela assimilar.—Zenaide, traz um copo de água com açúcar —Kalil, o irmão de Hakin, diz, correndo para acudir Jamile.O primo de Hakin blasfema alto.Allah, imagine como ficaria a festa se minha irmã tivesse fugido mesmo!A notícia teria se espalhado entre os convidados antes que alguém pudesse impedir. A família Osman seria exposta diante de todos, e a cerimônia que deveria representar a união entre duas famílias se transformaria em um escândalo.Também consigo perceber, pela atitude de Jamile ao mostrar o jornal a Hakin, o quanto ela valoriza a imagem da família perante a sociedade.—Que confusão! —a ami de Hakin diz, escondendo o rosto entre as mãos.Ela começa a chorar.O som de seu choro faz meu peito apertar. Mesmo sabendo que não fui responsável pelo abandono de Hanna, sinto-me culpada por toda aquela situação. Afinal, estou sentada ao lado de Hakin usando o nome, as roupas
Ela se levanta sorridente e pega o jornal que está em um cantinho da mesa. Sua expressão demonstra satisfação, como se tivesse encontrado uma notícia importante para compartilhar.Aproxima-se de Hakin e estende o jornal.Hakin pega o jornal e começa a ler.Seus olhos percorrem as linhas. Aos poucos, seu rosto perde o sorriso, e ele solta o ar. Depois, passa o jornal para mim.Seguro as páginas.A primeira imagem que vejo é a fotografia do horroroso acidente de Hakin. O carro aparece parcialmente esmagado, deformado pelo impacto. A lataria está destruída, e a cena é tão terrível que parece impossível que alguém tenha saído vivo dali.Sinto um arrepio.Ainda me lembro da primeira vez em que o vi depois do acidente. Lembro-me do corpo ferido, das marcas na pele e da fragilidade que ele tentava esconder.Abaixo da imagem do acidente está a fotografia do casamento.Minha irmã aparece muito séria ao lado de um Hakin sorridente. A imagem me causa uma sensação estranha. Hanna está usando o ve
Aysha Saímos do quarto. O corredor é tão largo quanto o de um hotel. Agora, com a claridade da manhã, consigo reparar melhor nos detalhes da mansão. Durante a noite, tudo estava envolvido por sombras, luzes suaves e pelo movimento constante dos convidados. Sob a luz do dia, porém, o lugar parece ainda mais impressionante. A mansão é magnífica. As paredes são todas em tons pastéis, decoradas com molduras douradas que percorrem o corredor. Há diversos quadros de pintores famosos, cuidadosamente posicionados, como se cada espaço tivesse sido planejado para exibir uma obra de arte. Lindos aparadores em tom de ouro envelhecido ocupam as laterais. Sobre eles, vasos enormes, brancos e azuis, exibem flores do campo de diversas espécies e cores. As flores estão bem-arrumadas, mas parecem naturais, como se tivessem sido colhidas naquela manhã. Caminho ao lado de Hakin, segurando sua mão. Ele usa a bengala, mas não permite que sua dificuldade o faça andar curvado. Mantém a postura e
Assinto para Hakin e vou até a porta.Ainda estou tentando assimilar tudo o que ele disse. A acusação de que minha atitude me algemou a um árabe continua ecoando dentro de mim, misturando-se à irritação que sinto sempre que ele transforma nosso casamento em uma espécie de acordo.Abro a porta.Uma senhora de aparência bondosa sorri para mim e se inclina levemente. Eu me lembro dela. É a mesma mulher que nos recebeu naquele dia, quando chegamos à mansão para o almoço.—Salaam Aleikum —ela diz.—Aalaikum As-Salaam —respondo.A empregada ergue uma das mãos, mostrando o tubo do remédio.—O senhor Osman pediu o analgésico.—Sim, é verdade. Shukran.Ela então me estende o tubo e a bengala.Fico olhando para os dois objetos, surpresa com a rapidez com que tudo foi providenciado.—Nossa! Aqui as coisas são providenciadas muito rápido.A senhora apenas sorri. Inclina-se novamente para mim e desaparece pelo corredor com passos silenciosos.Fecho a porta com o remédio e a bengala nas mãos. Ao vo
—Todos sabem que voltou a enxergar ou a farsa era só com a minha irmã?Percebo que a pergunta incomoda Hakin.Ele solta o ar com resignação, como se já estivesse cansado de explicar aquela situação.—Sim, todos sabem.Abre os olhos por um instante, mas volta a fechá-los quando a claridade o incomoda.—Quanto a Hanna, eu simplesmente não lhe dei a notícia de que recuperei minha visão. Como tenho que usar óculos escuros por causa da luz, que ainda me incomoda, sua irmã concluiu que eu ainda não enxergava.Ele faz uma pausa.—Então notei o quanto ela estava carrancuda, incomodada com a minha possível cegueira. Isso me incomodou, e então eu soltei as palavras: “Talvez eu não volte a enxergar. O que pensa sobre isso?”Sinto meu peito apertar.Hakin continua:—Ela olhou para mim e não me deu uma resposta. Então a festa se desenrolou e, na troca do vestido, você surgiu.A lembrança daquela noite retorna à minha mente. Lembro-me de Hanna arrumando a mala, das joias dentro do armário e da mane







