INICIAR SESIÓN~Andrew Collins~
Eu nunca acreditei em momentos capazes de mudar o rumo de uma vida inteira. Sempre achei isso uma ideia romantizada demais, quase ingênua. Até o dia em que conheci Rafaela. Nossos olhos se encontraram, e havia nela algo que não se explicava facilmente — linda, delicada e determinada, tudo na mesma proporção, como se equilíbrio fosse parte da sua natureza. Agora, meses depois, ela estava diante de mim, com Dominic nos braços — nosso afilhado, que veio ao mundo através das minhas mãos. Um pequeno milagre, aliás. Nós nos conhecemos por causa de Clara e Lorenzo Bianchi, pais de Dominic, quando aquele incêndio colocou Clara sob os meus cuidados. Depois da cerimônia, ao vê-la com o bebê nos braços, algo em mim despertou. Eu já tinha dividido espaço com outras mulheres antes, mas nunca pensei em permanência. Nunca senti essa necessidade quase incômoda de continuar. Com Rafaela, não era sobre companhia. Era sobre ausência. Sobre como tudo ficava estranhamente vazio quando ela não estava. Eu não sabia exatamente como dizer, mas precisava. A noite já havia caído no Joá. Caminhávamos pelos jardins da mansão de Lorenzo, o som do mar quebrando nas rochas logo abaixo, quando parei. — Vem morar comigo, Rafa. Eu a olhei ao dizer isso e vi, com precisão, o instante em que ela parou. Não expliquei, não suavizei, nem dei espaço para que aquilo fosse interpretado como brincadeira. Rafaela franziu a testa, surpresa. — Andrew… Meu nome saiu da sua boca com hesitação. — Na cobertura. Você está sozinha naquele apartamento desde que Clara se casou, não está? Continuei, agora sustentando seu olhar, enquanto o vento trazia o cheiro salgado do mar. — Eu não quero mais te ver indo embora. Vem morar comigo. Levei a mão ao seu rosto, afastando alguns fios de cabelo que o vento insistia em bagunçar. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, me observando como se pesasse cada palavra que eu não disse. — Isso muda as coisas, Andrew — disse, virando-se para o mar. — Eu sei. Dei espaço. Não recuei, mas também não pressionei. — Vivemos em mundos completamente diferentes… eu… eu não sei. — Eu não me importo com isso, Rafaela. Eu nunca quis tanto estar com alguém como quero estar com você. Ela respirou fundo, e eu me aproximei, envolvendo-a por trás. — Casa comigo. As palavras saíram antes que eu pudesse filtrá-las. Rafaela virou o rosto imediatamente, surpresa — dessa vez sem conseguir disfarçar. — Andrew… — No civil — completei, firme. — Sem cerimônia, sem exposição. Só o necessário. Só nós dois. Dei um passo à frente, o suficiente para não deixar espaço para fuga fácil. — Eu não estou falando de um impulso. Estou falando de estar com você. De forma definitiva. Ela me olhou com mais intensidade. — Você está me pedindo em casamento como se estivesse propondo um contrato. — Eu estou te oferecendo estabilidade — respondi, sem desviar. — E algo que eu não ofereço a ninguém. Ela me encarou por alguns segundos, tentando alcançar o que eu não dizia em voz alta. — E o que você não está falando, Andrew? Segurei seu rosto com as duas mãos. — Que eu não quero te perder. Que eu quero acordar todos os dias ao seu lado. Que você não precisa mais voltar para aquele apartamento. O silêncio veio denso, carregado. Rafaela respirou fundo, os olhos presos nos meus. — Isso não é simples. — Eu sei. — E muda tudo. — Eu também sei. Ela sustentou meu olhar por mais alguns segundos… até que um sorriso começou a se formar. — Então vamos fazer valer. Foi a forma dela dizer sim. E eu entendi. Naquele instante, tive certeza de que estava prestes a dar o passo mais importante da minha vida. Era ela. Sempre foi. Com a lua como testemunha e o mar diante de nós, abracei Rafaela pela cintura e a girei no ar. — Eu te amo… — sussurrei contra seu rosto. — Como nunca amei ninguém.Edward havia me ensinado a amar aquela profissão, a compreender o valor de uma vida e a respeitar a responsabilidade que vinha com o poder de cuidar de alguém. Eu sempre procurei honrar esses ensinamentos, separando minhas emoções das decisões que precisava tomar no hospital.Mas nada daquilo me preparara para esperar notícias dele.Naquela noite, eu não era o médico responsável por uma equipe, o herdeiro de um império ou o homem a quem todos recorriam quando precisavam de respostas. Era apenas Andrew, o neto que não conseguia suportar a possibilidade de perder o homem que estivera ao seu lado durante toda a vida.Chorei como uma criança assustada, sem encontrar dentro de mim a segurança que tantas vezes oferecera aos outros.Rafaela se aproximou e passou os dedos pelos meus cabelos.— Andrew, meu amor... Edward é forte. Você sabe disso. Ele enfrentou tantas coisas ao longo da vida, e eu acredito que ainda temos muitos momentos para viver com ele.Afastei as mãos do rosto e olhei para
— Vamos aguardar notícias na minha sala. — Minha voz saiu rouca, e precisei limpar a garganta antes de continuar. — Não quero ficar aqui no corredor, muito menos em uma sala de espera.Rafaela assentiu e entrelaçou o braço ao meu enquanto meus pais nos acompanhavam até o elevador. Durante a subida, não pronunciei uma única palavra. Mantive os olhos fixos nos números que indicavam os andares, mas minha mente permanecia presa aquele terrível jantar, revivendo cada acontecimento na tentativa inútil de compreender como tudo havia chegado àquele ponto.Eu ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Era como se estivesse preso dentro de um pesadelo do qual não conseguia despertar, consciente de tudo ao meu redor, mas incapaz de aceitar a realidade.Conhecia aquele hospital como a palma da minha mão. Sabia quem estava de plantão, conhecia a capacidade da equipe e compreendia exatamente quais procedimentos precisavam ser realizados em emergências daquela magnitude. Já havia enfre
A ambulância parecia voar pelas ruas de Manhattan e, embora o trajeto tivesse durado poucos minutos, para mim, a viagem se estendeu por uma eternidade. Quando finalmente chegamos ao hospital, as portas da emergência já estavam abertas, e a equipe aguardava nossa chegada.Assim que as portas traseiras foram destravadas, saltei do veículo e acompanhei a retirada da maca. O carro da família parou logo atrás da ambulância, mas não tive tempo de olhar em sua direção. Toda a minha atenção estava voltada para o homem inconsciente que seguia diante de mim.Uma equipe médica já nos esperava na entrada.— Doutor Edward Collins, encontrado em parada cardíaca no domicílio, com fibrilação ventricular. Foram necessários dois choques, com retorno da circulação espontânea após a segunda desfibrilação — informou o médico responsável pelo transporte.— Levem-no para a emergência cardíaca. Quero monitorização contínua, eletrocardiograma de doze derivações e exames de sangue imediatamente — determinei, c
O som das sirenes se aproximava rapidamente e, em poucos segundos, as portas da mansão se abriram para permitir a entrada dos socorristas. Uma equipe médica entrou carregando o desfibrilador, as bolsas de emergência e os equipamentos necessários para dar continuidade ao atendimento.— Afastem-se, por favor! Precisamos de espaço! — ordenou um dos profissionais.Os funcionários, que até então permaneciam imóveis nas proximidades da sala de jantar, recuaram imediatamente. Alguns ainda pareciam incapazes de compreender o que estava acontecendo, enquanto outros observavam a cena com expressões de puro horror.Eu, porém, não conseguia me permitir olhar para mais ninguém. Minhas mãos continuavam sobre o tórax do meu avô, mantendo as compressões enquanto o desespero ameaçava tomar conta de mim.— Eu vou continuar. Não vou sair daqui — avisei ao médico que se aproximou, e ele apenas assentiu antes de orientar a equipe a assumir o atendimento.Os eletrodos foram colocados rapidamente sobre o pe
Naquela manhã não era diferente, tudo parecia perfeitamente normal.Pousei em Londres e fui direto para o hospital. A manhã passou rapidamente entre reuniões, decisões relacionadas à empresa e algumas questões que precisavam da minha atenção antes do retorno a Manhattan. À tarde, atendi três pacientes de alto risco e, no fim do dia, passei pela UTI neonatal para ver os bebês que eu havia ajudado a trazer ao mundo poucas horas antes.Era uma rotina que eu conhecia bem. Trabalho, responsabilidades, família. Minha vida parecia ter encontrado um equilíbrio entre todas aquelas coisas que, durante anos, pareciam impossíveis de conciliar.Quando deixei o hospital, a noite já havia tomado conta de Londres.Peguei o carro em direção à mansão sabendo que, na manhã seguinte, voltaríamos para Manhattan. Por isso, fiz questão de jantar com meus pais e meu avô. Aurora já estava com seis meses e fazia exatamente um ano desde o acidente que quase havia tirado minha vida. Havia motivos de sobra para c
E os dias seguiram e, com eles, a promessa de permanência em Manhattan revelou-se apenas uma ilusão passageira. Pelo menos, foi o que achei no início.Sendo o responsável por liderar as pesquisas e estar à frente da maior parte dos negócios da família, eu precisava manter minha presença constante do outro lado do oceano. Cortar os céus no interior de um jatinho, atravessando a imensidão do Atlântico rumo a Londres, tornou-se o ritmo natural dos nossos dias. Era uma rotina desgastante, é verdade — ainda mais com um bebê —, mas Rafaela fazia questão de estar ao meu lado em cada viagem. Com o tempo, a simples ideia de encarar aquelas altitudes sem a presença dela tornou-se algo impensável.Para equilibrar o ritmo cada vez mais acelerado, contratamos uma babá. Ainda assim, na maior parte do tempo, Rafaela mantinha Aurora firme em seus braços. Havia uma devoção bonita em seu gesto, como se ela ainda estivesse assimilando a magia de que a garotinha que carregara no ventre por nove meses era







