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Senhor Intocável

last update publish date: 2026-01-20 22:05:11

Assim que o dia amanheceu, fui para o trabalho e me dediquei ainda mais à investigação. Passei horas diante do computador, acessando bancos de dados, relatórios internos, registros que eu mesma já havia consultado antes. Mas, para minha surpresa, não havia nada. Era como se aquele homem não existisse.

Aquilo não era normal. Nem para alguém poderoso.

Pensei em pedir ajuda, mas depois dos últimos acontecimentos, não queria depender de ninguém, eu não sabia em quem eu realmente podia confiar.

Depois do expediente, voltei para casa, espalhei diversos papéis sobre a mesa, abri o notebook e comecei a montar estratégias.

Diferente de todos os outros, aquele homem não tinha rosto, não tinha história, não tinha família. Nada.

Voltei a examinar cada documento com atenção redobrada. Linhas que antes pareciam irrelevantes agora ganhavam outro peso. Cruzamentos mínimos, menções indiretas, decisões administrativas aparentemente banais. Aos poucos, a verdade começou a se desenhar diante de mim e percebi que as coisas eram piores do que eu pensava. Ele não era apenas mais um nome naquela lista extensa. Ele era a peça central. O eixo em torno do qual tudo girava.

Só havia uma explicação para tamanha ausência de informações: aquele homem era protegido. Não por um grupo pequeno ou por dinheiro apenas, mas por um sistema inteiro moldado para mantê-lo invisível.

A constatação me causou um desconforto físico. Meu estômago revirou. Até onde aquilo havia chegado? O jogo era muito mais sujo do que eu supunha. Ele era tão poderoso que a própria polícia, a instituição da qual eu fazia parte, ajudava a mantê-lo fora de alcance.

A pergunta martelava sem parar:

como encontrar alguém que o próprio sistema fazia questão de esconder?

Eu já havia lidado com casos difíceis antes. Pessoas perigosas, organizações estruturadas, homens que acreditavam estar acima da lei. Nenhum deles havia sido simples. Mas aquele era diferente.

Ainda assim, desistir nunca foi uma opção.

Ele era o último nome daquela lista. E eu o pegaria, custasse o que custasse.

Sentei-me à mesa mais uma vez. A xícara de café ao meu lado esfriou sem que eu percebesse. Recomecei a análise do zero, como se nunca tivesse visto aqueles dados antes. Eu sabia que estava deixando algo passar.

Esse impasse se arrastou por uma semana inteira. Dormi mal. Sonhei pouco. Passei dias inteiros repetindo os mesmos cruzamentos, refazendo caminhos e voltando ao ponto inicial. A frustração crescia a cada tentativa frustrada.

Até que, numa sexta-feira à noite, uma nova informação finalmente encaixou as peças do quebra-cabeça.

Havia uma multinacional, a maior do estado, envolvida em diversos setores estratégicos. À primeira vista, tudo parecia limpo demais. Organizado demais. Ao analisar com mais cuidado, percebi algo alarmante: todos os processos ligados àquela empresa eram automaticamente arquivados. Nenhuma investigação avançava. Tudo o que se aproximava dela simplesmente desaparecia, como se nunca tivesse existido.

O dono?

Era chamado apenas de CEO. Seu nome verdadeiro nunca aparecia em jornais ou revistas.

Todos os documentos eram assinados por terceiros, e aquilo me assustou. Quem realmente comandava tudo não tocava em nada.

Reuni todas as informações disponíveis sobre a multinacional e, em seguida, comecei a investigar os funcionários, um por um. Escutas autorizadas. Conversas aparentemente inocentes. Almoços prolongados. Sempre existe alguém que fala demais quando acredita estar seguro.

Eu precisava de qualquer coisa. Um erro. Um deslize. Qualquer coisa que me levasse até ele.

Duas semanas depois, finalmente encontrei.

Haveria um coquetel da empresa, restrito a investidores e convidados selecionados. Um evento fechado e o CEO estaria presente.

Não apenas isso , ele faria pessoalmente o discurso de lançamento de um novo produto.

Era tudo o que eu precisava saber.

Talvez o senhor intocável não fosse tão intocável assim.

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