INICIAR SESIÓNAlex Roux
Após a assinatura, o som da caneta ainda parecia ecoar na sala quando Helena conduziu Elisa para fora. A porta se fechou com um clique seco, definitivo demais para algo tão simples. Fiquei observando o espaço vazio onde ela estivera segundos antes. Era curioso como algumas presenças permaneciam mesmo depois da ausência.
— Garota interessante — Cézar comentou, encostando-se no sofá, o sorriso torto nos lábios. Havia algo de predatório naquele gesto, algo que eu conhecia desde a infância. — Vamos ver até quando ela aguenta.
Revirei os olhos, respirando fundo antes de me sentar na poltrona de couro atrás da mesa. O cheiro do whisky ainda pairava no ar, misturado a algo novo… inquietação, talvez. Cézar não tirava os olhos de mim. Aquele olhar eu conhecia bem. Era o mesmo de quando ele decidia ultrapassar limites apenas para provar que podia.
— Ficarei no quarto ao lado até que você termine com toda a delicadeza a primeira noite dela — disse, esfregando as mãos uma na outra, como se antecipasse algo inevitável. — Quando terminar, nós dois pegaremos ela juntos.
Permaneci em silêncio. Não por concordância, mas porque sabia que qualquer palavra naquele momento abriria uma discussão que não levaria a lugar algum. Meu irmão sempre foi assim: intenso, cruel quando queria, movido pelo caos. Eu, por outro lado, aprendia desde cedo a medir consequências.
— Você gosta de testar tudo como se fosse descartável — digo finalmente, servindo mais uma dose para mim. — Pessoas não são brinquedos, Cézar.
Ele riu. Uma risada baixa, quase divertida.
— Não seja hipócrita, Alex. Ela assinou. Sabia exatamente onde estava se metendo.
— Saber não é o mesmo que estar preparada — retruquei, encarando-o. — Existe uma diferença.
Cézar se levantou lentamente e caminhou até a janela, observando a cidade de Las Vegas se estender em luzes artificiais e promessas falsas.
— Você está mole — disse sem me olhar. — Paris te deixou sentimental demais.
— Ou talvez Las Vegas tenha te transformado em alguém que não sabe quando parar.
O silêncio que se seguiu foi denso. Perigoso. Cézar virou o rosto devagar, os olhos escuros fixos em mim.
— Não confunda controle com fraqueza — respondeu. — Nós somos Roux. Não salvamos ninguém. Usamos, vencemos e seguimos em frente.
Aquelas palavras me atingiram mais do que eu gostaria de admitir. Porque, no fundo, eu sabia que ele tinha razão. Nosso pai nos criou assim. Moldou-nos para não sentir, não hesitar, não amar. Ainda assim… algo naquela garota me incomodava.
— Ela não é como as outras — murmurei, mais para mim do que para ele.
— Nenhuma delas é — Cézar rebateu. — Até deixar de ser.
Ele saiu da sala sem esperar resposta, deixando para trás apenas o som dos próprios passos e a certeza de que aquela decisão já havia sido tomada muito antes da assinatura do contrato.
Fiquei sozinho.
A casa parecia maior quando Cézar não estava ali. Mais silenciosa. Caminhei até o bar novamente, mas dessa vez não servi bebida alguma. Minha mente estava longe demais para qualquer distração barata.
Elisa Martins.
O nome ecoava na minha cabeça com uma insistência irritante.
Ela não chorou. Não implorou. Não gritou. Apenas assinou, com mãos trêmulas e o olhar perdido em algum ponto invisível. Aquilo dizia muito. Pessoas desesperadas costumam ser barulhentas. Elisa era silenciosa demais para alguém à beira do colapso.
Subi as escadas devagar, cada degrau carregado de pensamentos que eu não deveria ter. O corredor estava iluminado apenas pelas luzes indiretas. Passei pelo quarto onde Cézar ficaria e segui adiante.
Antes de entrar, parei diante da porta.
Pela primeira vez em muito tempo, hesitei.
Não por medo.
Mas por consciência.
Girei a maçaneta.
Dentro do quarto, tudo estava em ordem demais. Elisa estava sentada à beira da cama, as mãos entrelaçadas no colo, postura rígida. Ela ergueu o olhar quando me viu, e por um segundo nossos olhos se encontraram. Não havia desafio ali. Nem submissão. Apenas… aceitação forçada.
— Você não precisa ter medo — digo, quebrando o silêncio.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Medo não é exatamente a palavra certa.
Fechei a porta atrás de mim.
— Você pode desistir — falei, mesmo sabendo que era mentira. — Ainda há tempo.
— Não — respondeu firme. — Não há.
Aquela certeza me atingiu em cheio.
Aproximei-me devagar, mantendo distância suficiente para que ela não se sentisse encurralada. Elisa respirava fundo, como quem tenta se manter de pé durante uma tempestade.
— Isso não vai ser do jeito que você imagina — digo, sério. — Mas eu prometo que não vou te quebrar.
Ela me encarou por longos segundos.
— Não sei se isso é um consolo… ou uma ameaça.
Não respondi.
Porque naquele instante, pela primeira vez em anos, eu não tinha certeza de nada.
E isso…
isso era perigoso demais para um Roux.
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Elisa Martins
Sair daquela sala foi como se tivesse arrancado algo de dentro do meu peito. O ar entrou ardendo, pesado, como se meus pulmões não estivessem acostumados à liberdade — se é que aquilo podia ser chamado assim. Minhas pernas tremiam, mas eu continuava andando, guiada por Helena como se fosse um objeto frágil prestes a se quebrar.
— Eu preciso pegar minhas coisas — digo, a voz falhando, quase um sussurro.
Ela nem diminuiu o passo.
— Não — respondeu seca. — Comprei tudo novo para você. Roupas, sapatos, itens pessoais. Você vai entrar aqui agora e vai se vestir.
Parei no meio do corredor, o coração disparando.
— Essa noite você terá sua primeira noite.
As palavras me acertaram como um tapa.
— O quê?! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, misturada ao desespero que eu já não conseguia conter.
Helena suspirou fundo, como quem já esperava aquela reação.
— Eu sei que você nunca teve ninguém, Elisa. Por isso pedi que sua primeira noite fosse o mais delicada possível. Depois disso, o contrato será oficialmente efetuado.
Delicada.
Aquela palavra ecoou na minha cabeça de um jeito cruel. Delicada não combinava com nada do que estava acontecendo. Não combinava com aquela casa, com aqueles homens, com o contrato que eu havia assinado com mãos trêmulas e alma em frangalhos.
Eu não consegui responder. Não consegui chorar. Não consegui gritar.
Estava em completo choque.
Helena abriu a porta de um quarto amplo, elegante demais para alguém como eu. Tudo ali parecia caro, pensado, planejado. A cama grande demais, as cortinas fechadas, o silêncio quase sufocante.
— Tome um banho — ela disse, apontando para a porta do banheiro. — Tente se acalmar. Eles não gostam de atraso.
Eles.
Como se fossem uma entidade única. Como se não fossem dois homens com nomes, rostos e olhares que já me assombravam mesmo de olhos fechados.
Entrei no banheiro com as pernas fracas. Assim que a porta se fechou, me apoiei na pia, encarando meu reflexo no espelho. Eu mal me reconhecia. Olhos fundos, pele pálida, expressão vazia.
— Isso não é real — murmurei para mim mesma. — Não pode ser real.
Mas era.
A água quente caiu sobre meu corpo, mas não trouxe conforto. Cada gota parecia me lembrar do que estava prestes a acontecer. Lembrei da minha mãe, do rosto cansado dela no hospital, das mãos magras segurando as minhas.
Faça o que for preciso, ela diria. Sobreviva.
Quando saí do banho, Helena já havia separado as roupas sobre a cama. Um vestido simples demais para o que aquela noite significava, mas íntimo demais para alguém que ainda se sentia uma estranha dentro do próprio corpo.
— Eles não querem fantasia agora — explicou. — Querem você como é.
Como se isso fosse algum tipo de misericórdia.
Vesti-me em silêncio. Cada movimento parecia definitivo, como se eu estivesse cruzando uma linha invisível da qual não havia retorno.
— Ele virá primeiro — Helena disse, antes de sair. — Alex.
A porta se fechou atrás dela, me deixando sozinha com o som do meu próprio coração.
Eu me sentei à beira da cama, as mãos entrelaçadas no colo, exatamente como ele havia encontrado momentos antes. A diferença era que agora eu sabia. Sabia que aquela porta se abriria novamente. Sabia que nada do que eu sentia importava.
Quando a maçaneta girou, meu corpo inteiro enrijeceu.
Alex entrou devagar, fechando a porta atrás de si. Ele parou a alguns passos de distância, como se avaliasse o ambiente… ou a mim.
— Você está tremendo — disse baixo.
— Eu sei — respondi, sem conseguir esconder.
Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos escuros.
— Elisa… — meu nome em sua boca soou diferente. Mais pesado. — Ninguém vai te forçar a nada que você não suporte, porém se não suportar, será substituída e perderá tudo.
Quis rir. Quis chorar.
— Eu já fui forçada no momento em que assinei aquele contrato.
Ele me encarou em silêncio. Havia algo nos olhos dele que eu não conseguia decifrar. Não era desejo explícito. Era conflito. Controle contido à força.
— Sente-se confortável — pediu, apontando para a cama. — Não precisa olhar para mim se não quiser.
Aquilo quase me quebrou.
Sentei-me mais para o centro da cama, as mãos apertando o tecido do vestido. O silêncio se estendeu entre nós, denso, carregado de tudo o que não estava sendo dito.
— Você pode me dizer para parar — ele disse. — Mesmo que o contrato diga o contrário.
Ergui o olhar lentamente.
— Você pararia?
Ele hesitou.
— Eu… — fechou os olhos por um segundo. — Eu tentaria.
Aquela resposta foi mais honesta do que eu esperava. E, estranhamente, mais assustadora.
Ele se aproximou, com movimentos calculados, como se cada passo fosse uma escolha consciente. Quando parou à minha frente, não me tocou de imediato. Apenas se ajoelhou, ficando na minha altura.
— Olhe para mim — pediu.
Eu obedeci.
— O que vai acontecer aqui não precisa te destruir — disse com firmeza. — Não hoje.
Engoli em seco.
— E amanhã?
Ele não respondeu.
Porque ambos sabíamos que aquela promessa não podia ser feita.
Quando sua mão tocou a minha, foi com cuidado demais para alguém como ele. Meu corpo reagiu instintivamente, o coração acelerando, a respiração falhando.
— Respire — ele disse. — Só respire.
E eu respirei.
Não porque confiava nele.
Mas porque precisava sobreviver.
Em algum lugar da casa, eu sabia, Cézar aguardava. Como um predador paciente, esperando a vez.
E naquele instante, compreendi uma verdade cruel:
O contrato não era apenas sobre o meu corpo.
Era sobre até onde eu conseguiria ir sem perder quem eu era.
E eu não sabia se estava pronta para descobrir.
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Devion SantoroO barulho daquela casa era uma das minhas coisas favoritas no mundo.Talvez porque durante muitos anos eu tive medo do silêncio.Silêncio lembrava ausência.Lembrava saudade.Lembrava morte.Mas naquela casa… nunca existia silêncio.Sempre tinha alguém falando alto.Alguém brigando.Alguém rindo.Alguém correndo.E naquela manhã não era diferente.— EU NÃO VOU SAIR ASSIM! — o grito de Anelise ecoou pela cozinha inteira.Revirei os olhos tomando café tranquilamente.— Você vai sim. — Alec respondeu sem nem levantar os olhos do jornal.— Meu cabelo tá horrível!— Seu cabelo tá exatamente igual ao de sempre. — Aurora rebateu passando frutas para Elisa.— Isso porque vocês não entendem nada!— Graças a Deus. — murmurei baixo.As duas me ouviram.Claro que ouviram.Anika imediatamente estreitou os olhos pra mim.— A culpa é sua!— Minha? — começo a rir. — Vocês estão surtando desde ontem!— Porque você está feliz demais com esse trote. — Anelise acusa apontando o dedo pra mi
Devion SantoroÓbvio que em todos esses anos da minha vida não houve um único momento em que eu não sentisse falta do meu pai.Nenhum.Às vezes era algo pequeno.Um vazio no peito quando eu via algum amigo sendo abraçado pelo pai na formatura.Outras vezes era algo brutal.Como nos meus aniversários.Ou quando consegui entrar na universidade.Ou quando fiz dezoito anos.Ou quando comecei a trabalhar oficialmente nos restaurantes da família.Porque em todos esses momentos… eu pensava nele.Pensava no quanto Rodrigo Santoro estaria orgulhoso.Mas mesmo sentindo falta dele, eu nunca me senti sozinho.Nunca.Aurora praticamente me criou junto com Alec.Elisa era a melhor mãe do mundo.Tina e Alice eram minhas tias malucas oficiais.Anika e Anelise eram minhas miniaturas infernais favoritas.E Alec…Bom, Alec nunca tentou ocupar o lugar do meu pai.E talvez justamente por isso tenha se tornado uma das pessoas mais importantes da minha vida.Ele me ensinou tudo.A dirigir.A administrar.A
Alec GordomaOs anos passaram rápido demais.Rápido ao ponto de às vezes eu acordar assustado no meio da madrugada, olhando para o teto e tentando entender em que momento minha vida saiu daquele caos absoluto para se transformar nisso aqui.Família.Amor.Casa cheia.Risadas.Vida.E mesmo assim... a saudade nunca foi embora.Ela apenas aprendeu a existir junto da felicidade.- Pai! PARA DE ANDAR! - Anelise grita do alto da escada. - Você vai amassar meu vestido!- Quem mandou vocês demorarem três horas pra se arrumar? - retruco, arrancando gargalhadas de Devion.Meu garoto estava escorado no batente da porta da sala usando um terno preto impecável. O cabelo escuro penteado para trás, os olhos idênticos aos de Rodrigo carregando aquele mesmo ar protetor e gentil.Às vezes aquilo ainda me assustava.O filho de Elisa era praticamente a reencarnação do pai.E eu sabia que ela pensava a mesma coisa, porque muitas vezes eu pegava minha sogra olhando para ele com os olhos marejados.- Você
Aurora GordomaA dor que se instalou no meu peito era tão devastadora. Eu não aguentava mais perder ninguém, por mais que eu nem soubesse que ele estava lá, agora sei e dói, dói absurdamente, algo foi arrancado de mim. E a dor é sufocante.Dois dias haviam se passado, e minhas meninas ainda estavam na UTI, e o velório do meu menino que não conhecemos, aconteceria nessa tarde. Demos o nome dele de Theo. E só de pensar que Anika e Anelise iriam crescer sem a terceira metade delas, isso me doía cada vez mais.Eu nunca imaginei que fosse possível amar alguém tão profundamente sem sequer ter visto seus olhos abertos. Nunca imaginei que alguém pudesse deixar uma marca tão profunda em mim sem nunca ter respirado fora do meu ventre.Mas Theo existiu.Ele existiu dentro de mim.Ele cresceu ali.Ele ouviu minha voz.Ouviu o coração do pai dele.Sentiu as irmãs ao lado.E agora… ele não estava mais aqui.O quarto do hospital parecia silencioso demais naquela manhã cinzenta. O cheiro forte de álc
Alec GordomaMinha mulher foi levada para a sala de cirurgia e, no instante em que aquelas portas se fecharam diante dos meus olhos, eu senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés.Cesárea de emergência.Essas palavras ecoavam dentro da minha cabeça como uma sentença cruel.Eu estava completamente fora de mim.As mãos tremiam.O coração batia tão forte que chegava a doer no peito.E o pior de tudo era a sensação de impotência. Eu podia enfrentar investidores, chefs arrogantes, criminosos, imprensa, o inferno inteiro se fosse preciso… mas não podia entrar naquela sala e tirar a dor da mulher que eu amava.Aurora estava sofrendo.E eu não podia fazer nada.Absolutamente nada.— Alec… respira. — Tina segurou meus ombros quando comecei a andar de um lado para o outro pelo corredor da maternidade.— Como que eu vou respirar, Tina? — passei as mãos pelos cabelos nervoso. — Ela tava com dor… ela tava desesperada…Minha voz falhou miseravelmente.Porque a imagem dela agarrada em
Aurora GordomaA dor veio como uma onda.Forte. Repentina. Cruel.Eu estava sentada no sofá da sala, tentando respirar normalmente enquanto organizava algumas roupinhas das meninas que Alice havia trazido lavadas e passadas no dia anterior. O ar-condicionado estava ligado, uma música baixa tocava ao fundo e, ainda assim, eu sentia calor.Muito calor.Meu corpo inteiro parecia pesado.As costas doíam.As pernas estavam inchadas.E minhas filhas pareciam decididas a fazer uma festa dentro da minha barriga.— Ai… — soltei baixinho, fechando os olhos ao sentir outra fisgada forte atravessar meu ventre.Instintivamente levei a mão até a barriga enorme.Respira, Aurora.Respira.A dor diminuiu por alguns segundos e eu consegui abrir os olhos novamente.Olhei para o relógio na parede.Onze e quinze.Alec já devia estar no restaurante em reunião.Suspirei fundo tentando relaxar.Mas então veio outra.Mais forte.Muito mais forte.— Ah! — arqueei o corpo automaticamente, apertando o tecido do







