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A primeira coisa que Kim Da-on descobriu naquela manhã foi que um encontro às cegas não ficava mais interessante só porque acontecia dentro de um café.
A segunda foi que homens desconhecidos ficavam ainda mais suspeitos quando chegavam cinco minutos antes do horário marcado, vestindo um terno escuro que provavelmente custava mais do que todas as mesas do Café Dajeong juntas.
Da-on observou o homem através do reflexo do vidro enquanto limpava a mesma xícara pela terceira vez.
Ele estava sentado à mesa sete, próxima à janela. Alto, elegante e completamente imóvel, parecia ter sido colocado ali por uma empresa de publicidade para vender relógios caros. O cabelo claro estava penteado de maneira impecável, embora algumas mechas caíssem sobre a testa. O rosto tinha traços definidos, olhos estreitos e uma expressão tão séria que fazia o croissant no prato parecer culpado de alguma coisa.
Da-on olhou para o relógio.
Oito horas e dois minutos.
O café ainda não estava oficialmente aberto.
— Então ele é o homem do encontro? — perguntou Min-ji, sua funcionária, baixinho.
— Aparentemente.
— Ele parece rico.
— Isso não é uma qualidade.
— Para o seu aluguel, talvez seja.
Da-on lançou um olhar para ela.
Min-ji imediatamente voltou a organizar os guardanapos.
O encontro às cegas, ou sogaeting, havia sido ideia de uma amiga que acreditava que Da-on trabalhava demais e sorria de menos. Na opinião da amiga, ambas as coisas poderiam ser corrigidas com um homem adequado.
Da-on não tinha entendido o que seria um homem adequado. Talvez alguém que soubesse preparar o próprio café. Talvez alguém que não confundisse gentileza com obrigação. Talvez alguém que não perguntasse, durante os primeiros cinco minutos, quanto ela ganhava por mês.
Ela havia aceitado apenas porque a amiga insistira durante três semanas.
Também deixara claro que não sairia do Café Dajeong.
— Se ele gostar de você, pode encontrá-lo depois do expediente — dissera a amiga.
Da-on achara aquela sugestão absurda. Se um homem gostasse dela, teria de aceitar que seu café fazia parte do pacote. O Dajeong não era apenas seu trabalho. Era o pequeno negócio que herdara do pai, o lugar que reformara com as próprias mãos e o único ambiente em Haedam onde conseguia respirar sem sentir que devia alguma coisa a alguém.
Por isso, naquela manhã, ela usava um vestido simples sob o avental terracota do café. Caso o encontro desse errado, poderia simplesmente voltar ao trabalho e fingir que nada acontecera.
O homem da mesa sete levantou-se quando ela se aproximou.
O movimento foi tão preciso que Da-on teve a impressão de estar diante de alguém prestes a iniciar uma reunião de acionistas.
Ele fez uma pequena reverência.
— Kim Da-on-ssi?
— Sim.
— Kang Keaton.
Ele estendeu a mão.
Da-on olhou para a mão dele, depois para a leiteira que segurava na sua.
— Desculpe. Estou trabalhando.
Keaton recolheu a mão sem demonstrar constrangimento.
— Entendo.
A voz dele era baixa e firme. Não havia nada de particularmente desagradável nela, mas também não havia calor. Soava como uma porta de elevador anunciando o décimo segundo andar.
— O senhor gostaria de pedir alguma coisa?
Keaton piscou.
— Alguma coisa?
— Café, chá, sobremesa. É para isso que as pessoas vêm a um café.
Ele olhou para a mesa, onde já havia uma pequena placa reservando o lugar.
— Fui informado de que deveria encontrá-la aqui.
— Está me encontrando.
— Você trabalha aqui?
Da-on inclinou a cabeça.
— Sim.
— Como barista?
— Também.
— Também?
A pergunta saiu tão rapidamente que ela estreitou os olhos.
— Há algum problema?
— Nenhum.
Keaton examinou o balcão, as prateleiras e as máquinas de café. Seu olhar era metódico, como se calculasse o valor de cada objeto.
Da-on teve certeza de que ele era algum tipo de inspetor.
Ou pior: um homem que pretendia abrir um café concorrente na mesma rua.
— Um americano — disse ele.
— Quente ou gelado?
— Quente.
— Açúcar?
— Não.
— Então um americano quente sem açúcar.
— Eu não disse que não gosto de açúcar.
— O senhor disse que não queria açúcar.
Keaton ficou em silêncio por um instante.
— É verdade.
Da-on anotou o pedido e se afastou.
Atrás do balcão, Min-ji se inclinou em sua direção.
— Ele está nervoso.
— Ele parece estar planejando comprar o prédio.
— Talvez seja o jeito dele de flertar.
— Se for, espero que venha com manual de instruções.
Da-on preparou o café e levou a xícara até a mesa sete. Keaton agradeceu com um aceno quase imperceptível. Ela esperou que ele dissesse alguma coisa sobre o encontro, mas o homem apenas bebeu o americano e olhou para o relógio.
— O senhor está com pressa?
— Não.
— Está olhando para o relógio.
— Tenho um compromisso depois.
— Então está com pressa.
— Não necessariamente.
Da-on puxou a cadeira em frente a ele e sentou-se por alguns segundos. Não porque estivesse interessada, mas porque sua perna começava a doer.
Keaton endireitou a postura.
— Você se senta aqui com todos os clientes?
— Só com aqueles que chegam antes da abertura e ocupam a mesa reservada para o meu encontro.
Pela primeira vez, algo mudou no rosto dele.
Não muito. Apenas um leve movimento nas sobrancelhas.
— Esta mesa foi reservada para o seu encontro?
— Foi.
— Eu também fui instruído a esperar alguém nesta mesa.
Da-on encarou o homem.
— Então nós dois estamos esperando a mesma pessoa?
— Parece que sim.
O silêncio que veio depois foi tão completo que o ruído da máquina de moagem, no fundo do café, pareceu um trovão.
Da-on olhou para o avental. Depois para o próprio vestido. Em seguida, voltou a olhar para Keaton.
— Espere. O senhor achou que eu era apenas a barista?
— Você disse que trabalhava aqui.
— Eu também disse que meu nome era Da-on.
— Muitos funcionários têm nomes.
Ela apertou os lábios.
— E o senhor achou que eu era o quê?
Keaton pareceu considerar a pergunta com seriedade.
— A pessoa que eu deveria encontrar.
Da-on apoiou o queixo na mão.
— Mas não tinha certeza?
— Você estava trabalhando.
— Porque este é o meu café.
Keaton olhou para ela.
Da-on percebeu o exato momento em que ele processou a frase, embora o rosto permanecesse quase impassível.
— Seu café?
— Meu.
— Você é a proprietária?
— Sou.
— E também barista?
— Também.
— E marcou um encontro às cegas no próprio estabelecimento?
— O senhor está fazendo muitas perguntas.
Keaton fechou a boca.
Da-on sentiu vontade de rir, mas conteve-se. O homem parecia sinceramente incapaz de decidir qual resposta seria adequada.
— O que exatamente o senhor esperava? — perguntou ela.
— Uma mulher chamada Kim Da-on.
— Essa sou eu.
— Uma pessoa que trabalhasse com café.
— Também sou eu.
— Alguém independente.
Da-on apontou para o balcão.
— O café é meu.
Keaton baixou os olhos por um instante. Talvez estivesse decepcionado. Talvez apenas estivesse tentando organizar as informações em alguma planilha mental.
— Então não houve engano — concluiu.
— Houve um pequeno engano.
— Qual?
— O senhor veio para um encontro. Eu vim trabalhar.
— Mas você aceitou o encontro.
— Aceitei. Não aceitei fechar o café por sua causa.
Keaton segurou a xícara com as duas mãos.
— Eu não pedi que fechasse.
— Ainda.
Mais uma vez, ele ficou em silêncio.
Da-on começou a pensar que aquele homem talvez fosse incapaz de conversar. Era bonito, sim. Extremamente bonito, na verdade. Mas possuía a espontaneidade de uma parede recém-pintada.
— O que o senhor faz, Kang-ssi?
— Trabalho em uma empresa.
— Qual empresa?
— Kang Group.
Da-on aguardou.
Keaton aguardou também.
— E isso deveria significar alguma coisa para mim?
— É uma empresa conhecida.
— Há muitas empresas conhecidas.
— A Kang Group é uma das maiores de Haedam.
— Parabéns para a Kang Group.
Ele franziu levemente a testa.
— Você não sabe quem eu sou?
— Deveria saber?
Keaton pareceu genuinamente desconcertado.
Da-on quase sentiu pena.
Quase.
— Não se preocupe — acrescentou ela. — Eu também não sou famosa.
— Eu não estava preocupado.
— Está olhando para o relógio outra vez.
Keaton imediatamente abaixou o pulso.
Da-on levantou-se quando ouviu a porta se abrir. Dois clientes entraram, cumprimentando-a com uma reverência educada.
— Bom dia, Da-on-ssi.
— Bom dia. Podem escolher qualquer mesa.
Ela voltou ao balcão, deixando Keaton sozinho.
Durante os vinte minutos seguintes, ele observou o funcionamento do café. Viu Da-on receber pedidos, corrigir a regulagem do moedor, sorrir para uma criança e repreender Min-ji por deixar uma colher fora do lugar.
Era difícil compreender como alguém podia parecer tão tranquila enquanto fazia tantas coisas ao mesmo tempo.
Quando o café ficou cheio, Keaton se levantou.
Da-on aproximou-se com a máquina de pagamento.
— Vai embora?
— Tenho uma reunião.
— Entendo.
— O encontro também terminou?
Ela olhou para ele.
— O senhor considera que isso foi um encontro?
Keaton permaneceu em silêncio por tempo demais.
Da-on suspirou.
— Kang-ssi, nós conversamos por vinte minutos. O senhor me fez perguntas como se estivesse avaliando uma candidata a emprego, eu preparei seu café e depois voltei ao trabalho.
— O café estava bom.
— Obrigada.
— Muito bom.
— Fico feliz.
— Eu gostaria de voltar.
Da-on ergueu as sobrancelhas.
— Para outro encontro?
— Para o café.
Ela passou o cartão para ele.
— Então pode voltar como cliente. É mais simples.
Keaton pegou o cartão e observou o recibo. O nome impresso nele dizia apenas Kang Keaton. Para Da-on, aquilo não significava nada além de um nome incomum e uma assinatura bonita.
Ele fez uma reverência curta.
— Kim Da-on-ssi.
— Sim?
— Amanhã o café abre às oito?
— Abre.
— Estarei aqui.
— Não precisa anunciar.
— Eu não estava anunciando.
— Pareceu.
Keaton saiu antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
Do outro lado da rua, ele parou diante da fachada do Café Dajeong e olhou para a xícara vazia em sua mão.
O encontro às cegas havia sido inconveniente, improdutivo e completamente diferente do que sua avó prometera.
Ainda assim, o café era excelente.
E Kim Da-on não o reconhecera.
Pela primeira vez em muito tempo, Kang Keaton sentiu curiosidade por alguma coisa que não podia ser resolvida com dinheiro, influência ou uma pesquisa rápida na internet.
Dentro do café, Da-on colocou a placa de “aberto” na porta.
— Espero não vê-lo amanhã — murmurou.
Na manhã seguinte, às sete e cinquenta e oito, Kang Keaton entrou no Café Dajeong.
Da-on ainda não sabia, mas acabara de ganhar seu cliente mais fiel.
A primeira coisa que Da-on fez na manhã seguinte foi procurar a Mirae Distribution.O site da empresa era elegante, moderno e quase vazio.Havia fotografias de sacas de café, frases sobre excelência e uma lista de hotéis parceiros. Não havia endereço completo, nomes de responsáveis ou informações sobre a origem dos produtos.Da-on rolou a página até o fim.— Isso não é um site — disse Min-ji.— O que é?— Um cartão de visitas com medo de ser interrogado.Da-on abriu a página de contato.— Há apenas um número de telefone e um formulário.— Você vai ligar?— Vou pedir documentos.— Eles vão enviar fotografias de grãos em uma plantação qualquer.— Então pedirei certificados, registros de importação, condições de armazenamento e referências comerciais.Min-ji apoiou-se no balcão.— Você sabe que a maioria das pessoas simplesmente compra o café, prova e decide?— A maioria das pessoas não recebeu uma proposta com uma empresa desconhecida anexada ao contrato.— Isso é verdade.Da-on enviou
Na manhã seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong antes de Da-on.Min-ji o encontrou sentado na mesa sete, com dois documentos impressos, uma xícara de café e uma expressão que fazia o ambiente parecer mais sério do que realmente era.— O presidente veio trabalhar? — perguntou ela.— Vim esperar.— Isso costuma ser feito em silêncio.— Estou em silêncio.— Está encarando os papéis como se eles tivessem cometido um crime.Keaton olhou para as folhas.— Ainda não sei.Min-ji ficou parada.— O quê?— Se cometeram um crime.— São documentos.— Documentos podem esconder coisas.— Eles também podem apenas estar mal escritos.— É uma possibilidade.— Você tomou café?— Dois.— Então talvez esteja vendo conspirações porque exagerou na cafeína.Keaton olhou para a xícara vazia.— Da-on está chegando?— Está. Mas, se você pretende recebê-la com essa expressão, recomendo que esconda os papéis.— Por quê?— Ela detesta quando você parece prestes a comprar uma empresa.Keaton guardou os documentos
Keaton chegou ao Café Dajeong quinze minutos depois de receber o e-mail.Entrou pela porta da frente, mas não foi até a mesa sete. Caminhou diretamente até o balcão, onde Da-on estava com o documento aberto no computador.— Você veio rápido — disse ela.— Eu estava na torre.— Então veio rápido demais.— Hyun-woo estava no carro.— Isso explica.Keaton tirou o paletó e colocou-o sobre uma cadeira.— Posso ver?Da-on virou o monitor em sua direção.A proposta ocupava oito páginas. Havia informações sobre o novo hotel da Kang Group, estimativas de consumo, prazos de fornecimento e condições de pagamento.Na última página, a frase sobre a “relação de confiança com a família Kang” aparecia destacada.Keaton leu em silêncio.— Isso não deveria estar aqui.— Eu sei.— A contratação deveria ser baseada em capacidade, preço e qualidade.— E não na minha relação com você.— Exatamente.— Foi Tae-jun quem escreveu?— O nome dele aparece como responsável.— Isso não significa que ele tenha escri
A avó de Keaton convidou Da-on para almoçar no domingo.O convite chegou por meio de uma mensagem curta.Venha tomar café. Minha filha está preparando comida demais.Da-on mostrou a mensagem a Keaton.— Sua avó está me convidando ou tentando evitar sobras?— As duas coisas podem ser verdade.— Quem estará lá?— Minha mãe, minha avó e alguns parentes.— “Alguns” significa quantos?— Não sei.— Como você não sabe quantas pessoas da sua própria família estarão no almoço?— Eu nunca contei.— Você cresceu naquela casa.— Eu contava os talheres, não as pessoas.Da-on suspirou.— Vou levar alguma coisa.— Minha avó disse que você não precisava.— Eu sei.— Então por que vai levar?— Porque não consigo chegar à casa de alguém com as mãos vazias.— Você pode levar o café.— Isso é previsível.— Ela gosta.— Vou levar café e alguma coisa para comer.— Minha mãe vai interpretar isso como uma formalidade.— É uma formalidade.— Minha avó vai interpretar como carinho.— Também é carinho.Keaton o
A ligação da Fundação Kang chegou numa terça-feira de manhã.Da-on estava conferindo uma entrega de leite quando o telefone tocou.— Café Dajeong, bom dia.— Senhorita Kim? Aqui é a diretora Han, da Fundação Kang.— Bom dia.— Gostaríamos de solicitar um serviço para uma reunião da Kang Group na próxima semana.Da-on pegou um bloco.— Quantas pessoas?— Vinte e quatro.— Horário?— Oito da manhã.— Local?— Torre Kang, décimo nono andar.— Precisam de atendimento no local?— Apenas entrega e montagem da mesa de café.— Quantos itens?A diretora começou a responder.Da-on anotou tudo, fez perguntas sobre equipamentos, restrições alimentares e horário de desmontagem. Ao final, enviou uma proposta formal.A resposta chegou no mesmo dia.Aprovada.Keaton soube do contrato por uma mensagem de Da-on.Vou trabalhar na Torre Kang na terça-feira.Ele respondeu quase imediatamente.Eu posso cancelar a reunião da manhã.Não.Posso mudar a sala.Também não.Posso pedir que ninguém incomode você.
No domingo seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong às nove da manhã.Dessa vez, não mandou mensagem avisando que estava a caminho.Também não enviou uma lista, um roteiro ou uma pergunta sobre o trânsito.Apenas entrou pela porta e colocou sobre o balcão uma pequena sacola de papel.Da-on olhou para a sacola.— Você trouxe um presente?— Não.— Com essa resposta, provavelmente trouxe.— É apenas uma coisa.— As coisas que você chama de “apenas uma coisa” costumam vir em caixas com certificados.Keaton abriu a sacola.Dentro havia dois sanduíches embalados e uma garrafa de suco.Da-on examinou os pacotes.— Você comprou café da manhã.— Sim.— Para nós dois?— Sim.— Você perguntou se eu queria?— Não.— Então é um presente.Keaton pareceu considerar.— É um café da manhã não solicitado.— Isso é ainda pior.Ele colocou os sanduíches sobre o balcão.— Escolhi o mesmo lugar da semana passada.— Por quê?— Você disse que as batatas estavam boas.— Eu disse que a batata era uma batata.—